Efeito Dominó
39 Seven Devils
Há anos atrás, se alguém lhe dissesse o que seria da vida dela, Regina jamais teria acreditado. Não havia como prever que a feliz e bem-sucedida universitária estaria olhando para o seu reflexo e enxergando somente dor, raiva, tristeza. Seus olhos marrons pareciam cada dia mais escuros; como se o brilho dos mesmos os houvesse abandonado. Ajeitou os cabelos perfeitamente cortados, deslizando a escova de cerdas macias; o vestido azul marinho tinha um design sofisticado e um corte conservador, fazendo-a parecer exatamente aquilo que haviam planejado para o seu futuro: uma mulher elegante, uma esposa decente. Observou seu reflexo como quem não sabia mais quem estava do outro lado. Ela sabia?
Frank havia lhe tirado muito mais do que apenas sua liberdade. Agora ela conseguia entender tudo o que perdera. Dois toques lhe despertaram de seu transe, fazendo-a mover apenas a cabeça para encontrar um Stuart sério encarando-a pelo reflexo.
“A senhora tem visita.”
“Eu não estou esperando por ninguém.”
“Ela diz que é urgente.”
Regina suspirou. “Ela?”
“Annalise Keating.”
O nome lhe causou curiosidade. Annalise não lhe dava exatamente nenhuma atenção especial, seu contato era sempre direto com Frank. O que a advogada queria? Embora seu corpo todo estivesse exausto, Regina obrigou-se a ficar em pé. “Desço em um minuto. Leve-a para o jardim de veraneio.”
O jovem assentiu, saindo logo em seguida. Regina voltou a encarar seu reflexo, pensativa. Agindo como se estivesse no automático, debruçou-se, pegando um de seus perfumes caros e borrifou preguiçosamente, como se estivesse realmente se preparando para um grande evento. Continuou seu ritual escolhendo um de seus batons, uma cor exorbitante, vermelha como sangue e retocou seus lábios. Satisfeita com o que via, levantou-se, calçando seus saltos altos e se direcionando ao jardim onde era esperada.
***
Cercada de flores e pequenas arvores, aquele jardim parecia mais um pequeno recanto de paz em meio à suntuosa mansão. Bancos de madeira maciça haviam sido pintados de branco, e o assoalho, que cobria apenas o caminho de circulação fazia uma trilha sobre um pequeno algo e flores plantadas na beira do mesmo. Iluminação externa as banhava, entrando por feixes do teto constituído de vidraças desenhadas. Aguardava em silêncio, observando a decoração, quando ouviu o som dos saltos se aproximando. Assim que observou Regina Delfino entrando em seu campo de visão, Annalise se lembrou da razão pela qual a jovem mulher era a obsessão de Frank Delfino. Não era para menos. A mulher era uma beldade, bela, elegante, uma obra de arte andando entre eles. Tinha olhos escuros e intensos, uma expressão facial enigmática e intimidadora.
“Annalise Keating.” Cumprimentou ela, a voz rouca e potente.
“Delfino.” Rebateu ela, mas Regina aparentemente não gostava daquele nome. Sua expressão facial mudou por alguns segundos, antes da mesma retomar a usual máscara da diplomacia.
“Me chame de Regina.” Pediu ela, puxando uma das cadeiras e sentando-se frente a frente com ela. Annalise notou o segurança na porta, à uma distância segura de ambas. Bateu as unhas bem pintadas com um esmalte preto na madeira da mesa, como quem anuncia sua inquietação. “No que posso ajuda-la?”
“Eu deveria ter vindo antes. Sei que nunca nos falamos, mesmo que você seja casada com...”
“O seu braço direito.” Riu Regina, arqueando as sobrancelhas ao encará-la. “O que mudou agora?”
“Mudou que ele não é mais meu braço direito.”
