Efeito Dominó
38 Bad Intentions
Regina entrou no quarto deles com passos suaves; deixou seus olhos percorrerem todo o local, dando-se conta de que as suítes não eram diferentes. Os mesmos tons, os mesmos móveis. Suspirou, e caminhou até a pequena poltrona cinza, idêntica à que Frank havia jogado para longe dela há poucos minutos atrás. Stuart não fazia ideia de como reagir, parecia incerto sobre o que perguntar, se é que devia perguntar algo a ela.
“Pode nos dizer o que aconteceu?”
A voz de Robin pareceu ter despertado Regina de seu transe inicial. Ela ergueu o rosto, encarando-o como se estivesse aos poucos voltando à luz depois de um período mergulhada em uma escuridão extrema.
“Nós...” Começou ela, voltando-se a olhar para a porta atrás de si, pensativa. “Eu e ele tivemos uma briga.”
Stuart ainda o encarava como se ela estivesse dizendo absurdos, e ele não estava errado. Havia algo de diferente nessa briga. Algo que Regina não estava dizendo.
“Eu vou buscar algo quente e doce para você, Regina. Assim vocês podem... conversar.” Concluiu Stuart, pegando sua jaqueta e saindo pela porta em questão de minutos. Eles permaneceram em silêncio ouvindo-o girar a chave na tranca, o som de seus passos desaparecendo por completo. Robin adiantou-se, pegando uma das cadeiras recostadas à pequena mesa e colocando frente a frente com a poltrona dela. Fechou as cortinas, desligou a televisão e então sentou-se, permanecendo em silêncio e dando a ela o benefício de escolha. Ela poderia dizer a eles o que estava acontecendo. Ou não.
Regina ergueu o rosto e o observou, sentado à sua frente. Possivelmente pronto para dormir, vestindo apenas a calça de moletom escura e uma camiseta branca fina. Porém estava de tênis, o que talvez significasse que ele não fosse dormir imediatamente. Talvez sair para dar uma volta com Stuart. Robin não estava lhe fazendo nenhuma pergunta, mas ela conhecia aquele olhar. Aquela nuance em seus olhos azuis, repleta de curiosidade e preocupação. Por que ela se sentia tão compelida a falar quando ele lhe olhava daquela maneira? Por que as coisas entre eles eram tão volúveis? Um momento eles se odiavam tanto, que ela gostaria de demiti-lo e nunca mais olhar para aquele rosto. Em outro ela o respirava como se fosse sua última oferta de oxigênio.
“Pare de me olhar assim, Lockhood.”
“Eu só estou preocupado, Regina.”
“Não precisa. Eu sei me cuidar.” Sibilou ela, sem saber o porquê de suas grosserias. Não tinha razões para querer defender-se de Robin; ele nunca tentara lhe machucar propositalmente. Ela não conseguia controlar seus ímpetos. Era quase como se tivesse... medo.
“Eu nunca lhe disse o contrário.”
Regina segurou o lábio inferior entre os dentes, pensativa. Ele estava certo.
“Não precisa se preocupar. Nós tivemos uma briga. Você, mais do que ninguém, sabe o quanto isso é frequente.”
Robin balançou a cabeça, encarando-a. Como se estivesse lendo através de seus olhos, sabendo que havia muito mais por trás daquela resposta. Mas ele a respeitava demais para forçar uma resposta que ela não queria ceder. “Regina...” Suspirou ele, e então debruçou-se para a frente, aproximando-se dela. “Se não quer falar sobre o que aconteceu, tudo bem. Não somos advogados. Não somos agressores de mulheres. Você pode dormir aqui, e nós o manteremos do lado de fora. Mas não tente me convencer de que essa briga é apenas mais uma.”
“O que te faz pensar que essa é diferente? Você não estava lá.” Rebateu ela, os olhos faiscando de raiva.
