Stuart abriu os olhos, a luz forte do quarto cegando-o temporariamente. Lembrou-se vagamente de estar no hospital. Suas costas doíam e ele sentiu uma dor mediana no abdômen; fitou seus braços e percebeu que um deles estava engessado. Pelo menos era só o antebraço. Na outra havia um cateter que guiava para uma bolsa de soro e ele ouviu um leve respirar no canto da sala, chamando sua atenção.

Uma visita incomum. Donovan o encarava com o olhar sério. De todas as pessoas que ele esperava ao seu lado caso sofresse um acidente, Donovan era a mais improvável delas. Estupidamente inesperado, para ser simples. O outro segurança aproximou-se da cama, fitando o quadro geral. “Como você está, cara?”

“Não está muito ruim.” Brincou o loiro, rindo. “Lockhood está aqui?”

“Não.” Respondeu o moreno, o semblante franzindo-se rapidamente com a resposta; mas tão rápida sua reação se formou, ela se desfez. “Ah, o chefe me pediu para trazer um pacote para você.”

Stuart ajeitou-se e observou enquanto seu colega de trabalho voltava até a cadeira no canto do quarto e pegava um envelope pardo. Ele voltou, aproximando-se um pouco mais e sentou-se perto da cintura do mesmo, apossando-se de um pedaço da maca. “Ele disse que é uma avaliação do seu trabalho até agora.”

Stuart sentiu como se algo estivesse apitando dentro de sua mente. Algo estava errado. Algo estava muito errado, e Frank enviara Donovan no lugar de Robin, algo estava fora do normal. Mas ele continuou o movimento, trazendo o envelope ao seu colo e abrindo-o, as pontas dos dedos alcançando seu conteúdo e puxando para fora o que pareciam ser algumas fotos. Quando ele se deu conta do que se tratava um arrepio percorreu sua espinha. Não eram poucas fotos, e sim muitas, muitas fotos dele com Regina. Muitas fotos de braços dados com Regina, muitas fotos de Regina olhando para ele com carinho e admiração e sorrindo e ele adoraria aquelas fotos se elas não estivessem sendo usadas como uma eminente ameaça.

“Eu posso explicar, Donovan. Não é”

Mas ele não teve tempo de continuar. Impedindo qualquer reação de sua parte, Donovan puxou o travesseiro e empurrou contra a sua face, sufocando-o. Stuart viu branco; o algodão impedindo suas vias respiratórias enquanto ele tentava desesperadamente lutar pela sua sobrevivência. O moreno fez ainda mais força, mesmo não sendo uma luta justa — Stuart só tinha uma mão para se defender. Stuart forçou, debateu-se ainda mais e estava prestes a perder a consciência quando a pressão se desfez e Donovan retirou o travesseiro de seu rosto.

Com os olhos vermelhos, Stuart o fitou aterrorizado. Sua garganta parecia queimar, o ar voltando de uma vez com um efeito rebote e fazendo-o engasgar. Ele tossiu nervosamente sob o olhar atento do outro. “Ele também me disse para lhe avisar que esse é o primeiro e último aviso. Mantenha distância dela, e faça apenas o seu trabalho.”

Donovan recolheu cada uma das fotos, e antes de sair deu meia volta e fitou Stuart de cima à baixo, sorrindo. “Ele sabe que Lockhood tem afeição por você, Grant. Mas isso não vai o impedir de matá-lo se você colocar os olhos na esposa.”

Stuart fitou o teto assim que ele saiu. Lágrimas vieram aos seus olhos e ele respirou fundo, deixando que as mesmas caíssem sobre seu rosto. Ele estava disposto a se sacrificar por eles? Fechou os olhos e chorou. Chorou pela sua impotência em se defender. Chorou por ter sido inocente o suficiente para achar que poderia se aproximar dela sem virar um alvo. Duas mãos tocaram seu rosto e ele se afastou abruptamente mas assim que abriu os olhos encontrou o olhar preocupado de Ruby Lucas.

“Stuart… O que aconteceu?” Perguntou ela, os olhos começando a acumular silenciosas lágrimas que ela segurou. Respirou fundo e apesar da voz parecer bastante frágil, manteve a postura.

“Foi um acidente.” Mentiu ele, sorrindo com o olhar vazio.

“Não é o que a polícia está dizendo.” Rebateu ela, se aproximando e acariciando seu cabelo enquanto fitava o rosto dele. Havia apenas algumas escoriações no rosto, mas ela notou o antebraço engessado. “Eles disseram que alguém cortou os cabos da sua moto.”