A informação chamou a atenção da herdeira, forçando-a a sentar-se de maneira mais polida, alinhando sua postura, os olhos atentos a todos os movimentos da famosa e tão infame advogada. “Ele não me disse nada disso.”
“É claro que não. Frank é um mentiroso. Um traidor.”
“Oras, oras.” Riu Regina. “Você veio falar isso justamente para mim? Eu sei que meu marido é um traidor, Annalise. Eu sei há anos. Eu sei o nome de cada uma delas, cada estudante que você contratou e depois demitiu que fez estada dentro daquela maldita limusine.”
Annalise respirou fundo. “Não tente me fazer culpada por ele ser quem é. Eu contratei as garotas para trabalhar, não sou responsável pela inabilidade dele de manter a calça no lugar.”
Regina engoliu as palavras da advogada, aceitando que as merecia. Ela não estava errada; ninguém era culpado a não ser ele mesmo. Fora sempre uma decisão dele. De desrespeitá-la. De passar por cima daquele matrimônio. De colocar seus desejos sexuais acima de tudo e de todos.
“Se veio para me dizer isso, está um pouco atrasada.”
Annalise colocou a mão sobre a dela, segurando com força. “Eu estou falando algo sério aqui, Regina.” A urgência da mulher à sua frente lhe deixou alarmada. “Você tem que deixá-lo. Você precisa ir embora.”
Embora seu coração estivesse batendo de maneira descompassada, Regina agiu como se ela não tivesse lhe dito nada demais. Desvencilhou sua mão, encarando a mulher com frieza e objetividade. “Não é tão fácil quanto todos fazem parecer. Se você o conhece tão bem quanto diz conhecer, sabe o que acontecerá se eu tentar.”
“Se ficar, seu destino continuará sendo o mesmo. Ele está falido e sabe disso. E eu aposto tudo o que tenho que ainda não disse nada a você. Ele não tem mais nenhum dinheiro. Esta se afundando em drogas cada vez mais pesadas e o fim será trágico para todos que ficarem ao seu redor.” Sibilou a mulher. Retirando uma pequena pasta da bolsa, colocou-a sobre a mesa e estendeu-a na direção de Regina. “Você não precisa acreditar em mim se não quiser. Mas leia o que há nessa pasta; escute o seu próprio marido confessando que quase me matou e que matou meu filho. Por uma merda de um dinheiro.”
Regina puxou a pasta para si, tentando com dificuldade assimilar o que acabara de ouvir.
“Não se iluda achando que ele não vai tentar fazer isso com você por muito menos, Regina. Esse homem será a ruína de qualquer um que continuar ao lado dele.”
Mas ela não iria desfazer-se na frente da mulher que mal lhe dera chances a vida toda. Levantou-se, levando a pasta consigo. “Obrigada, Senhorita Keating. Mais alguma informação que queira compartilhar?”
Annalise sorriu, encarando-a com descrença. “Orgulho não irá salvá-la, Regina.”
“Lágrimas também não, Annalise. Agradeço por ter vindo até aqui, e por essas informações. Mas não espere um saco de moedas por isso. Você não é nenhum Judas, e ele, definitivamente, não é nenhum Jesus.” Rebateu a morena, de maneira impassível e sem demonstrar nenhuma expressão facial. “Grant a acompanhará até a saída.”
***
Victoria acendeu a lareira, e trouxe a taça de champanhe consigo para a frente da mesma. Sentou-se em sua larga e luxuosa poltrona, ajeitando-se sobre ela como uma verdadeira rainha. Olhando para o fogo que começava a queimar por causa do querosene adicionado, pensou em toda a sua jornada até ali. O império Grayson estava arruinado. Assim como os Clarks.
Se não tivesse cometido tantos erros no começo... O arrependimento estava tatuado em seus ossos. Jamais deveria ter traído David. Jamais deveria ter se permitido amedrontar pelas ameaças gananciosas de Conrad; todo o poder que ele tivera havia sido perpetuado por ela. Por suas decisões egoístas que resultaram em uma mulher com um ímpeto vingativo imbatível e um homem ressentido por suas traições. E agora ambos estavam mortos, assim como seus filhos, assim como seu marido, assim como seu amante. Todos se foram. Tudo que lhe restou após aquilo fora aprender com Amanda, e criar a sua própria jornada de vingança.