“Porque você está aqui.” Devolveu ele, encarando-a com a mesma intensidade. Mas não havia raiva em sua voz. Talvez dureza, talvez uma firmeza que a deixava mais tranquila, de certa forma. “Porque você saiu daquele quarto e ele não está como um louco atrás de você. Logo o homem que a fareja como um cão policial. Que não deixa você sair de casa sem um segurança preso ao calcanhar. Ele deixou você ir, e ainda não saiu dali para nos mandar encontrar você. Então ou você o matou ali dentro, ou algo aconteceu. Algo fora dos padrões.”
Os olhos dela se arregalaram e ele assistiu quando ela engoliu em seco lentamente, umedecendo seus lábios. “Robin, eu...”
“Se não quer falar comigo, podemos esperar Grant voltar. Sei que são amigos, e ele pode...”
“Eu confio em você, Lockhood. Isso não deveria ser uma dúvida para você depois de tudo que já fizemos.”
Ele calou-se, surpreso com a ousadia dela de trazer à tona toda a história deles até aquele momento. Depois de recuperar-se do baque inicial, ele permaneceu quieto, esperando que ela explicasse o que realmente estava acontecendo. “Ele... não gostou muito da ideia que eu tenha voltado para o hotel sem ele.” Ela fugiu do contato visual, fitando as pontas de seus dedos que roçava delicadamente contra os braços macios da poltrona, brincando com a textura por baixo delas. “Nós discutimos e ele não gostou muito do que eu disse, e acabou ficando um tanto agressivo.”
Robin remexeu-se na cadeira, irritado. Ela podia ver seus punhos cerrados, a tensão em seus braços gigantescos. “Ele machucou você?” Questionou ele, a voz fria e baixa, estrangulada pelo ódio que sentia.
“Não.” Respondeu ela, causando-lhe surpresa. Robin abriu os olhos ainda mais, os lábios entreabertos. “Eu aprendi o que você me ensinou. Eu me defendi. Acontece que ele insistiu mais, Robin, e eu tive que agir. Então eu o machuquei. Não era o que eu queria. Eu nunca quis fazer com ele o que ele fez comigo, isso não me torna melhor. Mas eu precisava me defender.”
“Regina.” Pediu ele, colocando as mãos sobre as mãos dela e chamando a atenção da morena. O gesto entregava o quão quente era o toque das mãos dele sobre as suas, acalmando-a, suavizando a tremedeira que se apossava das mesmas. “Você só estava se defendendo. Não fez nada de errado.”
“Ele vai me matar.” Sussurrou ela, encarando-o.
“Ele nunca vai fazer isso, Regina.” Sussurrou Robin, encarando-a. Deslizou uma mão para o rosto delicado e macio da morena, colocando uma mecha de cabelo para trás de sua orelha. Manteve o polegar acariciando a lateral de seu rosto, tocando a pele aveludada. Fazia tanto tempo. “Eu o mato antes.”
O coração dela acelerou; não queria que ele colocasse sua vida em jogo por ela. Não queria que perdesse sua liberdade para libertá-la. Ignorou o fato de que não se importava com a morte de seu próprio marido, concentrando-se no quanto a proximidade dele lhe trazia paz. Serenidade. “Não diga isso.”
“Regina, você não pode me livrar de algo que já é parte de mim.”
“Não quer dizer que você precisa se tornar isto.”
“Infelizmente, eu já sou.”
Ele afastou-se, e ela lamentou o exato momento em que ele soltou seu rosto, deixando-a sem o calor de seu toque. “O que aconteceu exatamente ali dentro? Você o acertou na cabeça? Ele está vivo? Desacordado?”
“Foi apenas uma joelhada muito forte em um lugar que ele definitivamente gosta de usar.”
Robin sorriu, balançando a cabeça e encarando-a com certo divertimento. Lembrou-a de quão bonito ele era, o quanto era atraente vê-lo sorrindo (e raro, absurdamente raro). “Muito bem, Senhora Delfino. Muito bem.”
“Você quer ir ver se ele está bem?”
