Efêmero

11 Capítulo X: A Despedida


Notas iniciais
Olá, este capítulo em especial eu gostaria de dedicar a duas leitoras queridas: Sweetheart (/95275) e Ninive (/622616) ♥ Primeiramente, Sweetheart, o capítulo era para ter saído bem antes porque eu desejava posta-lo como um presente de aniversário para você, mas como não consegui finaliza-lo adequadamente, acabou que aqui estamos mais de um mês depois do seu aniversário. Decidi dedica-lo a você não somente por conta do apoio imenso que você vem me dando nesta fanfic, mas também por você ser uma das minhas melhores amigas e por muitas coisas que estão presentes no capítulo capítulo são influência sua. E à Ninive pelo apoio imenso que vem me dando, pelos reviews maravilhosos e pela linda recomendação que me deixaste e que eu ainda não tive a oportunidade de agradecer apropriadamente. Espero que apreciem o capítulo, boa leitura!!

Capítulo X: A Despedida

Escrito por: Wenky (Andréia)

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Após terem completado a aparatação acompanhada, Hermione dedicou alguns minutos à tentativa de identificar onde exatamente Draco havia a levado. Era um apartamento modesto, ela concluiu de imediato. A sala, onde haviam desaparatado, tratava-se de um cômodo relativamente pequeno e com pouca mobília contando basicamente com uma poltrona, uma estante contendo alguns livros bem enfileirados e uma mesa onde se encontrava um abajur, que servia para auxiliar na leitura durante o período da noite.

A imagem de Draco morando ali, sozinho, sentado naquela poltrona lendo algum livro de magia durante as noites de insônia era algo que ela teve dificuldade em digerir. Um lugar como aquele era, definitivamente, bastante diferente do que ela idealizava para alguém como ele.

Certamente Hermione nunca havia estado na mansão dos Malfoy, mas não era difícil imaginar a atmosfera requintada que muito provavelmente tomava conta do lugar e Draco Malfoy desfrutando de todo o luxo que sua família poderia proporcioná-lo. Aquele apartamento inteiro, que ela julgou não ter mais do que quatro cômodos, tendo em vista que a cozinha fazia divisa com a sala, deveria corresponder ao tamanho de um único cômodo na mansão dos Malfoy, ela supôs.

A princípio parecia absurdo, e até ofensivo, assumir que ele estava morando ali, de maneira que ela imaginou se tratar apenas de um esconderijo que ele havia encontrado. Porém, o apartamento estava deveras limpo e arrumado sendo, portanto, impossível que não estivesse alguém morando ali.

De repente, Hermione se sentiu um pouco tonta com a própria constatação. Quantas coisas sobre Draco Malfoy ela ainda poderia descobrir numa única noite?

— Você pode tomar um banho, se quiser — Draco disse quebrando o silêncio e chamando a atenção dela para si. Com um movimento com a cabeça, indicou a direção do banheiro — É... — ponderou antes de continuar —Tem algumas toalhas secas lá — completou, antes de virar de costas para ela.

— Obrigada — Hermione respondeu assentindo e caminhou na direção indicada.

Agora era inegável a atmosfera pouco familiar que pairava entre eles, ter diálogos triviais como aquele com Hermione era algo que Draco não sabia ao certo como reagir. Ao mesmo tempo, crescia dentro dele uma expectativa aliada a uma curiosidade acerca do que viria a seguir, era como se ele estivesse explorando um território desconhecido.

Por outro lado, estava exausto, tanto fisicamente quanto emocionalmente. E pôde concluir isso ao se permitir sentar-se na poltrona. Agora que toda adrenalina do momento havia passado e as coisas começavam a se encaixar na sua cabeça, uma sensação de vazio o assolou. Ele já não sabia mais como deveria se sentir.

Afinal, deveria sentir culpa por ter matado alguém? Medo pelo o que viria a seguir? Ou simplesmente deveria ignorar todo o resto e se prender ao fato inusitado de que ele e Hermione Granger pareciam estar finalmente começando a cooperar? No fim das contas, acabou se deixando ser tomado pelo torpor de maneira que seus pensamentos pararam de atormentá-lo durante os minutos seguintes que se passaram na ausência de Hermione.

