Efeito Dominó
9 Triângulos
“Abaixe essa arma, Stuart.”
Robin não se moveu. Fitou o jovem por trás do cano de metal e suspirou. Stuart o encarava morbidamente, os olhos fixos e o semblante sério. “Eu disse que não ia perguntar de novo.” Ele desativou a trava, movimento denunciado pelo clique metálico acima da empunhadura.
“Não há nada acontecendo.”
“E o fato de eu ocasionalmente pegar vocês se tocando é uma mera coincidência? É essa a sua justificativa, Lockhood?”
“Por que se importa, Grant? Está com ciúmes?”
Stuart deixou um riso solto escapar de seus lábios. “Eu não tenho ciúmes de você. Eu tenho ciúmes dela.” Apontou a arma para a saída, assimilando o sujeito de sua oração à Regina. “Eu não vou permitir que brinque com ela. E para isso, eu preciso saber exatamente o que está acontecendo. Você está apaixonado por ela?”
“Não.” A rapidez de Robin ao responder deixou-o desconfiado, mas ele preferiu continuar o interrogatório.
“Você transou com ela?”
“Não.”
“O que você pretende com essa brincadeira, Robin?”
“Eu não fiz nada, Grant. Se Regina sente alguma atração e quer me tocar, eu não vou impedi-la. Ela é atraente e sexy e todos a cobiçam. Qualquer um sabe disso. Além do mais, como nós dois sabemos ela já é rejeitada o suficiente para que eu lhe diga não.”
“Você tem noção de quantas vezes eu assisti essa mulher beber e chorar até dormir?” Stuart forçou o maxilar e Robin podia ouvir o ranger dos dentes, uns contra os outros. “Ela não merece ser infeliz, Lockhood. Então eu lhe dou duas opções: ou você dá a ela exatamente o que ela quer, ou você se afasta. Porque Deus lhe proteja se você machucar aquela mulher, Robin Lockhood.”
“Vai me entregar?”
“Eu mato você.”
Robin analisou a linguagem corporal dele e teve certeza que o rapaz nunca falara tão sério em toda a sua vida. Ele mataria para proteger Regina. O pensamento fez com que ele ficasse orgulhoso de seu pupilo e também tranqüilo a respeito dela; Regina estava em boas mãos. “Eu entendi o recado, Grant. Agora posso terminar meu treino?”
Stuart guardou a arma no coldre e virou-se, caminhando na direção da saída com um sorriso no rosto sorriso que Robin jamais seria capaz de ver.
***
Cora estava sozinha no escritório quando alguém bateu duas vezes na porta. Sozinha na diretoria Zelena saíra em uma reunião e levara Ruby consigo; ela tinha que fazer todo o trabalho operacional junto ao seu. “Entre.”
A grande porta de madeira esculpida se abriu e um rosto masculino, marcado pela barba rala e fina e os olhos azuis. “Olá Arthur.”
“Senhora Mills.” Ele adentrou na sala e Cora voltou seu olhar para o processo, até que a presença do rapaz se fez presente quando ele parou na frente da mesa de caucária. Ele estendeu uma pasta e ela fitou o objeto suspenso no ar, depois fitou o rosto do empregado.
“O que é isso?”
“A otimização do projeto do cassino em Port Clevelant, a pedido da Sra. Delfino.” Respondeu ele. Ela ergueu o rosto e pegou a pasta, encarando o homem nos olhos. Arthur Cambrigde trabalhava para elas há três anos, um desempenho impressionante e contínuo. Destaque na operação especial conhecida como Espada e trouxe à diretoria informações importantes para a aquisição da gigante na industria metalúrgica, a empresa veterana Camelot. Cora pegou a pasta e folheou o projeto, analisando vagamente os desenhos e os cálculos bem representados na planilha escrita; as tabelas faziam divisão com os gráficos em disco.
“Quanto isso custaria à empresa?”
“O projeto até o momento está estimado para vinte milhões de dólares.”
“Vinte?” Cora riu, fitando o rapaz. “E Regina concordou com isso? Aquela garota está louca. Não temos esse fundo para um projeto tão arriscado.”