E os anos foram generosos com seus planos. Aos poucos, todos que haviam lhe feito mal tiveram seu retorno através das mãos dela. E aquilo nunca fora tão bom. Ela entendia sua arqui-inimiga agora.
Frank Delfino era a última pessoa que restava em sua lista. Sabia que ele não a deixaria escapar depois de ter enterrado a relação dele com a advogada. Annalise Keating era como uma mãe para ele e ela o odiava agora e isso lhe causaria dor pelo resto da sua existência. Era satisfatório.
Por isso quando viu que sua casa estava sendo invadida e viu o rosto dele nas câmeras, não se preocupou. Não ligou para ninguém. Não se importou. Não havia mais nada que ela desejasse dessa vida. Havia cumprido seu papel. Sentou-se ali, esperando que a morte a consumisse como aquelas labaredas consumiam a madeira. Ouviu os passos atrás de si, a maneira com que ele fungava, provavelmente pelo tanto de droga que usara antes de tomar coragem para ir até ela.
“Victoria.” Rosnou ele, a voz grossa que trazia tanta amargura para ela.
Mas ela não se virou. Continuou encarando o fogo, a mão estendida para fora da poltrona, mostrando a ele que ela não pretendia reagir. “Se não for problema, gostaria de terminar meu champanhe primeiro.”
“Eu jamais viria atrás de você.” Sibilou ele. “Mas você tinha que fazer aquilo.”
A tortura em sua voz era um deleite para ela. Como se conseguisse sentir o sofrimento dele, uma dor latejante incapaz de ser contida. Percebeu que ele se aproximava. Ouviu-o puxar uma cadeira sobre o seu chão recém polido, mas o que lhe importava? Possivelmente seu corpo ficaria estirado sobre o mesmo. Repleto de sangue.
“Você não deveria tê-la tirado de mim, Vic.” Sussurrou ele, e ela finalmente se deu ao trabalho de olhar para ele. Uma visão que para ela, valia sua vida. Frank Delfino estava acabado. Os olhos vermelhos, fundos, lágrimas escorrendo. Ele estava mesmo sofrendo. Apesar de absurdamente drogado, ele ainda podia sentir a dor e sofrimento que rebentava contra ele. Mas ela não disse nada.
“Eu fiz o que precisava fazer. Não foi isso que disse quando estava tentando me matar? Que era necessário.”
“Mas ela... Anne é... Por que porra você tinha que desenterrar aquela merda? Eu realmente me arrependi daquilo. Eu...”
Victoria sorriu.
“Você está... sorrindo?” Perguntou ele, a voz carregada de asco, e ódio. “Está achando graça nisso, vagabunda?”
Tomado por uma raiva descontrolada, ele levantou-se e apoiou a arma em sua têmpora. Invadindo seu espaço pessoal, ele deu um tapa em sua mão, fazendo a taça voar para longe. Victoria fitou o liquido estragando o polimento do chão, contrariada. “Quero ver se vai sorrir quando uma bala atravessar o seu crânio.”
“Se vai me matar, faça logo isso seu demente. Pare de cacarejar. Me faz pensar que você não tem coragem.”
“Você acha que eu não sou capaz, Victoria?” Gritou ele. “Eu posso ter errado na primeira vez, mas não vou errar na segunda.”
Dando meia volta, ele parou logo atrás dela. Encostou o cano frio da arma na parte posterior dos cabelos escuros, e destravou o projétil. “Últimas palavras, Victoria Grayson.”
Victoria encarou as labaredas e sorriu. “Regina Mills é mulher demais para um covarde como você. Ela irá deixa-lo.”