Quando ligou o chuveiro e deixou que a água morna caísse sobre seu corpo, Hermione finalmente percebeu o quanto estava precisando de um banho. As horas de tensão que passou no Largo Grimmauld onde por pouco não recebeu um beijo de um dementador deixaram sua musculatura rígida. Além de sua pele que àquela altura estava pegajosa de suor devido às reações involuntárias de seu corpo ao medo.

Ao terminar o banho, deixou a toalha durante algum tempo nos cabelos a fim de retirar o excesso de água e se vestiu novamente. Por um momento, se sentiu incomodada devido à ausência de roupas limpas de forma que fora obrigada a repetir as que estava usando antes, mas tentou consolar a si mesma com a ideia que pelo menos o banho havia servido para deixa-la mais relaxada. E relaxar era o que ela mais precisava no momento para que pudesse colocar a cabeça no lugar.

Havia acontecido tanta coisa que num curto intervalo de tempo que, em partes, Hermione sentia como se em breve ela acordaria de algum sonho esquisito. Contudo, seus pensamentos iam constantemente até onde estavam seus amigos. Se ainda havia algum comensal à espreita, ela esperava que não os encontrasse.

Ainda consternada, caminhou novamente até a pequena cozinha. Draco parecia ter adormecido na poltrona onde havia se sentado, mas ao sentir seu olhar pairando em suas costas enquanto ela procurava por uma chaleira entre as louças bem arrumadas em um dos armários, Hermione concluiu que não.

— Você quer um pouco de chá? — perguntou um pouco envergonhada ao ter sido pega no flagra — Está um pouco frio e eu imaginei que seria uma boa ideia.

Draco simplesmente deu de ombros, sem parecer se importar com a intromissão. Hermione, por sua vez, desejou poder desaparecer. Agora mexer nas coisas de Draco para fazer um chá parecia uma péssima ideia, não somente por se tratar da privacidade dele, mas porque foi se como se num estalo ela se lembrasse de que ele ainda era Draco Malfoy e que ele muito provavelmente ainda a via uma sangue-ruim.

Por mais diferente que as coisas estivessem naquela noite, e por mais que ela tivesse dificuldades em compreender como tudo havia acontecido, ainda duvidava que as ideias que ele cultivara durante anos acerca de seu nascimento pudessem simplesmente ser alteradas. De forma que soou estranho que ela preparasse chá para os dois tomarem juntos no apartamento dele em uma madrugada fria.

De acordo com a sua intuição, muito provavelmente já era tarde e em algumas horas o dia já estaria amanhecendo. Como o inverno estava chegando ao fim e em alguns dias eles estariam entrando na primavera, o clima lá fora estava mais ameno. No entanto, mesmo com as tempestades de neve tendo cessado, ainda haviam resquícios do inverno rigoroso ao qual foram submetidos naquele ano e ela particularmente apreciava um chá quente para amenizar o frio. Sendo assim, decidiu terminar o que havia começado.

— Eu vou embora pela manhã — ela se justificou se aproximando dele para entrega-lo a xícara, a qual ele aceitou inexpressivo. Hermione logo percebeu a apatia em que ele estava imerso e imaginou que isso talvez explicasse a atual dinâmica entre eles. Ainda que não explicasse como exatamente Draco havia chegado ao Largo Grimmauld na hora certa. Mas, por hora, ela decidiu que não tentaria descobrir – Antes, tem algo que eu preciso te falar — disse, acomodando-se no outro sofá com a sua própria xícara nas mãos.

— Como você sabia que eu estava mentindo? — Draco a perguntou, desviando do assunto repentinamente. Hermione reagiu levantando uma de suas sobrancelhas — Naquela noite no Largo Grimmauld. Com Potter.