“Não precisa. Homens sobrevivem a esse tipo de coisa. Não que ele não deva estar sentindo uma dor absurda, mas com todo respeito, ele a merece.”
Regina sorriu para ele. O som da tranca fez com que ela se assustasse, mas Robin colocou a mão em seu ombro por segundos, antes de se afastar. “Ele não tem a chave desse quarto. É o Stuart entrando.”
Segundos depois, Stuart apareceu com os copos quentes de chá e um saquinho com alguns donuts. O loiro deu uma olhada ao redor, e percebeu que o clima havia mudado. Agradecendo aos céus e à Lockhood, ele caminhou na direção de Regina, determinado a fazê-la sorrir o resto da noite.
***
Janelas extensas traziam uma iluminação esplêndida para dentro de seu escritório. A vista da cidade era fascinante, e ele muitas vezes sentia algo como uma utopia olhando através dela. Olhando através da grandiosidade do mundo.
“A pessoa que o senhor estava esperando chegou, Senhor Nolan.”
“Obrigada, Janine. Peça a ele para que entre.”
Emma adentrou a sala com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, a eventual jaqueta de couro vermelha sobre a camiseta do Misfits e jeans. Riu ao encarar a sala ao seu redor, a sofisticação assustadora revolta por vidro e concreto, o painel gigantesco de vidro com sua panorâmica visão da cidade. Era como um castelo empresarial. E aquele homem à sua frente deveria ser o príncipe.
“David Nolan?“ Perguntou ela.
De costas ela só conseguia notar os cabelos loiros e o terno de corte italiano. Mas frente a frente, pode perceber que era um homem muito bonito. Olhos azuis e um rosto bem desenhado, o corpo de porte atlético bem contornado pela vestimenta de classe alta. Caminhou até ela, estendendo a mão e cumprimentando-a de maneira firme. Um homem seguro de si, ela podia dizer.
“Sente-se por favor, Senhorita Swan.”
Ela sentou-se, os olhos captando os detalhes de sua larga mesa de mármore esculpido. Decoração minimalista e de tons frios. O que chamou sua atenção fora um porta retrato igualmente opaco, cinza, com uma foto de cunho familiar onde uma mulher ruiva de olhos verdes sorria genuinamente. Namorada? Esposa?
“Me disseram que a senhorita é a melhor pessoa para fazer trabalhos de investigação particulares na cidade.”
“Correto. Eu sou.” Respondeu ela, concentrando-se nele.
“Eu quero solicitar uma investigação, porém dentro dos meus termos. Se ao terminá-los, a senhorita ainda estiver interessada, podemos negociar o pagamento imediato.”
Ah, os ricos.
“Certo. Pode começar.”
Ele esticou os braços, recostando-se à larga cadeira de couro preto. Fitou a mulher à sua frente com perspicácia, antes de começar sua delicada lista. “Primeiro, não quero nada que a ligue a mim. Vai ser paga em dinheiro vivo. Se fizer registros, nada que possa trazê-la até mim. Não use nomes, não use codinomes óbvios, quaisquer ligações por mínimas que sejam.”
Emma assentiu, um sorriso cínico nos lábios.
“Segundo, eu comprarei dois telefones descartáveis. Nós só nos falaremos através dele. Depois de completa a investigação eu o pedirei de volta para dar fim a ambos.”
David Nolan abriu a pequena gaveta à esquerda de sua mesa e tirou uma pasta de cor parda. Colocou-a sobre a mesma, empurrando-a na direção de Emma. “Este é o homem que deve investigar. Um amigo fez uma cobertura básica a meu pedido para ajudá-la a começar. Mas não há nada nesta pasta que qualquer outra pessoa não possa descobrir. São dados iniciais. Eu quero saber exatamente tudo que há a se saber sobre ele. Tudo. Desde onde nasceu até onde ele cospe o chiclete que mascou atualmente.”
“O senhor quer uma investigação que possa ser usada legalmente?”
