Efêmero
1 Prólogo: O Encontro
Notas iniciais
Prólogo: O Encontro
Escrito por: Wenky (Andréia)
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Era uma noite fria de Dezembro, as ruas estavam todas cobertas por uma camada espessa de neve e a noite já havia caído há algum tempo garantindo a qualquer um que decidisse andar por ali uma caminhada completamente solitária.
Para Hermione Granger, contudo, solidão era sinônimo de segurança. Em tempos como aquele, onde era válido desconfiar até mesmo da própria sombra, toda cautela era pouca. E não era como se ela já não fosse cautelosa o bastante com qualquer coisa que fizesse antes mesmo de tudo aquilo vir à tona.
Com o desaparecimento de Harry, pessoas como ela, que costumavam a ser próximas ao rapaz, eram bastante visadas pelos seguidores de Voldemort que, àquela altura, se encontravam em um número cada vez maior e, para seu horror, esse número crescia exponencialmente. Eles estavam por toda parte. E, como se não bastasse, ela ainda era uma sangue-ruim, o que, por sua vez, tornava as coisas ainda piores.
Hermione bem sabia que a situação da Ordem, a organização que um dia apresentou algum tipo de ameaça ao sistema, estava bastante precária. Eles haviam sofrido inúmeras perdas durante a Batalha de Hogwarts e elas não haviam parado por ali.
Além disso, encontrar novos adeptos era uma tarefa bastante difícil na situação em que se encontravam. Não havia em quem confiar, confiar em alguém num mundo como aquele era uma atitude extremamente insensata e poderia se transformar num perfeito passaporte para a morte.
A maior parte do mundo bruxo havia se rendido à Lorde Voldemort e os que de alguma forma não concordavam com ele, estavam muito assustados para se manifestar. E, além disso, o mundo dos trouxas estava completamente devastado.
Tragédias aconteciam por toda parte, sem que houvesse uma explicação coerente para aqueles que não tinham conhecimento sobre magia. As pessoas apenas morriam, sem ao menos saber do verdadeiro motivo que tornava suas existências descartáveis. Viviam suas vidas sem a consciência de que estavam caminhando para a morte tal como os que animais caminham para o abate.
Mas como ela poderia esperar que fosse diferente? O garoto que um dia foi a maior fonte de esperança para todos ao sobreviver a um ataque do bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos e deixa-lo incapacitado por anos agora estava morto. Supostamente morto, sua mente a corrigiu rapidamente. Mas não fazia diferença de qualquer forma, ela era uma das poucas pessoas que sabia da verdade. E eles estavam quebrados, no fim das contas.
Tão quebrados que aceitar uma estranha proposta de Draco Malfoy para uma conversa lhes pareceu viável. Hermione, no entanto, ao fazer seu caminho solitário para o local onde eles haviam combinado de se encontrar, já começava a colecionar arrependimentos. Poderia muito bem ser uma armadilha, na realidade, havia grande chances de que de fato fosse uma armadilha. Por que ele os ajudaria, afinal? Não era aquele tipo de coisa o que ele sempre quis?
Draco nunca foi uma pessoa confiável e, muito embora, ele devesse a ela e a Harry por terem salvo sua vida do incêndio na Sala Precisa em Hogwarts pelo o qual ele foi parcialmente responsável, Hermione bem conhecia os preconceitos do rapaz e sua mania de superioridade. Além dele sempre ter deixado bem claro o quanto desprezava tanto a ela quanto a Harry.
A decisão de se encontrar com Draco naquela noite, porém, havia sido tomada com muita cautela e, por fim, todos concordaram que ela seria a pessoa mais indicada para o trabalho. Afinal, suas habilidades como bruxa eram inquestionáveis. E, se tinha alguém que não poderia saber a verdade sobre Harry, esse alguém certamente era Draco Malfoy, de forma que o primeiro não poderia arriscar um encontro no lugar dela.
Hermione decidiu levar a capa da invisibilidade de Harry para caso ela precisasse aparatar sem chamar atenção. E, além disso, levara também consigo um frasco de poção polissuco contendo um pouco mais da dose que já tomara antes de sair da casa de Fleur e Bill e aparatar naquela pequena ruela escura e coberta de neve.
Toda precaução é pouca, lembrou a si mesma. E, no fim das contas, ela tinha a mesma aparência da trouxa de quem conseguira um fio de cabelo há um tempo atrás. Estava loira, um pouco mais alta, os cabelos lisos na altura do ombro e aparentava ser pelo menos vinte anos mais velha do que realmente era.
Draco não poderia ter escolhido um lugar pior para o encontro, ela concluiu num suspiro pesaroso. O pequeno bar tinha um aspecto visual completamente deprimente, mas ela também deveria admitir que as chances dos dois serem achados ali eram bastante reduzidas.
Hermione, por sua vez, não havia parado para considerar até então que, caso aquilo não fosse uma armadilha, ele também estaria se arriscando.
