Efeito Dominó

29 No olho do furacão


Regina virou o rosto para o lado e observou Frank dormindo tranquilamente. Ele não costumava dormir muito, mas isso parecia ter melhorado a partir do momento que haviam tomado a relação. Suspirou, enquanto seus olhos voltavam para o teto revestido de gesso dinamarquês e sua mente trouxe de volta o assunto que não saía da sua cabeça.

Robin.

Ele a havia pego de surpresa. Não somente pelo relacionamento com a babá, ele deveria esperar por isso, ele era solteiro, ela era solteira e eles passavam muito tempo juntos como família; mas pela confirmação que ele lhe dera. Ela não podia acreditar que ele era um assassino. Não fazia sentido. É certo de que não sabemos nada do outro e as aparências enganam, mas ela não poderia ter errado tanto. Em nenhum momento ele demonstrou o tipo de quebra de caráter que ocasionaria um passado de homicídios; ele sempre demonstrava respeito, confiabilidade, lealdade. Mas nada justificaria tirar a vida de outra pessoa, ainda mais da mãe de seu filho.

Talvez fosse melhor manter as coisas assim. Megan era realmente a melhor escolha para Roland.

Levantou-se, certificando-se de não acordar o marido e caminhou até o closet. Encostou a porta, pegou o celular e mandou uma mensagem para o corretor, pedindo para que colocasse o loft à venda. Não faria sentido manter esperanças.

***

Deitado na cama, Robin fitava o teto de seu quarto. Megan estava deitada ao seu lado, a cabeça em repouso na altura da sua caixa torácica, dormindo suavemente. Ele não sabia o que estava fazendo. Tudo começara como uma simples mentira para causar algo em Regina. Mas ele sabia que no fundo, era verdade. Ele precisava esquecê-la, precisava pensar em seu filho e no futuro deles — um caso extraconjugal não era a melhor das opções.

Megan, como sempre, fora mais do que compreensiva. Ela entendia como ele se sentia, e garantiu que ela aceitaria o ritmo ditado por ele desde que a base do relacionamento fosse honestidade. Robin fechou os olhos, pensando em quão errado ele começara. Não podia contar a ela que transara com Margot Bishop no banheiro de um pub naquela mesma noite; o segredo morreria com ele. Afinal, ela era sua amiga e a última coisa que ele queria era machucá-la.

Ele só queria esquecer Regina. Esquecer as coisas que ela o fazia sentir; esquecer as emoções borbulhantes que ela causava nele ao olhar em seus olhos ou ao tocar gentilmente sua pele. Ouviu Megan suspirar e ela apertou ainda mais o braço ao redor da cintura dele, fazendo-o sorrir.

Robin fechou os olhos e o sono o embalou.

“Por que você tem que ir, Robin?” Perguntou ela, os olhos castanho-escuros brilhando enquanto ela caminhava pelo quarto recém pintado, a mão esquerda acariciando a protuberância em seu abdômen.

“Marian…” Ele caminhou na direção dela com passos suaves. Ela podia ver no reflexo dos olhos azuis a preocupação dele e odiava-se por sentir-se tão frágil. Robin deslizou a mão por seu cabelo, colocando uma mecha para trás da orelha e revelando o rosto que ele tanto amava. “Eu prometo que vai ser por pouco tempo. Eles disseram que é uma missão curta.”

“Eles sempre falam isso.” Resmungou ela e ele sorriu, puxando-a para si e beijando-a com ternura.

“Eu amo você. Você sabe disso. Tudo que eu mais queria era ficar aqui e esperar pela chegada do nosso pequeno.”

“Mas…” Suspirou ela, colocando as mãos sobre as mãos dele e segurando-as ali.

“Mas alguém precisa sustentar a casa, meu amor. Eu não quero que você tenha outra preocupação a não ser cuidar do nosso filho. Deixe o trabalho árduo para mim.”

Marian circulou a cintura dele, abraçando-o e deitando a cabeça em seu ombro. “Você ao menos gostou do quarto?”

Ela riu. “É claro que gostei, seu bobo.”