“O que isso quer dizer?”
Emma arqueou as sobrancelhas antes de responder. “Quer dizer que investigações dentro do parâmetro legal respeitam leis. Eu quero saber se é algo que quer usar eventualmente em uma corte.”
“Não se preocupe com isso, senhorita. Eu não me importo se tiver que grampear toda a família dele, os funcionários, se tiver que coletar DNA ilegalmente para comprovar que tipos de drogas ele tem usado. Faça exatamente tudo o que tiver que fazer. Eu pago. Eu providencio advogados se necessário, eu pago a fiança se necessário também. Mas eu preciso dessas informações.”
“Considere-me contratada, então. Quando devo começar?”
“Assim que sair deste prédio.”
Emma pensou qual seria a ligação do renomado médico com aquele homem. Mas não importava. Ela tinha um novo caso, e ela desconfiava que esse fosse lhe divertir muito mais do que os costumeiros. Anotou seu costumeiro valor para casos como esse e virou-o na direção do loiro. “Meu preço.”
David encarou o número. “Eu pago o dobro. Apenas faça o melhor.”
“Eu sou a melhor, Sr. Nolan.”
Ele levantou-se, abotoando seu terno e retomando a postura de homem de negócios. “Janine fará seu pagamento assim que sair. Vou passar o valor a ela. Deixe também o endereço para onde enviar o celular pré-pago, por favor.”
“Tudo bem.” Respondeu ela, estendendo a mão e despedindo-se dele com um olhar firme e um aperto igualmente conciso.
“Foi um prazer, senhorita Swan.
Emma saiu da sala, sorrindo com o sucesso de sua reunião. Mas parte de sua mente estava morbidamente ansiosa para começar a investigar e descobrir o motivo da obsessão de David Nolan por quem quer que fosse Frank Delfino.
***
Regina entrou no quarto logo pela manhã. Não tinha certeza do que iria acontecer naquele momento. Olhando ao redor, notou que tudo havia sido arrumado, embora pudesse jurar que nenhuma camareira havia passado por aquele corredor. Seu coração gelou quando ele entrou em seu campo de visão. Frank estava terminando de se vestir, o cheiro do perfume amadeirado fresco no ar. A gola da camisa social estava levantada, e ele ajeitava a gravata de frente ao espelho quando o olhar acinzentado cruzou-se com o dela. Alguns instantes depois de uma intensa conexão visual, ele desviou seu olhar para o próprio reflexo, assumindo uma postura confiante.
“Já tomou café da manhã, Regina?”
“Ainda não.”
“Estou quase pronto. Se importa de descer comigo?”
O que ele estava fazendo?
“N.. Não.”
Ela sentou-se na beirada da cama, observando-o terminar de se arrumar. Observando como ele era devotado a cada pequeno detalhe, a cada dobra, cada fio fora de lugar, cada pequena dobra. Sentiu-se em desvantagem. Como se pudesse pressentir que Frank estava jogando, manipulando-a, mas não soubesse com que propósito.
“Vamos?” Disse ele com um sorriso genuíno, os olhos brilhando na direção dela.
Regina engoliu em seco, ajeitando-se na frente do espelho e entrelaçando seu braço ao braço dele. Um pressentimento ruim se empossou dela, mas Regina empurrou-o para o fundo de sua mente. Ela não tinha como fugir disso, tinha? Ele trancou a porta do quarto, e a guiou pelo corredor, dando dois toques na porta do quarto ao lado. Seguiu seu caminho, ouvindo os dois seguranças deixando o quarto e seguindo-os pelo corredor na direção do elevador.
***
Margot estava sentada na frente de seu computador, observando o trabalho que seu pupilo da informática havia feito. Sentia seu corpo todo arrepiar ao observar aquele montante de contas, números que só subiam e subiam, como um arranha-céu em Dubai. Frank havia roubado muito dinheiro, não era possível que ele tivesse feito todo aquele montante. Mas de quem?
