Ela podia sentir que algo estava errado com ele. Podia sentir nos olhares que ele lançava em sua direção quando achava erroneamente que ela não estava atenta. Podia perceber no tom de sua voz, mesmo que ele estivesse se esforçando para disfarçar. Chegou a pensar que ele teria descoberto suas infidelidades, mas riu amargamente. Não estaria viva se ele tivesse descoberto algo.

Seus olhos cruzaram com os olhos de Robin, que dirigia o veículo que os levaria ao hotel. Olhando pela janela, achou Seattle bastante sem graça. Talvez seu estado de espírito não estivesse dos melhores – possivelmente não era culpa da cidade. Tudo estava errado; Robin possivelmente a odiava, assim como Frank. Ela conseguira conquistar o desprezo de um homem que lhe ofereceu nada menos do que paixão. Voltou sua atenção para a paisagem; prédios e prédios, pessoas apressadas embaixo de seus guarda-chuvas. Que sorte a delas – ilesas à miséria da vida alheia. Quantas pessoas não lhe assistiam de seus palanques e julgavam sua vida perfeita? Uma mulher linda, bela, rica e casada com um belo homem, educado, simpático, gentil. Sorriu. As pessoas deveriam fantasiar sobre a sua vida. ‘Oh eles devem ser tão felizes naquela vasta mansão’. Possivelmente sentavam-se em rodinhas aos bares, rindo enquanto bebericavam suas cervejas baratas, especulando sobre sua vida sexual fabulosa.

“Você está quieta.” Comentou ele, tocando sua mão e chamando sua atenção.

Ele estava bonito. Os cabelos cortados, um corte diferente, baixo. Os olhos azuis, um azul com fundo cinza que o fazia parecer ainda mais sombrio do que seu comportamento já o fazia. Vestia um terno escuro com risca de giz; o corte italiano caia tão bem que poderia ser considerado um ultraje. Os anéis que ela detestava e talvez por isso ele fizesse tanta questão de usá-los.

“Estou pensativa.” Respondeu, sorrindo, e voltou sua atenção para a rua. Frank continuou estudando-a. Não fazia ideia do que estava acontecendo com ela. Ao convidá-la para viajar com ele, esperava que ela oferecesse alguma desculpa, alguma justificativa que alimentasse sua desconfiança. Mas Regina aceitou de maneira imediata, deixando-lhe ainda mais confuso. Não que ela estivesse mentindo, ela realmente tinha muito em que pensar. Tudo estava mudando tão rapidamente, todas as coisas em que ela acreditara durante toda a sua vida de repente estavam escapando por entre seus dedos, deixando-a com a terrível missão de redescobrir quem era, onde pertencia, o que desejava.

“Espero que possa compartilhar esses pensamentos comigo em algum momento.” Rebateu ele, confiante. Perdeu o momento em que Stuart e Robin trocaram um olhar no banco da frente, certos de que essa seria a pior ideia de todas. Estacionou na frente do Kimpton Alexis Hotel, agradecendo aos céus por finalmente sair daquele veículo. Stuart adiantou-se abriu a porta para Frank, Robin desceu e abriu a porta para ela, esforçando-se para não olhar, forçando-se a permanecer o mais profissional possível. Frank a tomou pela mão assim que chegaram à calçada, caminhando para dentro do edifício cor de oliva, analisando a fachada revestida de janelas, as bandeiras patriotas que balançavam orgulhosas em seus mastros. Não podia dar-se ao luxo de olhar para trás embora soubesse que ambos a olhavam de longe; zelando por sua segurança, incertos sobre a infeliz obrigação de deixa-la sozinha com o homem grotesco que era seu marido.

Ela não podia negar o quanto estava cercada de luxo. As paredes na cor creme apenas tornavam marcante o valor do dinheiro pago por elas; assim como os tapetes com estampas de cores neutras que formavam desenhos simétricos, cheios de curvas, que brincavam com a mente dela. Os lustres pareciam imitar os desenhos dos carpetes, o que era uma combinação extravagantemente luxuosa. Permaneceu ao lado dele enquanto o mesmo dava entrada na suíte, em silêncio. Pensou em como aquele momento era tão similar a outros em seu casamento. Ela havia sido reduzida a uma sombra. Não podia falar, opinar, reagir. O que havia acontecido com ela? Quando é que sua alma havia morrido?

