Efeito Dominó
2 Apple's Queen
Regina atravessou o saguão do prédio de luxo com o olhar distante. Usava um vestido preto de corte simples e um trench coat branco cuja cauda destacava suas pernas. Não era parte de sua rotina ir até o escritório, porém vez por outra ela precisava checar se Zelena não estava fazendo trambiques com o dinheiro da família.
Passou pela portaria sem dizer nenhuma palavra. Nunca fora sua intenção tornar-se alguém amargurado como sua mãe, porém era uma missão difícil para quem passava a maior parte do tempo lidando com sentimentos nocivos. A ausência de emoções fazia com que sua personalidade endurecesse a cada dia e ela, notando o infeliz processo, tentava camuflar de todas as maneiras possíveis. Óculos de sol, tratamentos estéticos, álcool, desprezo — apenas uma máscara para que o mundo real não avistasse a infelicidade em sua alma.
Entrou no elevador e apertou o botão dourado referente ao seu andar. Alguns segundos depois as portas se abriram e ela percebeu que todos os olhares se voltaram para ela. Passou pela recepção em silêncio, fitando as seções organizadas e os funcionários devidamente ocupados e percebeu que eles discretamente informavam aos outros que ela havia chegado. La Reina, como eles a chamavam — achando que a própria não tinha conhecimento do codinome.
Atravessou por entre a sessão e observou Arthur, que sorriu para ela. Ela o cumprimentou com um sorriso discreto, resignada em seu caminho até a sala presidencial. Avistou a secretaria de sua irmã vindo em sua direção, afoita no meio de suas extenuantes tarefas. Cogitou dar um aumento à garota, era realmente muita responsabilidade.
“Senhora Delfino. A senhora agendou alguma reunião? Não há nada nas minhas agendas e”
“Ruby.” A voz de Regina a fez desacelerar, e a morena respirou, soltando o ar. “Eu não preciso ter nada agendado para vir até a minha empresa. Pode voltar ao trabalho. Preciso falar com a Zelena.”
Havia uma dúvida nos olhos da secretária, algo que parecia estar desesperadamente buscando um modo de vir à tona. Infelizmente, Regina não tinha tempo para isso. Desvencilhou-se da jovem e então a porta de madeira escura abriu-se rapidamente.
“Olha quem resolveu aparecer!” Exclamou Zelena com um tom de falsa animação. Regina revirou os olhos e entrou na sala sem olhar para a ruiva. Observou cada detalhe ao redor da grande sala certificando-se de que a decoração continuava original. Exceto por…
“Que porcaria é essa?”
Zelena seguiu a direção do olhar da mesma e percebeu que ela falava sobre seu pôster da Wicked Witch. “Oras, é um pôster autografado por todo o elenco da Broadway. Não é uma porcaria.”
“É horroroso e não combina nada com o resto do ambiente, Zelena.”
“Combina comigo.” Zelena deslizou os dedos pelos cachos ruivos, ajeitando-os. Seus olhos azuis fixaram-se na morena que agora estava de costas para ela e de frente para a vidraça cuja vista fornecia uma perspectiva horizontal da cidade. “Aliás, você não veio aqui para conferir a decoração. O que houve? É uma visita de inspeção, intervenção, reclamação…”
“Vim buscar os livros da contabilidade.”
“Por quê?”
Regina virou-se lentamente e encarou a irmã nos olhos. “Porque gosto de conferir onde está indo meu dinheiro. Peça para Ruby providenciar todos os livros datados deste ano e enviar para a minha casa. Estarei esperando.”
Zelena sorriu, embora estivesse claro para ambas o seu total desconforto com aquela exigência. “Você poderia ter pedido isso ao telefone.”
“Eu queria dar uma volta e assustar meus funcionários. E claro, deixar você incomodada. Não é pra isso que servem as irmãs mais novas?”
Regina sorriu para ela. Levantou-se e caminhou na direção do banheiro, mas a voz da ruiva a interrompeu. “Não entre aí.”
“Por quê?” Questionou a morena, desconfiada.
“Digamos que eu estava entretida pouco tempo antes de você chegar e a menos que você queira conhecer o entretenimento…”
Regina fechou os olhos e respirou resignada. “Tente levar alguma coisa a sério na vida, Zelena. Leve suas transas para o seu apartamento. Não aqui.” Regina encarou a irmã com um semblante cansado. “Você sempre me decepciona.”
Zelena observou-a se distanciar e sair da sala sem dizer nenhuma palavra. Não disse nada, embora tivesse sentido o peso da última frase sob seus ombros. Algum tempo depois, a porta do banheiro se abriu e ele saiu, arrumado, o terno assentado em seu corpo másculo. Ele a abraçou, as mãos ao redor de sua cintura e puxando-a para si, beijando a base de seu pescoço. “O que ela estava fazendo aqui?” Sussurrou ele.