“Ruby, isso…”

“Você está com problemas?” Perguntou ela, e suas defesas cederam. Algumas lágrimas escaparam de seu controle e escorreram pelo seu rosto e o fato dela estar chorando por ele fez com que o coração dele pesasse ainda mais. Ele a puxou para perto e trouxe a mão dela que estava em seu cabelo aos seus lábios, beijando-a.

“Pode ter sido alguma rixa de trabalho. Eu vou conversar com eles mais tarde, mas não, eu não estou com problemas.” Ele se odiava por mentir para ela, mas a verdade seria ainda pior. A verdade a faria se envolver e ela poderia se machucar. Stuart jamais permitiria que isso acontecesse.

Ela assentiu, aproximando-se dele e debruçou-se sobre seu rosto. Os olhos azuis pareciam aflitos e ele sentiu que poderia fazer qualquer coisa para poupa-la daquele sofrimento. “Ruby, é sério. Está tudo bem.”

“A médica disse que você vai ficar de repouso alguns dias por causa da pancada no abdômen. Ela disse que você não sofreu nenhuma hemorragia, mas seus órgãos sofreram um grande impacto e você não pode forçá-los.”

“Mas meu trabalho…”

“Stuart, você não ouse ir trabalhar assim.”

Ele fechou os olhos por alguns segundos, tentando manter a calma. Precisava falar com Regina ou Robin o mais rápido possível; eles precisavam ser alertados. Frank poderia estar agindo sorrateiramente, mas ele estava observando. Minuciosamente. Abriu os olhos e fitou a morena que o assistia com um semblante preocupado, sorrindo para ela. “Tudo bem, Rubbie. Eu vou ficar em repouso.”

Dois toques na porta chamaram sua atenção e ambos observaram quando um médico entrou, acompanhado de uma moça — possivelmente uma residente. “Como estamos hoje, Sr. Grant?”

“Bem, Doutor.”

O médico de cabelos escuros e pele dourada se aproximou e sorriu, fitando Ruby por breves segundos. “Estou vendo que sim.” Alcançou o prontuário e leu as últimas atualizações, observando o resultado dos exames. “Parece que não há necessidade de mantê-lo aqui, Stuart. Desde que você se comprometa a ficar de repouso e seguir as orientações médicas.”

“Ele irá.” Ruby pronunciou-se, tomando a dianteira da conversa. “Vou me certificar disso.”

Stuart encarou-a, surpreso. O que ela estava planejando? Ela não teria tempo algum de fazer isso, ela possuía seu emprego e um noivo. Um noivo que não ia gostar nem um pouco dessa ideia. “Ruby, você…”

Mas ela virou-se para ele com um olhar bastante claro, como se fosse decapita-lo se ele continuasse a falar e ele entendeu o recado. Calou-se e permaneceu em silêncio enquanto o médico informava todos os cuidados médicos e a medicação para ela.

***

Robin puxou mais um peso de vinte quilos e o encaixou na barra. Repetiu o movimento do outro lado. Uma música eletrônica ressoava no som ambiente, o volume baixo. Stuart não havia aparecido ainda, o que era incomum, mas o celular dele também estava caindo na caixa postal.

Ele ajeitou as luvas e deu um passo para a frente, o dorso descoberto e as bermudas soltas em seu quadril, revelando o elástico de sua cueca boxer. Ergueu as barras, concentrando-se na musculatura dos braços, forçando-a na subida e na descida. Podia sentir a queimação na faixa de músculos e separou as pernas, agachando e levantando.

Distraído por seu exercício, Robin não notou a figura feminina que havia entrado na academia e agora o observava com certo deleite. Encostada em um dos aparelhos com um vestido azul, cujos cortes deixavam as laterais do seu abdômen à mostra e saltos na cor creme, altos e pontiagudos. Ela mordeu o lábio observando os músculos lombares sendo estendidos, imaginando a força embutida em cada um deles. “Uma força impressionante.” Comentou ela, em um tom alto o suficiente para que ele a ouvisse. Robin não parou seus movimentos mas fixou o olhar nela através dos espelhos. O cabelo loiro e brilhante de Margot Bishop se fez presente e ela deu mais alguns passos na direção dele, sorrindo através dos lábios pintados por um batom vinho.

“A senhora não deveria estar aqui.” Comentou ele, sério.

“Eu não estou fazendo nada demais. Só assistindo. E pode me chamar de Margot.” Flertou ela.