“Por aqui amor.” Pediu ele, sorrindo. Sorrindo de uma maneira ridícula pois ela sabia – esse sorriso só existia quando havia outras pessoas ao redor. Quando ele precisava impressionar, quando precisava de testemunhas para seu absurdo e passional amor. Mas ela podia fingir também. Podia sobrepujar tudo o que estava sentido e ser uma esposa exemplar, dois podiam jogar este jogo.

“Obrigada, babe.” Respondeu ela sorrindo, abrindo os lábios e desfilando os dentes brancos como uma esposa apaixonada. Eles seguiram o caminho até o elevador, os braços dele ao redor de seus ombros, como se ele quisesse protege-la; mal sabiam os espectadores que ela deveria pedir proteção contra ele. Segundos depois, Robin e Stuart os alcançaram, entrando no elevador e dando as costas a eles.

Regina suspirou, os olhos presos às costas de Lockhood.

***

Zelena sentou-se no jardim, a mão sobre a protuberância notável em seu abdômen. Os olhos distantes entregavam seu completo choque. Esforçara-se em não demonstrar nada perto de David – ele já estava completamente furioso com todos os encontros dela com a família, e se soubesse o quanto ela estava afetada naquele momento, ela sabia que ele odiaria.

Seus olhos marejaram quando ela percebeu o que havia acontecido com sua família. Estavam destruídos. A ruína fora tudo o que restara a elas depois da morte de seu pai, e o que mais ela poderia esperar? Henry era o melhor de todos ali. Com ele, todo o bom senso, toda a justiça, amor, companheirismo, tudo fora junto. “Menina Zelena, o que houve?”

A ruiva ergueu os olhos e percebeu que a velha senhora a estudava, o semblante marcado pela preocupação. Seu coração apertou; como é que uma mulher que não era nada sua conseguia demonstrar o amor materno por ela de maneira tão natural e sua própria mãe parecia detestá-la com tanto afinco? Madame Mae havia sido seu rochedo desde sempre, e jamais havia pedido nada em troca. Nem uma única coisa. Nem um único favor. “O que a Sra. Delfino queria ao telefone? Ela magoou você? Porque eu vou atrás daquela garota e faço ela se arrepender de...”

“Mae.” Pediu Zelena, sorrindo embora os olhos não combinassem com o gesto. “Regina não fez nada de errado.” Seus olhos pareceram cheios novamente, e ela não conseguiu impedir que algumas lágrimas escorressem. “Na verdade, ela foi bastante... gentil.”

“Gentil?” A velha senhora não pareceu convencida. Arqueou uma das sobrancelhas como que duvidando da veracidade daquela resposta. “Regina não é gentil com você há tantos anos que isso se tornou absurdamente difícil de acreditar.”

“Sente-se aqui. Vou contar a você, detalhadamente, o que ela disse.”

Flashback

David fora até a cozinha para beber agua; aproveitou que estava em pé e fez questão de certificar-se que todas as portas e janelas estavam fechadas. A casa toda estava mergulhada na penumbra, Mae possivelmente deveria estar dormindo. O telefone tocou, e ele adiantou-se para atender a extensão. Quem ligaria uma hora dessas ?

“David Nolan.”

“Eu gostaria de falar com Zelena Mills.”

“Quem gostaria?”

Um breve silêncio se fez presente. “Ruby Lucas. Eu trabalhei com ela em...”

David sorriu. “Minha esposa falou sobre você, Senhorita Lucas. É um assunto urgente? Não é um horário convencional para uma ligação.”

“Eu sinto muito, mas sim, é algo urgente.”

David caminhou em silêncio até a suíte, deparando-se com Zelena sentada contra a cabeceira da cama, usando apenas um short cor de rosa de tecido e uma camiseta onde caberiam duas dela ou mais. Riu.

“Ruby Lucas para você. Ela disse que é urgente.”

A ruiva estranhou absurdamente. Por que Ruby lhe ligaria nesse horário? Havia acontecido algo com a empresa? Ou com sua irmã? Levantou-se abruptamente e pegou o telefone, preocupada.

“Ruby, aconteceu alguma coisa? É muito tarde para uma ligação e”

“Sou eu, Regina. Por favor, não desligue na minha cara.”