“É hora de você ir embora, Frank.” Respondeu ela, o tom de voz frio e distante enquanto se afastava dele sem olhar para trás. “Não deixe sua esposa vê-lo aqui. Já tenho problemas suficientes.”
***
Robin estava terminando de enrolar a bandagem ao redor do segundo punho. Dias de treinamento eram em sua grande parte intensos e exaustivos, ainda mais com aquele time de garotos. Golpes sem precisão, péssimo cálculo de probabilidades, ações tomadas por impulso — um erro mais primário que o outro. A gincana, uma série de obstáculos baseado no treinamento de combatentes do exército, supostamente deveria ser só um aquecimento mas havia se prolongado.
Na lateral do jardim Meredith e Callie conversavam distraídas na sala de sutura improvisada para cortes ocorridos durante o treinamento, e vez por outra atendiam algum idiota com o dedo rasgado pelo arame farpado. “Mexa essa bunda, Stuart. Não me faça ir até aí.” Gritou Robin para o garoto loiro de olhos azuis cujos músculos eram visíveis por baixo da fina camiseta e mangas longas. Ele se perguntava qual a lógica de encher o corpo com anabolizantes e ainda assim ser tão fraco que uma escalada na corda parecia uma escalada no Everest vestindo apenas uma bermuda.
Olhou para o relógio. Já havia ultrapassado em muito o bloco de tempo que estimava para a gincana. Bebeu um gole de sua água e assoprou o apito em seu pescoço, liberando-os daquela missão. Eles se aproximaram do loiro, sentando-se ao redor dele em forma de um círculo mas permitindo espaço suficiente para confortável locomoção. “Vocês foram bem, mas precisam pegar mais pesado na academia. Uma escalada na corda deve durar no máximo cinco minutos e não meia hora. Outra coisa, não se pode ter pressa quando se está rastejando em arame farpado. Ou o resultado é este.” Robin apontou para Donovan, cujo dedo indicador esquerdo estava envolto por um curativo. “Saibam utilizar critérios. Há ocasiões onde é importante ser rápido. Ha ocasiões onde o importante é ser cauteloso e cuidadoso. Não assistam filmes hollywoodianos e venham para o treinamento achando que trabalhar como guarda costa é pancadaria e tiroteio. Um movimento impensado e vocês podem estar mortos, ou pior, vocês podem causar a morte de seu empregador.” Robin retirou a camisa, revelando o dorso firme e forte. “Montem dois times de cinco. Vamos para o treinamento de combate.”
***
“Onde você foi pela manhã?”
Regina ergueu os olhos do jornal e fitou seu marido que usava jeans e casaco. Parecia bonito com o lenço em volta do pescoço. Não sabia a quem agradecer, mas sabia que algo havia o deixado de bom humor.
“Ao escritório.”
Eles ouviram o coro dos seguranças no jardim, respondendo ao treinamento. Ele apenas a observou em silêncio. “Eu não gosto que ande sozinha, Regina. Temos muito dinheiro e eu tenho muitos inimigos.”
“Eu não aguento mais ficar dentro dessa casa.”
“Eu não estou a impedindo de sair. Só não quero que vá sozinha.”
Ela colocou o jornal sobre a mesa de centro e retirou os óculos de leitura, fitando-o. “E o que você sugere?”
“Escolha um deles e ele será responsável por você.”
Regina analisou a proposta dele. Não acreditava que Frank estivesse preocupado com seu bem estar; na verdade levou dois minutos para ela entender exatamente o que ele pretendia com aquilo — ter controle sobre sua privacidade, saber onde quando e com quem ela iria se encontrava. Nada daquilo remetia à proteção e ela sabia disso. Entretanto era muito mais inteligente aceitar essa trégua duvidosa e com isso retomar a confiança dele. Em algum momento ela descobriria como fazer com que aquela proposta lhe disse benéfica.
“Tudo bem.”
Eles caminharam em silêncio até a varanda. A mão dele estava na base de sua cintura e ela gostou da sensação. Debruçaram-se sobre o parapeito, observando a movimentação no vasto jardim. Os olhos dela rapidamente captaram Robin. Ele estava sem camisa e ela não conseguiu impedir a si mesma de admirar os músculos rígidos. Nenhum deles era páreo para ele. Os golpes não o atingiam e quando o faziam, a dor parecia maior em quem batia. Ele era rápido e sabia onde atingir de modo que rapidamente a maioria deles estava no chão.
