Efeito Dominó
27 La Matera
Foi o calor que a despertou. Assim que emergiu de seu sono para a superfície da consciência, ela notou imediatamente duas coisas. Primeiro, uma belíssima ressaca a aguardava; sua cabeça estava dando os primeiros sinais de uma latente enxaqueca e seu estômago parecia impossibilitado de trabalhar. E segundo, ela estava nua. Gloriosamente nua.
Ajustou os olhos à claridade que invadia sua suíte e aos poucos identificou o ambiente ao seu redor. Sua busca parou no homem ao seu lado, e ela fitou-o. Frank estava deitado de bruços, vestindo absolutamente nada além de sua pele branca e parcialmente queimada pelo sol. Um nó se fez no estômago dela e em questões de segundos, a dor de cabeça se fez presente, junto com as lembranças da madrugada anterior. Imagens dela em todo tipo de posições, atracando-se com o marido até a sua completa exaustão passaram por sua mente. Regina respirou fundo, voltando a deitar-se e encarou o teto.
Acontecera. Ela e Frank haviam transado, não uma, mas várias vezes. Meu Deus… o que ela havia feito? Bem, era isso que ela queria. Não era? Fitou a porta que ligava os quartos, e o primeiro pensamento que lhe veio à mente fez com que seu sistema digestivo desse uma cambalhota interna. Será que Robin e Stuart tinham escutado tudo?
Regina puxou o lençol amassado em seus pés até que o mesmo cobriu todo seu dorso e ela debruçou-se sobre a cama, deitando de lado. Com o cotovelo servindo de apoio, ela levou uma mão à lateral do rosto e observou Frank. Ele dormia tranquilamente, como há muito tempo ela não via. O tórax grande e largo subia e descia silenciosamente, um ritmo moderado e sereno. Os pensamentos dela pareciam formigas lidando com uma invasão em seu formigueiro, correndo descoordenadas de um lado para o outro. O que aquilo significava? Poderia ser apenas uma noite de tesão e eles continuariam sendo os mesmos, Frank ignorando sua existência e ela descontando suas frustrações com o segurança; ou ele estava sendo sério quando mencionara a retomada do relacionamento? O que acontecera ali partira dela, mas ele já havia demonstrado interesse, então era uma decisão conjunta? Ela não sabia o que pensar. Ela só sabia que tudo parecia muito mais intenso em suas fantasias. Ela havia conseguido o que tanto almejava. Seu marido ainda a desejava. Então por que parecia que o sabor daquela conquista possuía um fundo tão amargo?
Ele remexeu-se na cama e ela permaneceu imóvel. “Vê algo que te agrada?” Questionou ele, rouquidão denunciando o estado lastimável de sua garganta. Ela ergueu a cabeça e avistou o par de olhos azuis que a assistiam atenciosamente.
Regina não respondeu. Suas dúvidas ainda a intrigavam muito; encarar a realidade sóbria era bastante diferente de agir impulsivamente às custas do álcool. Ele pareceu ler essa preocupação em seus olhos; sentou-se, encostando o corpo na cabeceira e sorrindo timidamente, lembrando-a de momentos tão antigos que eram quase outra vida para ela. Momentos em que eles realmente haviam sido homem e mulher; momentos em que o casamento realmente fizera jus ao que deveria ser. “Não surte.” Pediu ele e ela sorriu, certa de que estava prestes a fazer isso.
“O que isso significa, Frank? O que mudou?”
“Nós somos casados. Não é nada demais.”
É claro que é. Você não demonstrou interesse nenhum por anos. Pensou ela, mas sentiu-se incapaz de pronunciar tal petulante verdade. “Isso… Eu estava embriagada ontem. Você também.”
“Você está arrependida?” Ela não poderia reclamar dele não ser objetivo. A pergunta a atingiu como uma pedra.
“Não.” Ela ajustou-se, sentando na cama e encostando as costas na cabeceira, alinhando seus corpos. Virou a cabeça e estabeleceu contato visual, sentindo uma leve onda de ansiedade crepitando na parte baixa de seu ventre. “Eu só queria entender…”
“Entender o quê, Regina? Não era isso o que você queria?” Ele deslizou o corpo para a frente, puxando o rosto dela e a beijou. Regina colocou a mão sobre a mão dele que segurava seu rosto, mas não teve coragem de afastá-la. A sensação dos lábios dele sobre as suas gerando uma espécie de nostalgia, um calor crepitante subindo por suas veias. Ela cedeu, voltando a deitar-se sobre a cama macia e ele não desistiu. Manteve os lábios nos lábios dela, beijando-a com firmeza. Os corpos foram lentamente se complementando, acompanhando um ao outro no alcance de uma posição confortável sob uma perspectiva horizontal.