Mas será que não era mesmo uma armadilha, afinal? Ela suspirou e deu de ombros para si mesma. Só havia um jeito de descobrir, de maneira que apertou sua varinha debaixo das vestes contra si como medida de segurança e adentrou o pequeno estabelecimento.
Tal como havia previsto, a iluminação era bastante precária, a luz fraca formava penumbras por todo lado que se misturavam com a fumaça de cigarros exalada pelos poucos clientes que se encontravam ali embaçando ainda mais visão.
Hermione não podia usar magia ali de forma que teve que se esforçar para enxergar a pequena mesa no canto esquerdo do local antes de se encaminhar até ela e se acomodar em uma das cadeiras, tal como havia sido combinado.
— Devia ter me avisado sobre esse terrível hábito dos trouxas de soltar fumaça por aí, Granger. É nojento — ouviu uma voz chamar sua atenção e então se virou para seu dono, parado atrás logo dela ao mesmo tempo que apertou com mais força a varinha contra si.
Ele tinha a aparência de um homem de meia idade tal como ela, com barba por fazer e cabelos negros despenteados e estava evidentemente fora de forma. Hermione conseguia rir por dentro ao se dar conta que ele provavelmente também se transformara num trouxa para encontrá-la ali. Patético.
No entanto, o tom de voz era algo que ela conhecia perfeitamente bem, e também desprezava com uma intensidade incrível. Tal como a inconfundível mania de chamar a ela e a todos pelo sobrenome.
Draco.
— Onde está Potter? — ele indagou olhando ao seu redor, como se procurasse o rapaz. E, em seguida, puxou uma cadeira para se acomodar, fazendo questão de manter certa distância da dela.
— Morto — Hermione respondeu secamente. Esforçou-se para que sua expressão não revelasse sua mentira. Mas em seguida sua tentativa pareceu patética, muito sem emoção para quem perdera o melhor amigo. Descobrira-se uma péssima mentirosa, no fim das contas.
— Mentirosa — Draco rebateu firme em seguida — Eu sei sobre a profecia, Granger. A última coisa que Potter poderia estar é morto.
Hermione suspirou.
— Você não sabe de nada — ela respondeu entre dentes, mas já não sabia se seu tom seria capaz de convencê-lo àquela altura. Provavelmente não, ela não estava de fato furiosa, contudo, estava entediada — Eu não vim aqui para você me fazer perguntas e nem acusações — disse desviando o olhar dele e brincando com um guardanapo que havia na mesa — O que você quer, afinal?
— Quero ajudar — ele disse simplesmente. O tom escolhido, porém, não passava nenhum tipo de confiança. Era como se ele estivesse simplesmente cumprindo uma tarefa desagradável e precisasse desesperadamente se livrar da mesma e sair do local.
Hermione largou o pequeno guardanapo e levantou os olhos para ele e, em seguida, riu em resposta, incrédula. Ergueu uma das sobrancelhas e respondeu cética:
— E por qual razão você nos ajudaria? Estamos quebrados. Harry está morto. O Lorde das Trevas está cada vez mais perto de conquistar tudo que sempre quis e se continuar nesse ritmo em breve não haverá mais bruxo algum que não seja sangue puro e muito menos trouxas para contar história... não lhe parece o cenário com o qual você sempre sonhou?
— Não — disse, dando de ombros — E eu sei que Potter não está morto, Granger. Ou você acha mesmo que eu viria até aqui por causa de você?
A garota revirou os olhos.
— Eu não vim aqui para piadas, Draco. Se você estiver escondendo algum Comensal e se isso for alguma armadilha eu juro qu-
— Não estou — ele rebateu, irritado. Havia se esquecido o quanto a detestava e o quanto ela era autoritária — Vocês precisam de mim, a Ordem precisa de mim — disse confiante, um pequeno sorriso de canto se formou em seus lábios, Hermione ainda o encarava, as sobrancelhas franzidas em reprovação. E então, numa pausa, usou sua artimanha final: — Assim como precisavam de Snape.
Algo pesou em seu peito quando ela ouviu a menção ao antigo professor, como se a sufocasse, e seu coração acelerou no mesmo instante. Até mesmo a irritação que subia em sua têmpora ao vê-lo falando com tanta propriedade se dissipou.
— Como... como você sabe sobre Snape? — perguntou exasperada. Hermione sabia perfeitamente que talvez se Snape ainda estivesse do lado deles, vivo, as coisas poderiam estar sendo diferentes. Agora que estava no comando junto de Harry, percebia a importância do antigo professor.
— Não interessa, Granger. Estou oferecendo uma oportunidade única a vocês de terem um espião entre os comensais, é pegar ou largar. E vocês não estão exatamente numa posição em que podem recusar alguma coisa — ele desdenhou.
Ao se dar conta de onde aquela conversa estava chegando Hermione retomou o mesmo questionamento de três anos atrás que fizera a si mesma quando Harry insistiu para ela e Rony que Draco Malfoy era, de fato, um Comensal da Morte.
