Ei, gatinho
3 De Stalker à Alguém Suportável… As Vezes
Notas iniciais
Então, como vocês devem imaginar, Naruto ia periodicamente jantar no Porto do Káli, sempre jogando com seu garçom, que por sua vez, as vezes "correspondia" o loiro, outras vezes — quando não tinha mais paciência para lidar com a situação — fingia que nem lembrava da existência deste. Não que isso tenha diminuído o entusiasmo do Uzumaki — não, isso jamais — entretanto, vira e mexe, Naruto se perguntava se estava lutando uma batalha perdida, mas era só bater novamente seus olhos em Sasuke e ele sabia que valia a pena. O moreno valia todo o seu esforço e mais um pouco. Com o passar do tempo, Naruto percebeu que ficava mais e mais ansioso para as noites “perdidas” no restaurante onde finalmente podia ver seu garçom favorito e quando compreendeu o caminho que sua "obsessão" tomava, ele se assustou. Sasuke não lhe dava abertura, ele mal falava de si próprio. O pouco que Naruto descobriu foi tudo devido a ajuda dos outros funcionários do restaurante, pois estes adoravam assistir o visível desgosto de seu colega de trabalho sempre que o "loiro abusado" aparecia. Não seria possível que o Uzumaki estivesse se apaixonando, seria? Na verdade não seria surpresa nenhuma e Naruto sabia disso. O problema era que provavelmente ele estava se apaixonando por uma fantasia, já que o verdadeiro Sasuke não dava uma brecha sequer para que eles pudessem enfim se conhecer e se aproximar.
Do outro lado, o jovem garçom começava a se sentir cansado. O Uzumaki não era o stalker maluco que ele achava e logo quando Temari contou que Naruto era psicólogo, além de ser sócio de Shikamaru, o namorado da moça, essa teoria caiu por terra. E sendo bem sincero, o loiro era um cavalheiro, nunca havia ultrapassado os limites que foram implicitamente impostos naquela paquera louca. Naruto era verdadeiro em toda sua forma de expressão: ele queria conhecer, desvendar Sasuke. O problema? O moreno não era acostumado a deixar as pessoas se aproximarem, um hábito apreendido com o decorrer da construção de sua identidade, ou seja, descartem de suas mentes insanas que essa característica do nosso protagonista se deu por causa de algum trauma, porque não foi. Sasuke era simplesmente assim: difícil por natureza.
As vezes ele se pegava pensando em ajudar o outro, mas depois que parava para analisar direito, ele chegava a conclusão que não ganharia nada com isso, haja visto que ele não tinha interesse em Naruto. Claro que ele achava o loiro atraente, — e olha que era muito raro Sasuke achar alguém atraente! — mas e daí? O que isso queria dizer? Nada. Pelo menos do ponto de vista do Uchiha.
Espero que com essa breve explanação vocês tenham entendido a dinâmica de nossos protagonistas, caso não, só posso lamentar, porque não vou repetir tudo de novo. Prosseguindo.
Então, sabendo como é o Porto do Káli, não preciso ambientar vocês, só vou ressaltar que hoje é uma quinta-feira e são 9:30 da noite. Naruto passou pela porta principal do restaurante e viu uma cena corriqueira: Kiba se inclinava sobre o balcão da recepção para falar com Hinata, a recepcionista que ele chama de “a garota de meus sonhos”. Para quem via de fora, achava que a moça gostava de se fazer de difícil, mas novamente não se enganem com a aparência. A jovem Hyuuga era uma funcionária exemplar e não gostava de misturar sua vida pessoal com a profissional, por isso, além da timidez típica dela, ela não dava muitas chances para o moreno a sua frente.
Naruto achava a cena bonitinha e ele sabia que seu caso não era tão parecido com o de Kiba, pois o garçom pelo menos, com paciência, já havia conseguido levar a moça para sair algumas vezes e aparentemente eles rumavam para um namoro inocente. Hinata viu o loiro se aproximar e com uma mão firme conseguiu afastar Kiba de si. O rapaz se virou, curioso para saber quem os interrompia.