Mesmo sem compreender ao certo o porquê ele havia feito a pergunta, Hermione parecia tê-la achado extremamente engraçada. E, dessa vez, foi Draco quem reagiu expressando confusão.

— Porque você é um péssimo mentiroso — ela disse provavelmente com o primeiro sorriso genuíno daquela noite estampado no rosto seguido de um ar zombeteiro. Draco havia entendido a referência. Há não muito tempo atrás ele mesmo havia criticado as habilidades dela para mentiras. Porém, teve dificuldade em formular uma resposta agora que ela havia se livrado da toalha úmida e seus cachos ainda molhados caíam pelo seu ombro e parte de seu rosto. Ele estava cansado, e atordoado, seus olhos estavam pesados de sono e haviam muitas coisas circulando pela sua cabeça naquele momento, mas, ainda assim, ela era bonita.

Talvez ele não tivesse realmente reparado antes como fazia agora. Certamente ele poderia atribuir essa percepção à sua instabilidade emocional naquele momento. Mas sabia que não. Ela era realmente bonita. Seus cabelos castanhos enrolados contrastavam com a sua pele, bem como combinavam com a cor de seus olhos. Ela não era extraordinária, mas certamente tinha algo diferente em sua beleza, algo que somente agora ele se deixava perceber.

— O que você está olhando? — Hermione o indagou, enquanto bebia alguns goles de seu chá. Draco se ajeitou na poltrona, sobressaltado, como se ela o acordasse de um breve transe — Você deve estar cansado — ela comentou.

— O que você queria me dizer? — perguntou, desviando o assunto.

Hermione deu um longo suspiro. Não sabia como começaria a conta-lo sobre aquilo.

— Eu queria falar sobre o porquê eu havia te chamado no Largo Grimmauld ontem — explicou — Mas você deveria descansar, eu posso fazer a vigilância. Você parece exausto, podemos conversar depois. Não é importante.

— Eu tenho problemas para dormir, Granger — ele disse com um ar entediado — E aparentemente não restou muito o que fazer para curar minha insônia a não ser conversar com você — agora, Hermione sentia como se a versão de Draco com a qual ela estava acostumada, aos poucos, estivesse voltando. E ela não tinha certeza se aquilo era um bom sinal.

— Eu te chamei até à mansão dos Black por uma razão — começou — Eu tinha certeza que você estava mentindo. Você queria o medalhão por algum motivo, e você estava escondendo alguma coisa de mim. Eu sabia disso — Draco bebericava sua xícara de chá enquanto a escutava atento — Então, eu tomei uma decisão.

Subitamente, Hermione se interrompeu. Era difícil dizê-lo quais eram suas intenções, agora que suas certezas haviam se esvaído, ela se sentia envergonhada de confessá-lo o que esteve pensando.

— Eu fiz uma promessa a Ginny naquele dia, mas eu estava errada — confessou com a cabeça baixa — Eu estava terrivelmente errada sobre você.

— O que você prometeu a ela? — Draco indagou, incitando-a a continuar a falar.

— Eu prometi que iríamos vencer esta guerra, que tudo ficaria bem. Eu pensei que você tivesse nos traído — ao ouvi-la falar assim, Draco sentiu seu próprio estômago se revirar. Ela estava certa. De fato, ele quase havia traído a Ordem. E o incomodava constatar o quão bem ela era capaz de decifra-lo — E se isso tivesse acontecido... bem, seria tudo minha culpa. Eu precisava consertar meus erros. Foi então que eu... eu decidi que iria mata-lo naquela noite. Foi essa a minha decisão — completou, engolindo em seco.

Ao falar sobre aquilo tão abertamente com ele, Hermione sentiu um gosto amargo na boca. Estava ressentida consigo mesmo por ter tido pensamentos tão precipitados. E sentia-se terrivelmente estúpida, especialmente agora que tinha consciência que se não fosse por Draco Malfoy, seria ela quem muito provavelmente estaria morta. De súbito, teve que segurar as lágrimas que ameaçaram irromper.