Robin havia instalado um painel vazado de flechas, que refletia uma luz verde quando a luz principal era apagada. Rodapés de madeira branca destacavam as paredes pintadas em amarelo claro, os quadros com a raposa do desenho Robin Hood decorando o ambiente. Tudo estava pronto, os mobiliários locados, as decorações moldadas. Só faltava o pequeno bebê.

Robin entreabriu os olhos, respirando fundo. Lágrimas ameaçaram sair e ele engoliu sua reação. Fechou os olhos novamente, o maxilar rígido e tenso.

“Eu não acredito que isso está acontecendo!” Gritou ela, com Roland embalado em seu colo. Ela estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo, jeans e uma regata.

“Agora não.” Sibilou ele.

“Robin, o que foi que você fez? Você vai para a cadeia, eu vou ficar como? Será que você pensa no que fez? Você matou pessoas, Robin.”

“E eu ainda não acabei. Fique fora disso.” Respondeu ele, apontando o dedo na direção dela. Marian fitou o marido, o rosto repleto de pequenos cortes. Havia um hematoma gigantesco na base do pescoço dele, e o braços tinham queimaduras. Robin havia retornado outra pessoa. Era como se uma parte dele houvesse morrido, retirando seu equilíbrio.

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. “Robin, por favor.”

“Eu pedi para você ficar fora disso.” Replicou ele e ela podia sentir o ódio em suas palavras. Um ódio que ela sabia não ser direcionado a ela, mas que era palpável, denso, prostrado entre eles como um elefante de porcelana branco.

“O que aconteceu naquela missão? O que aconteceu com você e Johnnie?” Questionou ela, apreensiva.

Robin respirou fundo, e flashbacks cruzaram a sua mente. A lembrança dele carregando o corpo de seu melhor amigo nas costas voltou com intensidade e ele arremessou um copo contra a lareira, fazendo labaredas subir e descer. “John está morto, Marian.” Respondeu ele, a voz tornando-se incrivelmente baixa e séria. “Assim como todos daquela unidade estarão quando eu acabar.”

***

“Como está Regina?”

Stuart ergueu a cabeça e encontrou o olhar inquisidor de Mellie. “Bem.” Respondeu, abraçando a inútil esperança de que ela aceitaria aquela resposta.

“Bem o que? Responda direito à sua tia.”

Ele abriu um sorriso tímido. “Regina está bem, tia. Ela e Frank estão se entendendo novamente, e ela não tem saído de casa. Não há muitas novidades.”

Mellie sentou-se ao lado dele com a taça de vinho em mãos. “Como assim se entendendo?”

“Você sabe. Usando a cama para outras coisas além de dormir.”

Oh. Mellie não esperava por isso; não depois de tantas conversas com a empresária. Aquilo não fazia parte dos planos e ela perguntou-se se Bishop sabia disso. “É, para dizer o mínimo, decepcionante.”

“Eu prefiro não comentar.” Rebateu ele, olhando na direção dos próprios pés.

“Deveria.” Ela bebeu outro gole. “Ela realmente gosta de você. Frank Delfino é perigoso, até mesmo para ela.”

“Por que diz isso? Você o conhece?”

A senadora arqueou uma das sobrancelhas, pensativa. “Eu sei de algumas coisas.” Respirou fundo e colocou a mão sobre o braço de seu sobrinho. “Mas enfim, como está Ruby? Quando vamos ser devidamente apresentadas?”

“Ela está ótima.” Ele sorriu, os olhos brilhando com amor. “Ela pediu demissão da Apple’s Queen e entrou em uma firma de advocacia.”

“Foi uma decisão inteligente.”

“Sim.” O loiro bebericou seu café que já havia perdido muito de sua temperatura inicial. “Zelena estava lhe tirando do sério. Ela está bem mais leve desde que saiu de lá. Menos estressada também.”

“E vocês?”

Ele fitou a mulher à sua frente, mordendo o lábio inferior. Mellie percebeu que ele estava pensativo. “Oh my god. É um pedido de casamento vindo por aí?”

“Você é inacreditável!” Xingou ele, sentindo-se impotente por não conseguir guardar um segredo dela. Ele não se importava realmente, sua tia era uma das pessoas que ele mais adorava no mundo e sabia que ela estava torcendo por sua felicidade.

