Efeito Dominó
3 La douleur exquise
À primeira vista, aquilo parecia desconfortável. Ter em sua sombra um garoto rigorosamente treinado e designado a observar cada um de seus passos era algo novo e ela não estava acostumada com isso. Stuart Grant era formado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade de Cambridge; tinha vinte e dois anos, voluntário em construções no Haiti. Um currículo impecável para um jovem tão novo. Muito bonito, olhos azuis, um cabelo loiro e liso cujas madeixas eram elegantemente prateadas para o lado.
O terno oficial lhe caiu bem e lhe deu um ar elegante. A tarde começava a desvanecer e abrir espaço para uma noite amena; o sol descia pela encosta, despedindo-se por entre as grandes cordilheiras. Regina precisava ir até o ateliê e escolher um vestido para o baile beneficente da Condessa de Huntington. Vestiu jeans e uma jaqueta por cima da fina camiseta branca, e checou se parecia bem pelo espelho.
Desceu as escadas, e encontrou Robin e Stuart nos sofás de camurça. Ambos se levantaram, indicando uma posição de respeito. Regina os dispensou das formalidades acenando com a cabeça. “Stuart, preciso ir ao shopping.”
O rapaz rapidamente caminhou até ela, e Regina virou-se, não sem antes verificar detalhadamente o segurança que havia sentado novamente no sofá. Sua inspeção terminou quando seus olhos se encontraram e ela rapidamente se virou na direção contrária, indicando a saída. Aguardou apenas alguns minutos até que um dos manobristas trouxesse sua Range Rover. Stuart adiantou-se e abriu a porta dianteira, ajudando-a a entrar e se acomodar.
Segundos depois, ele arrancou.
***
Robin colocou o corpo inanimado do homem no porta malas. O homem deveria ter em torno de quarenta anos; cabelos bem cortados, usava um anel de fraternidade no dedo anelar esquerdo. A vestimenta indicava um poder aquisitivo razoável — não que isso lhe fosse de serventia nesse momento. A morte sobreveio sobre ele e nada mais poderia ser feito.
Ele tinha bastante fixada em sua mente a regra número um do trabalho: não pergunte. Ela por si só reproduzia outras negativas em sua concepção como: não julgue, não suponha, não pense. Se Frank Delfino enfiara uma bala na testa desse homem, isso não lhe dizia respeito. Seu dever era eliminar as evidências.
Pegou o galão de gasolina e começou a encharcar os bancos do estofado, lavando assim o painel e em sequência a lataria do automóvel, deixando que o combustível de cheiro forte se espalhasse generosamente sobre o mesmo. Jogou o galão vazio dentro do carro e seu um passo atrás para pegar outro galão, com o qual caminhou até o motor e despejou metade do conteúdo ali.
Mecanicamente, caminhou até o porta malas e molhou o corpo do homem com o resto do combustível. Colocou o galão junto ao cadáver e afastou-se apenas o suficiente para acender o isqueiro e arremessá-lo no interior do carro.
Labaredas de um fogo flamejante ergueram-se rapidamente e Robin caminhou em silêncio de volta para a limusine parada a alguns metros de distância.
Nenhuma palavra foi dita. Frank acenou para o motorista e logo eles estavam de volta ao caminho para casa. O segurança ajeitou-se e seus olhos mantiveram-se elegantemente fixos na paisagem. Sua mente viajou para Roland. Ele estava tão orgulhoso de ter escrito seu próprio nome, orgulhoso de escrever o nome do pai. Cada novo aprendizado na escola era um motivo de festa e alegria para ele. Roland tivera alguma dificuldade de aprendizado quando menor, algo que quase todos os pediatras e psicólogos interligaram com a morte da mãe. Ele queria passar mais tempo com o filho, mas seu trabalho exigia muito de seu tempo. Considerava um sacrifício adequado para garantir uma boa vida ao pequeno.
Imaginou que Roland estivesse ainda na casa de Megan. Ele a adorava; preferia ficar com a mesma do que ir ao caríssimo grupo de atividades pago por ele para entreter as crianças. Sabia que ela provia à ele algo que ele inconscientemente sentia falta — uma figura materna. Megan era uma garota legal; trabalhava meio período em um café bistrô localizado na rua abaixo da sua, estudava para concorrer a uma bolsa de estudante de medicina em sua restante parcela de tempo. Ela era bonita, olhos verdes e um cabelo ruivo, delicada, doce. Mas para ele, ela era apenas uma boa amiga que de algum jeito conquistara o pequeno Roland. Inicialmente, ele cogitou investir em uma relação com ela mas a qualidade da amizade de ambos tornou-se inestimável demais para ser colocada em risco.