— Draco — ela recomeçou a falar — Me desculpe. Eu... realmente sinto muito — disse, ainda se mantendo cabisbaixa. Agora encarando a xícara vazia que segurava entre as duas mãos — Eu deveria ter confiado mais em você.

Um silêncio agonizante pairou sobre os dois. Ao contrário de Hermione, Draco não conseguiu desviar seu olhar dela. Se ela ao menos soubesse que não havia por que se desculpar.

— Você não tem que se desculpar. Eu entendo — ele retorquiu simplesmente. Surpresa, Hermione levantou a cabeça para olhá-lo — Isso é uma guerra. Especialmente a partir de hoje. E tudo isso é sobre escolhas, eu e você... — pausou. Uma expressão já conhecida por Hermione se formou no rosto de Draco, como se ele estivesse lembrando do acontecido. — Nós fizemos uma escolha esta noite. Amanhã eu farei outra escolha, e você também. E acho que à essa altura, ambos sabemos que aqui ou nós ganhamos ou morremos. E eu não acho que temos tempo para arrependimentos.

— Não fale sobre guerra comigo — ela o repreendeu — Eu estive nessa guerra há mais tempo do que você, Malfoy.

— E ainda assim você não compreende — agora ele assumia um tom diferente do usual, o que a assustou — Talvez você devesse começar a fazer as coisas mais por si mesma em vez de se preocupar tanto com os outros — disse por fim, deixando uma Hermione sem palavras.

Dessa vez, havia sido ele quem fora capaz de decifra-la.

*****

A antiga rua estreita com calçada pedras era uma antiga conhecida de Narcisa Malfoy, bem como a fileira de casa com tijolos aparentes e em ruínas, de forma que, apesar da escuridão e do local se encontrar ainda mais deserto do que em sua última visita ali, a mulher caminhava tranquilamente.

Haviam se passado três anos desde a última vez que ela tinha entrado em contato efetivamente com Severo Snape. Narcisa era uma das poucas pessoas que sabia que ele não estava morto como fizera parecer para o resto do mundo mágico. E agora que ele havia retornado para sua antiga moradia os dois tinham assuntos a tratar. A mulher deu duas batidas na porta e em um intervalo de breves segundos ela se abriu num rangido, revelando a figura conhecida do homem de cabelos pretos e longos repartidos no meio.

— Severo — ela o cumprimentou retirando o capuz da capa escura que usava e deixando que suas madeixas loiras caíssem sobre os ombros enquanto adentrava o local.

O espaço de tempo que se passou sem que entrassem em contato foi o suficiente para causar a Narcisa a impressão de que as coisas estavam se deteriorando. Snape parecia mais velho e cansado do que ela se lembrava e sua moradia, bem como a mobília empoeirada, lhe causavam a mesma impressão. De forma que ela se perguntou se não estava a se deteriorar também.

Sentia-se exaurida de tudo aquilo, se por algum momento havia pensado que a ditadura de Voldemort seria positiva para bruxos de sangue-puro como ela, agora via que estava totalmente enganada. Sua família estava aos pedaços e a única coisa capaz de mantê-la de impedi-la de se despedaçar também era seu filho, Draco Malfoy.

— Já faz algum tempo, Narcisa — respondeu num tom habitual enquanto fechava a porta atrás da mulher.

— O que te traz de volta? — ela indagou enquanto sentava-se no sofá.

— Está na hora de finalizar o que começamos — ele disse, fazendo menção à espada incrustada de rubis encostada no canto da parede.

— A espada de Gryffindor! — Narcisa exclamou — Como... você a conseguiu? — parecia no mínimo inusitado que Snape tivesse um objeto como aquele e, mais do que isso, que tivesse conseguido mantê-lo em segredo durante tanto tempo.

— Foi a última tarefa que Dumbledore me incumbiu antes daquele fatídico dia em Hogwarts, e eu ainda não a cumpri — disse num suspiro cansado — Por essa razão estou de volta, e somente por isso. E quanto a você, Narcisa, o que te traz aqui?

