Efêmero
12 Capítulo XI: Severo Snape
Notas iniciais
Capítulo XI: Severo Snape
Escrito por: Wenky (Andréia)
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Logo pela manhã, quando Draco adentrou abruptamente a porta de entrada da residência de Pansy Parkinson, encontrando-a em vestes pretas, caracterizando o que ele supôs ser o luto pela recente morte de Yaxley, ele foi surpreendido pela presença de sua mãe, Narcisa, sentada num sofá ao lado da garota também trajando preto. Porém, logo tratou de ignorar sua própria surpresa e direcionou-se até Pansy. Ele havia ido até ali por um motivo, e estava com pressa.
Sobressaltada, a garota se pôs em pé e virou em sua direção para encará-lo, mas antes que pudesse expressar sua surpresa pela presença do ex namorado, Draco já deixava claro a razão pela qual estava ali.
— Onde está? — num tom visivelmente alterado, disparou a pergunta. Segurava-a por um dos braços — A moeda. Você a pegou na minha sala ontem pela manhã.
Pansy, com os olhos arregalados em surpresa, se esforçou para se desvencilhar de Draco, mas suas tentativas se demonstraram inúteis, pois quanto mais ela se esforçava, mais ele parecia relutante em solta-la.
— Então... era mesmo verdade? — sua voz chorosa o questionou. Sentiu-se traída mediante a confirmação. Parte dela recusava-se a acreditar que Draco havia escolhido se juntar à Ordem e tornar-se um traidor de sangue. Ter a confirmação partindo dele acertou-lhe em cheio no peito. — Você... realmente se juntou à Ordem, aos sangue ruim — disse numa conclusão avassaladora, levando até a boca a mão que estava livre.
Seus olhos se desviaram da figura de Draco e recaíram sobre a figura de Narcisa. A mulher, por sua vez, observava a cena com uma serenidade fora do comum no rosto. Até mesmo após escutar a insinuação de Pansy de que Draco havia se tornado um traidor.
Antes de efetivamente responde-la, Draco a concedeu um sorriso distorcido pelo canto dos lábios. De súbito, escuta-la usar palavra sangue ruim, antes tão comum em seu próprio vocabulário, ativou algo dentro dele, fazendo com que seus sentimentos contidos extravasassem. Ele já não se importava mais. Não se importava com a mancha que deixava no nome de sua família, com o que Pansy ou até mesmo com o que a sua própria mãe pensaria.
— Você deve estar se perguntando sobre como Yaxley morreu — começou — Quem poderia tê-lo matado — as sobrancelhas de Pansy se franziram em confusão ao escuta-lo falar daquele modo, percebendo onde ele queria chegar com a insinuação — Fui eu — completou, alargando o sorriso num tom ameaçador — Agora onde está a moeda? — perguntou pela última vez, aumentando o tom de voz.
Pansy puxou com força o próprio braço, soltando-se da pressão que o aperto de Draco exercia em seu braço, e deu um passo para trás na tentativa de se afastar dele. Narcisa se colocou de pé, a fim de intervir.
— Eu não a tenho mais — a garota respondeu – Eu entreguei para Yaxley. Ele provavelmente deve estar com ela na sua sala. Eu não sei. Não tenho certeza.
Para o seu próprio alívio, o rapaz manteve-se distante dela e lhe direcionou um olhar num misto de ressentimento e decepção por não obter o que procurava, mas aparentemente, agora ele começava a recobrar sua compostura. Narcisa, ainda em silêncio se aproximou do filho, colocando suas mãos no ombro dele.
— Draco, onde você está indo? — Indagou utilizando o tom maternal que Draco tão bem conhecia e moveu a cabeça para indicar a mala que ele carregava consigo, agora colocada sobre o chão.
— Estou indo embora do país — ele respondeu — Não posso ficar aqui depois do que eu fiz — tinha uma expressão de sarcasmo bastante superficial no rosto, mas Narcisa conhecia o filho suficientemente bem para saber que ele estava tentando se conciliar com seus próprios termos depois de assumir ter sido o responsável pela morte de Yaxley.