“Os britânicos estão aqui.” Comentou Frank e Robin saiu de seu devaneio particular.
“Kensington?”
Frank acenou, confirmando. Robin continuou com os olhos fixos nele. O Império Kensignton — frequentemente disputado por Rhys e Margot Bishop — envolvia todo tipo de atividades criminosas. Financiavam todo tipo de tráfico, de drogas à armas, de joias à peças de arte. Até onde se sabia, seu território resumia-se ao continente europeu — mas se estavam em solo americano, algo havia mudado. “Faremos algo a respeito?”
“Eu vou descobrir qual é o alvo.” Respondeu Frank, digitando algo no celular. “E depois que eles terminarem o roubo, nós os derrubaremos.”
O segurança fitou o homem que agora falava baixo ao celular, indicando ser alguma de suas incontáveis amantes. Curiosidade, era o que sentia. Tentava entender por que um homem que possuía tudo estava sempre descontente e buscando algo que ele próprio não sabia o que era. Rapidamente sua consciência o alertou sobre o código de conduta. Não pergunte. Não julgue.
“Como vai a ruivinha que você levou ao bistrô? Como é mesmo o nome dela?”
“Megan.”
Frank sorriu, um filete de malícia escorrendo pelos seus lábios. “Você já transou com ela?”
“Nosso relacionamento não é assim, Sr.”
“Caia na real, Lockhood. A garota está afim de você.”
“Somos apenas amigos.”
“Você que sabe.” Frank sacodiu os ombros, rindo. “Eu no seu lugar não perderia essa chance.”
Robin não respondeu, permitindo que o assunto se diluísse perante o silêncio. Megan era realmente uma boa amiga e ele definitivamente estava longe de almejar um relacionamento para sua vida. Seus olhos fixaram-se novamente no vidro do carro e ele permitiu que doces lembranças da sua falecida esposa preencherem sua mente.
***
Havia algo de errado naqueles números. Regina estava sentada sobre a sua cama, usando um vestido leve de malha branca. Os cabelos delicadamente presos no topo de sua cabeça em um coque frouxo de onde algumas madeixas escapavam, os óculos de leitura sobre os olhos. Havia três livros abertos à sua frente e uma pequena caderneta em sua mão, onde ela anotava as irregularidades encontradas.
Haviam licitações fantasmas em pelo menos dois deles. Empresas sem nome fantasia, sem registro, muito menos contratos. Mordeu o lábio inferior, anotando mais um número de processo a ser verificado. Cora não iria gostar nada daquilo. Apesar de ter cedido as ações para Regina, sua necessidade de controle e possessividade sobre a empresa jamais cessara. Continuava analisando cada passo dado pela filha, palpitante e exigente. Sua supervisão — mesmo estando no Canadá — era impressionante; quase como se tivesse olhos e ouvidos por todos os cantos. Se a existência de brechas na contabilidade chegasse aos seus ouvidos, nem Regina nem Zelena teriam paz.
Cora jamais concordara com a nomeação da filha mais velha como diretora executiva. Para ela, Zelena era imprudente e irresponsável, além de egoísta. Não possuía virtudes de liderança, como a irmã. Era exatamente a predileção da mãe por ela que afastara sua irmã. Regina sempre fizera de tudo para proteger a irmã mais velha, respeitando seu diferente modo de vida — mas a quantidade de decepções esfriara o relacionamento delas até o mesmo se tornar meramente suportável.
A quantidade de dinheiro sem uma destinação legal era alarmante e Regina sentiu uma pequena pontada na têmpora esquerda. Colocou o dedo indicador e o médio sobre o ponto da dor e passou a massagear delicadamente.
A porta do quarto se abriu e Frank entrou em seu campo de visão. Ele a observou em silêncio e então sorriu. “Boa noite.”
“Boa noite. Você já jantou?” Perguntou ela enquanto ele caminhava para seu closet, de onde ela podia vê-lo retirar a roupa. Ele descartou o paletó, voltando-o para a arara. “Comi algo no caminho.” Respondeu ele, sem encara-la de volta. Ele estava de costas para ela quando retirou a camisa, revelando as costas largas e trabalhadas. Os olhos dela registraram cada detalhe de seu corpo; um corpo do qual ela sentia enorme falta. Ele logo se desfez da calça, ainda de costas e ela mordeu o lábio enquanto admirava as nádegas cheias e firmes como rochas marcadas pela cueca boxer preta. Frank alcançou uma calça de moletom e a vestiu, e seus olhos encontraram com os seus assim que ele se virou.