A mulher se demonstrou cabisbaixa antes de recomeçar a falar e mordia os lábios em apreensão enquanto tentava escolher as palavras para usar.

— Draco — respondeu de imediato — Ele está sendo um espião para a Ordem agora e... — ela se interrompeu, agora soava mais aflita — Eu... eu temo que ele tenha cometido um erro — completou. — Severo, há três anos atrás eu vim aqui pedir para que você o ajudasse a cumprir as tarefas do Lorde das Trevas, e desta vez não é diferente. Eu preciso da sua ajuda de novo.

Snape, porém, a olhava com uma expressão de alguém que já sabia de antemão que era por causa de Draco que Narcisa estava ali, e que provavelmente algo tinha dado errado. Afinal, não havia nada no mundo ela se importasse mais do que com seu filho, e ele bem sabia disso. Não foi a toa que a mulher havia o implorado para que ele realizasse um voto perpétuo a fim de proteger Draco quando ele havia acabado de se tornar um comensal.

No entanto, deveria admitir que estava surpreso com a decisão do garoto de entrar na Ordem e também deveras satisfeito, pois aquilo certamente facilitaria seu trabalho. Apesar de seu compromisso selado com Dumbledore, ele não havia retornado por Potter, no fim das contas.

Os anos que se passaram, a despeito de seu sucesso em se esconder de Voldemort, que àquela altura já havia o dado como um traidor, não foram tão benevolentes no que diz respeito à sua saúde. A sua face pálida e cansada, assim como seu corpo mais magro do que o habitual e demasiado fragilizado não eram simples obras do acaso. Ele estava morrendo, e sabia disso. Podia sentir a morte se aproximar e lhe sugar a pouca vida que ainda o restava.

Os sintomas apareceram há pouco mais de um ano atrás. A princípio, Snape imaginou que não durariam muito e que em breve recuperaria sua vitalidade novamente, mas as coisas não saíram como o esperado e quanto mais o tempo passava, mais os sintomas se atenuavam. Ter conseguido retornar sem causar alarde por si só, o que tomou mais tempo do que o normal, já havia lhe custado uma parte de sua energia, mas ainda assim Snape poderia considerar um resultado satisfatório.

Todavia, o ex-comensal já havia dado a derrota como certa e aceitado seu destino. Sabia que precisava retornar com a espada de Gryffindor. Era sua última missão e precisava ser cumprida. Mas a partir de então, ele precisaria de alguém que fizesse seu trabalho. E este seria Draco Malfoy. Portanto, saber que o garoto decidira por esse caminho por conta própria, ainda que o intrigasse, tornava tudo infinitamente mais fácil.

— Se me permite perguntar, como Lucius tem lidado com o fato de seu próprio filho estar traindo a causa? — Snape indagou com um ar de zombaria.

Narcisa o encarou séria, com uma expressão endurecida. Snape poderia jurar que vira algum ressentimento em seus olhos, mas ela logo fez questão de esconder.

— Lucius está morrendo — disse deixando um Snape surpreso. De imediato, o comportamento de Draco fez sentido. — O Lorde das Trevas não o perdoa por seus erros, ele continuou o punindo no decorrer dos anos. Eu não o vejo desde que ele foi mandado de volta à Azkaban duas semanas atrás e temo que ele já tenha ficado louco a essa altura. Ele se foi.

— Entendo — Snape ponderou.

— Eu não pude salvar meu marido, Severo. Mas não posso perder o meu filho também. E se o Lorde das Trevas descobrir o que ele fez... — ao falar de Draco ela assumia um tom angustiado.

— O que ele fez? — ao ouvi-la falar com tamanha aflição, Snape temeu que tivesse retornado tarde demais.

— Há algumas horas, o corpo de Yaxley foi encontrado no Largo Grimmauld número doze. Ele estava morto. É de consenso geral que a Ordem está envolvida no assassinato e se descobrirem que Draco está envolvido... eles vão matar o meu filho! — se interrompeu numa tentativa frustrada de se acalmar e evitar que irrompesse num choro desesperado — Severo, essa guerra começou novamente e temo que dessa vez as coisas terminarão ainda piores.