Draco pôde observar nos olhos da mãe enquanto seu coração se partia ao ouvir a declaração do filho. Seu olhar se desviou do dele, buscando outro ponto qualquer, e quando ela se virou para ele novamente, ela parecia mais serena e falou com ele com um tom suave.
— Se não tivéssemos nos encontrado aqui, você nem ao menos iria se despedir — lamentou, passando uma das mãos pelos cabelos loiro claro dele.
Pansy engoliu em seco enquanto observava a cena. A princípio, havia pensado que Draco estava perdido ou até mesmo confuso diante de todos os acontecimentos em sua família, especialmente em função da situação de seu pai, Lucius Malfoy.
Convencera a si mesma de que ele eventualmente mudaria de ideia e mesmo que tivesse se envolvido com a Ordem, ele perceberia que havia cometido um erro e voltaria atrás a fim de reconquistar seu espaço na sociedade bruxa. Tudo que ele precisava era de uma boa proposta. Yaxley havia lhe oferecido essa proposta, porém, agora Draco havia acabado de a confessar, com um ar de satisfação, que havia sido ele o responsável pela morte do outro Comensal.
Ao escuta-lo proferir aquelas palavras, Pansy percebera que, durante todo aquele tempo, esteve terrivelmente enganada. Havia uma convicção, antes desconhecida por ela, na voz dele. Seja lá o que tivesse acontecido naqueles últimos meses, naquele momento, ela poderia afirmar com toda certeza: Draco Malfoy estava mudado.
Ele não era mais o bruxo que costumava ser e não mais devia sua lealdade ao Lorde das Trevas. Muito pelo contrário, sua lealdade agora pertencia a uma outra pessoa e o estômago de Pansy embrulhava diante da perspectiva que martelava em sua cabeça desde que escutara ele falar o nome da sangue ruim enquanto dormia.
Hermione Granger.
— Por que ela? — Pansy disparou visivelmente contrariada, interrompendo Draco e Narcisa. Agora seu receio havia sido substituído por uma fúria que há muito tempo continha dentro de si — Por que eles? Você os desprezava. Você sempre os desprezou, os sangue ruim... eles não são parte do nosso mundo. Ela não é parte do nosso mundo! — gritou, seu rosto ficando avermelhado enquanto falava — Ela nunca vai ser como eu ou você, e você sabe disso.
Draco deixou que ela falasse, escutando as palavras com mais atenção do que gostaria. Os questionamentos de Pansy naquele momento soavam terrivelmente infantis para ele, mesmo que num passado não muito distante, essas mesmas perguntas tivessem martelado em sua própria mente, tirando-lhe o sono.
— Eu apenas estou tentando corrigir meus próprios erros — respondeu simplesmente — Eu não estou mais com a Ordem — deu de ombros — Também não posso retornar ao Ministério porque em breve estarei sendo procurado por assassinato — um sorriso amargurado cruzou seu rosto — Mas eu preciso que você encontre a moeda certifique-se de destrui-la. Depois, em nome dos velhos tempos, esqueça a mim e esqueça essa história – agora ele assumia um tom mais brando antes de disparar uma nova ameaça: — Caso contrário, eu saberei.
Pansy o olhava surpresa ao escutar a declaração. Não esperava que depois de seu comportamento agressivo inicial, ele a fizesse um pedido. Olhava para o antigo amigo e ex amante com ressentimento, sentia como se ele tivesse a traído. Ainda assim, a maior parte dela, apesar de tudo, era incapaz de permitir que ela o odiasse como gostaria.
— Você sabe que é inútil se importar, não sabe? — Pansy indagou, amarga — Independente da moeda, eles vão encontra-la de novo. A sangue ruim estará morta antes mesmo que tudo isso acabe.
