Para Robin, a semana correu tão desenfreadamente que ele mal vira os dias passando. Não que seu trabalho estivesse emocionante — não estava. Frank e Regina vivenciavam uma lua de mel, e o moreno havia reduzido significativamente suas saídas, concentrando-se em fazer o máximo das negociações de seu escritório. As escapadas para a suíte do casal se tornaram frequentes e isso liberou os seguranças de atividades externas para se concentrarem em seus treinamentos. Stuart focou seu tempo livre nas lições de Muay Thai e boxe chinês. O loiro parecia obstinado e aquilo o inquietava, mas intrometer-se na vida do segurança estava fora de questão.

Para ele, tudo retornava ao acidente. Stuart não havia sido claro sobre o mesmo, e diversos fios, pequenos e minúsculos detalhes que à olho nu poderia parecer apenas leves fiapos escapando de uma bela vestimenta ficaram expostos, e Robin não era um observador à olho nu. Ele sabia como as coisas funcionavam.

Robin estava terminando uma série na cadeira extensora, erguendo o máximo de pesos de aparelho enquanto sua mente trabalhava freneticamente. Sua última conversa com Megan ocupava sua mente. Ela não estava errada; Roland sentia a falta dele. O trabalho estava ainda mais puxado, mas pedir a conta agora não era exatamente uma boa ideia. Os músculos da sua perna vibravam, estremecendo com o esforço para subir a carga. Ele fechou os olhos e segurou na borda do assento, forçando a si mesmo até atingir seu limite. Quando a dor se tornou enlouquecedora, ele parou, respirando fundo e descompassadamente.

Quando ele abriu os olhos, ela estava na sua frente.

“Oi.”

“Regina.”

Ele levantou-se do aparelho e passou a toalha sobre o mesmo, evitando marcas de suor. “Já estou de saída.”

“Você não precisa.” Respondeu ela, afastando-se apenas um passo e observando-o.

“Ele está na casa, Regina.”

Robin sequer a olhava nos olhos; parecia incomodado com a sua presença e aquilo a deixou inquieta. “Robin, por que está agindo assim?”

Ele mordeu o interior da bochecha, acalmando sua respiração. Não pretendia ter essa conversa com ela, não tão cedo; mas ali estava Regina, encarando-o como se estiverem resolvendo uma equação absurda e ele fosse o quadro negro. “Eu só estou tentando evitar uma situação ruim. Frank não vai gostar de ver você aqui com essa roupa e eu sem camisa, como amigos de infância batendo um papo íntimo. Ainda mais agora.”

A entonação dele chamou sua atenção. Regina franziu as sobrancelhas, uma das mãos na base da sua cintura. “O que você quer dizer com isso?”

Robin sorriu com ironia. “Vocês estão transando, Regina. Se ele já era ciumento a seu respeito antes, isso não vai diminuir agora. Muito pelo contrário.”

Ele percebeu a leve mancha na base do pescoço dela. A ideia por trás daquilo era nauseante para ele. Decepcionante em sua plenitude. Pensou em como ela seria com ele. Será que ela gemia da mesma maneira que gemia quando Robin deslizava a boca e os dedos entre suas pernas? Será que ela cravava as unhas nas costas dele com a mesma intensidade que fazia quando Robin estava estocando nela freneticamente? Robin sentiu-se amargurado. Era só o que ele teria de Regina Mills Delfino. Trepadas intensas em lugares escondidos, às pressas, saciando necessidades e ocupando o espaço vago deixado por outro homem. Era Frank quem a levava para o mundo afora. Era ele quem a guiava, quem a rodopiava nas pistas de dança, quem a abraçava em público, quem podia entrelaçar seus dedos aos dedos dela enquanto caminhavam na rua. Era Frank quem tinha o direito de beija-la embaixo do visco na noite de Natal. Ele não tinha nada disso. Ele sequer possuía o coração daquela mulher. E jamais possuiria. Regina continuava apaixonada por Frank, e agora ela tinha tudo o que queria daquele relacionamento.

O coração dela parecia bater de maneira gradativa. Ele estava em silêncio, e ela se perguntou o que ele estava pensando, considerando que o rosto dele se fechou como se uma nuvem negra tivesse pairado sobre os cabelos loiros. Por um momento, tudo o que ela quis foi diminuir aquela distância, passar os braços ao redor da cintura dele e abraçá-lo. “Robin?”

A voz dela parecia tê-lo despertado do transe. “Robin eu… Eu posso ver você fora daqui? No loft?”