Snape ficou em silêncio durante alguns segundos, dedicando o tempo a contemplar o local ao seu redor enquanto tentava calcular qual seria o seu próximo movimento. Ao que tudo indicava, Draco Malfoy acabara de se tornar um fugitivo e não podia atuar como espião como havia planejado. Em seguida, se virou para a mulher sentada ao seu lado assumindo uma expressão serena.

— Essa guerra nunca acabou — disse simplesmente — Você se certificou disso quando deixou que Harry Potter sobrevivesse — acrescentou, deixando Narcisa em silêncio e com uma expressão de angústia no rosto.

*****

Hermione não havia se dado conta que acabara se rendendo ao cansaço e dormindo até ser acordada de súbito com Draco se movimentando logo pela manhã. Seus olhos se abriram rapidamente e, ao perceber que dormira numa posição desconfortável no sofá, tratou de se endireitar numa tentativa frustrada de amenizar uma dor incômoda em seu pescoço.

Embora a cortina estivesse fechada, Hermione foi capaz de perceber alguns raios de sol que passavam pelo tecido espesso indicando que já era dia. Piscou os olhos algumas vezes na intenção de acomodar sua visão à realidade e quando finalmente os pousou sobre Draco, ela pôde se dar conta do que ele estava fazendo.

O rapaz tinha uma pequena mala em mãos e parecia estar vasculhando o local, certificando-se de que não havia esquecido nada de importante. Ele estava indo embora, ela concluiu de imediato.

— Draco — disse com um tom ainda sonolento chamando sua atenção, ao que ele se virou para encará-la com um ar de surpresa. Draco estava tão imerso em seus próprios pensamentos que sequer notou que havia a acordado. — O que... você está fazendo? — a garota indagou, se colocando em pé.

Draco praguejou a si mesmo mentalmente antes de formular uma resposta, ele pretendia aparatar antes que Hermione acordasse de forma que pudesse evitar seus questionamentos.

— Estou indo embora — respondeu secamente — Estou deixando a Ordem.

A princípio, Hermione sentiu seus músculos enrijecerem a deixando imóvel e sem palavras diante da confirmação de suas suspeitas. Parecia surreal que ele fosse partir justamente quando as coisas entre eles estavam começando a dar certo e os dois estivessem efetivamente cooperando.

— Você... — começou a falar, numa tentativa inútil de racionalizar a situação.

— Não se preocupe, Granger — ele a interrompeu — Eu não vou dizer nada sobre Potter ou a Ordem para ninguém. Pretendo deixar o país, eu sou tão traidor quanto vocês agora. Só que não restou mais nada para mim aqui — disse amargurado.

— Não! — ela exclamou exasperada — Você não pode nos deixar, você... — Hermione se interrompeu e, bufando, se aproximou dele o encarando com uma expressão séria — Malfoy, você está decidindo ir embora por minha causa? Pelo o que eu te contei ontem à noite? Eu estou realmente envergonhada quanto a isso, e eu... eu realmente aprecio a sua ajuda, mesmo que eu não demonstre na maioria das vezes... você provou ser de confiança. E eu sinto muito ter esperado acontecer aquilo para perceber isso — completou, incapaz de evitar que um rubor lhe cobrisse a face.

Se havia algo que Hermione Granger tinha grande dificuldade em fazer, esse algo era admitir que havia errado. Contudo, dizer aquilo em voz alta lhe causou a sensação de que ela tinha acabado de quebrar uma barreira dentro de si, deixando-a mais leve. Ainda que outra parte de si se culpasse ao supor que ele estava partindo por causa dela.

— Não — respondeu — Não é por sua causa.

Draco desejou conta-la sobre as coisas que vinha escondendo naqueles últimos meses e talvez ela não o visse tanto como o herói que via agora. Mas, particularmente, odiava despedidas. E não tinha a menor intenção de prolongar aquilo, depois que consertasse seus erros, mais especificamente depois que recuperasse a moeda e fosse capaz de dar um fim no objeto mágico, pretendia recomeçar longe dali.