Ele sentiu o olhar dela sobre o abdômen descoberto, subindo por seus ombros e voltando a olhar em seus olhos. Caminhou lentamente até a cama onde ela estava sentada e ela delicadamente deslizou até a beirada da mesma. Nenhum dos dois falou. Ela colocou as mãos sobre a cintura dele e rapidamente as deslizou para cima, as unhas causando arrepios na pele dele enquanto ela contornava os músculos abdominais dele. Frank deslizou os dedos para trás do pescoço dela, e trouxe os lábios dela para si. Ela rapidamente cedeu acesso à ele, entreabrindo os lábios e permitindo que a língua dele invadisse sua boca. Um gemido escapou de seus lábios e Frank a empurrou contra a cama, encaixou-se entre suas pernas enquanto voltava a devorar sua boca. As mãos dele deslizavam por suas coxas, as pontas dos dedos apertando sua carne e fazendo-a queimar.
“Babe” Gemeu ela quando ele abandonou seus lábios e ela sentiu-o beijar seu pescoço, sugando sua pele. As unhas dela arranhavam com força a parte inferior das costas dele, uma das pernas encaixadas sobre a perna dele. O barulho do telefone se fez presente e ela sentiu o exato momento em que ele se desvencilhou dela. “O que eles fizeram?”
Ela o encarou perplexa, e ele a olhou de cima a baixo, os cabelos bagunçados, a boca avermelhada. “Aguarde um instante.” Disse ele a quem quer que fosse do outro lado da linha. Sem dizer nada a ela, ele caminhou para fora do quarto e a deixou ali.
Regina fitou o teto, engolindo as lagrimas. Sua garganta fechou e ela xingou a si mesmo por se importar tanto. Sentou-se e arrumou o cabelo. Já não tinha mais foco para lidar com os livros e seus intermináveis números. Respirou fundo e saiu, caminhando pelo corredor com o coração apertado. Desceu as escadas sem olhar para ninguém e atravessou a lateral direita da mansão até chegar à piscina.
Retirou os chinelos e sentou-se na beirada da mesma, colocando os pés na água. Lágrimas vieram aos seus olhos e ela respirou fundo, impedindo-as de cair mais uma vez. O que acontecera com eles? Por que até mesmo uma ligação parecia mais interessante para ele do que ela?
“A senhora precisa de alguma coisa?”
Regina ergueu o rosto e avistou o jovem segurança. Stuart encarava-a com um semblante leve e tranquilo. “Companhia.”
A resposta o fez pensar. Com cuidado, ele sentou-se à beira da piscina, retirando o sapato italiano e as meias. Dobrou as barras da calça e colocou os pés na agua. Ficou em silêncio, observando a água ao seu lado. Regina vez ou outra balançava os pés para cima e para baixo. Ela virou-se para o lado e fitou o homem ao seu lado, cujo olhar sério estava fixo na água. “Você tem namorada, Stuart?”
“Tenho uma amiga.” Ele virou-se para ela com um sorriso no rosto, mas os olhos pareciam tristes. “Que tem namorado.”
“Ela sabe o que você sente?”
“Não. Acredito que é melhor assim.”
Ela suspirou. “Vocês homens… Sempre achando que sabem o que é melhor para as mulheres.”
“Somos idiotas.” Confessou ele e ela riu. Eles voltaram a ficar em silêncio; decidiu que a companhia do jovem rapaz a agradava. Ele a respeitava e em nenhum momento fizera qualquer insinuação ou brincadeira. Apenas fizera o que fora pedido. Eles estavam em silêncio quando alguém parou a alguns metros deles e a voz masculina os assustou.
“Stuart.”
Ambos olharam para trás e avistaram Robin, que os observava com um rosto impassível. O loiro levantou-se rapidamente e ajudou-a a levantar também. Regina fitou Robin, que parecia mais sério que de costume. Se ele estava ali, possivelmente Frank ainda não havia saído. Cansada, ela segurou no braço do jovem segurança e puxou para baixo, o movimento fez com que o corpo do mesmo inclinasse para o seu lado, e ela pousou os lábios sobre o rosto dele em um beijo delicado.
“Obrigada.”
Ela se afastou, caminhando em silêncio para a lateral da casa. Assim que ela se afastou, os olhos de Robin alinharam-se com os do jovem.
“Lockhood, eu…”
“Calce seus sapatos. Teremos uma reunião com o chefe em meia hora.” Interrompeu ele, e sem dar brechas para resposta, virou-se e voltou para o interior da casa.
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