Ela deslizou uma das pernas por fora da perna dele e ele aproveitou o movimento para encaixar-se entre as pernas firmes; apoiou os antebraços no colchão e afastou-se dela apenas para encarar seus olhos cor de avelã. Havia uma dúvida em seu semblante que lhe custava a entender. “Eu li errado os teus sinais? Porque eu achei que fosse isso que queria. Eu. Nós. Que eu desejasse você novamente.”
“É o que eu quero.” Respondeu ela, resignada. Porque era isso o que ela queria. Era isto desde o começo.
“Então prove.” Sussurrou ele contra os seus lábios, provocando-a, roçando pele contra pele. Ela deslizou a mão para as costas dele, suas unhas brincando com a pele de seu dorso, arranhando, percorrendo com certa selvageria a carne despida. Ele grunhiu com o lampejo de dor e sorriu para ela com uma cara safada, que só fez o centro de suas pernas umedecer. “Tenho uma ideia melhor. Me deixe provar você.”
Antes que ela tivesse tempo de responder, ele começou a deslizar o corpo na direção sul. A barba rala causou arrepios em seu colo, enquanto as mãos dele acariciavam suas pernas, as pontas dos dedos exercendo pressão sobre a carne das mesmas. Os lábios dele cobriram sua auréola e ele sugou o mamilo, soltando-o com um pop que fez as entranhas dela entrarem em ebulição. Repetiu o mesmo movimento no outro e deixou que suas mãos substituíssem os lábios na tarefa de brincar com seus mamilos, apertando-os e puxando-os; Frank continuou a trilha de beijos molhados, contornando seu umbigo sem pressa. Escancarando as pernas sem nenhum pudor, ela deu a ele a permissão que ele necessitava. Um suspiro gutural ecoou de sua garganta quando ele ergueu uma de suas coxas em um ângulo ligeiramente mais alto e sua língua deslizou pelos lábios de sua vulva. Ohhhh
Ela imediatamente fechou os olhos, sentindo todos os músculos de seu corpo fibrilando com as ondas de prazer. Uma das mãos pousou imediatamente na cabeça dele, os dedos entrelaçando-se aos fios de cabelo dele, incentivando-o a continuar. Frank continuou, lentamente, e soltou um de seus seios, a mão deslizando para o centro de suas pernas. Ele abriu seus grandes lábios com a mão livre e deslizou a língua ali, causando um tremor involuntário nela e a urgência de apertar os próprios seios numa tentativa desesperadora de aplacar o prelúdio do orgasmo. Não se lembrava de Regina ser tão solta sexualmente, mas fazia tanto tempo que ele sequer poderia questionar a veracidade de sua memória. Perguntou-se por que cargas d’água ele desistira dela e arrependeu-se imediatamente de seu próprio pensamento. Por que quando ela descobrir quem você e isso vai acabar, e você vai perdê-la. Sussurrou uma voz obscura em seus pensamentos. Você se manteve longe para manter-se a salvo e agora tudo irá desmoronar.
Ele chacoalhou a cabeça, e voltou sua atenção para a mulher que gemia descontroladamente à sua frente. Ele era sim capaz de fazê-la feliz e ia provar.
***
A pior parte de tudo eram os gemidos. Ficou óbvio que a noite havia sido fabulosa no quarto ao lado, mas aparentemente não havia sido satisfatória o suficiente. A dança familiar de gemidos e ranger dos móveis preencheu a manhã, e Stuart sentiu-se sobrecarregado de pesar pelo mentor.
Robin poderia continuar em silêncio, mas seu rosto não o desmentiu. Ele estava decepcionado, talvez até mesmo magoado com aquilo. E sem direito algum. Naquele momento até Stuart estava entrando em uma espécie de transe, tomado por uma autoanálise que cheirava à remorso e arrependimento. Não era possível que ele estivesse enganado e Lockhood estivesse certo, era? O amor era então uma vaga ilusão e ele estava sendo completamente ingênuo de achar que aquilo entre os dois se tornaria outra coisa?
Respirou fundo e caminhou até o loiro e ambos se sentaram na varanda, local onde a sinfonia apresentada por seus chefes estava distante, mas ainda presente. Pousou a mão sobre o ombro do mesmo e apertou levemente, expressando solidariedade. “Eu sinto muito, Robin.”
Robin encarou-o por algum tempo, e depois ergueu os ombros, relevando o tema. “Tanto faz.”
Mas fazia.
“Se ela está feliz, eu estou feliz. Regina…” Ele bebeu um gole do conhaque que segurava, e manteve os olhos no horizonte. “Ela é uma mulher formidável. Eu só lhe desejo o melhor.”