A voz inconfundível de Regina lhe causou um arrepio em sua espinha. Não podia dizer seu nome sem causar um alarde em David – ele não estava nem um pouco feliz com seus últimos encontros dela com sua família e entendia o comportamento dele. “Um minuto.” Pediu e afastando o telefone, sorriu para ele de maneira doce. “Vou atender isso ali fora para não atrapalhar você, querido.”

Segurando o telefone enquanto sentia o coração batendo descompassadamente, ela atravessou a sala de estar e sentou-se no macio sofá de algodão, os olhos fitando o grande painel de vidro, observando as águas calmas da piscina externa. “O que houve?”

Ouviu a respiração pesada e hesitante do outro lado da linha. Não fazia nenhuma ideia do que estava acontecendo com sua irmã. Seus últimos encontros haviam sido carregados de desprezo, ódio, dor. Nada que pudesse ser produtivo, nada que justificasse uma ligação. “Regina, eu não quero brigar.” Confessou. Sua voz soava cansada. “Se foi para isso que ligou, eu...”

“Não foi para isso.” Houve mais algum silêncio, então aparentemente a morena retomou a firmeza de sua voz, ou ao menos uma parte dela. “Eu só não sei como fazer isso. Por onde começar.”

“Começar o quê?”

“A me desculpar.”

Zelena sentiu o exato momento em que sua garganta começou a secar. Ela nunca, nunca em toda a sua vida, esperou por um momento em que isso fosse possível. Em que Regina lhe pediria perdão. Não com tudo que ela mesmo havia feito. “Regina.” Respondeu, chocada. Essa foi a única palavra que sua mente conseguiu formar.

“Zelena, me deixe fazer isso.” Pediu ela, respirando pesadamente. Talvez estivesse chorando, era difícil saber. Possivelmente foi esse o motivo dela ter escolhido fazê-lo pelo telefone. Sua irmã ia tentar se proteger da vulnerabilidade de qualquer forma. “Eu sinto muito. Eu sinto muito por todas as inúmeras vezes que julguei você.” Regina segurou o lábio entre seus dentes por alguns segundos antes de continuar. “Eu sei o que vai dizer. Você me fez coisas muito ruins, e eu sei, você realmente fez. Mas eu julguei você por coisas piores. Eu preciso que me diga uma coisa com toda a sinceridade, e eu prometo, em nome do papai, que não vou brigar com você por causa da resposta. Essa criança é do Frank?”

“É claro que não.” Rebateu Zelena, colocando inconscientemente a mão sobre a barriga.

“Eu... Eu desconfiava disso quando Frank me disse que você iria casar. Eu sempre soube que você não se casaria só para esconder uma barriga, você não é esse tipo de mulher.”

Foi quando Zelena se deu conta. Todas as coisas odiosas que Regina lhe falara sobre a gravidez. Durante aquela visita dolorosa. “Você achava que eu estava grávida dele. Por isso disse aquelas coisas. Oh Regina...”

“Eu sei.” Regina estava chorando e odiou-se. Odiou-se por ser tão frágil, tão cheia de sentimentos. Por ter se precipitado em seus julgamentos, por deixar que Frank a cegasse de tal forma. “Zelena, eu sinto muito por ter odiado essa criança que você carrega sem nenhum motivo válido. Por causa de mentiras. Eu estava tão cega, tão...”

“Eu lhe dei motivos.”

“Mas esse bebê não. Eu sei que não vamos mais ser as irmãs que já fomos um dia. Eu sei que aquilo se perdeu, e eu sinto muito. Mas eu espero que em algum momento, você me perdoe. Que algum dia eu consiga conhecer o meu sobrinho ou minha sobrinha. Eu...”

“Regina, eu...” Mas o resto da frase não conseguia se formar em sua mente. Aquilo era chocante demais. Inesperado. Ela sequer tinha esperanças que ela e Regina voltariam a se falar algum dia, muito menos que teriam uma conversa tão significativa. “Por que agora, Regina? Por que está pedindo desculpas agora? Está acontecendo alguma coisa? Eu devo me preocupar?”

“Não está acontecendo nada, Zelena.”

Zelena sentiu seu coração apertar. Algo estava errado. “Regina, você não mente muito bem.”