Mas a loira sabia que tempo era dinheiro. Seus esquemas de firewall não durariam para sempre. Conta por conta, ela teve o prazer de esvaziar cada uma delas, sentindo-se como uma Deusa do Carma ao ver os números diminuindo até simplesmente zerarem. Julien, seu novo contratado, dividia-as em suas contas separadamente. Cada uma das mulheres da aliança recebia uma porcentagem igual, porém Margot decidira que Regina merecia mais. Abriu uma conta extra, impossível de ser rastreada. Locou-a na suíça, protegendo-a através de uma plataforma. Converteu outra parte do dinheiro em bitcoins; criando também um fundo de segurança para elas.
Seu telefone tocou, e ela reconheceu Mellie do outro lado da linha.
“Bishop, tem muito dinheiro entrando em uma das minhas contas. É você?”
“Sim. Estou zerando Frank Delfino definitivamente.” Um vago silêncio ocupou a linha. “Mellie?”
“Margot...” Suspirou Mellie, chamando a atenção da loira. Tinha uma conotação triste, um misto de preocupação e receio. “Ela ainda está com ele. Você tem certeza que isso não vai se virar contra Regina? Quer dizer, o homem tentou matar Victoria. Se ele desconfiar dela, ele...”
“Foi Regina quem deu a ordem.”
“Não acha que devíamos intervir?”
Margot parou o que estava fazendo, olhando para a metade das contas ainda cheias. “Do que eu conheço Regina Delfino, não acho que devemos nos envolver. Ela o conhece melhor do que qualquer uma de nós; esteve casada com ele todo esse tempo. Nós somos o plano backup dela. Não podemos deixa-la na mão.”
“Eu gosto dela, não quero que se machuque.”
“Eu sei, Mells. Mas Regina sabe se cuidar.”
Mellie fechou os olhos por alguns segundos, segurando o ar. Não tinha certeza se aquele era o melhor plano. Não tinha certeza se Regina sabia mesmo o que estava fazendo. Mas não podia fazer mais nada. As peças já estavam caindo em um ritmo desgovernado, anunciando o mais insano efeito dominó.
***
Robin estava dirigindo, mas vez ou outra seus olhos encontravam com os de Regina, no banco de trás. Eles sabiam que algo estava errado com Frank. Embora o mesmo estivesse agindo como se absolutamente nada houvesse ocorrido na noite anterior, ambos sabiam que ele não havia esquecido. Era um homem vingativo no pleno sentido da palavra. Podia sentir em cada sorriso de seu chefe, cada olhar doce e singelo que ele tentava demonstrar que algo estava absurdamente errado.
“Grant, por favor, ligue para Donovan e diga a ele que fique pronto. Assim que chegarmos na mansão precisarei dele para uma reunião que tenho marcada nos arredores.”
“Sim senhor.” Respondeu o loiro, discando os números.
Robin manteve os olhos na estrada, evitando olhar para Frank, sentindo-o encará-lo através do retrovisor. Qual era o lance entre ele e Donovan? Será que o novato estava lhe providenciando drogas? Será que estava fazendo o serviço sujo dessa vez? Porém evitando olhar para o pequeno espelho à sua direita, ele perdeu o olhar perdido que Regina lançou na sua direção quando um pequeno flash da noite passada lhe tomava os pensamentos.
FLASHBACK ON
Ela não conseguia dormir. Sozinha na cama, ela permanecia bem quente, envolta por um cobertor macio e grosso. Suspirou, os olhos abertos e fixados no teto. O quarto estava escuro, mas a luz noturna entrava através de feixes da cortina. Robin e Stuart estavam deitados nas laterais da cama, cada um sobre grossos cobertores extras que eles haviam pedido ao serviço de quarto.
Tentou mudar de posição, virando-se de lado. Podia ouvir as respirações calmas, o único som dentro do quarto. Acalentada pelo silêncio, ela permaneceu ali, olhando fixamente algum móvel aleatório que fazia sombra na parede do quarto.