Sua primeira reação seria fechar os olhos e respirar fundo, mas ele não queria fazer com que ela se sentisse mal por simplesmente fazer uma pergunta. Mas doeu. A confirmação de que era isso o que Regina queria dele — sexo, nada mais do que isso — o atingiu com força. E contra todas as probabilidades, ele havia sido o primeiro a se apaixonar. Ele é quem não conseguia pensar em compartilhar uma mulher como ela. A passar as noites em sua cama, pensando nela enquanto ela transava enlouquecidamente com outro. Ele não era um santo e ele não podia exigir nada dela, mas também não podia mais aceitar aquilo.

“Nós não podemos mais fazer isso, Regina.”

Surpresa apoderou-se dela instantaneamente. “Por que não?”

Ela respondeu com tanta rapidez que ele precisou de segundos para acompanhar seu próprio raciocínio. Então ele fez o impensável. Deixou seus instintos comandarem a situação e mentiu. “Eu estou com a Megan agora. Não seria justo com ela.”

A babá. Desgosto atravessou suas papilas gustativas, e ela engoliu lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Ela não deveria estar se sentindo assim, deveria? Ela não deveria se importar com os relacionamentos dele. Nada disso deveria estar acontecendo. “Você disse que não sentia nada por ela.”

“Você deu uma segunda chance ao seu casamento e isso me fez pensar sobre ela. Sobre dar uma chance a ela. Roland a ama, e isso facilita bastante. Vai ser importante para ele ter uma presença feminina em casa.”

Sua mente gritava para que ele calasse a maldita boca. Ele havia mergulhado de cabeça em um penhasco de mentiras, apenas para não assumir que não aguentaria vê-la com outro homem. Que ele se apaixonara por ela. Regina parecia chocada, encarando-o em silêncio. Não somente chocada, mas ele identificou algo em seu olhar. Por mais que ela tentasse segurar as emoções, aquele olhar entregava o quanto aquela notícia havia lhe ferido. Robin entendera aquela reação erroneamente — para ele, Regina estava triste por ter perdido seu brinquedinho. Ela não estava acostumada a perder, o que quer que fosse.

“Bem… Parabéns. Aos dois.” A voz dela estava longe de exalar sinceridade. Trêmula e baixa, ela revelava justamente o contrário. Ele sorriu, evitando seus olhos.

“Obrigado.”

Regina virou-se, prestes a sair quando Robin delicadamente passou os dedos ao redor do delicado pulso, segurando-a. “Regina.” Ela mordeu o lábio ao ouvi-lo pronunciar seu nome. “Isso não quer dizer que não podemos… ser amigos. Não me afaste.”

“Eu não sou capaz disso, Robin.” Respondeu ela, sorrindo embora ele pudesse ver o brilho das lágrimas cintilantes na borda de suas pálpebras. Caminhando até ele, ela deslizou as pontas dos dedos pela lateral do rosto másculo, sentindo a maneira que a barba eriçava a base da sua palma. Ele permanece imóvel, os olhos azuis fixos nos olhos castanhos. Regina debruçou-se e observou-o fechar os olhos; ela beijou-o no canto dos lábios, um beijo casto, doce e ao mesmo tempo provocativo. “Ela é uma mulher de muita sorte.”

Quando ele abriu os olhos, ela ainda estava tão próxima dele que ele podia sentir a respiração quente e suave. O contato visual nunca fora quebrado. “Posso fazer uma pergunta, Robin?”

Ele acenou, a cabeça subindo e descendo em um gesto de confirmação. Ela deslizou o polegar pela maçã do rosto dele, acariciando-o. Não sabia como perguntar aquilo. Ninguém chega em outra pessoa e simplesmente pergunta: Você matou sua ex mulher? Mas talvez, ela não tivesse intimidade para perguntar no futuro e a resposta daquela questão precisava ser encontrada diretamente na fonte. “Você…” Os olhos dele a desestabilizaram. “Eu não sei como, god, isso é tão difícil.” Ele sorriu docemente, tocando a base de seu queixo.

“Pergunte, Regina.”

Ela resolveu ser direta e puxar o band aid de uma vez. “Você foi o responsável pela morte da sua ex mulher?”

E no instante seguinte, desejou nunca ter feito aquela pergunta. A maneira com que Robin afastou-se dela foi imediata, uma interrupção abrupta. Ele a encarou como se ela tivesse lhe enfiado uma faca nas entranhas. Talvez porque ele soubesse que esse assunto viria à tona, cedo ou tarde, mas ouvir aquelas palavras vindo dela era ainda mais potente. Regina continuou encarando-o, tentando entender aquela reação tão límbica.

“Eu nunca disse que era uma boa pessoa, Regina.” Desculpou-se ele, afastando-se dela e colocando a toalha sobre o ombro. Pelo canto do olho percebeu que Regina ainda não havia se movido, mas não conseguia mais pensar em outra coisa que não fosse sair dali. Enfiou-se na camiseta com pressa e colocou a bolsa sobre o ombro. Sua cabeça doía, latejando em um ritmo extenuante e Robin afastou-se, caminhando na direção da porta. Mas ele se deu conta de que ela o estava observando, imóvel, esperando a resposta que mudaria tudo entre eles. Robin parou na porta, e olhou por cima do ombro, sem nivelar seu olhar ao olhar dela. “A resposta para a sua pergunta é sim, Regina. Foi eu.”