“Se algo acontecer, saiba que eu sinto muito pelo rumo que nossas vidas tomaram. Eu sinto muito. Eu nunca amei ninguém como amei a minha irmã mais velha, e espero que você sempre saiba disso.”

“Você está me preocupando. Tem algo acontecendo?”

“Não. Eu só estou cansada de brigar com as pessoas que um dia foram importantes para mim.”

“Regina, você precisa deixa-lo.”

Mas ela não precisou fazer anuendos. Ambas sabiam de quem se tratava. Ambas sabiam os motivos, ambas sabiam que aquela era uma afirmação completamente razoável. Mas Regina não ia envolve-la. Ela tinha uma nova vida, uma vida feliz, uma família. “Não é tão fácil assim.” Suspirou, e encerrou o assunto antes que Zelena tivesse algo a acrescentar. “Boa noite, sis.”

Zelena ouviu a chamada sendo desligada e permaneceu em silêncio, observando a água da piscina, sentindo inveja de seu estado calmo. Seu coração parecia estar prestes a entrar em colapso naquele momento.

Fim do flashback

“Isso é preocupante.” Comentou a velha senhora. “Sua irmã tendo uma crise de consciência assim, do nada.”

“Talvez ela finalmente esteja caindo em si.”

“Você não está preocupada?”

Zelena suspirou. “Estou. Mas ela deixou bem claro que me quer fora disso, Mae.”

“Talvez seja melhor assim, menina. Você tem outra vida, uma mais frágil e indefesa para cuidar agora.” Concluiu ela, apontando para a barriga da ruiva. “É este seu foco agora.”

Zelena assentiu, colocando as duas mãos na barriga. Deitou-se no gramado, pensativa. Mae estava certa. Era melhor manter-se longe da situação. Mas não queria dizer que ela não continuaria preocupada. Alguma coisa estava acontecendo com Regina; alguma coisa bastante séria.

***

“Senhor Delfino.”

Frank encarou o homem à sua frente com animosidade. Felix D’Amorra tornou-se herdeiro de uma grande máfia quando facções rivais lutaram até estilhaçar um ao outro. O sul-africano chegara sorrateiro, pegando pequenas vilas, adquirindo pequenas frações de negócio e assim que a guerra eclodiu, devastando os dois lados, ele tomou a dianteira. Estrategista era um eufemismo para o homem.

“Senhor D’Amorra.”

“Me chame de Felix.” Pediu ele, apontando para as cadeiras de couro negro. Robin assentiu, balançando a cabeça e parando atrás da cadeira de Frank. Felix observou-o, impressionado. O porte era impressionante, os modos eram tão elegantes que pareciam britânicos, o olhar compenetrado de uma águia durante a caça.

“Um bom segurança este que você tem.”

“É o meu maior triunfo.” Zombou Frank, sorrindo com os dentes abertos. Sentia-se invencível sempre que seus aliados e negociadores colocavam seus olhos em Robin. Era uma prova de que ele não estava ali para brincadeira. Lockhood poderia matar todos eles em um piscar de olhos e eles tinham ciência disso.

“Achava que a sua esposa era seu maior triunfo. Fala-se muito sobre ela. Dizem que é a mulher mais bonita que já se ouviu falar.”

“Ela é meu segundo maior triunfo.”

Felix sorriu. Robin percebeu que havia maldade naquele sorriso. Cobiça. Mas não era de se espantar. Nenhum jovem de vinte e cinco anos acaba como chefe do tráfico local sem ser ambicioso. Sem cobiçar algo de outra pessoa.

“No que posso ajudá-lo, Delfino?”

“Tenho enfrentado sabotagens recentemente. Quero saber se sabem quem está agindo. Quem são, o que querem. Muitas transações foram feitas através de bitcoins. Estou perdendo patrimônio.”

Felix encarou-o em silêncio. Atrás dele, seus seguranças altamente treinados, armas banhadas à ouro brilhando em suas mãos. “Vou resumir esta conversa pois tenho outras reuniões, tudo bem? Vamos lá, Delfino, é o que eu ganho com isso?” O jovem de cabelos loiros e olhos azuis sorriu, o Rolex em seu braço brilhando exageradamente. “Veja bem, eu já tenho muito dinheiro. Eu já tenho muito aliados. Não há muito que você possa oferecer, uma vez que seu patrimônio tem decaído notavelmente. O que dizem por aí, Delfino, é que você está sofrendo o que chamamos de colheita.”