Stuart o fitou, ressentido. Era óbvio que havia muito mais sob a fachada do outro segurança; suas palavras indicavam indiferença, mas seu semblante denunciava o desconforto. Antes que pudesse continuar, a porta entre os quartos se abriu e Frank apareceu, vestido apenas com uma bermuda. Ele cruzou a suíte, passos abertos e firmes, sorrindo para os dois homens à sua frente. “A Sra. Delfino e eu vamos passar a manhã no quarto. Vocês estão dispensados até as 13h. Vão curtir o México.”
Os dois balançaram as cabeças, aceitando. Assim que o moreno deu meia volta para retornar à outra suíte, os olhos de Stuart capturaram as marcas de unha em toda a sua lombar. E o mesmo fato não passou despercebido pelo outro segurança. Entretanto, Robin foi o primeiro a falar, logo depois de terminar seu drinque.
“Vamos, Ken. É hora de arrumarmos um pouco de encrenca.”
***
“Como está Lockhood?” Perguntou ela, torcendo para que Frank não achasse sua pergunta tendenciosa demais.
“Como assim?” Questionou ele, trazendo o carro de transporte com o café da manhã de ambos para perto da cama. Ela estava sentada sobre a mesma, vestida com um conjuntinho de shorts e babydoll de seda. Ela correu os olhos pelo abdômen dele e por alguma razão lutou contra a necessidade de compará-lo à Robin.
“Ele está ferido? Ele levou algumas pancadas ontem à noite.”
Frank riu, sacudindo os cabelos no ar. “Não se deixe iludir pelos olhos azuis. Lockhood é uma fera. Uma besta. Ele já está novo em folha.”
“Eles vão ficar aí no quarto a manhã inteira?”
“A escolha é deles.” Murmurou Frank, levando um morango aos lábios e mordendo-o com vontade. “Eu os dispensei até a hora do almoço. Provavelmente eles vão sair, a menos que queiram nos escutar a manhã toda.”
“Achei que já tivéssemos terminado por ora.” Respondeu ela, suavemente, mas não havia nada de suave na maneira com que ele a encarava.
“Eu ainda não terminei com você, Regina.”
Ligeiramente sufocada, ela se arrastou até a borda da cama e pegou uma das torradas cobertas com mel. O gosto era fabuloso, ainda mais adicionado ao aspecto crocante. “Apesar de não saber o que dois idiotas como eles fariam por aqui. Grant só tem olhos para a sua secretária e Hood continua com a babá.”
O corpo de Regina estremeceu com a menção dela. “Sério? Achei que eles fossem apenas amigos.”
Frank sentou-se ao seu lado, os olhos azuis dele alinhados aos seus castanho-chocolate. Ele riu. “Amigos que dividem a cama, Regina. A garota é louca por ele e Robin diz que não, mas tenho certeza que tem sentimentos por ela.”
Uma sirene tocou na cabeça dela. Não deixe transparecer sua irritação. “Ambos são solteiros, qual seria o problema?”
Frank virou sua atenção para a carro metálico, alcançando a jarra e preenchendo seu copo com o suco de laranja. “Honestamente eu não sei como ela tem coragem.”
A frase, carregada de entrelinhas, foi a isca que capturou sua atenção. “O que você quer dizer?”
“Você não sabe nada sobre ele?” Questionou seu marido, fitando-a curiosamente. O sorriso havia se perdido, e ele parece mais sério.
“Eu deveria? Você é quem os escolhe e contrata, eu só tento acompanhar os nomes.”
Ele ergueu as sobrancelhas, ponderando sobre a resposta dela. “É verdade.” Ajeitou-se, terminando de beber seu suco. “Robin Lockhood era um oficial da SWAT muito bem recomendado. Sua ficha militar era exemplar. Daí algo deu errado em uma missão da sua unidade e ele quase foi abatido. Você sabe, essas coisas mexem com a cabeça desses veteranos de guerra. Então ele voltou para a casa e descobriu que a mulher dele estava o traindo. Daí ele surtou e matou todo mundo. A mulher, o amante, toda a sua unidade. Não restou ninguém.”
O coração de Regina se contraiu de tal forma que ela achou que fosse morrer ali. Segundos depois um lampejo de ar a ajudou a respirar novamente. “Mas… Se ele matou todas essas pessoas, por que não está preso?”
Robin não era essa pessoa. Ela tinha certeza. Ele poderia ser muitas coisas, mas um assassino? Alguém tão impiedoso e frio? “Alguma coisa aconteceu.” Continuou Frank, dando de ombros. “A SWAT o expulsou, retirando todas as suas insígnias e condecorações. Mas assumiu a responsabilidade por todo o resto. Ninguém sabe a razão por trás disso e ninguém é louco o suficiente de perguntar a ele.”
Ela ainda estava à beira do choque. A ideia de Robin ter assassinado a própria esposa e mãe de seu filho por infidelidade era… Absurda. Afinal, não era isso o que eles estavam fazendo desde então? Ele era o componente da equação onde ela era infiel ao próprio marido.
