Efeito Borboleta
42 Viajante do Futuro
“Durante a nossa vida:
Conhecemos pessoas que vêm e que ficam,
Outras que vêm e passam.
Existem aquelas que,
Vêm, ficam e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vêm e se vão com uma enorme vontade de ficar...”
(Charles Chaplin)
***
Raccoon City
2007
Barry Burton
Tecnicamente, quando chegou aqui ele ficou chocado ao se deparar com essa realidade diferente, onde conheceu uma versão ainda adolescente de Leon e reencontrou a sua esposa viva e saudável. No futuro, Sally morreu vítima de um câncer.
Entretanto, a coisa mais surpreendente de tudo, foi quando se deparou com uma versão idêntica de Si Mesmo. Foi naquele momento que percebeu que as teorias dos cientistas sobre a Viagem no Tempo se tornaram reais.
Burton caiu nesse mundo por acaso, veio acidentalmente pelo Buraco de Minhoca. Era junho de 2007 quando o seu caminho com o Seu Doppelganger do passado se cruzaram. O Burton de 2007 estava perseguindo um traficante de drogas quando acabou caindo numa emboscada. O Barry que veio do futuro tentou ajudá-lo, mas a sua duplicata acabou morrendo na sua frente, sem que pudesse salvá-lo.
Consequentemente, o Barry de 2050 não teve outra saída, senão assumir o lugar de sua duplicata. Só que o substituir a princípio, não foi uma decisão simples, afinal, esse era outro mundo, com uma nova realidade que, apesar de lhe apresentar as mesmas pessoas, mesmo elas também haviam mudado um pouco e isso era assustador. Isto é, sua esposa estaria ali diariamente na sua vida, assim como Leon, só que ambos estariam esperando encontrar o mesmo Burton. A questão era: Como ele poderia se tornar aquele Barry Burton? Sobretudo, pelo sentimento de culpa que carregava ao usurpar a vida de outro.
Todavia, com o passar do tempo, ele foi se habituando a sua nova vida. E, de repente cair nesse universo paralelo, tinha se tornado a melhor coisa que lhe aconteceu. Era como se pudesse ter uma segunda chance na vida. No fim, isso era tudo o que mais lhe importava.
Raccoon City
2021
— Você vai ter que coragem de ir embora mesmo? E enquanto ao Leon? — Wesker ficou preocupado com o futuro do seu filho quando Barry fosse embora. O capitão estava planejando se aposentar, pegar a esposa e sair da cidade para sempre.
— Ele vai ficar bem. E, talvez, essa seja a sua chance de se aproximar dele. — Barry diz enchendo mais uma vez seu copo com Bourbon. Os dois homens haviam se encontrado em um barzinho que, no momento, estava com pouco movimento.
— Você está louco?! — Wesker se sentia desconfortável com a situação. Ele havia optado por usar uma blusa de moletom, um boné e óculos escuros, tentando ser o mais casual possível e não chamar a atenção.
— Uma hora ou outra, ele vai ter que saber que... você é o pai dele. — Antes ele enxergava Wesker como um grande intruso que veio para atrapalhar a sua vida perfeita, mas depois de todas essas tragédias, de todos esses anos de segredos, o homem resolveu que precisava dar um fim a isso.
“Se Ada morrer, todos nós que pertencemos àquele futuro iremos desaparecer, como num estalar de dedos.” Foi aí que Barry percebeu que precisava fazer algo para impedir que isso se concretizasse.
Burton retornou para a delegacia e acabou sendo informado sobre a mais nova descoberta da sua equipe. Eles agora possuíam arquivos sobre um suposto envolvimento de Ada Wong com Albert Wesker. Isso poderia transformá-la em cúmplice de uma grande mentira que poderia levar a sua equipe a uma descoberta bizarra e assustadora, que ninguém nesse mundo estava pronto para enfrentar. O capitão temia que sua esposa e sua equipe descobrissem a verdade sobre ele. Que ele era um forasteiro nesse universo e, que todo esse tempo, tem vívido a vida de outra pessoa.