Draco cerrou os olhos com a insinuação feita pela garota, mas ele se limitou ao silêncio. Ao mesmo tempo, sentiu algo muito frágil dentro de si se quebrar quando, numa epifania, ele se deu conta do que estava fazendo. Ele estava a deixando. Estava deixando Hermione sozinha para lidar com toda aquela bagunça. Embora soubesse que ela era forte e que poderia aguentar aquilo, a sugestão de Pansy o deixou perturbado. Suas mãos se apertaram na alça da mala que carregava consigo. Mas não poderia voltar atrás agora. Estava decidido.
— Se você realmente pretende ir — Narcisa interveio novamente, chamando a atenção do filho para si — Tem algo que precisa saber antes. Tem alguém que pode ajuda-lo, fora daqui — continuou, seus olhos indo em direção à Pansy, deixando claro que ela não mais fazia parte daquela conversa.
*****
Draco certamente considerou a possibilidade que havia grande chances que ele se arrependesse de ter concordado em realizar uma aparatação acompanhada com sua mãe e segui-la para onde quer que fosse o lugar que ela considerava ser tão importante. No entanto, ao caminhar por uma estranha e deserta rua estreita com calçadas de pedras, ele deu a possibilidade como uma certeza. Definitivamente, estava arrependido.
— Eu sei que pode parecer estranho, mas não podemos levantar suspeitas — Narcisa o explicou enquanto caminhava na frente, guiando-o pelo chão íngreme na medida em que os dois iam de encontro a um vento cortante que batia em seus rostos naquela manhã fria.
— Onde estamos indo, afinal? — Questionou.
— Você saberá em breve — a mulher se limitou a responder.
Draco levantou uma de suas sobrancelhas em confusão. Depois de todos os acontecimentos inusitados que lhe aconteceram em menos de vinte e quatro horas, ele duvidava que houvesse mais alguma coisa capaz de surpreendê-lo. Mas, talvez, sua própria mãe estar o levando para um lugar como aquele seria o suficiente para fazê-lo mudar de ideia.
Quando a mulher parou em frente a uma velha casa e bateu na porta, fazendo com que a figura de seu antigo professor de poções se revelasse, Draco já estava convencido que, certamente, ainda não atingira o ponto mais alto de estranheza em sua vida. Ele podia jurar que Severus Snape estava morto, que havia morrido durante a Batalha de Hogwarts, dois anos atrás. Aparentemente, ele ponderou, o mundo bruxo estava cheio de fantasmas.
O outro bruxo fez menção para que os dois entrassem e fechou a porta logo em seguida. Draco se pôs a observar o local ao seu redor, de longe, poderia julgar que tudo ali se parecia extremamente taciturno, exatamente como Snape. Porém, quando seus olhos recaíram sobre o ex professor, notou de longe as diferenças em sua fisionomia. O homem aparentava ser muito mais velho e estar muito mais cansado do que ele se lembrava desde a última vez em que se encontraram.
— Então, por que me trouxe até aqui? — Draco indagou, se virando para sua mãe — E quanto a você, — virou-se para Snape enquanto falava — não era para você estar morto? — Disse com sarcasmo. Aparentemente, aquela era a forma mais eficaz de lidar com tudo aquilo de uma só vez.
— Ainda não — Snape retorquiu com frieza, seus olhos indo de encontro à Narcisa parada perto da porta de entrada.
— Estou confiando isto a você, Severo — a mulher disse, antes de fazer uma aparatação repentina, deixando os dois homens sozinhos no local.
Draco encarou o antigo professor com uma expressão de desconfiança. Seu olhar foi do local onde a mãe se encontrava antes de realizar a aparatação até o outro homem parado à sua frente com suas vestes pretas habituais.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou confuso.
— Sente-se, Malfoy — o homem disse, apontando para o sofá — Temos muito a conversar. Sua mãe me disse que você se juntou à Ordem... como um espião — disse assumindo um tom de sarcasmo.