“Isso não faz sentido nenhum.” Comentou Regina, tentando parecer o mais indiferente possível. Seu tórax parecia prestes a ser rasgado, tamanha a dificuldade em respirar.
“Ele é uma máquina de matar, baby. Ele tinha um alicerce e isso foi tirado dele. Então ocorreu o surto.”
“Frank, ele tirou a mãe do próprio filho.” Sussurrou ela, como se pronunciar aquilo fosse um pecado imperdoável.
Mas seu marido não pareceu se importar. Sorrindo, ele voltou a comer. “Ele é apenas meu funcionário. Não cabe a mim julgar seu passado. Se ele o fez, é porque teve alguma razão.” Ele pegou o controle e ligou a televisão. “E a garota lá, a ruivinha, sabe de tudo isso e ainda assim quer ficar com ele. Isso sim é amor.”
Regina encolheu-se ao ouvir aquelas palavras. O peso delas a atingiu com força, reverberando por todo o seu sistema nervoso. Muitas perguntas a atormentavam. Toda aquela história era real? Ela havia se enganado tanto a respeito dele?
Não.
Não havia nada a respeito dele que não lhe parecia incrivelmente certo. Robin era como um refúgio seguro, uma sombra no deserto. Mesmo tendo agido de maneira decepcionante para com ele, ela sabia que ele jamais a deixaria desamparada pois é esse tipo de homem que ele é. E não um bandido comum. Não um monstro. De qualquer forma, tudo que ela precisaria fazer era perguntar a ele, e de certa forma torcer para que a versão dele fosse melhor.
A ideia de que a babá estava apaixonada por Robin voltou para seu foco e ela sentiu sua fome desaparecendo instantaneamente. “Vou tomar um banho.” Comentou ela, levantando-se da cama. Frank sorriu, observando-a caminhar para o banheiro preguiçosamente. Ele largou o suco, e estava prestes a se levantar quando ela parou, segurando a porta. “Sozinha.” Enfatizou ela, e segundos depois ele a ouviu trancando a porta.
***
Havia bandeiras penduradas para todos os lados, assim como grandes flores de papel. Uma banda de mariachi tocava alegremente de cima do quiosque, entretendo as pessoas espalhadas pela praça. Robin voltou com dois copos com um líquido colorido, e Stuart arqueou uma das sobrancelhas, desconfiado.
“O que é isso?”
“Olha, ela chamou de arco iris del Caribe.” Ele entregou um dos copos e ambos os ergueram, encostando os mesmos em um gesto de brindar. “Um brinde ao México!”
Stuart bebeu tudo de uma vez; surpreendeu-se com o sabor doce e levemente misturado de frutas com o que parecia ser tequila. Bem, tudo por ali era feito com tequila, então não era exatamente uma surpresa. Eles avistaram a multidão dançando o que parecia ser uma coreografia típica, e resolveram arriscar. Rindo, caminharam através da multidão e se misturaram, observando os passes e arriscando algumas tentativas. Robin adaptou-se rapidamente com a ajuda de duas moças que lhe deram instruções e pareciam interessadas em mais do que a mera dança. “Meu Deus, Grant. Você parece uma tábua dançando. Solta esse quadril.”
“Cuida da sua vida, Hood.” Reclamou Stuart, mas sem qualquer rigidez em sua voz. Uma velha senhora aproximou-se dele e o ajudou, pousando uma palma gentil no quadril dele e o auxiliando a entrar no ritmo. Alguém passou por eles e lhes estendeu o chapéu, o qual Robin imediatamente pegou e colocou na cabeça do amigo.
“O verdadeiro mexicano.” Provocou ele e Stuart apenas aceitou.
Me gusta tomar mis copas
Aguardiente es lo mejor
También el tequila blanco con su sal le da sabor
Ay, ay, ay, ay
Ay, ay mi amor
Ay mi morena de mi corazón
As vozes ao redor deles acompanhavam a letra há muito conhecida, criando um harmonioso e animado coral. Olhando em volta, Robin reparou em quão felizes eram aquelas pessoas. Havia uma leveza invejável em suas expressões, em seu estado de espírito, em seu jeito de ser. A vida poderia não ser a mais farta, mas bem, ali estavam eles, festejando e celebrando a vida com música boa e alguma decoração. Quando é que ele havia perdido essa alegria?
“Agora é você quem parece um velho.” Provocou Stuart, rindo. Robin respondeu com outro sorriso. “Vou comer alguma coisa. Você vem?”
“Com certeza.” Respondeu ele, passando o chapéu para a senhora que lhe ajudou com os passos de dança. Ela o agarrou pelo braço e o puxou, beijando sua bochecha em agradecimento. Robin observou toda a cena e de repente se pegou pensando o quanto Stuart o lembrava de Will. Seu semblante deve ter denunciado sua tristeza súbita pois quando voltou a si encontrou um par de olhos claros e evidentemente preocupados o encarando.