As lágrimas que ela estava segurando com todas as suas forças desceram pelo seu rosto enquanto ela observava Robin afastando-se para o corredor externo.

***

Arthur colocou a caixa de cereais coloridos em seu carrinho do supermercado. Apesar uma suave ponderação sobre o item que Violet rabiscara de lápis no final da lista, ele decidiu que ela tinha sido bastante cooperativa nos últimos dias e merecia uma gratificação. Sorrindo, virou o carrinho na direção das prateleiras dos leites mas sentiu o impacto de ter batido em outro carrinho.

“Será que você é cego?”

Ele parou imediatamente quando viu quem havia proferido aquelas palavras. “Cora.”

A mulher encarou-o por alguns segundos como se visse um fantasma. Segundos depois, sem dizer uma única palavra, largou o carrinho e saiu na direção oposta, intencionando sair do estabelecimento. O moreno fez a mesma coisa. Deixou o carrinho para trás e correu atrás dela, segurando-a delicadamente pelo antebraço.

“Cora, por favor.”

Ela encarou-o com o rosto impassível, os lábios formando uma linha de indiferença. “O que você quer, Arthur?”

“Eu não sabia que você estava de volta.”

“Bem, não foi anunciado no New York Times.” Rebateu ela, os olhos fixos onde ele a tocava.

“Cora, me dê um minuto, por favor.”

“Devo contar no relógio?” Sibilou ela, mas ele não respondeu. Apenas suspirou, olhando em volta enquanto aflição era espalhada por seu semblante. “Arthur, o que passou, passou. Tem coisas que são melhores como estão.”

“Eu não acho. Eu nunca tive a chance de me explicar. De contar a minha versão dos fatos.”

“E que versão seria essa?” Ela desistira da imagem ferida e adotara uma abordagem mais agressiva, ou ressentida. “A versão onde você me seduz por diversão para que minha filha mais velha possa rir da minha cara? A versão onde sou humilhada por acreditar em você? Se é essa, eu agradeço, mas não tenho interesse.”

“Você acha que foi fácil para mim, não é? Que eu não tinha nada a perder. Pois eu tinha, Cora. Eu não fiz o que deveria ter feito porque me apaixonei por você. E isso me custou caro.”

Cora fitou ao redor; estava discutindo um relacionamento com um homem consideravelmente mais novo que ela no meio do supermercado. Mais precisamente na frente da prateleira de produtos de limpeza. Embora a maioria das pessoas estivesse alheia ao seu drama pessoal, ela ainda notara um ou outro olhar curioso lançado na direção deles.

“Ou você acha que o que aconteceu com Violet foi um acidente mesmo?”

As sobrancelhas dela arquearam-se e ela encarou-o, fitando os olhos azuis. “Essa é uma acusação muito séria, Arthur.”

“Não é uma acusação, Cora. É uma afirmação. E se você quiser saber o resto, vai me permitir contar a minha versão da história. É pegar ou largar.”

Ela segurou o lábio inferior entre os dentes enquanto pensava no que fazer. Precisava saber quem havia feito aquilo com a garota e a troco de quê. Resignada, fechou os olhos e respirou fundo. Quando os reabriu, encontrou um Arthur apreensivo e inquieto.

“Tudo bem. As 20h. Na minha casa. E não se atrase.”

Não houve espaço para resposta. Cora simplesmente lhe deu as costas e foi caminhando na direção da saída.

***

Robin não sabia que horas eram, e nem se importava. Felizmente, Megan ligara e dissera que Roland havia sido convidado para uma festa do pijama na casa dos Thompsons e com isso, ele dera ao pai carta branca para se afundar em bebida e voltar para casa bêbado.

Afinal, ele havia estragado tudo. Dispensara a mulher que amava e logo em seguida a decepcionara pela segunda vez. Parabéns, Lockhood. Temos um novo recorde.

Serviu-se de mais um gole do licor de laranja Grand Marnier. Já havia bebido três long beers de confecção local e estava ligeiramente aéreo, mas o olhar de Regina ainda estava nítido em sua mente. Ele a havia decepcionado de maneiras irreversíveis. A iluminação baixa veio a calhar, suavizando seu estado. Escolhera uma das mesas solitárias no corredor do Pub Dog, um pub boêmio muito conhecido pelas pizzas gourmet e as cervejas artesanais que ofereciam. A parede ao seu lado era revestida de uma base que parecia um balcão de madeira branca e a parte de cima criava o contraste perfeito com seus tijolos alaranjados e os quadros decorativos com molduras escuras. O mobiliário, mesas sofisticadas que combinavam com a cor da moldura e bancos que seguiam a mesma paleta criavam a harmonia perfeita para o lugar. De onde estava, ele podia ver perfeitamente a escada de madeira que servia de acesso ao terraço e quando ele a avistou, revirou os olhos e torceu para estar errado.