O bruxo mais novo, ainda relutante, sentou-se no sofá mantendo certa distância do seu ex-mentor. Parte dele ainda parecia acreditar que Snape era algum tipo de assombração e que aquela conversa que os dois estavam tendo nada mais era do que mais um de seus sonhos, de maneira que assumiu que em breve ele acordaria e decidiu que não precisava adotar formalidades na hora de se referir ao outro. A outra parte considerou perguntar como sua mãe tinha conhecimento de suas ações recentes, mas por hora, decidiu adiar o questionamento.
— Errado — Draco o corrigiu — Estou deixando a Ordem e o país, e não tenho muito tempo. Então sugiro que esta conversa seja breve. Agora me diga, por que você me quer aqui? E por que minha mãe me trouxe até aqui?
O homem mais velho parecia o encarar com certo divertimento e ponderou durante alguns segundos antes de responde-lo apropriadamente.
— Aparentemente Narcisa deixou todo o trabalho para mim — deu um suspiro pesaroso ao passo que Draco levantou o cenho em confusão — Você faz alguma ideia sobre como Potter sobreviveu naquela noite, em Hogwarts?
As lembranças da Batalha de Hogwarts eram como borrões em sua mente de forma que o medo e a apreensão que sentira naquela noite eram basicamente as coisas que Draco era capaz de retomar em sua mente. Lembrava-se de ter sido salvo por Harry no incêndio da Sala Precisa, pelo qual ele fora parcialmente responsável e, depois, de lutar com outros bruxos. Àquela altura ele tinha dificuldade em identificar quem era seu inimigo e quem não era. Em sua covardia, sobreviver era a única coisa que lhe importava, mesmo que tivesse que se esconder o máximo que pudesse, e foi exatamente o que fez.
— Sua mãe — Snape continuou — Quando o Lorde das Trevas atingiu o garoto com um Avada Kedavra, Narcisa o garantiu que Potter estava morto. Mas ela mentiu.
Instantaneamente, diante da revelação súbita, Draco se sentiu tonto. Durante aqueles últimos meses em que passara junto de Hermione, na Ordem, ele havia se esforçado para ter o máximo de cautela que pudesse, a fim de não levantar suspeitas acerca de suas ações dentro de sua família. Porém, agora Snape acabava de o confidenciar que havia sido sua mãe a responsável por garantir que Harry sobrevivesse, o que, por sua vez, significava a única esperança para pôr fim à ditadura de Voldemort. De repente, tudo que vivera até ali pareceu uma bela mentira. Quantas outras coisas ainda pretendiam esconder dele? Antes mesmo que pudesse impedir, a sensação de que havia sido enganado tomou conta de si.
— Você... – Draco começou a falar, numa fúria contida — Como você sobreviveu? — Agora ele começava a crer que aquilo não se tratava de um sonho e que não estava falando com um fantasma.
— Eu fugi — o homem disse simplesmente — Fui um espião por tempo demais. Quando percebi que faltavam elementos cruciais para que Potter vencesse o Lorde das Trevas e que se eu ficasse acabaria sendo morto por ele, eu fugi em meio ao caos e me escondi durante esses anos. Eu não podia morrer, minha missão não estava acabada ainda.
Na medida em que Snape falava, Draco se sentia cada vez mais atordoado. Durante o seu tempo no Ministério, e em função do contato que tivera com os demais Comensais, ele havia escutado algumas conversas insinuando que Snape havia sido um traidor. De forma que este havia sido seu segundo blefe na intenção de convencer Hermione a concordar com sua entrada na Ordem. Entretanto, particularmente, ele nunca teria suspeitado do ex-professor. Acreditava, indiscutivelmente, que Snape havia morrido durante a batalha naquela noite em Hogwarts.
Houve um breve momento de silêncio entre os dois e quando seus olhares se encontraram novamente, Draco assentiu para que o outro continuasse a falar.