Entretanto, os olhos azuis encontraram os seus e ele distraiu-se, levando um gancho de direita de Stuart. O silêncio após o golpe fora substituído por uma risada de Regina. “Eu quero esse.”
“Depois desse soco, eu também quero.” Completou Frank, voltando para dentro do escritório com um sorriso nos lábios. “Até o final do dia ele se apresentará para você, querida.”
Regina continuou observando enquanto eles retomaram ao combate. Robin rapidamente recobrou o controle e antes que se desde conta, todo o time estava no chão.
***
Ele estava se divertindo. Os golpes sequer eram fortes o suficiente para lhe infligir dor e muitos deles sequer o acertavam de modo que aquilo parecia mais uma brincadeira que uma verdadeira luta. Tudo estava sobre controle, entretanto sua audição treinada o traiu. Ele ouviu um dos garotos que estavam sentados sussurrando que o chefe os observava e seus olhos agiram mais rápido do que seu cérebro. Seus olhos encontraram os olhos cor de chocolate e quando percebeu que havia cometido um deslize, o punho de Stuart lhe atingiu com força o rosto.
Uma dor sibilante tomou conta dele. Agora ele sabia que aqueles músculos não eram somente medicamentos e aliterações químicas — o garoto era mesmo muito forte. Robin nunca havia sido atingido antes com tanta força e o silêncio que seguiu o golpe mostrava o quanto todos eles estavam surpresos. Ele a ouviu gargalhar. Parte de si queria voltar a encara-la, mas ele sabia que não podia. Ela estava rindo de seu infortúnio e ele sentiu o estopim de algo incendiando dentro dele. Ergueu a cabeça e acenou para os jovens à sua frente, retomando o treinamento.
Animado, ele voltou a lutar com comprometimento e intensidade, e em poucos minutos todos eles estavam exaustos e estirados no chão. Ele ergueu a cabeça e fitou a varanda do escritório, mas ambos haviam desaparecido. Pediu um intervalo de cinco minutos e então caminhou até a mesa onde estava sua garrafa de água.
Questionou-se o que ele estava tentando provar a ela e por que. Estava perdendo o foco e precisava retoma-lo urgentemente.
***
“Senhor Lockhood.”
Robin virou-se para trás e encontrou Stuart. O rapaz o encarava com um misto de vergonha e culpa. O rosto estava vermelho, exibindo seu cansaço. Elogios não faziam parte de sua rotina diária e Robin acreditava que era melhor limita-los para que tivessem o peso ideal quando proferidos — mas admitiu secretamente que o garoto havia se destacado e se esforçado ao máximo.
“Me chame de Robin.”
“Eu estou encrencado?”
Robin sorriu. Eles continuaram caminhando na direção da mansão. “Apesar de eu não gostar muito de receber um belo soco no rosto, você fez um bom trabalho. Não se preocupe.”
“Então não vou ser dispensado por isto?”
“Não chegamos às avaliativas ainda. Ninguém será dispensado até lá a não ser por infrações sérias.”
“O Senhor Delfino solicitou a minha presença. Disseram que isso nunca aconteceu antes.”
Robin franziu as sobrancelhas. Realmente, era um comportamento atípico. Seguranças da primeira base quase nunca interagiam com Frank. Assim que eles entraram no imóvel e passaram pelo jardim de inverno coberto de tulipas, eles ouviram a voz de Frank. Ele se aproximou vestido com uma camisa social branca e a calça slim de algum de seus ternos azuis.
“Que belo gancho de direita, meu rapaz.” Brincou ele. “Ninguém nunca havia acertado meu garoto Lockhood. Parabéns.”
“Obrigada, Senhor.”
Frank o analisou rapidamente, dos pés a cabeça. “Robin, o garoto será o guarda costa da minha esposa. Ensine a ele todos os protocolos. Ele deve se apresentar a ela até o final da tarde.”
“Sim senhor.” Respondeu Robin, a neutralidade presente em sua voz.
Frank deu mais um passo a frente e encarou o jovem de olhos azuis. “Você deve ser a sombra dela. Eu quero saber onde ela está, com quem, porque, rostos e nomes. Estamos entendidos?”
“Sem sombra de dúvidas, senhor.”
“E não sonhe em fazer nenhuma besteira, garoto. Se tocar nela é um homem morto.”
Frank afastou-se em seguida e Robin aguardou algum tempo antes de encarar o jovem que parecia animado com a função que recebera. Ele sorriu.
“Por que você está rindo?”
“Retiro o que disse. Você está encrencado. Vamos, precisamos comprar ternos para você.”
Fale com o autor