“Lockhood? Você está bem?”
Robin ignorou a pergunta e se afastou pela multidão com o jovem segurança logo atrás de si. Entraram na fila da barraca de tacos; as costas de Robin já estavam suadas, marcando a camiseta justa e branca. Stuart ficou em silêncio, logo atrás dele e tentando decifrar o que havia causado aquela expressão no rosto do homem à sua frente. Era quase como se ele tivesse levado um soco no estômago; seus olhos se perderam e o sorriso se desfez e ele parecia ter envelhecido imediatamente. Mas quando o mesmo se virou para trás e perguntou qual sabor ele queria, seu rosto parecia ter voltado ao estado normal. “Vinagrete e curry.” Respondeu Grant. “Quanto é?”
“Eu pago.”
“Não, Hood, eu…”
“Você quer levar um soco?” Questionou ele e Stuart levantou as mãos pedindo clemência.
“Oras oras, já que insiste tanto pode pagar.” Respondeu ele, saindo da fila e esperando à direita da mesma. Ficou ao lado enquanto Robin fazia os pedidos e acompanhou quando o mesmo retirou o celular do bolso e trocou algumas palavras. Quando retornou com os tacos recheados, Stuart estava prestes a sentar-se, mas tudo que recebeu como resposta foi a negação visual do outro segurança. “Vamos comer no caminho. O chefe ligou; eles estão de saída do hotel.”
***
Olhar para ele doía. Não só figurativamente, mas ela podia sentir, sob a sua pele, sob seus ossos, sob seus músculos. Ela só não entendia o porquê. Seu rosto parecia queimar pelo simples fato dele estar ali, parado à sua frente. E o que mais a incomodava era que ela jamais se sentira assim sobre Frank.
Robin e Stuart estavam parados, aguardando-os. Frank estava finalizando o pagamento no balcão da recepção de modo que ela não precisava se preocupar com a atenção dele. Mudou o foco de sua atenção rapidamente, fitando seu reflexo no espelho. O decote de seu vestido era profundo, chegando quase à linha do umbigo. Alças finas decoravam seu ombro e babados laterais adornavam seus antebraços. O corte do vestido preto contornava sua silhueta e a fenda caprichada subia até quase o início de sua coxa. As sandálias de tiras finalizavam o visual típico, assim como as largas flores vermelhas e roxas da estampa.
Frank retomou seu posto logo em seguida, entrelaçando seus dedos contra os dela, e o gesto não passou despercebido por nenhum dos homens à sua frente. Regina percebeu a súbita mudança no semblante de Stuart. “Alguma sugestão, Lockhood?” Perguntou seu marido, e ela acompanhou a conversa, observando em silêncio. Robin esforçou-se para não dirigir seu olhar a ela, concentrando-se em seu chefe. “Eu fiz reservas no La Matera. Mas se o senhor assim desejar podemos buscar outras opções.”
“Você é um homem de bom gosto, rapaz. La Matera será.” Rebateu o moreno, sorrindo. “Tudo bem para você, querida?”
“Sem problemas.” Respondeu ela, e eles caminharam em silêncio até o carro. Stuart abriu a porta do SVU e eles entraram, primeiro Regina, auxiliada pelo marido e Frank logo atrás dela. Robin enfiou-se no banco do motorista e Stuart sentou-se ao seu lado e segundos depois, estavam na avenida.
***
Sim, Robin era um homem de bom gosto. A decoração do restaurante argentino La Matera nada deixava a desejar em aspecto rústico. As paredes de tijolos avermelhados serviam de papel de parede, e as luminárias de papel penduradas em pontos estratégicos forneciam uma luz baixa e suave, frequente em churrascarias. Móveis de madeira escura eram cobertos por toalhas brancas, louças de cristais e porcelanas recém-compradas e muitas janelas. O telhado de madeira conferia uma certa atmosfera provinciana e os garçons eram de uma educação quase assustadora.
Regina queria beijá-lo por conta daquele churrasco maravilhoso à sua frente. Mas bem, ela queria beijá-lo até mesmo sem nenhuma razão, mas desconfiava, considerando o fato de que podia contar nos dedos de apenas uma mão o número de vezes que ele lhe dirigira o olhar, que ele não estava nem um pouco interessado em seus beijos.
Seu lado racional lhe dizia que ela não havia feito nada de errado. Sua vida particular não era do interesse do segurança. Seu casamento não lhe dizia respeito. Mas algo não parecia certo. Aquele tremor na base de seu estômago, o suor na palma de sua mão, o peso sobre seus ombros quando Robin a observava ao lado de Frank… Nada daquilo parecia certo, ou bom, ou direito. Parecia que ela estava fazendo algo extremamente errado.