Arthur sorriu, revelando os lábios grossos em torno dos dentes perfeitos. Os olhos azuis a encaravam com atenção, os cabelos pretos e lisos caindo sobre as têmporas. “O conselho aprovou por unanimidade.”
“É claro que sim. Um bando de homens facilmente manipulados pelo sex appeal de Regina. Como todos.”
Arthur debruçou-se e tocou a mão da mesma. “Nem todos.” Ela o fitou com descrença e ele retirou a mão.
“Desculpe-me.”
“Se repetir isso, irá para o meio da rua.” Ela fechou a pasta e jogou com brutalidade sobre a mesa. “Pode se retirar. Eu revisarei o projeto e o retornarei á sua estação de trabalho.”
“Cora…”
“Senhora Mills. Não me desrespeite. Há mais alguma coisa em que posso ajudá-lo, senhor Cambridge?”
Ele a encarou, um tanto desanimado em como a situação havia se virado contra ele. O revés de um barco é o estado de espírito da tormenta, bem lhe dizia seu falecido pai. Sem dizer mais nada, Arthur saiu da sala. Não virou-se e nem se despediu. Do lado de fora da sala, retirou o celular do bolso e digitou as seguintes palavras.
A primeira abordagem foi mal sucedida.
***
A noite na mansão estava calma e serena. Havia a confraternização da nova turma de seguranças e o salão de festas estava repleto deles. Regina não era exatamente uma fã de eventos, mas fazia questão de comparecer às confraternizações dos seguranças. Apesar de parecer uma constatação triste a seu respeito, eles eram praticamente sua família passavam mais tempo com ela do que sua mãe, sua irmã e seu marido juntos.
Ela usava um vestido azul com apenas uma alça e que deixava parte de seu abdômen coberto, os cabelos soltos em ondas largas. Adentrou o salão, e fitou o marido que conversava com o barman. Havia se esquecido o que era vê-lo daquela maneira. Usando jeans e camiseta, como um homem, e não uma máquina de dinheiro movida a estresse. Frank virou-se para ela e a observou; ela podia jurar ter visto um sorriso brotando nos lábios dele, assim como a maneira libidinosa que os olhos dele contornaram cada dobra que o tecido fazia ao redor de seu corpo. Ele não era indiferente a ela; e o conhecimento deste fato a fez respirar mais levemente. Ainda não entendia por que ele se afastava, repetidamente, mas acreditava que chegava cada vez mais perto de descobrir.
Caminhou até o bar, beijando os lábios de seu marido em uma carícia suave. “Você está linda hoje.” Ele a elogiou e ela sentiu um leve enrubescer nas maçãs de seu rosto com aquilo. Odiava como ele a fazia sentir, mesmo estando decepcionada com ele.
“Obrigada. Você também deveria se vestir mais assim. Faz você parecer mais… humano.”
“Nesse caso devo jogar essa roupa fora. É a ultima imagem que quero passar.” Riu ele, tocando a taça de vinho branco que o garçom dera a ela com seu copo de conhaque, simulando um brinde. Regina o fitou, mas ele não parecia ter notado o quanto aquelas palavras lhe machucaram. Ele definitivamente não se importava com o que ela lhe falava.
“Olhe só, ele trouxe a namoradinha.”
Regina virou-se, encostando-se no balcão do bar ao lado de Frank. Eles fitaram a entrada do salão de festas. Robin apareceu em seu campo de visão; ele usava jeans, tênis, uma camiseta verde que se ajustava ao seu corpo, contornando seus músculos. Seu filho entrou correndo, indo na direção do espaço reservado para crianças. Ele não estava sozinho; uma garota magra e ruiva, com aproximadamente vinte e poucos anos o acompanhava. Ela usava um vestido rodado azul claro, florido, que lhe trazia leveza. Robin tocou a base de sua coluna e a guiou para uma das mesas.
“Eu não sabia que ele namorava.” Ela constatou; a voz sem nenhum sinal de sensação. Como um tronco opaco e vazio. Havia um sentimento azedo nascendo em seu interior, mas ela escolheu ignorá-lo, fosse o que fosse.
“Ele já deveria estar namorando com ela. Megan é louca por ele e pelo menino. Lockhood é um imbecil.”