Ódio apossou-se dele e ele colocou o dedo sobre o gatilho. Mas nunca chegou a dar o tiro. Victoria ouviu o som familiar de um corpo caindo no chão e então virou-se para trás. Em pé, ao lado de um Frank desacordado, estava Mellie Grant, segurando o resto que sobrara de uma garrafa de uísque.
“Esse era seu plano, Grayson? Se matar?” Questionou, jogando o resto da garrafa na direção da lareira, causando uma chama um pouco mais violenta que logo se normalizou.
“O que está fazendo aqui?”
“Salvando você.” Rebateu ela, pegando a arma que caíra sobre o chão e encarando a morena. “Você está bem?”
As duas trocaram um longo olhar. Victoria fitou a arma na mão de sua amiga, depois o homem desacordado aos pés dela. O desfecho era tão tentador. Tão óbvio.
“Mate-o.”
Mellie encarou-a como se ela tivesse dito algo absurdo. Não iria fazer isso. Ela não era uma assassina.
“Mellie, não titubeie. Faça isso por Regina. Termine logo com isso.”
“Não é nossa batalha, Victoria. Vamos embora. Você vai para a Casa Branca.”
Victoria riu. “Eu prefiro os Hamptons.”
“Você me ouviu fazer uma pergunta? Porque não foi. Vamos para o Capitólio agora.
Victoria a seguiu, mas deu uma última olhada para trás, observando o homem que deveria ter sido seu carrasco. Algo lhe dizia que elas se arrependeriam disso. Algo que lhe dizia que elas desejariam ter atirado naquele homem, cedo ou tarde.
***
Stuart chegou em casa e sentiu o cheiro delicioso que o abraçara. Algo com condimentos, talvez um molho de tomate? Seguiu o mesmo, deparando-se com Ruby em pé, na beira da pia, vestindo uma camiseta longa e shorts curtos. Os cabelos escuros estavam presos em um coque e ele teve certeza que namorava a mulher mais linda do mundo.
“Oi bonitão.” Brincou ela, ainda cortando os temperos. Sorriu para ele como se pudesse iluminar o mundo e ele caminhou até ela, abraçando sua cintura e plantando um beijo em sua nuca.
“Você não sabe a saudade que sinto de você todos os dias.”
Ela suspirou, deitando a cabeça no ombro dele por alguns instantes. “Eu sei sim. Eu a sinto também quando você sai para trabalhar.”
O loiro afastou-se dela, lavando as mãos ao seu lado e perguntando se podia ajudar. Enquanto enrolava as verduras e cortava tiras medianas para a salada, começou a repensar os últimos dias. Talvez algo em sua expressão facial fosse transparente demais, pois poucos minutos depois ela o questionou. “O que houve, Stu? Problemas no trabalho? De novo?”
Ele encarou-a, admirando o rosto doce e quase angelical. “Coisas de sempre.”
Ruby abaixou o fogo e deu meia volta, sentando-se o lado dele, acariciando sua perna. “O de sempre não deixa você abatido dessa forma. O que houve de verdade?”
“Robin. Regina. Frank.”
Ela encarou-o, mantendo um silêncio por algum tempo. “Esse triângulo amoroso vai acabar muito mal. Você sabe disso, não é?”
O loiro balançou a cabeça, concordando.
“E Robin está com a minha amiga. Ele está traindo Megan? Porque isso seria injusto com ela. Ele não tem esse direito.”
“Nada aconteceu, Ruby.” Ele empurrou as verduras para a grande tigela de vidro. “Mas o que realmente importa já está lá. Ele a ama. Você precisa ver como ele muda quando o assunto é Regina. Parece outro homem.”
“E ela?”
“Ela não assume que o ama. Mas é o único homem a quem deu acesso.”
“Não é o único. Ela é bem acessível com você.”