“Essa é a melhor carne que eu já comi em meses.” Comentou Frank. Ele chamou o garçom e pediu algumas doses de tequila. O pedido rendeu-lhe um par de sobrancelhas femininas arqueadas, como que questionando se era uma boa ideia, mas ele simplesmente ignorou o alerta. “Me diga, Hood… Como pretende gastar aquela grana preta que conquistou lutando? Algum item luxuoso?”
Robin engoliu o pedaço de carne que estava mastigando com força. Ele ergueu o olhar e sentiu todos os olhos da mesa fixos nele. “Não, não. Eu tenho o Roland. Vou guardar para qualquer eventualidade no futuro do garoto. Estudos, viagens. O que ele precisar.”
“Bem… ainda bem que eu nunca quis ter filhos. Deus me livre ter que gastar meu dinheiro com isso.” Comentou Frank, como se falasse a porcentagem de uma ação no mercado de Wall Street. Regina encarou-o, os olhos arregalados e os lábios entreabertos. Ele sabia muito bem que ela não poderia… E não havia sido uma escolha. Ou ele a havia escolhido justamente por causa disso?
Lágrimas vieram aos seus olhos, mas ela obrigou-se a devolvê-las a seu local de origem. Um comentário infeliz não a faria desabar. Evitou olhar para Robin mas sabia que ele estava olhando para ela. Podia sentir, em cada poro de seu corpo, o calor dos olhos azuis e odiou-se ainda mais por isso.
“Não é nenhum esforço para mim.” Continuou Robin, tentando apaziguar o clima que agora pairava sobre a mesa. Fitou Stuart, buscando algum apoio, mas o loiro fitava seu prato como quem nunca tivesse visto um filé mignon na vida.
“Ele está com a babá durante esse fim de semana?”
“Sim.”
“E quando vocês vão se assumir?” Brincou o moreno, rindo. Um dos seus hobbies preferidos era atormentar Lockhood com aquele relacionamento. Era um assunto que claramente o incomodava, e incômodos eram um deleite.
“Não há nada a ser assumido.”
“Então vocês estão mesmo namorando?”
“Sim.” Mentiu ele. Stuart soltou o garfo, que caiu sobre a mesa e depois encarou Robin, estupefato. Regina havia deixado de lado a discrição e encarava Robin como se ele tivesse dito que iria matar os três ali mesmo naquela mesa. Ele não sabia se havia feito aquilo por causa da pressão de Frank, para despistar o que havia entre ele e Regina, ou simplesmente como uma represália pelo reatamento dos dois. Antes que ele tivesse pensado no peso de suas palavras, elas saíram de seus lábios. E o estrago estava feito.
“Já era hora.” Riu seu chefe, bebendo a primeira dose de tequila como um gole de água. “A menina sempre foi apaixonada por você e ela é gostosa.”
“Frank.” Reclamou Regina e ele sorriu.
“Ela é linda. Péssimo uso de palavras. Me desculpe.” Zombou ele e Regina revirou os olhos, irritada.
Robin bebeu mais um pouco de sua água, e permitiu-se fitar Regina rapidamente. Ela parecia irritada. Talvez fosse por sua pequena mentira, talvez por causa do comentário desnecessário e inconveniente do palerma do marido, mas ele podia ver através da linha em sua têmpora e do vinco acima de seus lábios que algo a incomodava. Demais.
Um celular tocou e todos rapidamente se propuseram a atender, mas era o de Frank. Ele pediu licença aos demais e retirou-se da mesa para atender; pela maneira que sua voz aumentou animosamente ao se afastar ela deduziu que fosse trabalho. Stuart pegou seu prato e retirou-se da mesa o mais rápido possível com a desculpa de ir ao buffet de saladas. “Ele sequer consegue disfarçar.” Brincou Robin, rindo. Quando voltou a olhar para ela, percebeu que a mesma ainda estava fitando a toalha de mesa com tanta intensidade que logo faria um furo na mesa. “Regina.” Chamou ele e ela fechou os olhos, pressionando um lábio contra o outro e respirando. “Regina. Olhe para mim.”
Ela abriu os olhos e o encarou. Então ele viu o que ela estava tentando esconder. Ela parecia… ferida. “O que você quer?”
“Você não vai poder ignorar minha existência por muito tempo. Ele irá perceber.”
“Eu achei que você estivesse ignorando minha existência.”
Ele sorriu. Certificou-se de que Frank estava fora do alcance e colocou a mão sobre a dela, puxando ambas para baixo da mesa. Ali, ele podia acariciá-la. Deslizou o polegar lentamente, fazendo círculos sobre a pele macia da mão dela. “Regina, eu sequer sou capaz de ignorar a existência de um ser tão magnífico.”
“Pare com a conversinha.” Sibilou ela, encarando-o com o olhar mais gélido que ele conseguia se recordar.