Robin manteve os olhos nela, raciocinando se continuava a conversa ou voltava aos seus exercícios. “Prefiro manter o profissionalismo, senhora.”

“Meu interesse em você não é exatamente profissional, Sr. Lockhood.”

Robin fixou a atenção em si mesmo, retomando o levantamento da barra. Talvez se ele a ignorasse, ela desistisse e o deixasse em paz. Ele torcia por isso. Mas ela não. Margot manteve os olhos nele como uma leoa estudando sua presa; calma e friamente. Marcando suas expressões, o ritmo da sua respiração, o movimento dos músculos, a força exercida. Oh, ele era um homem e tanto…

“O Sr. Delfino não está.”

“Eu sei.” Respondeu ela. Robin soltou a barra, colocando-a de volta. Caminhou até o aparelho de legpress e sentou-se, mudando o peso para 150kg. Ajeitou a base da coluna no suporte e começou a empurrar as pernas contra o pedal. Minutos depois fitou a mulher ao seu lado que continuava observando-o com atenção. “O que você quer, Robin? O que você almeja?”

“Nada que a senhora possa me proporcionar.”

A gargalhada dela ressoou pela academia. “Estou quase ofendida.” Brincou, deslizando as unhas pelo cabelo loiro. “Deve haver algo.”

Ele a fitou, parando seus movimentos. A troca de olhares permaneceu por alguns segundos, longos e pesados segundos. Robin levantou-se rapidamente e caminhou até ela, segurando nos braços do aparelho e encurralando-a entre o mesmo e seu corpo. Os olhos dela se concentraram inicialmente no tórax e no abdômen incrivelmente esculpidos, mas ela rapidamente levantou o rosto e fitou os olhos azuis, que pairavam em um tom azul escuro.

“Eu não sou um homem com quem você deva fazer joguinhos, Bishop.”

Ela observou a maneira com que a expressão dele se intensificou. Seu maxilar parecia ainda mais rígido. “Você é interessante, Robin. E misterioso. É uma combinação… bastante sedutora.”

“Não estou interessado.”

“Não? Mesmo? Eu não vejo você se afastando. Na verdade, você apenas me encurralou aqui contra o seu corpo, Lockhood.” Margot deslizou as unhas pelos braços de Robin, as unhas arranhando a pele dele quase que imperceptivelmente. Ela deu um passo à frente, tocando o pescoço dele com os lábios e beijando-o com lentidão. Robin respirou fundo, afastando-a em seguida; suas mãos viajaram para os pulsos dela, segurando com força.

“Pare.”

Ela sorriu e ele soltou seus pulsos. “Você fala que não tem interesse, mas os sinais que está transmitindo contam uma história diferente.”

Robin afastou-se dela. “Me deixe em paz, Bishop.”

“Eu vou.” Respondeu ela, caminhando até ele. Robin respirou fundo. Até quando ela continuaria com isso? A loira parou à sua frente e fitou seu corpo novamente, antes de encarar os olhos azuis. “Mas eu vou encontrar algo que você queira, Robin.” Ela deslizou as mãos pelo tórax dele, sem quebrar o contato visual. “Todas as pessoas têm um preço.”

“Você não pode pagar o meu.” Sibilou ele, colocando a mão sobre a dela e afastando-a dele. Eles mantiveram o contato visual até que uma terceira voz quebrou o silêncio.

“Estou atrapalhando alguma coisa?”

Robin a soltou imediatamente. Margot sorriu, observando a troca de olhares entre Regina e Robin. Era óbvio que ela estava muito mais furiosa com ele do que com ela. Segundos depois, ela focou sua atenção em Margot. “Acredito que nós temos um almoço para ir?”

A loira confirmou, balançando a cabeça para cima e para baixo. Ela deu uma última olhada em Robin antes de caminhar na direção da saída, passando por Regina. Assim que ela desapareceu da vista deles, ele limpou a garganta e começou a falar. “Regina, ela”

“Eu não quero ouvir.” Interrompeu ela, e virou-se de costas para ele. “Seja útil e descubra onde está Stuart. Ele ainda não apareceu.”

Robin observou enquanto ela desfilava o corpo esguio para fora da academia sem olhar para trás. A maneira com que o vestido vermelho estava atado ao seu quadril, como uma segunda pele; o movimento de seu quadril a cada passo; cada detalhe enviava estímulos diretamente para dentro da sua calça.

Maldita mulher.