— Para não levantar suspeitas, passei esses últimos anos suprimindo minha magia e me escondendo em vilarejos de trouxas, vivendo como eles — explicou, fazendo uma careta ao revelar sua situação deplorável — Narcisa estava assustada com a possibilidade de ser descoberta pelo o que fez. Mas ela estava preocupada também, especialmente com você. Ela sabia que enquanto estivessem sob o comando do Lorde das Trevas a família Malfoy estava condenada pelos erros de Lucius. Então ela decidiu continuar o que havia começado, se encarregando de me manter informado sobre os passos de Potter sempre que possível. Quando o garoto retornou ao país, ela me avisou o mais rápido que pôde. Demorou algum tempo para que eu retornasse, devido às minhas condições, e a viagem foi mais longa do que o habitual.
— Então o que você tem a me dizer é sobre Potter? — Draco interveio contrariado deixando sua decepção ser percebida enquanto falava — Eu não me interesso mais pelo o que acontece no mundo mágico. Ou por essa guerra. E agora que você retornou, pode continuar o seu trabalho. Boa sorte — completou irônico.
— Você me perguntou por que sua mãe o trouxe até aqui — Snape o interrompeu, chamando novamente sua atenção — Narcisa me disse que acha que você é o responsável pela morte de Yaxley. Parece que os anos te mudaram, você se tornou menos brando desde Dumbledore — pausou — Ela quer que eu o ajude a fugir e a se esconder.
— Hm — desdenhou — Eu posso fazer isso por conta própri-
— Mas eu tenho outros planos para você — o interrompeu mais uma vez — Tem algo que você precisa fazer — disse enquanto se encaminhava até a espada de Griffyndor, pegando-a em suas mãos.
— O que é isso?
— A espada de Griffyndor — Snape explicou — Dumbledore me encarregou de entrega-la a Harry para que ele pudesse destruir o medalhão de Slytherin — ao escuta-lo falar sobre a joia que Hermione estava disposta a proteger com a própria vida, a curiosidade de Draco foi ainda mais aguçada e sua atenção se voltou para Snape novamente.
— O que tem de tão importante nesse medalhão a ponto de precisar destruí-lo? — Questionou, deixando seu interesse pelo assunto transparecer.
— Não é mais apenas um medalhão. É uma Horcrux, uma chave para destruir ele.
Subitamente, era como se as peças daquele imenso quebra-cabeças começassem a se encaixar para Draco. Agora ele entendia por que Yaxley estava tão desesperado para consegui-lo e por que Hermione protegeria o objeto custe o que custasse. O que ele não entendia ainda era onde se encaixava em toda aquela história e por que exatamente Snape não havia conseguido entregar aquela espada a Harry, como Dumbledore havia lhe incumbido.
— Harry não conseguiu derrotar o Lorde das Trevas porque as partes de sua alma estão guardadas em objetos como o medalhão de Slytherin — o bruxo mais velho continuou.
— E por que você não o entregou a espada, como havia sido previsto?
Snape deu de ombros antes de voltar a falar novamente.
— Porque ele parou de procurar — respondeu — Harry Potter e a Senhorita Granger, eles estavam procurando por outra coisa, eu suponho. Talvez outra pessoa — ponderou — Eu não me lembro de ter visto Ronald Weasley naquela fatídica noite.
As pupilas de Draco se dilataram quando ele chegou à conclusão final. Agora parecia óbvio demais o porquê nunca chegara a se encontrar com o Weasley enquanto estava na Ordem. Era porque, diferentemente de Harry e Hermione, ele não havia forjado sua morte. Ele estava, de fato, morto. E esse acontecimento por si só havia modificado todo o curso da guerra, levando Harry e Hermione à derrota.
— Eu preciso que você assuma meu papel na Ordem daqui para frente —continuou, de forma que Draco foi finalmente capaz de entender onde ele se encaixava em tudo aquilo — E preciso que leve esta espada até a Harry em segurança.
— Receio que seja tarde demais — Draco retorquiu, recusando a proposta — Você vai ter que fazer isso por conta própria. Eu preciso ir.