— Ah, Naruto! É você! — não estranhem a intimidade. Esses dois são dados assim mesmo.
— Kiba, você está deixando a moça sem graça. — Naruto fingiu que repreendia o outro rapaz, que por sua vez acabou rindo baixinho.
— Não tenho culpa se ela fica uma gracinha com o rosto vermelho. — Kiba confidenciou, sabendo que se falasse alto a garota provavelmente ficaria mais envergonhada ainda.
— O que vai ser hoje, Naruto-kun? — Hinata perguntou, num tom amigável. — Achei que não viria hoje.
— Não ia vim mesmo, mas algo me dizia que eu precisava vim. — o loiro deu de ombros, sorrindo para o casal. — Cadê ele? — perguntou, levemente ansioso.
— Intervalo. — Kiba acenou com a cabeça para a cozinha. — Sasuke está gripado e teimoso como só ele, veio doente mesmo.
A jovem Hyuuga olhou para os lados, numa postura tímida e segredou:
— Ele parecia estar quase dormindo em pé. — ela suspirou. — Iruka até disse que Sasuke podia ir embora quando quisesse, mas ele não quis.
Não sei se vocês sabem, mas Iruka é o dono do restaurante e geralmente ele pode ser encontrado na cozinha. Ele gosta de ajudar lá. Um exemplo de empreendedor, não? Pois é.
Naruto olhou para os funcionários e arqueou uma sobrancelha.
— Eu nunca conheci alguém tão ou até mais teimoso que eu. — suspirou. — Você tem papel, Hinata? — o loiro perguntou, arregaçando as mangas de sua camisa.
A jovem assentiu e com um sorriso no rosto, entregou uma caneta e um pedaço de papel a Naruto. Ele pôs-se a rabiscar a folha por alguns instantes e a estendeu para Kiba.
— Pode entregar isso a Sasuke, por favor? — perguntou educadamente.
Kiba fitou Hinata ligeiramente, pegou o papel que lhe era oferecido e com um sorriso esperto nos lábios dirigiu-se até a cozinha, onde sumiu após a porta do lugar se fechar.
Na área de convivência dos funcionários, que ficava atrás da cozinha, Sasuke estava sentado em uma cadeira escorada na parede, com a cabeça descansando nesta. Seus olhos estavam fechados e sua respiração saia com um chiado, ao ver dele, irritante.
— Uchiha! — chamou Kiba.
— Hn. — Sasuke resmungou, num tom cansado, como forma de indicar que estava ouvindo.
— Correspondência. — o outro riu baixinho, entregando o pedaço de papel assim que o garçom adoentado abriu os olhos negros. — Ele está na recepção. — disse e depois saiu, ainda rindo.
Sasuke fitou a folha por um tempo, com a mente em branco. Ele estava tão, tão cansado, que nem se deu o luxo de ficar incomodado com mais um pouco do que parecia ser sua atual rotina. Com movimentos lentos e preguiçosos, ele desdobrou o papel e pôs-se a ler.
“Ei, gatinho
... me diga, você vem comigo?
Posso te levar para casa?
Estou pedindo demais?”¹
Casa… Sasuke fechou novamente os olhos, imaginando sua cama e seu cobertor quentinho. Ele era teimoso, assim como Naruto havia frisado, mas até as pessoas teimosas tem limites, certo? E Sasuke estava muito cansado mesmo. Seu corpo estava mole e o remédio que ele havia tomado o deixava com muito sono. Iruka até já o tinha liberado. “O que eu tenho a perder?”. Exatamente, meus caros. Nada. E foi com essa certeza que o moreno levantou-se da cadeira e foi até seu armário, se aprontar para ir para casa. Pegou suas coisas, vestiu o casaco de moletom e foi se despedir do patrão e dos colegas de trabalho.