***

Localizado na St. Aliceanna, nas redondezas luxuosas de Harbor East, o restaurante de comida japonesa Azumi estava entre as mais novas sensações da cidade. A vidraça extensa e alta que cobria a lateral esquerda proporcionava uma visão esplêndida do lago, ainda mais encantadora durante a noite. Os proprietários — jovens de visão e com capacidade empreendedora acima da média — criaram um ambiente jovial e ao mesmo tempo bastante clássica. Mesas pequenas de madeira, de corte redondo, ambientavam o bar, com velas escuras no centro. Lanternas de papel serviam como luminárias, capturando a essência da decoração oriental.

Regina fitou o DJ no canto do restaurante, um exímio músico que sabia mesclar batidas eletrônicas com música ambiente. Na lateral direita havia um saguão de maior conforto, poltronas macias revestidas por um tecido suave na cor creme, mesas maiores, paredes feitas com prateleiras brancas e preenchidas com vasos brancos. “Vai me dizer o porquê desse seu mal humor, Regina?”

A atenção dela voltou para a loira do outro lado da mesa. Para a mulher com a qual ela estava ligeiramente irritada, mesmo tentando negar a si mesmo. Ciúmes seria apenas um indicador de que a relação entre ela e Lockhood havia passado do permitido. Seria admitir que limites haviam sido cruzados.

“Não estou de mal humor.” Respondeu ela, levando a taça de vinho aos lábios.

“Certo.” A loira fitou seu rosto, observando cada detalhe de sua fisionomia e deixando um sorriso suave nascer em seus lábios. “Você voltou a trabalhar normalmente depois que sua irmã assumiu a diretoria?”

“Não.” Regina encaixou o hashi em seus dedos e pegou um dos sushis, levando-os aos lábios e dando uma mordida. Mastigou com lentidão, aproveitando o sabor delicadamente. Continuou algum tempo depois. “Zelena não tem nenhuma formação administrativa. Não espero nada menos do que mero fracasso.”

A expressão fez com Margot risse. “Sua mãe lhe disse porque fez isso?”

Regina a encarou, perguntando-se por que ela estava interessada nisso. Era óbvio que Cora havia mentido; sua mãe poderia mentir para quem ela quisesse, mas Regina a conhecia há uma vida toda. Mas ela não achava que Margot merecesse essa informação. “Ela não disse nada.”

“E você não achou isso estranho?”

“Onde você quer chegar com isso?” Questionou Regina, irritada.

“Quero entender o que se passa na sua cabeça neste momento, Regina.” Margot levou a taça de vinho branco aos lábios e bebeu um longo gole. Ela não quebrou o contato com os olhos cor de chocolate em nenhum momento. “Quer dizer… Você perdeu sua posição na empresa, seu marido não aparece em casa há dias, você foi traída por sua mãe e você parece… bastante calma. O que está sustentando você?”

“Por que isso te interessa?”

“Wow.” Sorriu ela, brincando com a borda da taça. “Você está na defensiva. Tudo isso é por causa do segurança?”

Regina ergueu o rosto, o maxilar firmando-se de maneira rígida; seus olhos fecharam contato visual com os olhos azuis à sua frente e ela respirou fundo antes das palavras atravessarem seus lábios com segurança e austeridade. “Fique longe dele, Margot.”

“Ou…”

“Não existe outra opção.”

“Ele não me interessa.” Riu a loira, bebendo mais um gole de sua bebida. “Quer dizer, ele é sexy. Muito, muito sexy. Mas ele também é um caminho para entrar na sua cabeça, Regina. Ele é uma abertura.”

Regina observou enquanto a mesma se aproximava. Margot puxou sua cadeira e aproximou-se dela, os rostos ainda mais próximos e alinhados; estendeu a mão e segurou seu maxilar, deslizando o polegar pela mesma, acariciando a pele, delineando a textura suave. “Você não entende o quão enigmática é, Regina.” Margot quebrou o contato visual e Regina percebeu que o olhar da mesma caiu sobre seus lábios, permanecendo ali. “Você parece superficial e mimada, mas quando retiramos a primeira camada, existem outras e por baixo dessas, ainda outras.”

“E você pretende retirar camada por camada? O seu interesse é tanto?”

Margot deslizou a mão para a nuca dela, aproximando seus rostos. Regina segurou o ar, surpresa pelo movimento inesperado. “Eu pretendo usar uma faca.” Sussurrou Margot, e inclinou o rosto, aproximando-se ainda mais. Provocou-a, roçando seus lábios, permitindo que o calor de sua respiração causasse arrepios na morena à sua frente. Regina não recuou de imediato, tomada pela sensação de torpor que aquele contato havia lhe causado; mas segundos depois, Margot afastou-se, voltando a beber o vinho em sua taça.

