Efeito Dominó
1 Ferrari
O caminho de volta para casa fora silencioso, exceto pela música que ecoava vindo do rádio frontal que mantinha o motorista atento. Regina manteve os olhos nas árvores, o vento forte que sacodia suas copas. Odiava aquela limusine. Imaginava quantas mulheres seu próprio marido havia colocado ali e toda sorte de atos libidinosos que havia realizado naqueles bancos de couro.
Virou-se para fita-lo. Ele digitava algo no celular, ignorando-a completamente. Não lhe surpreendia — na maior parte do tempo Frank estava ocupado com seu trabalho, com Annalise e por fim, com suas amantes. Perguntou se porque aceitava aquela vida. O seu problema nunca fora dinheiro; era a herdeira majoritária da Apple's Queen e o império construído por sua família era incontestável. De certo modo, ela o amava. Ou amava o rapaz que conhecera há anos atrás, mas que mudara tanto que parecia irreconhecível.
Respirou fundo e recostou-se ainda mais contra o acolchoado banco, e fechou os olhos. Sequer conseguia se lembrar da última vez que ele a tocara sem ser na frente das pessoas com quem trabalhava. Era essa a sua função na vida dele, uma esposa perfeita para ser apreciada em público, vendendo a imagem errônea de casal feliz. Qualquer pessoa lhe diria para deixá-lo. Mas a cicatriz que partia o lado direito de seu lábio superior tornara-se um lembrete constante da única vez que ela tentou fugir.
Se ele realmente a amava, era com uma particularidade doentia de ciúmes e obsessão, combinada com uma indiferença que a congelava. O motorista estacionou e Frank saiu, deixando-a para trás. Ela observou-o se distanciando nas escadas de mármore branco, perdida em seus pensamentos. Sentiu uma brisa gelada contra seu como descoberto pelo vestido de gala que usava e se deu conta que o motorista havia aberto a porta para ela. Saiu, e fitou o homem que olhava para o chão.
“Obrigada, Ralph.”
“Às suas ordens, Sra. Delfino.”
Engolindo toda a sua mágoa encarou a grande mansão pintada na cor creme antes de começar a subir os degraus. Não se cansava da elegância de sua casa, mesmo que aquilo não lhe adicionasse nada de importante. Frank adorava os adornos de ouro maciço em contraste com as paredes brancas e todo o saguão possuía obras de arte e esculturas escolhidas por ela ao longo dos anos. Sua preferência pelo surrealismo era notável, se não a prevalência das obras de Salvador Dalí. Subiu as escadas cobertas pelo carpete italiano e se dirigiu à suíte principal.
Ao entrar no quarto, observou Frank na varanda ao celular, o cheiro do cigarro mexicano gradativamente presente. Ela caminhou até o closet e tirou os sapatos devolvendo-os ao lugar que pertenciam. Virou-se para o seu reflexo e com cuidado desceu o dedo pelo zíper lateral, desvencilhando-se do belo vestido acetinado. Uma lingerie branca revestia seu corpo, assentando contra sua pele macia. Ela continuou admirando seu reflexo e perguntando-se porque Frank não a desejava. Seu corpo beirava à perfeição estética, seios fartos, o quadril em uma largura farta e simétrica, o abdômen liso e delineado. Sua pele macia e sem marcas que faria qualquer homem endurecer por antecipação. Qualquer homem, menos o seu marido. Ela sabia o quanto era atraente e desejável para outros homens; ela se sentia avassaladora em suas delicadas lingeries — mas ainda assim completamente negligenciada.
Ele parou na entrada do closet e fitou o corpo dela, e quando ela o encarou de volta, ele não esboçou nenhuma reação. Havia algo nos olhos dele que era tão gelado como os lagos da British Columbia no inverno. Algo sem vida, inanimado e muitas vezes obscuro. “Eu vou ao escritório. Não me espere.”
“Me poupe das mentiras. Nós dois sabemos que você está indo atrás daquela estudante.”
Uma das sobrancelhas dele arqueou-se, talvez duvidando que ela tivesse mesmo tocando naquele assunto. Regina suspirou e caminhou até outra arara de roupas, retirando um baby doll preto. Ouviu-o resmungando algo, mas não deu atenção. Levou às mãos ao fecho e deixou que o sutiã caísse, sem se importar com o olhar dele sobre seu colo desnudo. Ele permaneceu instantaneamente hipnotizado por seus seios, mas pareceu retomar a sobriedade quando ela o cobriu com a peça escura. Ela tentou atravessar de volta para o quarto, mas Frank colocou um dos braços no caminho, impedindo-a de passar. “Não me provoque, Regina.”
“Laurel está esperando. Não vá se atrasar.” Respondeu, o desprezo escorrendo de cada palavra. Permaneceram em silêncio, um duelo visual, até que ela deslizou os dedos por cima de sua calça, segurando seu membro por cima do tecido. “Eu honestamente desejo que quando estiver na cama com ela, não consiga parar de pensar em mim.”
Ela conseguiu afastar o braço dele e saiu do closet. “Eu odeio você.” Sibilou ele, e ela não se deu ao trabalho de virar-se para responder.
“Se odiasse, já teria saído.”
Ela caminhou até o banheiro, mas pode ver que por algum tempo ele permaneceu imóvel. Minutos depois, ela o ouviu sair.