Stuart sorriu, acariciando as mãos da morena. “Regina me vê como um irmão. É bem diferente. Ela nunca me olhou daquela forma. Ela nunca falou comigo da maneira que fala com ele. Regina...” Ele suspirou, encarando a tabua onde acabara de cortar as verduras. “Desde que conheci Regina eu descobri o que era uma pessoa extremamente infeliz. Dia após dia, eu achava que entraria naquela suíte e encontraria apenas um corpo. Ela estava vivendo no limite. E quando ela se envolveu com Robin, ela...” Stuart levantou o olhar para Ruby, preocupado que ela entenderia aquilo de uma maneira errada. Mas ela estava apenas observando com curiosidade e talvez alguma preocupação.
“Ela...?”
“Não é como se ele tivesse chegado e mudado tudo para ela. Mas é como se ele tivesse sido aquela primeira fagulha, entende? A faísca. O impulso.”
Ruby levantou-se, caminhando até ele. Afastou-o da mesa e sentou-se confortavelmente em seu colo, acariciando o rosto belo e cansado. “É uma história de amor muito complicada, Stuart. E perigosa. Mas não cabe a você escrevê-la. Você faz tudo o que pode por aquela mulher, eu vejo isso todo o tempo. Você cuidou dela de uma maneira que poucas pessoas no mundo fariam. E deveria estar orgulhoso disso.”
“Eu estou.” Sussurrou ele. Beijou-a com carinho, afagando seus cabelos. “Eu só tenho medo que o desfecho seja trágico. Para todos nós.”
“Talvez seja hora de você deixar esse emprego, Stuart. Você não acha?”
Por um lado, ele sabia que sim. Por outro, ele sabia também que Regina não poderia confiar em ninguém que fosse colocado em seu lugar. Sentia-se sacrificando aquela mulher em troca de sua própria felicidade sem reservas. “Vou pensar nisso, tudo bem?”
Ela sorriu, beijando-o com mais vontade, atiçando seus desejos. Apertava seus braços enquanto ele circulava sua cintura. “Me deixe terminar o jantar e depois continuamos isso aqui, o que você acha?”
O loiro riu, beijando seu pescoço. “Eu topo. Vou tomar um banho e já volto.”
“É bom. Você está fedendo mesmo.” Riu ela, e ele deu um tapa em sua bunda antes de se afastar na direção da suíte.
***
“Papai, precisamos falar sobre a mamãe.”
Robin encarou Megan, os olhos arregalados. Voltou-se para seu filho, sentado no meio de suas pernas, que o encarava com grandes olhos esbugalhados, os cílios grandes piscando volumosamente na espera de alguma reação. “Exatamente o que precisamos falar?”
“O que aconteceu com ela?”
“Sua mãe sofreu um acidente de carro, Roland. Eu já lhe disse isso antes.” Megan encarou-o por segundos, antes de desviar seu olhar.
“Eu vou preparar alguns cookies para nós, Roland. Assim você e seu papai podem conversar à vontade.”
Mas Robin sabia que não era só isso. Ela estava fugindo da conversa para não ouvir as mentiras que ele contaria ao garoto. Para não ser cumplice de uma farsa afim de tornar a realidade menos assustadora e traumatizante.
“Mas eu tive alguma culpa?”
Robin engoliu em seco, encarando-o. “Roland, pelo amor de Deus, de onde você tirou isso?”
“Papai, você nunca está em casa. Nunca pode passar tempo comigo. Eu vi na televisão que quando as pessoas começam a nos evitar é porque nós as lembramos de alguma coisa ruim. Como se fosse nossa culpa.”
O segurança encarou seu filho como se tivesse sido apunhalado diretamente sobre o coração. Palavras ditas de uma forma tão doce, mas que simplesmente quebraram o resto da sua alma, em milhões de pequenos pedaços. Era esse o tipo de pai que ele era. Um fracasso. Não somente ele havia tirado a mãe de seu filho, também o privou de seu pai. Lágrimas encheram seus olhos, tamanha a decepção consigo mesmo que sentiu ao ouvir aquilo. O pequeno garoto não era culpado por seus demônios, mas pagava um altíssimo preço por eles.