A morena manteve sua atenção em Margot, mas a mesma parecia bastante confortável, apanhando peças de sushi e comendo-as amigavelmente. Como se absolutamente nada houvesse acabado de acontecer. A adaptabilidade dela era invejável e Regina começou a perguntar-se o que Margot realmente queria dela. Não fazia ideia do âmbito de seu interesse. Profissional, pessoal, sexual. Tudo parecia ainda mais confuso e misturado a cada encontro delas. A única coisa que ela tinha certeza agora é que estava curiosa demais para recuar.

***

Stuart havia tentado todo tipo de argumentos, mas Ruby havia levado a melhor. Sentado sobre o sofá de camurça verde, ele se perguntou onde estava Graham e qual seria a reação dele ao vê-lo ali. Ruby desceu minutos depois, vestindo shorts e uma camiseta azul. “Você aceita café ou chá?”

“Chá.”

Ela colocou a língua para fora, fazendo uma careta. “Que coisa de mocinha.”

“Eu ainda posso te socar com o outro braço, garota.” Brincou ele, rindo. Ela deu meia volta e o olhou por cima do meio balcão. Colocou a chaleira no fogo e ligou a cafeteira, checando se havia grãos na gaveta. Certificou-se de que tudo estava ligado e voltou para o sofá, sentando-se ao lado dele e esticando suas pernas sobre o colo do mesmo. O olhar dele pairou sobre as pernas longas e femininas, mas ele desviou rápido, encarando-a.

“O que foi?” Perguntou ela, percebendo algo no olhar dele.

“Eu… Não quero ser estraga-prazeres nem nada, mas onde está Graham? Você não vai ter problemas se chegar aqui e me encontrar?”

O sorriso dela desfaleceu lentamente e ele soube que havia algo errado imediatamente. Ela o encarou por algum tempo, como que cozinhando uma resposta que parecia nunca vir. “Graham… não vem para casa tão cedo.”

“O que houve?” Perguntou ele, em um impulso. “Quer dizer, se você quiser falar sobre isso.”

As palavras dele a fizeram sorrir por instantes. “Ele… Eu não sei. Ele parecia muito incomodado com meu trabalho. Ele as odeia, e sequer as conhece.” Ela percebeu que Stuart não estava acompanhando, e explicou. “As Mills. Ele as odeia.”

“Mas ele já teve contato com elas?”

“Não que eu saiba. Ele sugeriu que viajássemos para a França, para a casa dos pais dele. Eu adoraria ir, Stu. Mas ele queria que eu fizesse as malas e partisse, e eu não posso fazer isso. Eu tenho obrigações aqui. Graham não tentou me entender. Pegou suas coisas e se foi.”

Stuart engoliu seus pensamentos sobre o noivo dela, consentindo apenas. Ele apertou-a levemente na perna, acariciando-a sem maldade. “Rubbie, eu sinto muito.”

“Tudo bem.” Concluiu ela, respirando fundo. O som da chaleira apitou e ela levantou-se em um pulo. “O chá!”

Caminhou até a cozinha e preencheu a xícara dele, pegando uma xícara para si também. Preencheu a sua com café escuro, adicionando três xícaras de café. “Temos morango, camomila, abacaxi, hibisco e flores silvestres. Qual você quer?”

“Para quem não gosta de chá você tem um belo estoque em casa.”

“Quem pode me culpar por ter queda por homens de gosto refinado.” Brincou ela, mas assim que ela o fitou por cima do balcão, se deu conta do que havia dito. Stuart a encarava com os lábios semicerrados, incerto sobre ter realmente ouvido aquilo. Ela podia sentir suas bochechas queimando e limpou a garganta. “Escolha um sabor, Stuart.”

“Morango.”

Ruby caminhou até a xícara e colocou o pequeno sachê ali, aguardando pacientemente alguns minutos. “Duas colheres de açúcar?”

“Sim.”

Stuart forçou-se a levantar e caminhou até a cozinha, chamando a atenção dela. “Quem mandou você levantar, Stuart?”

“Você ia levar tudo sozinha?”

“Você quebrou um braço!”

“Sim, só um. Não os dois.” Provocou ele. Pegou o pires e sua xícara e levou até a pequena mesinha, e ela o acompanhou. Puxou a cadeira e sentou-se, e ela sentou à sua frente. Stuart soprou o conteúdo de sua caneca, esfriando-a e ela riu, bebendo um pouco de seu café. “Como está seu trabalho? Quão difícil é ser a sombra de La Reina?”