“Como?”

“Colheita, man. Quando você prejudica pessoas e elas retornam para cobrar a dívida moral. Dizem que você ferrou algumas pessoas por aí.” O garoto ergueu a cabeça, encarando-o nos olhos. “E olha, não julgo. Pode acontecer comigo, com você, com qualquer um. Também já fiz coisas ruins. Mas não vou me meter, isso é questão de karma.”

“Está me negando ajuda?”

“Adiando. Tente resolver suas paradas. Se eu puder ajudar e se for vantajoso para mim depois, eu entro em contato. Até lá está por sua própria conta.” Felix levantou-se, despedindo-se de Robin com um aceno. Mas antes que pudesse afastar-se, Frank se levantou de maneira bruta e segurou-o pelo antebraço, com mais força do que deveria. Quatro seguranças colocaram armas contra sua cabeça e seu peito antes mesmo que Robin pudesse pensar em reagir. Mas o jovem loiro não pareceu preocupado, sequer irritado com o gesto.

“Escute, Delfino. Não cometa loucuras. Procure seus fantasmas do passado e finalize seus assuntos.” Os olhos azuis pareciam mais sérios, quase lunáticos. “Você está queimado na cidade, man. Dizem que foi grampeado. Eu não me arriscar a salvar sua pele enquanto você for um risco. E se você tentar novamente me atacar, você deixará de ser um risco e se tornará apenas uma lápide.”

Assim que o pequeno grupo se afastou, Frank virou-se para ele com os olhos furiosos. “Eu pago você para que?”

“Como?”

“Sim, Lockhood. Você não é pago para usar minha academia de graça. Eu estava aqui com armas na cabeça e no tórax e não vi você fazendo absolutamente nada, soldado.” Sibilou Frank, despejando seu ódio em cada sílaba.

“Não é minha responsabilidade se o senhor faz movimentos repentinos e impensados.”

“Você achou que eu fui impulsivo? É isso?”

Lockhood deu um passo à frente, mas Frank não se sentiu intimidado. Ambos ficaram frente a frente, olhos travados nos olhos do outro. “Eu não sou pago para usar nada de graça, Senhor Delfino. Mas também não sou pago para adivinhar pensamentos. Essa habilidade nunca foi oferecida no Exército.” Ironizou ele. “Não havia como prever seus movimentos, e eu nem pensaria que o Senhor faria algo tão imprudente.”

“Quem é você para me chamar de imprudente? Você faz treinamento para isso, moleque.”

“Primeiro de tudo, eu não sou nenhum moleque.” Rebateu Robin, a voz séria. Raiva gotejava de suas palavras, embora Frank não esboçasse o nervosismo que começara a sentir. “Segundo, eles eram quatro seguranças, o que significa oito armas e eu tinha apenas duas. Antes que eu derrubasse todos eles, eu seria abatido. A matemática é bastante simples. É por isso que na SWAT as operações são previamente planejadas. Para ninguém fazer uma burrice.”

Frank bufou, encarando-o. “Não brinque comigo, Lockhood. Eu já matei homens antes.”

“Eu também, Sr. Delfino.” Respondeu o segurança. “Mais homens do que eu gostaria de lembrar.”

Frank engoliu em seco, lembrando-se vagamente das fotos do dossiê que montara sobre Robin. Das fotos dos corpos, das mortes violentas, da frieza. Desviou o olhar, e os dois saíram da sala de reuniões sem trocar mais nenhuma palavra.

***

A atmosfera daquele lugar lhe deixava doente. As maquinas caça-níqueis que iludiam as pessoas com suas pequenas fortunas; as mesas de cartas, as roletas adulteradas onde só idiotas caíam em golpes, sendo seu ilustre marido um deles. Com uma mulher de cada lado, ele sentia-se o rei da noite. Não se deu ao trabalho de perguntar como havia sido a reunião para que fora, pois, o mal humor com que voltou respondera por ele. De fato, as únicas palavras trocadas por eles havia sido a afirmação que ele fizera ao chegar na suíte, algo que mais parecia uma ordem. Vista-se, nós vamos sair.