Regina bebeu mais um gole do seu vinho branco; observando a maneira carinhosa com a qual Robin conduzia a garota pelo saguão, apresentando-a, sorrindo de uma maneira suave. Poucas vezes ela própria havia visto um sorriso tão genuíno no rosto do segurança. “Talvez ele não goste dela dessa maneira.”
“O que tem ali para não ser gostado, Regina? Olhe para a garota. Além de gostosa é inteligente.”
Regina a fitou; ela não queria sentir-se incomodada pela presença da garota, mas não podia premeditar seu sistema límbico e os desastres causados pela falta de sensibilidade de seu próprio esposo. Ela terminou de beber o líquido em sua taça. “Eu já venho.”
Atravessou para uma das saídas laterais, entrando no jardim. O movimento apressado fez com que esbarrasse em alguém e se desequilibrou, mas braços fortes a seguraram para que ela não caísse. “Senhora Delfino.”
Regina fitou os olhos azuis. Um sorriso brotou em seus lábios quando ela encarou o rosto de Stuart Grant; um rosto amigo que lhe trazia segurança. “Você.” Ela observou a vestimenta dele, a regata escura com uma banda de rock estampada, jeans batido, um boné. Ele parecia ainda mais novo do que era. “Gostei do visual.”
“O dia de confraternização tem seu lado bom.” Disse ele com um sorriso tímido.
“Veio sozinho?”
“A única pessoa que eu gostaria de convidar iria pedir para trazer o namorado.”
Regina sorriu. Ele era tão novo um garoto para sofrer tão apaixonadamente por alguém. Sabia que com um rosto daquele, com um corpo daquele, ele poderia conseguir lindas garotas, mas ele era um homem. Um homem apaixonado que preferia ficar sozinho a acompanhado de alguém que nada lhe adicionasse.
“Essa garota não sabe a sorte que tem.”
“Talvez nunca saiba. Eu não sou corajoso o suficiente.”
“Você é um dos homens mais corajosos que conheço.”
“Você não conhece muitos homens, pelo jeito.”
Ela deu um soco no antebraço dele, causando-lhe dor temporária. “Ouch, isso dói! Àquelas horas todas na academia têm algum resultado.”
Stuart arregalou os olhos ao perceber no assunto em que havia tocado. Ele não pretendia jamais tocar naquele assunto com Regina Mills Delfino, muito menos em um momento tão descontraído entre eles. Ela percebeu a palidez em seu rosto e não pode evitar a risada descontraída. “Tudo bem, Stuart. Não é um elefante branco, podemos falar a respeito.”
“Eu não tenho nada a dizer, senhora. Minha função aqui não envolve fazer pré julgamentos sobre meus chefes.”
“Eu… Não sei onde eu estava com a cabeça. Eu que ultrapassei os limites de Lockhood.”
“Regina.” Ele segurou na mão dela, acalmando-a. “Você não me deve satisfações. Eu estou aqui para me certificar da sua segurança.” Ela o fitou, e ele continuou olhando-a nos olhos. “O que a senhora quer?”
“Stuart, eu…”
“Você o quer? Isso lhe faria feliz?” Stuart ousou deslizar o polegar pela maçã de seu rosto, deixando-a surpresa com o toque.
Qualquer traço de sanidade lhe diria para mentir, para negar a relação entre ela e Lockhood. Mas ela optou por acreditar em sua intuição, em seus sentidos, que lhe diziam para confiar no rapaz de cabelos loiros e olhos azuis. “Sim, eu o quero.”
“Você confia em mim?”
“Sim.”
“Então me beije.” Sussurrou ele, e Regina abriu os lábios em um sorriso incrédulo. Ela o fitou confusa. Ele havia mesmo dito aquilo.
“Que? Frank lhe dará um tiro na cabeça.”
“Robin está nos observando. Beije-me agora.”
“Mas e…”
“Regina, agora!”
Aquele plano era absurdo, e talvez horrorosamente falho. Poderia custar a vida do loiro. Mas quando se deu por si, Regina segurou o rosto dele com ambas as mãos e colou seus lábios. Beijar Stuart lhe era tão proveitoso quanto beijar seu próprio pai. Mas ela segurou firme e manteve seus lábios juntos, as bocas fechadas. Podia sentir que Stuart também estava firme na tentativa de demonstrar veracidade sem que eles realmente se beijassem. Segundos depois, ela o soltou, mas permaneceu fitando os olhos azuis. “Ele ainda está lá?”