Ela gargalhou, inebriada por aquela sensação e pela felicidade de Stuart. “Você já comprou as alianças? Você decidiu como vai ser o pedido? Já tem uma data? Ou você vai decidir na hora?”

“Eu e minha grande boca.” Lamentou ele, e ela deu um tapa em seu braço.

“Stuart Grant. Você quer que eu ligue para Regina?”

“Pelo amor de Deus, não. Eu vou responder tudo.” Respondeu ele rindo.

Pacientemente, Stuart começou a explicar seus planos sob o olhar atento de sua tia. Explicou sobre a aliança, sobre as diversas maneiras que pensava em fazer o pedido, e até mesmo sobre suas dúvidas futuras, sobre perguntar à sua namorada se eles poderiam mudar da casa que uma vez fora o lar dela com o ex namorado. Mais tarde, Olivia juntou-se a eles, trazendo outra garrafa de vinho.

***

Zelena estava feliz. Era a segunda vez que ela se encontrava com David Nolan. O primeiro encontro havia sido totalmente diferente do que ela esperava; e ela nem sabia o que esperava. A ideia de conhecer um doador para a sua fertilização in vitro era nova e inquietante, mas ele facilitou tudo. Ela sabia que ele era bonito, o dossiê a respeito dele era bastante justo. Mas pessoalmente era ainda melhor. Ele sabia conversar, ele era cavalheiro, ele era interessante.

E o bônus era que o interesse parecia ser mútuo. Uma leve tensão alojou-se entre eles. Sentados ali no canto da rotisseria, eles pareciam um casal. David bebia seu café escuro, vestindo uma camisa social rosa que o deixava ainda mais atraente; Zelena usava um vestido verde esmeralda, os cabelos soltos, bebendo sua xícara de chá de cranberry com camomila.

No primeiro encontro, ele fora bastante enfático sobre suas intenções. O intuito dele era ajudar, pois ele sabia que muitas mulheres desejavam ser mães sem a interferência da figura paterna. Ao mesmo tempo, ele não queria que seu esperma fosse espalhado por aí e acordar um dia com treze filhos batendo à sua porta. Ele havia se candidatado à uma única doação e o destino os havia entrelaçado.

É claro que David tinha curiosidade. Zelena Mills era extraordinária. Linda, sensual, bem-sucedida. Ele se perguntava quem é que não gostaria de ser o pai dos filhos dela. Talvez fosse a escolha dela, uma criação unilateral. “Você está pensando alto.” Rebateu ela e ele sorriu.

“Preso em flagrante.”

“Você está repensando?” A voz dela soou mais frágil, e foi fácil para ele identificar o receio no rosto delicado.

“Não, não.” Assegurou ele, pousando sua mão sobre a dela. Ele abriu um largo sorriso e ela relaxou. “Eu só queria fazer uma pergunta, mas não sei se já temos intimidade suficiente. Eu não quero afugentar você.”

“Você não vai me afugentar, David. O que quer saber?”

“Porque decidiu fazer isso sozinha. Você é linda. Tenho certeza que há muitos homens que adorariam preencher a vaga.”

Zelena olhou ao redor. Dois adolescentes dividiam um milk-shake de maneira juvenil e apaixonada. Ela suspirou, e voltou a estabelecer contato com o homem que a assistia com curiosidade. “Porque eu já cometi muitos erros, e eu não quero que essa criança se torne mais um. Eu estava apaixonada pelo marido da minha irmã e eu sei que ele não se importaria, mas eu não posso fazer isso com ela. Regina não merece. Já é errado o suficiente eu ter feito o que fiz, e ter me envolvido, mas isso precisa parar. Eu quero ter um filho e criá-lo com amor, não ressentimento.”

David acompanhou tudo, balançando a cabeça e indicando que ela continuasse. “Eu sei que não é uma história bonita. Se você quiser recuar agora, não vou culpá-lo.”

“Na verdade, eu quero mudar os termos.” Ele a encarou com o semblante sério e ela suspirou, resignada. “Eu quero levá-la para jantar. Como um encontro.”