Pelo menos ali ele parecia feliz. As mulheres jogavam-se sobre ele, apoiadas em seus ombros, as unhas longas e recém pintadas deslizando pelo braço dele, esperando que esse esforço lhes rendesse grana extra. Tudo que Regina conseguia fazer era torcer para que ele não levasse nenhuma delas à sua cama. Sentada em uma mesa afastada, mas não tão afastada que fugisse do olhar dele, ela bebia água. Em sua pequena mesa, descansavam pelo menos cinco bebidas que Frank havia lhe enviado. Com o queixo apoiado na mão, ela fitava seus arredores com o semblante calmo e pensativo.

Que tipo de homem leva a esposa à um cassino? Suspirou. Se ela soubesse isso todos aqueles anos atrás, quando se apaixonou por aquele rapaz encantador e romântico, que este seria seu destino.... Pensou em seu pai, no quanto ele adorava Frank, em como tratava o bastardo como seu próprio filho. Talvez tivesse sido melhor assim. Doía em seu coração pensar no quanto seu pai ficaria decepcionado se soubesse o quanto estava errado.

“Senhora.”

Ela ergueu os olhos e notou o jovem garçom segurando mais um drinque. “O que é isso?”

“Um Dry Martini. Seu marido pediu para entregar.”

“Obrigada.” Sorriu ela, pegando a taça e colocando ao lado dos outros drinques há muito esquecidos. O garçom percebeu, mas nada disse, parecendo estar acostumado com mulheres sendo cortejadas e rejeitando as ofertas. Levantou-se, suspirando e percebeu que seu marido estava entretido com o decote de uma terceira mulher que se juntara a ele na mesa de Black Jack. Seguiu seu caminho na direção do banheiro, e sentiu quando uma mão suave pousou sobre a base de suas costas.

“Podemos conversar?”

A voz dele lhe causou arrepios. Ela não se virou, apenas consentiu, balançando a cabeça e ele a guiou por uma porta à esquerda. Eles subiram as escadas em silêncio; embora Regina tivesse que confessar que seu coração estava batendo tão alto que poderia preencher o espaço entre os dois. Atingiram o terraço, e ela deu alguns passos à frente antes de virar-se para ele. O vento estava gelado, porém a tensão tornava tudo abafado, cercando-os de palavras não ditas e olhares penetrantes. Regina manteve os olhos na altura dos dele, encarando-o com toda a sua integridade. Robin deu um passo à frente, mas percebendo sua proximidade, afastou-se, preparando-se para encará-la.

“Você está bem?”

Ela sorriu, encarando-o. Ele era mesmo um homem tão bom. Mesmo com toda a sua bagagem. Mesmo com o comportamento dela tendo-o afastado, magoado, ferido. “Eu estou bem, Robin.”

“Eu sei como ele tem sido volátil com você. E com todas essas mudanças, eu...”

“Está tudo bem.”

“Certo.” Ele estava evitando olhar em seus olhos. Essa era uma novidade para Regina. Geralmente, Lockhood lhe encarava até fazê-la perder o fôlego. Ele deu um passo à frente, tocando seu antebraço. “Regina, eu sei que isso não faz diferença para você. Eu sei que dirá que isso não pode acontecer, e eu respeito sua decisão. Mas eu preciso falar.”

Regina encarou-o por algum tempo, tentando entender de maneira rápida o que estava acontecendo ali. Precisava entender porque seu coração batia tão enlouquecidamente apenas por estar perto dele. “Robin.”

“Eu preciso que você saiba o que eu sinto. E eu”

Não. Não, não, não.

Ela adiantou-se, colocando as pontas dos dedos sobre os lábios dele. O gesto fez com que ele se calasse de maneira imediata. Os olhos azuis se arregalaram ainda mais quando ela balançou a cabeça de um lado para o outro, negativamente. Os olhos cor de chocolate encararam os seus, lágrimas tornando-os marejados. “Não, Robin.” Sussurrou ela, e delicadamente afastou suas digitais para longe dos lábios macios. Mas não estava pronta para deixa-lo. Aproximando seus corpos, ela deslizou as duas mãos para as laterais do rosto másculo, segurando-o de maneira carinhosa.

“Você...” A voz dele parecia frágil de uma maneira que ela percebeu ser inédita. Logo ele, um porto seguro de confiança e força. “Você não quer saber?”