“Ele sumiu.” Stuart riu. “Se eu não for assassinado com socos na cara, eu lhe garanto que isso irá servir.”
“Por que vocês homens só agem por ciúmes?”
“O erro de vocês mulheres é achar que se trata apenas de ciúmes e posse; na verdade trata-se de rivalidade. O homem passa a dar real valor a uma coisa quando percebe que existem mais pessoas dispostas a fazer o que for preciso para obter esta coisa.”
“É tudo sobre jogo de poder.”
“O amor sempre será um jogo de algo, Sra. Nós só decidimos de que lado ficamos. O resto do cenário é estabelecido pela própria natureza.” Ele ficou em pé, segurando na mão dela e beijando a parte posterior da pele em um ato de cavalheirismo. “Eu preciso retornar à festa. Mas lembre-se de que tudo que há de acontecer encontra um fluxo natural para tal, Regina. Confie no cósmico.”
“Vou tentar.” Prometeu ela, observando-a se afastar enquanto ela permanecia no jardim.
***
Quando retornou para o saguão, Regina percebeu o quanto o destino podia ser cruel. Frank havia colocado Stuart, Robin e Megan em sua mesa. Ela sentou se, chamando a atenção de todos na mesa. “Querida, onde você estava?” Perguntou Frank, perfeitamente alinhado em seu papel de marido perfeito. Sua imagem pública de respeito e gentileza, carinho e intelectualidade.
“Eu estava no jardim, fumando.”
“É um hábito que já pedi para ela abandonar, mas ela não me escuta.” Disse Frank, sorrindo abertamente para Megan. Regina fitou a garota, agora com a proximidade ao seu favor e constatou que ela era de fato muito linda. Seus olhos claros e verdes contrastando com a pele branca, os cabelos ruivos cortados na altura do ombro lhe davam um ar jovial.
“Robin também já teve esse vício, mas eu o ajudei em um programa de rehab que durou alguns meses e ele conseguiu parar.”
Regina fitou Robin, que fitava Stuart como se fosse pular em cima dele através da mesa. O pensamento lhe causou um comichão quase que incontrolável, mas ela não podia rir no meio da mesa. Focou seus olhos na convidada. “Vocês parecem bastante unidos.”
“Ah, eu os amo.” Os olhos cor de esmeralda brilharam com a constatação e Regina sentiu uma pequena pontada ao perceber o quão real era aquela resposta. “Eu sempre adorei Roland, ele é um garoto muito inteligente e especial. E Robin…” O sorriso fez com que Regina desejasse enfiar o garfo em sua própria jugular. “Ele é um homem encantador. Sempre me ajuda quando preciso, quando não preciso. Os dois trouxeram luz à minha vida. É muito bom tê-los por perto.”
“É adorável.” Respondeu ela, digerindo aquelas informações como quem mastiga pedra.
“Só está na hora dele se assumir, não é?” Brincou Frank, trazendo o peso de dez manadas de mamutes sobre a mesa. O olhar de Robin cruzou com o de Regina, e ele fitou o chefe com desprezo.
“Dêem-me licença.” Pediu o segurança, afastando-se.
Regina fitou o marido, que a encarou com os ombros levantados em uma pose de dúvida; como se não fizesse ideia de porque seu funcionário reagira daquela maneira. Megan pediu licença e saiu atrás dele.
“Era só uma piada.”
“Suas piadas não tem graça, Frank. Você o ofendeu.”
“Ele vai voltar.” Finalizou Frank bebendo algum liquido de seu copo. “Robin precisa aprender a lidar com uma critica construtiva. Eu estou tentando ajudar, a garota é um avião.”
De longe, Regina observou ambos conversando sobre a mesa; a maneira como Robin apontava para eles com a cabeça não lhe passou despercebido. Muito menos quando Megan deu um passo à frente e o abraçou, cruzando os braços por trás de seu pescoço e o mantendo em um abraço quente e reconfortante, uma cena romântica e doce que inspiraria qualquer espectador. Exceto Regina.
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