“O que houve, Regina?”
A voz dele assustou-a. Rouca e grossa, saindo da escuridão sem ser anunciada. “Por que está acordado, Robin?”
“Porque você está acordada.” Sibilou ele, sentando-se e ela pode ver apenas o contorno de sua figura se formando. “O que aconteceu? É um pesadelo?”
“Eu... Não consigo dormir. É como se o meu cérebro não desligasse. Eu fico pensando no que vai acontecer pela manhã. Ele vai tentar me matar assim que eu passar por aquela porta? Tentar me internar em um manicômio? Ameaçar matar todos da minha família? Me trancar ainda mais naquela mansão e me torturar em um dos quartos?”
Ela ouviu Robin respirar fundo. “Venha, deite-se aqui.”
Regina levantou-se com cuidado, tentando não tropeçar nele. Robin tocou sua perna e ela dobrou as mesmas sem querer, batendo do peito dele com os joelhos e fazendo-o arfar de dor. “Me desculpe.” Sussurrou, ao ajeitar-se ao lado dele no chão. Robin estendeu o braço, fazendo com que ela deitasse sobre seu antebraço, ficando de frente com ele.
“Por favor não transem.” Brincou Stuart e Robin xingou de um palavrão tão sujo que a fez desejar ser surda.
“Esta desconfortável? Posso me afastar mais.” Comentou ele, e ela negou, puxando o outro cobertor para cima deles.
“Está tudo bem, Robin.”
“O que está acontecendo com a sua mente, Regina?” Perguntou ele, direto ao ponto. Mesmo na escuridão, podia sentir os olhos azuis perfurando sua pele. Odiava como ele conseguia vê-la por trás das máscaras que ela usava e ela simplesmente não podia desvendá-lo.
“Só estou com insônia.”
“Se deitou aqui para continuar mentindo, é melhor voltar para a cama. É mais macia.”
“Você se acha um guru, não é Lockhood?”
“Não em qualquer assunto, mas eu sei quando está tentando me enrolar, Delfino.”
Ela sorriu e ele a adorou naquele momento, embora houvesse se forçado a permanecer indiferente.
“Eu...”
“Está com medo.”
Ela segurou os lábios fechados, fechando os olhos também. Sua respiração mudou, e ela permaneceu em silêncio. “E tudo bem estar.”
“Robin...” Suspirou ela, sentindo as lágrimas querendo descer pelo seu rosto, mas negando a si mesma sentir-se assim perto dele. Permitir a si tamanha vulnerabilidade por causa de palavras que ele lhe dissera. Tentou afastar-se dele, virando-se para o outro lado no ímpeto de levantar, e ele a puxou. Puxou-a para os seus braços, encaixando o corpo dela ao seu, circulando a pequena cintura e abraçou-a com força. Regina não estava pronta para aquele gesto; para sentir o calor do corpo dele contra o seu, o abdômen rígido em suas costas, abraçando-a como as paredes de uma casa que gritam como um lar. Ele beijou seus cabelos, destruindo todas as barreiras que ela tentava manter tão desesperadamente e as lágrimas caíram, denunciando que sim, ela estava com medo.
“Chore, se é o que precisa.” Sussurrou ele, abraçando-a com cuidado, acariciando sua cintura. Soltou o laço, permitindo que ela saísse se assim o desejasse. Mas como é que Regina diria não a aquilo? Como é que voltaria para a cama vazia e fria quando o tinha preso ao seu corpo, fazendo-a sentir segura, reconfortada, protegida?
“Eu não sei se fiz a coisa certa.” Continuou ela, em um sussurro engasgado pelos soluços silenciosos.
“Regina, você fez a coisa certa. Não sabe o quanto me deixou orgulhoso.” Sussurrou ele, acariciando seus cabelos. “E não é por questão de violência. Mas porque reagiu. Porque se deu conta de que você não merece aquilo.”