Iruka demonstrou preocupação com a volta do garçom para casa — normalmente Sasuke utilizava o metrô — e até se ofereceu para levá-lo para casa, mas o moreno disse que já tinha carona. O mais velho assentiu e ainda liberou o Uchiha do dia seguinte de trabalho, caso não se sentisse bem depois de descansar. Sasuke sorriu, verdadeiramente agradecido e foi-se ao encontro do “loiro não mais tão abusado”.
Naruto o viu assim que ele atravessou a porta da cozinha e não tirou seus olhos do moreno nem por um segundo. Não comecem a fantasiar que o loiro tinha um olhar apaixonado no rosto, por favor, porque isso é ridículo até mesmo para Naruto, o seu semblante refletia a visível preocupação que ele sentia por ver o aspecto de fadiga em Sasuke. Aspecto esse que ficou em evidência quando o garçom parou na sua frente.
— Não acredito que você veio trabalhar nessas condições… — Naruto comentou, boquiaberto.
— O que posso dizer? Achei que não estava tão mal assim. — Sasuke deu de ombros.
O loiro suspirou, virou-se para Hinata, que só observava-os com um sorriso pequeno no rosto, e se despediu. A morena desejou melhoras para o colega de trabalho e riu baixinho quando viu Naruto puxar Sasuke porta afora, praticamente o arrastando.
O jovem Uchiha arfou e grunhiu de irritação, mas sua expressão mudou assim que eles pararam em frente a uma moto, mais especificamente uma Honda CBF 125 M, como Naruto comentaria numa conversa qualquer futuramente. Sasuke estava surpreso. Ele esperava que o loiro, que andava por aí sempre bem arrumado, dirigisse um carro esportivo ou coisa assim. O que pode-se fazer? Até Uchiha Sasuke se deixa levar pelos estereótipos as vezes.
— Naruto, isso não vai dar certo… — o moreno começou, olhando com desconfiança para o meio de transporte, mas foi prontamente interrompido.
— Sasuke, seja racional, você não está em posição de poder reclamar.
O rapaz puxou delicadamente seu pulso do agarre do loiro e apertou seus olhos, suspirando.
— Eu estou sendo racional. — falou, num tom cansado. — Você já viu a altura desse banco? — olhou penosamente para o assento elevado da moto. — Eu mal me aguento de pé. Como acha que vou me manter firme ou até mesmo acordado durante a viagem?
Naruto sorriu gentilmente, pegou um dos capacetes apoiado no espelho retrovisor e entregou a Sasuke, que mesmo hesitando, pegou o objeto.
— Você segura em mim. Eu vou devagar e qualquer coisa posso parar. — o loiro subiu na moto e voltou a olhar para o outro. — Vamos, Sasuke. Eu estou preocupado com você e não vou sossegar enquanto não te ver em casa.
Sasuke estalou a língua e pôs o capacete na cabeça antes de subir na moto também. Naruto colocou o dele e girou a chave na ignição, sentindo em seguida os braços do moreno abraçarem seu torso. E por um brevísimo momento se deixou sorrir como bobo, fascinado demais com o calor do corpo do seu garçom.
— Vamos logo, Usuratonkachi. — resmungou o jovem Uchiha, num tom emburrado. — O tempo está esfriando.
— Ou você está com febre. — Naruto respondeu, antes de finalmente acelerar a moto, tirando-os do lugar.
Sasuke explicou o caminho e como prometido, o loiro dirigiu devagar e com cuidado. A viagem durou cerca de vinte minutos, sendo mais rápida por causa do tráfego que era menor naquele horário da noite. Naruto estacionou o veículo em frente aos degraus que ficavam entre dois corrimãos pretos de ferro, cujo caminho levavam até a porta de entrada da casa de Sasuke.
O moreno desceu da moto cuidadosamente, tirou o capacete e devolveu a Naruto.
— Obrigado pela carona. — falou, num tom pastoso e de repente, cobriu a boca com as mãos e espirrou.
— Seu irmão está em casa? — o loiro perguntou, preocupado.