“Que?”

“Isto, é claro, se for do seu interesse.”

“É.” respondeu ela prontamente, ainda tentando entender o que havia provocado essa reação da parte dele. David era uma companhia interessante e se ele insistia, nada a impedia de aceitar.

Sorrindo, ele terminou seu café e sorriu. “Sexta está bom para você? Às 19h?”

Zelena consentiu, sorrindo como uma adolescente. Ele a fazia sentir-se assim. “Posso perguntar para onde iremos?”

“Não.” Ele sorriu. “Isso vai estragar a surpresa.”

“E como vou saber o que vestir?”

“Você é linda com qualquer roupa e eu desconfio que até sem elas.” Flertou, deliciando-se com o fato de que as bochechas da ruiva ganharam um tom corado. “Use o que quiser.”

“Então o que posso dizer à agência? Digo que ainda estamos discutindo detalhes?”

“Sim. Só peça mais alguns dias até resolvermos tudo.”

Ela consentiu, e ele continuou o assunto, falando a ela sobre a galeria de arte que visitou em Novosibirsk. Zelena sentiu uma leve pressão no abdômen, típica da ansiedade que sentia. David era incrível e ela esperava que dessa vez, as coisas dariam certo para ela. Pelo menos uma vez na vida, desejava que a maré não se voltasse contra ela.

***

Frank abriu as plantas do novo shopping center. A ideia do cassino submerso abaixo do estacionamento era particularmente brilhante. Acesso discreto e sucinto, entrada e saída sem câmeras. As portarias eram o único controle, mas automatizadas através de cartões magnéticos previamente cadastrados, dispensava interação humana. Respirou fundo e pegou o copo do conhaque na ponta da mesa, bebendo um gole longo e generoso.

Acima dele, havia uma pasta azul com uma etiqueta branca colocada por cima. O dossiê Lockhood. Mas assim como Donovan, fora uma perda de tempo. Não havia nada de obscuro, suntuoso, pecaminoso ali. Somente registros do que Robin Lockhood podia fazer em um acesso de ira e isso ele já havia testemunhado com os próprios olhos no México. As autópsias de alguns oficiais eram bastante sangrentas; ossos e ossos triturados, traumas, hematomas gigantescos e impressionantes. De outros, havia certa gentileza. Mortes rápidas, algumas de maneira indolor, algumas quase que clinicamente efetuadas.

Frank nunca tivera real curiosidade em quem era aquele homem. Era seu empregado, seu segurança e por anos mostrara um comportamento impecável. Até socar outro homem na direção do coma por traumatismo craniano. Esse homem, a besta visceral que ele só ouvira rumores e boatos, este era um homem desconhecido para ele. Frank Delfino não lidava bem com o desconhecido.

Abriu a gaveta trancada e retirou uma lista, caminhando de um lado para o outro da sala, observando os números de telefone e as anotações de seus empregados. Aquela era a lista de telefones discados e ligações recebidas no celular de sua esposa. As anotações revelavam o que sua mente tinha dificuldade de aceitar: nada fora do normal. Todas as ligações eram entre família, amigos e profissionais checados por ele pessoalmente. Nenhum número diferente, restrito, bloqueado.

Lembrou-se das palavras de Ruan, sussurradas no último encontro deles. Se eu fosse você, ficaria de olho nessa bela esposa que tens.

Aquela frase o inquietou desde então. O tom de voz do chileno não lhe dera nenhuma pista sobre as intenções por trás daquelas palavras. Ele estava elogiando ou alertando? Ele tinha visto algo? Ele sabia de algo? Ou o filho da puta só estava tentando foder com a sua mente?

Regina mal havia saído de casa desde que eles retornaram da breve viagem. Ela não resistira a nenhuma investida e vez por outra tomava a iniciativa em despi-lo e jogá-lo contra a cama macia. Ou contra a mesa do escritório ou mesmo a parede do banheiro. Sorriu. Ela parecia bastante satisfeita, entregue e submissa; e ele não tinha motivos para desconfiar dela, mas bem, ele era Frank Delfino. Desconfiança era seu carro chefe.