Tendo dado a conversa como finalizada, o garoto fez menção para realizar uma aparatação, na intenção de deixar o antigo professor para trás. Porém, foi surpreendido quando o homem, num acesso de tosse terrível, teve que se apoiar no pequeno criado mudo de madeira que estava mais próximo de seu alcance a fim de se manter em pé. Rapidamente, Draco se aproximou de seu antigo mentor para firma-lo, impedindo que ele caísse devido a suas condições. Contudo, quando seus olhos recaíram sobre a mão que o outro homem utilizou para cobrir a boca a visão do líquido escarlate que cobria a maior parte dela o deixou sobressaltado.
— Você... me perguntou... se eu não estava morto... qu-quase — Snape murmurou enquanto se apoiava em um dos braços de Draco na tentativa de recuperar o equilíbrio, se colocando em pé novamente — Estou morrendo, Draco — continuou, enquanto recobrava a compostura — As poções já não fazem mais o mesmo efeito de antes. Eu não tenho muito tempo restante, e é por isso que eu preciso que você assuma o meu lugar. Narcisa não sabe da minha condição, mas se de alguma forma você ou ela têm esperanças de vencer esta guerra e reerguer o nome dos Malfoy, você é a única esperança.
Agora, diferentemente do que fazia minutos atrás, Draco encarava Snape com atenção e a maior parte da sua desconfiança havia se dissipado. Todavia, ainda havia tantas outras coisas cujo ele era incapaz de entender e que, contudo, eram essenciais para que tomasse sua própria decisão.
Snape parecia ter se recuperado parcialmente do súbito acesso de tosse, utilizou um pequeno lenço para limpar a boca e as mãos dos resquícios de sangue e retornou a se sentar no sofá com o auxílio de Draco. Seu rosto estava mais pálido do que antes e ele se sentia demasiado cansado, a doença estava sugando-lhe todas as forças.
— Professor — Draco o surpreendeu ao chama-lo do modo habitual pela primeira vez naquele dia — Posso te perguntar por que você decidiu se juntar à Ordem? — Inquiriu, numa curiosidade genuína.
O homem inspirou, tomando um pouco de ar enquanto ponderava sobre como deveria falar sobre o assunto. Olhando agora para sua curta vida que caminhava para o fim, questionou a si mesmo se deveria falar com seu protegido sobre as feridas do passado. Naquele momento, diferentemente do usual, Snape não mais sentia como se tivesse uma reputação a manter. Em breve estaria tudo acabado, de qualquer forma.
— Lily — respondeu, seu olhar se manteve distante, como se ele retornasse a eventos do passado enquanto falava com Draco — A mãe de Harry. Ela costumava a ser... minha amiga — completou, se virando para o outro — Ela morreu. Eu não pude evitar. Então...
— Você decidiu se tornar um espião... por causa de uma garota? — Disse incrédulo numa pergunta retórica. Pessoalmente, achava difícil acreditar que Snape havia se apaixonado por alguém. Especialmente se esse alguém fosse a mãe de Potter.
— Os pais dela eram trouxas, nós nos conhecemos quando ainda éramos crianças. Em Hogwarts, eu a chamei de sangue ruim algumas vezes. Nós fomos nos afastando — pausou, sua expressão era de alguém parecia estar perdido nas lembranças de um passado distante — Mas ela era a única amiga que eu já tive. A morte dela foi... minha culpa, de alguma forma. Me juntar à Ordem e proteger Harry foi a forma que eu encontrei para recompensar os meus erros — embora aquele fosse um assunto delicado, era impossível identificar qualquer resquício de lágrimas nos olhos do homem. Seu olhar continuava a parecer distante, perdido — Eu não posso morrer sem cumprir minha promessa — disse, por fim, quase numa súplica.
Draco o devolveu um olhar consternado. A história que Snape o contava parecia, de alguma forma, se entrelaçar com a dele próprio de tal maneira que tudo que ele conseguia pensar era em Hermione Granger. Sangue ruim. Sua única amiga.