***
Era tarde da noite e ele não tinha mais o que fazer. Dispensado das suas obrigações ele liberara quase toda a equipe, e permanecera na casa como de costume. Silêncio revestia a enorme mansão, como sempre. Ele muitas vezes questionava-se porque um palácio tão gigantesco para apenas um casal cuja pretensão de ter herdeiros era inexistente, mas não ousava dar-lhe uma resposta. Aprendera desde muito jovem a cumprir sem questionar. Debater com autoridades era custoso e na maior parte das vezes, prejudicial. Durante sua infância passada em reformatórios, ele descobrira que sua vocação era servir e quanto menos isso exigisse expor seu passado, era ideal.
Frank Delfino era um homem difícil e perigoso. Apesar de sua imagem publica e reconhecida ao lado de Annalise Keating, ele era um homem de ligações ilegais e trabalhos sujos. Alguém com influência e perspicácia para estar sempre ganhando mais e mais dinheiro. Trabalhar para ele não era nenhum sacrifício — benefícios e salário eram igualmente generosos. Respirou fundo. Já era madrugada e ele não esperava encontrar mais ninguém perambulando pelos cômodos; se dirigiu até a gigantesca sala de estar com quatro ambientes, intercalada pelo bar muito bem equipado no centro deles. Passou pelo balcão de marfim africano e alcançando o conhaque, derramou o conteúdo em um copo limpo.
“Dobre a minha dose, por favor.”
A voz rouca lhe captou a atenção e ele a encontrou sentada em umas largas poltronas de tecido roxo, vestindo um robe preto que deixava suas pernas à mostra. Ela não o estava encarando, na verdade parecia imersa na escuridão.
“Senhora Delfino.” Cumprimentou ele, preenchendo um copo com uma dose dobrada e levando até ela. Regina deu-lhe uma rápida olhada, e ele pode ver que ela havia chorado. “Eu achei que não havia mais ninguém aqui. Irei me retirar.”
“Não.” Pediu ela, suavemente. “Uma companhia é bem vinda. Além do mais, você veio beber e eu não quero atrapalhar seus planos.”
Ele esboçou um sorriso. Caminhou até o bar e preencheu um copo com a dose tripla. Permaneceu em pé, bebericando um pouco do líquido. “Seja um cavalheiro e sente-se, Robin.” Ordenou ela, e ele caminhou até a poltrona em frente a ela. Sentou ali.
Regina o encarou pela primeira vez. Robin Lockhood trabalhava para seu marido ha muitos anos. Eficiente e silencioso, o braço direito de Frank. Sabia bem pouco sobre ele, exceto que fora expulso da SWAT e que tinha um filho pequeno. Talvez fosse a exagerada carência ou mesmo o álcool percorrendo sua corrente sanguínea, mas quando se deu conta seus olhos estavam registrando cada detalhe de seu corpo; já era tarde da noite e ele havia dispensado o habitual terno, uma camiseta branca contornava o dorso trabalhado e os tríceps definidos. Usava um jeans batido e coturnos amarrados até o topo, uma verdadeira marca militar; e ela desconfiava que ele se sentia melhor vestido assim. Robin era atraente, ela admitiu a si mesmo. Os cabelos loiros estavam sempre bem penteados e a barba apagada quase rente ao rosto, criando uma sombra ao rosto que lhe trazia mistério e masculinidade.
“Se você está aqui, onde está meu marido?”
Ele a observou por alguns instantes e então sua expressão suavizou-se. Seus olhos azuis alinharam-se com os olhos castanhos. “Eu não tenho autorização para falar sobre a localização dele.”
Regina deixou escapar um riso rouco e irônico. Bebeu um longo gole do conhaque, sentindo-o queimar as paredes internas de suas cordas vocais. “A sua falta de resposta é uma resposta. Ele está com ela. Não me surpreende.”
Robin bebeu outro gole e manteve-se em silêncio. Ela suspirou, recostando-se mais contra a poltrona e virando o corpo para o lado de modo que suas pernas ficaram suspensas sobre um dos braços do móvel e sua cabeça encostada no outro braço. “Me diga uma coisa, Robin. Você concorda com ele? Há uma espécie de código de conduta masculina que os ensina a compactuarem com as infidelidades um do outro?”
E era isso. A pergunta saiu antes que ela pudesse pensar a respeito e ela arrependeu-se imediatamente. Mas admitir um erro iria ferir seu orgulho de maneira obscena, então ela apenas fechou os olhos e respirou fundo. Ouviu a respiração dele e imaginou que ele se levantaria e sairia em silêncio; surpreendeu-se ao ouvi-lo responder.
“Como segurança e empregado particular do Sr. Delfino, não cabe a mim ter opiniões. Meu trabalho não envolve intelecto, é somente operacional. Ele requisita, eu executo. Sem perguntas, sem julgamento. Isso ajuda a manter a imparcialidade e impessoalidade.” Regina mordeu o lábio inferior, odiando-se por ter feito aquela pergunta; estava pronta para voltar para sua suíte com o rosto em chamas quando voltou a ouvir a voz rústica sob o sotaque britânico. “Mas se a senhora deseja saber minha opinião como Robin, não, eu não concordo. Apenas um homem imprudente trocaria uma Ferrari por um Sedan.”
Os olhos dela abriram repentinamente e seus lábios formaram um O de surpresa, mas ele havia simplesmente desaparecido, deixando para trás com todas as sensações que aquele elogio inesperado havia causado.
Depois de tanto tempo, ela fizera algo ao qual havia se desacostumado.
Regina sorriu.
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