“Eu não mereço você.” Concluiu ela, acariciando os braços que contornavam sua cintura, deslizando os dedos sobre eles, mantendo-os naquela atmosfera pessoal em que entravam quando estavam sozinhos. Exceto pelo fato que Stuart estava do outro lado da cama.
“Está certa.” Confessou ele. “Merece coisa melhor.”
“Você é tão inteligente em algumas coisas e tão débil em outras, Lockhood. Como essa sua auto depreciação sem limites. Você fez algumas merdas. Grande coisa. Não é um caso perdido por causa disso.”
“Algumas merdas causam prejuízos, Regina. Eu tenho ciência do que eu fiz. Eu sei quantas vidas eu ceifei com isso.”
Ela suspirou, ciente de que jamais venceria essa discussão. Preferiu deixar o assunto. Ficou em silêncio, aproveitando a proximidade de seus corpos; a sensação deliciosa de tê-lo abraçado a ela depois de tantos meses, a respiração dele no topo de sua cabeça. “Durma.” Pediu ele em um tom baixo, quase sussurrado e que ela achou adorável.
Regina virou-se, deitando-se de frente para ele, seus corpos tão próximos que podiam emanar calor humano apenas por estarem ali. Percebeu que ele havia aberto os olhos, curioso sobre o que ela estava fazendo. Ela permaneceu ali, como que desenhando o rosto dele através das sombras, memorizando, admirando. “Robin, eu...”
“Você?” Sussurrou ele, a voz rouca e um pouco sonolenta.
Mas ela não disse nada. Apenas impulsionou-se, erguendo o tronco por poucos centímetros, colando seus lábios aos lábios dele. Saboreando aquele calor mágico que a tomava mais uma vez; o formigamento, as ondas de sentimentos que rebentavam contra o seu peito e faziam suas mãos tremerem de nervoso. Robin entreabriu os lábios e devolveu o beijo de maneira lenta, sem usar sua língua, apenas saboreando-a, apenas tentando entender o que era aquela eletricidade crepitante correndo pelas suas veias naquele momento. Era uma conexão absurdamente quente e viciante, como se ardesse em seu corpo, mas fosse impossível de resistir, um toque macio, picante e que fizesse seu peito bater como um tambor de desfile. Mas Regina adiantou-se, tentando aprofundar o beijo, e o contato de línguas deu a ele um lampejo de realidade. “Regina, por favor...” Suspirou ele, ainda ofegante. Deitou a cabeça contra o cobertor no chão, encarando-o o teto.
“Me desculpe, Robin.”
“Não peça desculpas por me beijar dessa forma.” Pediu ele, virando-se para ela. “Mas me ajude a ser fiel à minha namorada. Eu realmente estou tentando.”
Ela sorriu, mesmo que naquele momento, seu coração estivesse se despedaçando. E ela não sabia explicar o porquê. Fora sua decisão impedi-lo de terminar com a garota, e fora sua decisão impedir que ele se declarasse, expondo o que sentia por ela. Porque ela não estava pronta. Porque ela precisava dar um jeito em sua própria vida. Sentiu os braços fortes ao redor dela novamente, apertando-a contra si, e encaixou sua cabeça no pescoço dele. “Eu sinto muito, Regina. Isso é tudo que posso ofertar a você nesse momento.”
Ela suspirou, mas não respondeu. Permaneceu ali, imersa no perfume dele misturado à essência de sua pele até que adormeceu.
FLASHBACK OFF
Conforme seus olhos se adaptavam à estrada, ele foi percebendo que uma voz ia se aproximando, aos poucos, até que se deu conta que na verdade era a voz de seu chefe, chamando sua atenção pelo que poderia ser a milésima vez.
“Está prestando atenção, Lockhood?!!!”
“Sim senhor?”
“Parece que está dormindo, soldado. Perguntei três vezes se entendeu o que é para ser feito.”
“Sim, eu entendi claramente.”