— Você... a amava?— Ao escutar a pergunta do antigo protegido, os olhos do bruxo mais velho se viraram em direção ao garoto.
— Ela não me quis. Ela escolheu ele, James Potter — respondeu num tom ressentido, tentando suprimir em sua fala a raiva e o ciúme que guardara dentro de si por tantos anos — O pai de Potter — explicou — Saber que ele morreu junto com ela, às vezes, é a única coisa que me consola.
Draco se limitou a escutar a confissão em silêncio. Ele havia descoberto tantas coisas num período tão pequeno de tempo que definitivamente precisaria de tempo para colocar sua cabeça no lugar. E no que dizia respeito à Snape, depois daquela conversa, ele poderia afirmar, sem sombra de dúvidas, que nunca mais o encararia como o professor reservado e severo que conhecera durante seus anos em Hogwarts. Ele era um homem totalmente diferente do que Draco jamais poderia ter imaginado.
— E quanto a você, Draco? — Snape devolveu o questionamento — Por que se juntou à Ordem?
— Eu achei que ainda houvesse esperança — ponderou — Eu estava errado. E eu sou inútil como espião agora, não posso ocupar o seu lugar.
Snape pegou a espada com o cabo incrustado de rubis em suas mãos, levantando-a e fazendo menção de entrega-la nas mãos de Draco.
— E não tem nada, ou ninguém, capaz de fazer com que você retorne? — Indagou, sugestivo.
Ao escutar a fala de Snape, sentiu como se algo se revirasse em seu estômago. Ele não sabia. Não poderia saber. Então por que aquela sugestão o levava novamente para Hermione? Irritado, Draco se recusava a chegar à conclusão que se afastar dela ainda não seria o suficiente para tira-la da sua cabeça. Era como se tudo, e todos ao seu redor, propositalmente ou não, parecessem estar colaborando para leva-lo de volta para ela.
— Eu vou pensar sobre a sua proposta — respondeu segurando a espada em ambas as mãos e tentando organizar sua própria mente enquanto falava — Mas não posso garantir nada quanto a sua... promessa — acrescentou, entortando o nariz.
Snape assentiu, parecendo satisfeito com a resposta. Considerando que alguns minutos atrás Draco estava prestes a virar as costas e ir embora, sem ao menos considerar possibilidade alguma, a conversa definitivamente havia gerado algum progresso.
— Malfoy, tem mais uma coisa que você precisa saber antes de ir — Draco o devolveu um olhar de impaciência. Já estava começando a ficar exausto daquela conversa — Eu te disse o Lorde das Trevas acabaria me matando se eu ficasse. Ele acha que eu sou o proprietário da Varinha das Varinhas, mas eu não sou — pausou, àquela altura sua voz já estava ainda mais fraca que o usual, seu corpo começava a ser vencido pelo cansaço — O proprietário é você. Independente da sua escolha, eventualmente ele vai encontra-lo. Não importa por quanto tempo você fuja.
— Como... como assim? — O rapaz questionou, assustado com a revelação.
— A varinha pertencia a Dumbledore anteriormente, mas você o desarmou naquela noite na Torre de Astronomia, tornando-se seu mestre. Agora ela obedece plenamente apenas a você. E o Lorde das Trevas deseja se tornar o novo mestre para obter seus poderes completos.
Enquanto Snape falava, Draco foi assolado por uma compreensão arrasadora. Sentiu como se tivesse sido atingido no peito, estava com medo. Voldemort, muito provavelmente, em breve descobriria a localização do ex-Comensal que, devido a seu estado de saúde, encontraria dificuldades em fugir e se esconder novamente. Assim que Snape estivesse morto ficaria óbvio que ele não era o verdadeiro mestre da varinha. Então, seria uma questão de tempo até que o Lorde das Trevas descobrisse a verdade.
Hermione estava certa, ele não podia fugir.
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