“Não é uma brincadeira.” Ele apertou o polegar sobre a sua pele, sem fazer força mas obteve o resultado que queria: ela fitou seus olhos azuis com atenção redobrada. “Você não precisa me afastar por causa dele. Tudo bem vocês estarem juntos. Tudo bem você estar feliz com ele. Isso não me faz gostar menos de você.”
O que era, essencialmente, uma grande mentira. Não estava bem. O pensamento de que Regina poderia ser feliz com outro homem causava uma dor lacerante nele. Ele não queria vê-la com ele. Ele não suportava olhar para a curvatura de seu seio e ver a pequena mancha arroxeada, a marca de dentes que somente o marido poderia deixar ali. Ele jamais poderia fazer aquilo. Ele não a tinha. Ele tinha escapadas e pequenos momentos, ele tinha alívios momentâneos e palavras sussurradas, mas o coração dela permanecia nas mãos daquele homem falando ao telefone do lado de fora. E era isso o que mais lhe feria.
Mas ela sorriu. Pela primeira vez desde que eles haviam se encontrado, ela havia sorrido genuinamente para ele e os olhos dela brilhavam, e por alguns segundos ele achou que ela fosse derramar algumas lágrimas. Mas ela se recompôs e apertou sua mão, sussurrando um obrigada que só ele poderia ouvir.
Logo Stuart voltou a mesa, e eles soltaram as mãos, ocupando-se com seus pratos. Frank voltou algum tempo depois, o rosto marcado e vermelho, denunciando seu estresse. O clima entre eles tornou-se ameno e sem muita conversa os quatro finalizaram suas refeições. “Você se importa em voltar com eles para o hotel?” Questionou Frank e ela apenas balançou a cabeça, negativamente. “Houve uma situação com um dos agentes de Chavón e eu preciso resolver.”
“Neste caso é de suma importância que eu o acompanhe, Sr. Eles já tentaram machucá-lo uma vez.” Rebateu Robin, mas tudo que ele conseguiu foi uma resposta negativa.
“Não é necessário.” A voz dele não deixou aberturas para discussão. Estava decidido. “Vocês a levam de volta e arrumam as malas. Eu volto em uma hora, ou uma hora e meia. Não deve demorar.”
Eles consentiram e Regina foi escoltada até o carro. Segundos depois, o mesmo arrancou, deixando apenas Frank para trás.
***
Regina havia terminado de arrumar as malas. Estava lutando contra as suas próprias dúvidas, perguntando-se o quanto poderia acreditar em seu marido, se ele estava mesmo resolvendo assuntos de trabalho, ou assuntos de mulheres. Ela seria algum dia capaz de confiar nele?
Antes que pudesse pensar em suas ações, ela caminhou até a porta da divisória e a abriu. Robin e Stuart estavam em pé, observando uma espécie de luta na televisão. Ambos deram meia-volta, fitando-a com atenção.
“Robin…” Ela não sabia sequer o que dizer. “Você poderia me dar um minuto?”
Ele consentiu. Stuart virou-se de costas, respeitando o espaço deles e Robin passou por ela e adentrando a outra suíte. Regina fechou a porta delicadamente, mas não se virou de imediato. Fitou sua mão sobre a madeira, e depois fechou os olhos por algum tempo, tentando criar coragem para conversar com ele sem se perder na profundeza daquelas irises.
Ela virou-se lentamente e encontrou-o ali, em pé à sua frente e esperando qualquer resposta. “Aconteceu alguma coisa?” Perguntou ele, preocupado.
Ela odiava que ele fosse esse tipo de homem. Atencioso. Observador. Preocupado.
“Robin, nós… Eu não sei por onde começar.”
“Não precisamos falar sobre isso se você não quiser.” Respondeu ele, tentando soar colaborativo, mas não era nada isso que ela queria e ele definitivamente não estava a ajudando.
“Precisa sim.” Respondeu ela, exasperada. “Isso não está certo, Robin! Eu tenho que ficar com ele e eu queria ficar com ele, mas não estou sentindo aquilo que eu queria sentir! Qual é o problema comigo, Robin?”
“Não tem nada de errado com você.”
“Então qual é o problema com você? Por que você não está com raiva de mim? Por que não me odeia? Por que não age como se estivesse com ciúmes? Eu…”
“Regina… Eu não tenho nem raiva, nem ódio de você. Muito pelo contrário, eu diria.” Ele deu um passo à frente e ela recuou, encostando-se na porta. Ele deslizou a parte posterior dos dedos em seu rosto, acariciando-a delicadamente. O toque suave e gentil fez com que ela fechasse os olhos por alguns instantes, apenas desfrutando daquele momento. Aquele homem era capaz de atingir todas as suas facetas, desde as mais delicadas quanto as mais brutas. “Eu só quero o melhor para você. E se você estiver feliz assim, então tudo bem.”