“Eu quero.” Sussurrou ela. “Robin, eu...” Um sorriso atravessou seus lábios enquanto ela acariciava seu rosto, o polegar deslizando sobre a barba quase inexistente, apenas para sentir o formigamento gostoso que os pelos a nascer causavam contra sua pele. “Robin, não tem nada que eu queira entender mais do que o que você sente, do que eu sinto, do que tem acontecido entre nós dois.”

Ele colocou as mãos na cintura dela, sem entender exatamente o que estava acontecendo. Se ela queria saber a verdade, porque o impediu? “Mas...”

“Mas agora não é o momento, Robin.” Continuou ela, acariciando-o, deixando que seu polegar deslizasse sobre o lábio superior dele, hipnotizando-a por alguns segundos antes que ela voltasse a olhar para os olhos azuis. “Eu preciso entender o que está acontecendo comigo primeiro. Eu preciso aceitar o que está acontecendo na minha vida, entender todas essas mudanças. Eu preciso estar segura de mim, primeiro. Por mais que eu queira estar com você, Lockhood, eu preciso aprender a ficar comigo. Eu preciso aprender meu valor sozinha.”

“Por favor”

“Eu não o culpo.” Suspirou ela, lutando contra as lágrimas, impedindo-as de descer pelo seu rosto. Robin inclinou o rosto na direção da sua mão, implorando para manter aquele toque e ela debruçou-se, beijando-o na testa, segurando o rosto dele com mais carinho que achava possível sentir por um homem. “E você é um homem comprometido. Neste momento, eu entendo isso. Eu entendo que nós não nos pertencemos. Nada bom pode surgir assim. Precisamos nos encontrar primeiro.”

Ele afastou uma mecha de cabelo, empurrando-a para trás da orelha dela. “Regina, eu...”

“Por favor, não fale. Não torne isso mais difícil.” Implorou ela, encostando seus rostos, as testas apoiadas uma na outra, os olhos fechados, o som da respiração ofegante entre eles. “Eu sei o que você sente, Robin. Está nos seus olhos. Eu só preciso que você me dê tempo. Eu preciso resolver as coisas. Eu preciso me reencontrar.”

Robin beijou-a delicadamente na bochecha, antes de se afastar. “Tudo bem.”

Ela sorriu para ele, acenando com a cabeça. Mas seu coração falou mais alto; antes que pudesse pensar, deu um passo à frente e o abraçou, apertando-o de maneira forte, circulando a cintura rígida com força, sentindo a maneira forte com que ele a abraçou de volta. O abraço dele era como uma fortaleza, como um forte em meio à mais densa tempestade. O cheiro dele adentrou suas narinas, inebriando-a do aroma que ela tanto sentia falta. Uma das mãos dele achou caminho até sua nuca, segurando-a ali, acariciando seus cabelos de maneira leve.

Regina se desfez do abraço sem voltar a olhar para ele e seguiu caminho na direção da saída sem olhar para trás. Desceu as escadas com o peito doendo, como se estivesse carregando uma bigorna dentro da caixa torácica. Esbarrou em Stuart assim que saiu pela saída de emergência, e pediu que ele imediatamente a levasse de volta ao hotel.

***

“Mas que ideia foi essa?” Gritou Frank ao entrar no quarto, denunciando seu estado de completa embriaguez e confusão mental. “Por que me deixou sozinho lá?” Vociferou, andando de um lado para o outro, encarando-a como se ela fosse uma emboscada.

Mas Regina não se moveu. Sentada na cama, ergueu os olhos do livro que estava lendo, e retirou os óculos de leitura. “Eu estava cansada, Frank. Você me deixou sozinha lá, naquela mesa do bar e sequer se importou em checar de tempo em tempo se eu estava bem. Estava ocupado demais com suas loiras e seus decotes profundos.”

“Eu mandei vários drinques que você rejeitou.”

“Em algum momento eu disse que queria beber?”

“Você fica mais legal quando bebe. Achei que se tivesse um incentivo, voltaríamos a nos dar bem.”

Bastou apenas essas palavras para ela lembrar-se do tanto que o odiava. Era estranho sentir-se assim. Lembrava-se com nitidez do quanto amava este homem, do quanto depositava nele sua fé, sua esperança de que ele poderia mudar. Mas naquele momento, poderia atingi-lo na cabeça com a cabeceira da cama.