Naquela época, lhe pareceu um completo absurdo que ele tivesse assumido tal posição. Ele poderia ser desprezível na maioria das vezes, mas Hermione se recusara a acreditar que ele era uma pessoa má. Recusara-se a crer que ele teria a coragem de ser tão baixo assim.
Evidentemente, suas dúvidas foram sanadas em breve quando a verdade veio à tona e ela não conseguia entender por que havia sido complacente com ele e duvidado de Harry.
No entanto, depois disso, houve também o fato de Harry ter lhe assegurado que Draco não fora capaz de matar Dumbledore e finalizar sua tarefa, de maneira que Snape fora obrigado a interferir. Hermione era obrigada a admitir que aquilo ficou em sua cabeça durante algum tempo, a fazendo questionar severamente a índole do rapaz, mas logo os desdobramentos da guerra e da busca pelas Horcruxes afastaram Draco de seus pensamentos.
Mas agora, pensando na proposta que ele acabara de lhe fazer, parecia tão surreal a ponto de fazê-la se perguntar se ela realmente sabia tudo sobre ele para fazer um julgamento preciso. Provavelmente não.
Hermione, porém, se lembrou que em tempos como aquele, era tão inútil buscar bondade nas pessoas quanto encontrar uma agulha num palheiro. Ainda que fosse mentira ou não, ele não estaria ali à toa. E, supondo que ele de fato estivesse disposto a ajudar à Ordem, certamente não seria a troco de nada.
— E o que você quer em troca disso?
— Por ora, não discutiremos assuntos pessoais — ele rebateu rapidamente.
Assuntos pessoais? Ela o encarou, mais uma vez com expressão de incredulidade. De tudo que esperava daquele encontro, o rumo daquela conversa que estavam tendo era a última coisa.
— Você tem uma semana para decidir, Granger. Me encontre aqui no mesmo horário. E é melhor dizer sim.
— Pensei que você tivesse achado o lugar... nojento — ela disse, dando de ombros.
— De fato — ele rebateu — Mas duvido que alguém acharia que até mesmo eu pude me rebaixar a ponto de vir aqui disfarçado de trouxa encontrar uma sangue-ruim como você.
Hermione sentiu o sangue borbulhar novamente ao ouvi-lo a chamar daquela forma e, embora Draco sequer se apresentasse em sua real aparência, era como se as lembranças de todas as vezes que ele a chamara assim em Hogwarts viessem à tona.
E ela desejou que pudesse repetir o mesmo feito de quando ambos estavam no terceiro ano da escola de magia e soca-lo com toda força que pudesse acumular nos punhos. Contudo, se conteve e se recompôs a fim de dá-lo uma resposta à altura.
Babaca.
— Eu imagino que você deva estar mesmo desesperado — havia um sorriso malicioso em seus lábios que fez com que a expressão de deboche do rapaz se dissipasse — Deve ser humilhante para você ter de vir aqui para pedir para se juntar à Ordem.
— Vocês é que precisam de mim — ele retrucou rapidamente, os olhos semicerrados. Não deixaria que Hermione pisasse em seu orgulho — Você não estaria aqui se não precisassem, Granger. Agora diga a Potter para ser sensato antes de tomarem a decisão — ele completou e antes mesmo que Hermione pudesse protestar dizendo mais uma vez que Harry estava morto, ele já havia virado as costas para deixar o estabelecimento
A garota, por sua vez, se demorou mais um pouco na velha cadeira em que estava acomodada. Deu um suspiro exausto enquanto refletia sobre a breve conversa que acabara de ter com Draco, estava irritada com a prepotência que ele ainda carregava, mas mais do que isso, estava completamente atordoada.
Como ele poderia obter tantas informações? Como sabia sobre Snape? Mas, acima de tudo, por que queria ajudar? O que poderia ter acontecido durante esses dois últimos anos para fazê-lo mudar de ideia, afinal? Ou, o que estava realmente acontecendo para fazê-lo ir até as pessoas que ele mais detestava?
Quando foi decidido que ela deveria encontra-lo ali e descobrir quais eram seus objetivos, a última coisa que poderia esperar era uma proposta como aquela, de forma que, ainda supondo que poderia haver algum tipo de armadilha, ela esperou, vasculhando mais uma vez o local, em busca de alguma pessoa ou alguma atividade suspeita. Nada aconteceu.
Sentindo-se mentalmente exausta, e se dando conta de que em breve o efeito da poção polissuco acabaria, Hermione se encaminhou para um local isolado onde pudesse aparatar sem ser notada. E, muito embora desejasse uma noite de sono longa e tranquila que a permitisse fugir da realidade daquela maldita Guerra, ela sabia que não seria possível. Havia muita coisa a ser decidida naquela noite junto com alguns dos membros remanescentes da Ordem, dentre as quais, se Draco Malfoy era digno de confiança ou não.
Em seu íntimo, ela já não tinha mais tanta certeza.
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