— Como você… — daí Sasuke lembrou que os colegas de trabalho adoravam o contrariar e provavelmente contaram a Naruto que ele morava com Itachi. — Ele deve chegar em breve.
— Posso entrar? — Naruto perguntou, já descendo da moto e tirando o capacete, passando a mão nos cabelos em seguida. — Juro que só quero saber se você está bem. Seu rosto está ficando vermelho...
Vou ser sincero com vocês: numa situação normal Sasuke já teria batido a porta na cara alheia, mas ele sentia que seu corpo estava esquentando mais e mais, sem falar na moleza que o deixava fraco e com sono. E foi com essa constatação que ele apenas assentiu e se arrastou casa adentro. Ele nem se deu o luxo de dizer algo a Naruto, só foi direto para o seu quarto e caiu na cama. O loiro o seguiu, parando apenas para depositar os capacetes no sofá da sala.
— Você tem termômetro? — Naruto perguntou, assim que se sentou na cama, ao lado do moreno, e pôs as costas da mão no pescoço alheio. Sasuke estava realmente muito quente.
— Armário do banheiro social. Fim do corredor. — respondeu o outro, fechando os olhos.
Naruto se levantou e foi até o local indicado. No armário tinha uma caixinha de primeiro socorros, onde o loiro encontrou o termômetro e um comprimido antitérmico. Sendo um pouco ousado, ele foi até a cozinha, pegou um copo com água e voltou para o quarto de Sasuke. O moreno respirava com dificuldade e parecia prestes a dormir.
— Não durma ainda, Sasuke. — Naruto avisou, passando a mão na testa alheia para tirar os cabelos dali.
O jovem Uchiha resmungou, manhoso, antes de abrir os olhos. Naruto colocou mais um travesseiro debaixo da cabeça do moreno e mostrou o termômetro.
— Você vai ter que abrir a blusa.
Sasuke fez uma careta de desagrado e fez o que lhe foi indicado. Pegou o objeto das mãos de Naruto e colocou-o debaixo do braço, estremecendo em seguida por causa do contato frio da ponta metálica. Esperaram o objeto apitar e checaram a temperatura. Como já se imaginava: Sasuke estava com febre.
Naruto deixou o termômetro em cima do criado mudo que tinha ao lado da cama e entregou ao moreno o comprimido e o copo d’água. Sasuke estava num estado que nem parou para questionamentos, simplesmente tomou o remédio.
— Você devia tomar um banho de água fria. — o loiro aconselhou, pegando o copo que lhe era devolvido e o deixando também no criado mudo.
— Não… — Sasuke gemeu, puxando o edredom e se enrolando.
Naruto suspirou e sorriu. Ele tinha que admitir: estava adorando cuidar daquele garçom rabugento. Voltou a se sentar na cama, pois era fato que Sasuke ficava mais acessível quando doente e isso não podia se deixar passar.
— Tudo bem, gatinho. — Naruto começou a fazer cafuné na cabeça alheia e Sasuke praticamente ronronou, fazendo o loiro rir da coincidência. — Pode dormir.
E foi o que o jovem Uchiha fez. Dormiu embalado pelas carícias do “seu herói”. Acordou somente no dia seguinte e tenho que dizer a vocês: não foi surpresa nenhuma encontrar um bilhete repousado em cima do criado mudo. Na verdade este já era esperado.
“Ei, gatinho
Sou louco por querer você?
Baby, você pensa em me querer também?
Não quero desperdiçar seu tempo…”²
Sasuke voltou a fechar os olhos por um momento e sorriu. Naruto havia cuidado de si e ainda estava dando a ele a escolha de continuar a ser cortejado ou não. Vamos falar a verdade agora, quem não gosta de ser paquerado? O ego cresce não é? Pois é, Sasuke é tão humano quanto vocês. Óbvio que ele não ia dar um fora no “loiro não mais abusado”. Só resta saber onde que tudo isso vai dar.
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