“Rollo, eu...” Robin tentou retomar sua voz que havia saído estremecida. “Você não tem culpa de nada. Papai jura. De nada mesmo. Você é um bom menino na escola, é um bom menino com a Megan. É muito inteligente. Filho, eu amo você. Muito, muito mesmo.” Continuou ele, acariciando os cabelos escuros e encaracolados do garoto.
“Então você está bravo com a mamãe? Ela fez algo errado?”
“Roland, sua mãe era o amor da minha vida. Sabia que ela era a pessoa mais feliz dessa casa? Ela cantava músicas o tempo todo que você esteve na barriga dela. Ela rodopiava essa casa super feliz, desenhando borboletas e flores por todos os cômodos para que você se sentisse seguro, confortável e motivado por sentimentos felizes. Sua mãe adorava você. Eu tenho certeza que se pudesse, ela estaria aqui com você, te mimando, fazendo tudo o que você gosta e muito mais. Eu amava a sua mãe mais do que tudo nesse mundo. Ela era minha amiga, ela era meu porto seguro.... Ela...”
Ela estaria aqui se eu não a tivesse matado, pensou.
“Papa, eu sinto falta da mamãe.”
Roland abraçou-o, deitando sobre o seu peito, a cabeça encaixada na curvatura de seu pescoço. Robin deixou que algumas lágrimas escorressem, já que o garoto não podia vê-las. “Eu também, meu querido. Eu também.”
“Por que que eu nunca vi nenhuma borboleta nas paredes?”
Porque seu pai pintou as paredes, carregado pela culpa.
“Nós mudamos de casa. Por isso.”
“Ah...” Comentou o menino, aceitando inocentemente a verdade adulterada por seu pai.
Robin limpou o rosto rapidamente antes de afastar Roland, sentando-o no seu colo. O pequeno encarava-o com curiosidade. Parecia triste, mas não carregava o peso de lembranças dolorosas, culpa, mágoa. Era uma alma inocente. “Mas você não está errado, pequeno. Papai passou dos limites com relação ao trabalho. Eu vou passar mais tempo em casa, ok? Vou dedicar mais tempo a você. Nos finais de semana também.”
Roland abriu um sorriso largo e feliz. “Você promete, papa?”
“Prometo, filho. Eu prometo que vou cuidar disso. Por você.”
“Yeyyyyy!” Gritou o pequeno. Levantou-se do colo do pai para correr até a cozinha, gritando por Megan de maneira eufórica. Robin escutou quando a ruiva o pegou no colo, ouvindo-o tagarelar de maneira frenética sobre o pai passar mais tempo em casa. Repetia ‘ele prometeu’, ‘ele prometeu’ como se fosse uma nova forma de oração, o que fora apenas mais um golpe para Robin. A verdade é que ele estava fazendo um péssimo papel, de qualquer forma. Roland apenas apontara a realidade.
***
Era tarde da noite, na transição para a madrugada quando ele finalmente se deitou em sua cama. Ficara com Roland em seu quarto, relera todas as histórias sobre honrados cavalheiros e seus atos heroicos até o pequenino adormecer. Robin o cobriu e então o observara por algum tempo até apagar a luz e acender a luminária, deixando-o em seguida.
“Você falou sério sobre passar mais tempo com ele?” Perguntou ela, sem se mover.
Robin assentiu, balançando a cabeça. Puxou a camiseta para fora do corpo, jogando-a longe. “É tão difícil de acreditar?”
“Não, Robin. Não é.” Respondeu. Sentando-se na cama, ela deslizou a palma da mão sobre as costas dele, acariciando-o. O toque quente fez com que ele se sentisse ainda mais cansado. “Eu só perguntei porque ele vai manter as expectativas em alta e poderia se magoar.”