“Hum.” Resmungou o homem, e Robin sabia que ele seria criticado por isso novamente em outra ocasião. Nada deixava o mauricinho mais irritado do que ser ignorado, e ser ignorado por seus subalternos era ainda pior para ele. Sentiu-se imediatamente grato ao passarem por uma das portarias de acesso à propriedade. Percebeu que Regina o encarava pelo retrovisor; os olhos amendoados ainda mais escuros e densos, como se ela tivesse adivinhado onde sua mente havia se perdido, como se soubesse que aquilo mexera com ele tanto quanto com ela.
Assim que estacionou o carro na entrada da mansão, Stuart desceu e os ajudou a descer. Robin não olhou para trás, e nem podia. Deixou que seu amigo acompanhasse Regina para dentro da casa, e dirigiu o carro à garagem.
***
Naquela tarde, Donovan e Frank bateram duas vezes na porta de cada um dos vizinhos. Fingindo ser investigadores da Homicídios de Baltimore, eles mostraram uma foto de Regina a todos os moradores do loft que ela havia vendido. Mas as respostas eram todas negativas. Ninguém havia visto nada. Ninguém ouvira nada. Ninguém sabia quem eram os donos daquele apartamento, exceto que uma velha senhora fazia a limpeza do mesmo durante certo período. Uma velha senhora que aparentemente não tinha nome, não tinha registro, era mais um fantasma na aquisição daquele imóvel. Era algo limpo, absurdamente ileso de rastros.
E aquilo estava começando a incomodá-lo.
“Você me disse que teríamos alguma coisa, mas ao invés disso perdemos a tarde toda e não conseguimos absolutamente nada.” Cobrou Frank, encarando o jovem obstinado à sua frente. A verdade é que ele desprezava Donovan. Mantinha-o por perto pois havia enxergado no rapaz a fome, a ganância visceral que o obrigaria a fazer absolutamente qualquer merda para subir na vida. Faria qualquer desgraça por uma promoção em um emprego de merda, e pessoas desesperadas a esse ponto eram fáceis de manipular. Este era seu interesse. Para o menino, ele era uma fonte de ouro. Era a farsa perfeita. A ilusão perfeita.
“Senhor, mas...”
“O que? Vai me dizer que a minha esposa fez um trabalho tão bem feito que não deixou nenhum rastro? Pelo amor de Deus, é uma mulher. Elas não sabem planejar esse tipo de coisa.” Zombou ele, fazendo o uísque em seu copo balançar com o movimento do copo que o mesmo rodopiava. “Eu entendo suas boas intenções, Donovan, mas talvez seja hora de voltar a fazer o que faz de melhor. Volte ao grupo, vá treinar braço.”
Frank virou-se de costas, sorrindo. Esperando que o veneno entrasse lentamente, que a mordida fizesse efeito aos poucos, envenenando o jovem segurança. “Se tivesse me entregado algo ou alguém relevante, eu poderia ter feito mais por você. Mas é hora de trabalhar agora. Retire-se, por favor.”
Donovan encarou seu chefe, incrédulo. Mas Frank Delfino não se virou sequer para olhá-lo; esperou que o mesmo saísse ainda de costas, negando-se a lhe dar até mesmo um olhar de reprovação. Arrasado, o garoto seguiu os corredores em silêncio. Raiva se apossava dele. Decepção. Foi quando ele atravessou uma das alas laterais à academia e os viu.
Regina Delfino e....
Stuart.
Rindo, confidenciando segredos como melhores amigos. Observou quando Regina tocou o braço dele, sorrindo e então deu um passo à frente, abraçando-o. Percebeu a intimidade dos dois, percebeu a cumplicidade, percebeu quando Stuart tocou o antebraço dela e aproximou de si, sussurrando algo que a fez rir.
E então, sua mente foi mais do que rápida em bolar um plano que lhe garantiria duas vitórias de uma vez.
Uma ascensão brilhante e o privilégio de assistir à derrocada do garoto de ouro Stuart Grant.
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