“Lockhood.”

“Bishop.” Resmungou ele, bebendo outro gole do licor. A loira puxou um banco e sentou-se à mesa com ele; acenou para a garçonete que trouxe mais um copo e serviu-se do licor como se houvesse sido convidada. “Eu estava bebendo sozinho e gostaria de continuar assim.”

Ela bebeu o licor de uma só vez. “Uau. Esse negócio é bom.”

“Saia da minha mesa, Bishop.” A voz dele soou fria e distante. Será que ela não podia deixa-lo em paz? Ele estava na bosta e definitivamente não precisava de mais empurrões.

“É um assunto do seu interesse. Tem certeza que não quer ouvir?”

Ele riu. “Você é dura na queda, Margot. Fale logo o que têm.”

“Seu amado chefe tem feito perguntas por aí sobre o seu passado e eu tenho quase absoluta certeza de que isso está sendo feito sem o seu consentimento.”

Os olhos dele ganharam um brilho diferente, e ele colocou a mão sobre a dela. Diferente do que ela imaginava que seria, o toque dele era macio. Suave. Calmo. “Explique isso direito.”

“Ele enviou aquele seu colega, Donovan, para invadir o Centro de Dados do FBI e conseguir um dossiê sobre você. Eu não sei porque isso é tão importante para ele, mas eu no seu lugar tomaria cuidado.”

Robin soltou a mão dela e passou os dedos pelo cabelo, respirando audivelmente. Sua cabeça voltou a latejar novamente.

“Ele quer saber sobre o incidente da SWAT.”

“Não é da conta de ninguém.” Rebateu ele quase que imediatamente, um tom obscuro e rouco se apossando da sua voz. Ele ergueu o olhar e encarou a mulher sentada à sua frente. Os cabelos loiros estavam ondulados, e ela usava um vestido preto sem mangas com um decote generoso coberto por um tecido transparente. Percebeu que ela o encarava de volta, mordiscando a borda do copo distraidamente. “Qual é seu interesse nisso, Bishop? Conheço o modus operandi da Kensington. Você não faz nada que não a beneficie de alguma forma, então responda: o que ganha me ajudando?”

Ela riu. “Meu alvo é Regina. E você é de extrema importância para ela, então considere-se um adendo na equação. Eu quero derrubar Frank Delfino e sem ela isso não será possível. E sem você, ela não irá cooperar.”

“Você perdeu o trem, loirinha.” Zombou ele, virando mais um gole do licor. “Eles voltaram. Estão felizes e trepando como um casal de coelhos. Ela não vai ajudar você a derrubá-lo.”

Margot riu, parecendo pessoalmente deliciada com aquela notícia. Era quase como se ela esperasse algo assim e Robin sentiu-se inquieto. O que ela sabia que ele não sabia? “Isso não altera em nada meus planos.”

“Você que sabe.” Respondeu Robin, sacudindo os ombros em indiferença.

Ela sorriu abertamente, e levantou-se. Ele achou que ela iria sair, mas surpreendeu-se quando um par de mãos femininas o virou no banco. Robin estava agora na frente dela, e ela aproximou-se, sentando-se no colo dele com as pernas na transversal das pernas dele. “Você sabe…” Ela deslizou as unhas pelos braços dele, arranhando a pele. Robin fechou os olhos, encostando a cabeça na parede atrás deles. “Eu sempre quis saber como você é…” Ela debruçou-se, roçando os lábios no maxilar dele, contornando a linha do queixo dele antes de mordiscar o lábio inferior. “Entre quatro paredes.”

Margot deslizou as unhas pelo pescoço dele, beijando-o na clavícula, subindo pelo pescoço, até alcançar o lóbulo da orelha dele. Puxou a cartilagem com os dentes antes de envolvê-la com a língua. Ao ouvi-lo suspirar, ela soltou. “Você acha que Regina se importaria?” Sussurrou ela, sorrindo.

Segundos depois, Robin a prensou contra a porta do banheiro, os lábios atacando o pescoço macio enquanto mãos percorriam o corpo alheio como colonizadores desbravando novas terras. Aquele não era o gemido certo, o gosto certo, o perfume certo. Mas assim que o nome dele escapou por entre os lábios da loira, ele descobriu que não se importava. E pela maneira que ela gemia descontroladamente a cada vez que os dedos dele a penetravam com força, ele tinha certeza que ela também não.