“Robin… Não faça isso, por favor.” Sussurrou ela. Ele afastou a mão que a tocava e Regina a capturou no ar, mantendo-a no lugar. “Eu não disse fisicamente. Eu disse… Não torne isso em sentimentos. Não alimente isso…”
“Por que não?” Sussurrou ele, roçando o nariz contra o dela, suas bocas se aproximando, mas ainda assim sob uma distância quase segura. Ela segurou na gola de sua camiseta polo, e fincou os dedos ali, mantendo-o o mais próximo possível. O perfume singular adentrou suas narinas e ela sentiu um leve arrepio percorrendo sua nuca.
“Robin, não…” Sussurrou ela, deslizando as mãos pelos ombros dele, descendo delicadamente para seus tríceps por onde contornou com as pontas dos dedos, seguindo o mesmo caminho de volta, ouvindo-o respirar aceleradamente a cada toque. “Não…” Continuou sussurrando, em seu transe hipnótico, seus olhos encarcerados pelo dele enquanto as mãos dela deslizavam pelo pescoço dele, as unhas arranhavam levemente, causando uma aflição prazerosa. “Não…” As mãos dela deslizaram pelo cabelo loiro, sentindo a textura dos fios macios, a sensação formigante e deliciosa que ela adorava. Ela desfez o contato visual assim que seu polegar deslizou sobre o lábio dele, aqueles lábios que lhe causavam as sensações mais inquietantes e doces e quentes e prazerosas e completas e… o ar escapou de seus pulmões quando ele pôs a língua para fora e a deslizou sobre seu dedo, sugando-o em seguida. “Oh sim…”
Ele rapidamente deslizou as duas mãos para a nuca dela, segurando-a com carinho, e debruçou seu rosto, roçando seus lábios. A maciez fez com que ela sentisse que estava respirando novamente; ele juntou suas bocas em um beijo macio, singelo, os lábios encaixados um sobre o outro. O polegar dele acariciou a base de seu pescoço e ela suspirou, abrindo caminho para ele aprofundar o beijo, as línguas se encontrando em um toque doce e lento; Robin beijou-a sem pressa, aproveitando cada segundo, permitindo matar a saudade do sabor de sua boca. Calor parecia derreter o cérebro dela, ou talvez fosse somente a maneira com que ele a estava beijando. Ele mudou o ângulo, as mãos delicadas na base de seu pescoço, os lábios massageando os seus, as línguas tocando-se com suavidade e desejo, mas a volúpia dos amantes. Era aquilo que ela sentia falta, aquilo que ninguém mais era capaz de dar a ela — pelo menos ao que parecia. Ela deslizou a mão sobre o abdômen dele e ele suspirou, beijando seus lábios com beijos suaves, toques macios, em cima, abaixo, nos cantos de sua boca, no topo de seu nariz. Quando ela achou que ele havia acabado, ela sentiu seu rosto sendo encaixado nas mãos dele e Robin pressionou seus lábios contra os dela num beijo firme e preciso.
“Robin…” Sussurrou ela, sentindo-se perdida. Ela encostou a cabeça contra os lábios dele, deitando nos braços largos dele e sentindo o conforto e refúgio que os mesmos lhe forneciam. “Eu não quero.” Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela se recusou a deixá-las cair. “Isso não pode acontecer.” Ela afastou-se dele apenas o suficiente para encará-lo nos olhos e ele percebeu a presença de lágrimas tentando desesperadamente serem libertas. “Eu tenho medo de sentir alguma coisa por você. Eu tenho medo do que eu já sinto por você. Então eu não quero. Eu não quero que você alimente isso.”
Ele manteve os olhos nela e ela achou ter visto o lampejo de algo parecido com decepção cruzando o olhar dele. “Tudo bem.” Respondeu ele, e ela sentiu a frieza em seu tom de voz. A impessoalidade. “Eu não vou mais tocar neste assunto nem agir assim em respeito ao seu pedido, Regina.” Comentou ele e ajustou sua roupa. “Era só isso?”
“Sim.” Respondeu ela, quase inaudivelmente. Ela abriu a porta e ele estava prestes a sair quando ela o sentiu atrás de si, as mãos possessivas em seu cabelo, puxando-o, mas sem causar-lhe dor. Sentiu o hálito quente dele tocando sua orelha e rezou aos céus para que ele não percebesse o arrepio que lhe causara. “Isso não quer dizer que eu não vou sentir nada, Regina. No meu caso, já é tarde demais. No meu caso, isso já passou de uma dúvida. É uma certeza. Eu estou apaixonado por você.”
Robin afastou-se em seguida, e fechou a porta atrás de si, deixando uma Regina de olhos marejados e coração acelerado para trás.
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