O loiro não respondeu. Continuou de costas, sentado. Os pés encostados no chão, a lombar ligeiramente curvada para a frente enquanto ele fitava o chão. Ele não estava fazendo nada direito. Não estava sendo um bom pai, nem um bom amigo, tampouco um bom namorado. Ele não estava sendo útil na vida de ninguém com quem se importava.
“Robin, você precisa colocar essas coisas para fora. Vai acabar sufocado.” Pediu Megan, aproximando-se dele e abraçando-o. Deitou a cabeça no alto de suas costas, na altura da escapula dele, deslizando os dedos para a cintura dele.
“Meggie.” Pediu ele, a voz embargada. “Por favor...”
“Confie em mim, Robin. Eu sempre fui sua amiga.”
Ele suspirou. Estava cansado. Cansado de carregar tudo aquilo, toda aquela culpa, toda aquela carga emocional gigantesca. O legado que suas escolhas lhe renderam era pesado demais para um simples homem carregar. Fosse quem fosse. Deitou-se na cama, e ela puxou a cabeça dele para o seu colo, acariciando seus cabelos. Sem saber que aquele era o toque preferido de Marian. Com os olhos fechados, ele tentava impedir as lágrimas que o venceram pela exaustão; mas as mesmas escorriam através de suas pálpebras fechadas, como se estivessem determinadas a provar a ele que elas eram mais fortes. Seu peito doía, seu coração batendo forte contra seu peito como se fosse explodir e abrir sua caixa torácica; por que? Por que tudo tivera que ser daquela forma? Johnnie saberia o que dizer. Johnnie saberia como consolá-lo. Mas não era ele a razão disso tudo?
Megan não sabia o que fazer. Pela primeira vez, vendo-o desabar daquela forma, ela sentiu algo que beirava ao desespero e medo. Medo do que existia dentro da mente do homem pelo qual havia se apaixonado. Acariciando seus cabelos, o viu despencar, ali, no seu colo. Como se ele mesmo não estivesse encontrando uma saída, e tudo que ela queria era diminuir a dor que parecia consumi-lo.
“Robin...” Sussurrou ela, e então ele abriu os olhos. Fitou-a por alguns instantes, quase como se ele tivesse de repente percebido onde estava, com quem estava e o que estava acontecendo. Suas lágrimas cessaram, e ele respirou fundo, ainda lidando com os soluços que o incomodava, tentando estabilizar sua respiração erradica. Ajeitou-se na cama, afastando-se dela e deitando sua cabeça contra a cabeceira, sem ficar plenamente na horizontal. Respirando fundo, ele observou quando ela retirou a parte de cima de seu pijama, oferecendo nada menos do que a nudez de seu dorso enquanto movia-se para o colo dele, os olhos fixos aos seus.
“Megan, agora não é...”
Mas Megan não o deixou continuar. Colocou o dedo indicador sobre o lábio dele, silenciando-o e o retirou apenas para substitui-lo com seus lábios, beijando-o de maneira delicada. Assim que se afastou, ele ainda parecia entorpecido. Parecia triste, e abatido e ela odiava vê-lo dessa maneira. “Megan...” Suspirou ele, mas ela ignorou-o novamente. Acariciando seus cabelos, ela aproximou-se novamente, beijando seus lábios novamente, forçando uma sensualidade que se encaixava na vulnerabilidade do momento.
“Robin, se eu não posso fazer as coisas mudarem, me deixe cuidar de você. Pare de mandar, pare de querer controlar tudo. Me deixe fazer isso por você.”
“Megan...” Ele não queria discutir naquele momento. Ele não queria ter que lidar com a reação dele caso insistisse para ela parar. Ele só queria ficar em paz. Ele só precisava esquecer todas os fantasmas dançando na sua mente. Então quando ela o beijou novamente, apenas para calar seus protestos, ele parou de lutar e deixou-a fazer o queria.
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