“Regina detesta esse apelido.” Comentou ele, fitando a xícara e sorrindo. Ruby não pode evitar o leve ardor do ciúme passando por seus olhos. “Eu não ousaria reclamar dela. Regina é uma mulher linda, maravilhosa, e incrível como pessoa.”

“Parece que vocês se aproximaram bastante.” Comentou Ruby, aleatoriamente.

“Sim.” Ele levantou a cabeça e estabeleceu contato visual com sua anfitriã. “E como é ser secretária direta de Zelena Mills?”

“Ela é ainda pior agora que está no controle das coisas. Volúvel, quer que eu adivinhe as coisas, quer que eu trabalhe integralmente, quer que eu faça o trabalho de cinco profissionais.”

“E você atura isso?”

“Uma mulher precisa pagar suas contas.” Sorriu ela, um semblante cansado. “Quando eu não aguento mais eu pego minhas coisas e vou embora. Ela nunca diz nada a respeito.”

“Porque ela sabe que não encontrará outra pessoa tão qualificada quanto você.”

Eles permaneceram em silêncio por algum tempo, apenas apreciando o sabor de suas bebidas e aproveitando a companhia um do outro. Depois de um longo período de silêncio, ele encarou-a e começou a falar. “Ruby, eu… preciso pedir algo a você.”

“Claro.”

“Mas você não pode me fazer muitas perguntas e precisa me prometer que vai fazer exatamente como eu lhe disser.”

“Você está me preocupando.” Comentou ela. Ele percebeu que ela havia fechado as duas mãos ao redor de sua xícara, encarando-o com os olhos fundos e apreensivos.

“Eu escrevi uma carta no hospital. Ela está fechada e endereçada, e só falta colocar os selos e postá-la. Vou deixá-la com você. Se alguma coisa me acontecer, em algum momento, você precisa colocar essa carta no correio. É muito importante.”

“Stuart, o que está acontecendo? Tem algo errado e você não está me contando, não é?”

Ela não pôde evitar. Lágrimas vieram aos seus olhos assim que a hipótese de perdê-lo passou pela sua cabeça. Não tê-lo era algo com o qual ela podia conviver, mas perdê-lo… Não era sequer suportável. “Não tem nada acontecendo. Eu juro.” Ele colocou a mão sobre a dela, apertando-a. “A carta é apenas um seguro se algum dia isso acontecer. Tudo bem?”

“Tudo bem.” Confirmou ela, mas ele sabia que ela não estava bem. Ela estava aterrorizada. Ele se levantou e caminhou até ela, fazendo-a se levantar e a abraçou. Circulou sua cintura delicada com o braço livre e a apertou contra seu corpo, proporcionando a ela um porto seguro. Ruby permitiu-se chorar contra a camisa dele, abraçando o dorso dele com cuidado para não o machucar. Ele a amava mais do que algum dia poderia ser capaz de amar qualquer pessoa e a ideia de não estar aqui para protegê-la também o atormentava. Ruby permaneceu no calor do seu abraço por algum tempo; assim que se sentiu mais calma, afastou o rosto e o fitou, observando-o. Stuart devolveu o olhar.

“O que foi?”

“Me beije.”

Os olhos dele se arregalaram. “Ruby…”

“Stuart, você não quer?”

Ele tocou seu rosto, segurando seu rosto, o polegar na sua face e a ponta dos dedos na nuca. “Não seja boba. É o que eu mais quero no mundo. Mas não assim. Não porque você está vulnerável e assustada com o que eu disse ou porque brigou com o Graham.”

“Então você não quer.”

Ele a fitou, o semblante sério. “Ruby, não foi isso que eu disse.”

“Eu estou com medo, sim. Medo de perder você. Medo de perder você sabendo que eu sentia coisas e nunca me pronunciei sobre elas e me arrepender disso e ser tarde demais. Eu não quero que o nosso primeiro beijo seja dentro de um caixão. Então eu quero que você me beije agora. Pare de perguntar e faça.”

Stuart encarou-a, digerindo suas palavras e enfrentando a realidade exposta por ela. Ela tinha razão e ele estava fugindo, assustado pela oportunidade que ele havia perseguido por anos e que agora estava na sua frente. Concentrando toda a coragem em seu corpo, Stuart puxou o rosto dela e fez o que ela pediu. Deixou que seus lábios se encaixassem em um beijo terno e apaixonado.