Porém, não era só o fato dele odiar despedidas que o impedia de conta-la, era também porque uma parte dele não queria que a última vez que visse Hermione Granger terminasse com ela provavelmente o odiando por ter mentido.

— Então, por quê? — Insistiu — Yaxley? Você está se sentindo culpado pelo o que aconteceu? Porque se for isso, se você precisa de perdão eu...

— Eu não deveria ter começado a ser um espião para a Ordem, em primeiro lugar — ele a cortou novamente. — E agora nem isso eu sou mais, sou apenas mais um fugitivo de guerra. Não acho que posso ser útil daqui para frente, Granger — suspirou, evidentemente cansado.

— Draco — ela recomeçou a falar, agora assumindo um tom mais contido do que o anterior. Uma de suas mãos posou sobre o ombro do rapaz numa tentativa de força-lo a olhar diretamente para ela, o que ele vinha evitando desde que os dois iniciaram a breve conversa — Você me salvou. A Ordem precisa de você. Eu preciso da sua ajuda. Eu sei que estamos todos com medo, mas... você não pode fugir.

Draco utilizou sua outra mão, colocando-a sobre a de Hermione a fim de retira-la de seu ombro direito. Se continuasse a escutando, temia que mudasse de ideia. E se havia algo que ele estava farto, era do efeito involuntário que Hermione lhe causava. Desviou seu olhar dos olhos castanhos dela e se afastou logo em seguida. Um borrão do rosto ruborizado e de uma expressão de desapontamento cujo ela era incapaz de esconder foi a última visão que Draco teve antes de aparatar, deixando-a para trás.

— Adeus, Granger — Hermione se lembrou de ter escutado as últimas palavras dele, como um eco, antes da figura familiar de seu agora ex-aliado se desfazer na sua frente.

Seus olhos vagaram até a cortina espessa na pequena e única janela do cômodo, que se movimentava lenta e monotonamente em resposta à brisa matinal que vinha de encontro ao tecido. De repente, sentiu-se extremamente sozinha e desamparada. Mas se encontrava cansada demais para que se permitisse extravasar qualquer emoção que fosse de forma que se limitou a apenas contemplar o local ao seu redor. Olhando agora, tudo ali se parecia muito mais com Draco Malfoy do que ela havia julgado à primeira vista.

Notas finais
Então, gente. Acredito que não tenho muito o que falar em relação à demora para atualizar a fanfic, aconteceu o de sempre: a vida. Esse final de período na faculdade foi bem corrido para mim e eu não estava conseguindo me organizar para escrever a história como é do meu gosto, então em vez de me forçar e fazer algo de qualquer jeito achei melhor esperar um pouco e escrever um capítulo com mais calma e que me agradasse. Peço desculpas pelo atraso e acrescento que agora que entrei de férias as atualizações devem acontecer com maior frequência. Sim, sinto muito por ter separado Dramione mas não fiquem bravos comigo e lembrem-se que eles precisam de um tempo longe para compreender a importância que têm um para o outro, risos. Então não fiquem aflitos quanto a isso. Em segundo lugar, queria agradecer aos 160 acompanhamentos e 30 favoritos, é sempre bom saber que o número de pessoas que estão se interessando pela história está aumentando!! E, como de costume, qualquer erro ortográfico que encontrarem peço que me avisem. Em terceiro, eu comecei a postar esta fanfic lá no Social Spirit (https://spiritfanfics.com/historia/efemero-7581425) eu sei que o site tem um aplicativo e algumas pessoas preferem ler pelo celular então sintam-se à vontade para migrarem para lá. Embora a postagem ainda esteja bem atrás em comparação com aqui no Nyah! que eu iniciei a história há quase um ano atrás. Estou ansiosa para saber as opiniões de vocês e desejo um feliz natal e um ótimo 2017 a todos. Um beijo ♥