“Você acha isso saudável?”

“Eu sou seu marido, Regina. Acho normal querer alguma intimidade. Querer que as coisas fluam bem entre a gente.”

Ela levantou-se, incapaz de segurar sua raiva. “Você acabou de dizer que estava tentando me deixar bêbada para me levar para a cama, Frank. Eu não acho que isso seja saudável. Ou mesmo aceitável.”

“Não seria necessário se você fizesse seu papel de mulher.” Rebateu ele, tirando os sapatos.

“Você sabe o que é pior?” Ela afastou-se dele, caminhando até o pequeno sofá cinza no canto do quarto. Sua textura era macia, o estofamento bem preenchido. “Eu não estou surpresa. Eu não consigo sequer ficar decepcionada com você. Eu estou decepcionada comigo...” suspirou ela, encarando-o, apoiando a costa dos dedos contra seus lábios, os olhos firmando contato visual com ele. “Extremamente decepcionada comigo mesma por ter demorado tanto a perceber quem realmente é o homem com quem eu me casei.”

“Infelizmente você terá muito tempo para se decepcionar ainda, linda.” Respondeu ele, rindo.

“É o que veremos.” Sussurrou ela, mas não tão baixo quanto imaginou. Ele a ouvira. Ele ouvira com uma clareza que não condizia com seu estado de embriaguez. Levantou-se, caminhando na direção dela, sentindo todo seu corpo tensionar com a provocação.

“O que você disse?”

“Eu não disse nada.” Respondeu ela, prevendo onde aquilo daria. Ele se arrastou, as pernas amolecidas pelo efeito do excesso de álcool e outras substâncias. Ela focou em seus olhos – vermelhos, nublados, com o mesmo olhar que ela já vira muitas vezes. O olhar que geralmente precedia dores maiores a ela.

“O dia em que você pensar em me deixar, Regina, vai ser o dia da sua morte. Você acha que tem algum poder aqui?” Gritou ele, jogando uma das mesas para longe. “Você acha que dá as cartas aqui?” Ele pegou as flores e arremessou contra ela antes de alcançar o pequeno sofá. Regina empurrou-o, mas ele jogou o móvel para trás.

Ela caiu, mas levantou-se fácil. Ele tirou o sofá do caminho, jogando-o para longe do caminho com força. “Você vai aprender.”

Assim que ela se levantou, ele mirou nela seu punho e lançou o soco com toda a sua força. Mas ele nunca chegou a atingi-la. Para a sua chocante surpresa, ela segurou seu punho no ar. “Você não vai mais encostar essas mãos em mim.” Sibilou ela, empurrando-o para trás e ficando em pé; o movimento parecia ter deixado o homem ainda mais fora de si, sentindo-se desafiado.

“Só porque você aprendeu um truque não quer dizer que seja páreo para mim, Regina.”

Ofendido com as reações dela, ele tentou mais uma vez, agarrando seu antebraço com força; usou seu corpo para bater nela, desequilibrando-a por segundos. Entretanto, Regina foi rápida o suficiente para desviar dele, acertando uma joelhada firme e bastante forte contra seu saco escrotal. A pancada foi bastante violenta, e ele ajoelhou-se no chão, deitando-se em seguida, lágrimas escorrendo descontroladas enquanto ele uivava tamanha a dor que sentia. Ela agachou-se ao lado dele, observando-o antes de concluir. Deixou que sua mão deslizasse pela testa dele, acariciando-o, deslizando pela raiz dos cabelos escuros. “Você não pode mais me machucar, Frank Delfino. Você não vai mais tocar em mim. Porque eu vou revidar, e você vai descobrir que, ao contrário do que você quis me fazer acreditar todo esse tempo, eu posso ser muito, muito forte quando eu quero.”

Regina afastou-se dele, pegando seu celular e sua pequena bolsa. Saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Caminhou alguns metros e bateu duas vezes na porta, deparando-se com um Robin assustado. “O que aconteceu ali dentro?”

“Eu preciso de um lugar para dormir, um que ele não me procure. Posso ficar aqui com vocês?”

Stuart e Robin trocaram um olhar assustado, e então o loiro mais novo sorriu. “É claro. Entre.”