Então, qual seria a melhor saída para resolver isso? Ada Wong não podia ser pega agora. Agora que estava prestes a ir embora de Raccoon a fim de começar uma nova vida com a sua esposa. Para o bem de Leon e de todo mundo a sua volta, aquela cientista tinha que sair da cidade também. Portanto, o único jeito de resolver isso, era fazer aqueles arquivos desaparecer sem deixar qualquer rastro.
***/ /***
Na manhã seguinte quando Leon despertou com o barulho do seu celular, logo, recebeu a informação de que os arquivos que Claire os havia entregado haviam sumido. Consequentemente, ele se levanta irritado, se veste e antes de sair ainda tira um tempo parado na frente da porta do quarto de Ada, porém sua mente lhe traz memórias do dia anterior e traz aquele sentimento amargo de traição que o faz acabar recuando e sair sem se despedir.
Assim que Leon entra em seu corro e segue para a RPD, Burton chega em sua casa trazendo consigo dois agentes do FBI que irão escoltar Ada para a Califórnia. A cientista ficou em choque ao saber que já haviam providenciado tudo para a sua partida, como se tivessem pressa para se livrarem dela.
— Eu pensei que a Valentine iria comigo e... — Ela diz ainda perplexa. — O Leon... ele já sabe? — Seus castanhos procuram os olhos pretos de Alomar que também estava ali em silêncio, apenas cumprindo ordens.
— É, claro que ele sabe. Mas, ele tem problemas maiores para se preocupar agora. — Quem responde é o capitão em tom seco. — Você já não é mais problema dele. — Ada sentiu o seu sangue ferver com aquela resposta, entretanto, se segurou. — Alomar vai lhe ajudar com as malas. E é melhor vocês se apressarem.
R.P.D
Delegacia de Polícia de Raccoon City
Os STARS estavam desesperados atrás dos arquivos que haviam sumido. Por horas eles reviraram aquela delegacia e não conseguiram encontrar nada.
— Quem foi a última pessoa que esteve com esses arquivos?
— Bom, eu acho que foi o capitão. — Disse Marvin revirando algumas gavetas.
— E quando foi isso exatamente?
— Ontem, antes de eu ir embora. — Suas palavras deixaram Leon pensativo e desconfiado.
— Olha o que achei. — Nesse instante, Jill reaparece na sala segurando uma lixeira, dentro dela havia papéis transformados em cinzas e o pendrive que estava todo derretido.
— Alguém de dentro da RPD destruiu as provas?
— Onde você encontrou essa lixeira? — Leon questiona sem paciência.
— No corredor, próximo a sala do chefe Irons. — Jill lhe responde séria. — Você não acha que o Irons faria isso? Quer dizer, por que ele faria isso? — Não há resposta, porque o celular de Leon começou a tocar atrapalhando‐os.
Em seu celular havia várias chamadas perdidas de Ada. Ele deveria retornar à ligação, porém ainda se sentia rancoroso e, no momento, não desejava falar com aquela mentirosa. Entretanto, uma mensagem o faz parar e mudar sua decisão:
“Sei que você ainda deve estar magoado comigo. Não queria ir embora, assim, sem ao menos me despedir.
E saiba que eu não me arrependo por ter te conhecido.
Você é incrível.
Enfim, obrigada por tudo, Leon.”
Ele fica em choque com aquela mensagem, sente um aperto estranho em seu coração.
— Ei, Leon... aonde você vai? — O Detetive Kennedy resolve sair dali, ignorando os chamados de Jill.
Lá fora caía uma chuva fina e era possível vislumbrar aquele clarão no céu se formando entre as nuvens escuras de chuva.
— É o buraco de minhoca. — Ele sussurra sentindo a sensação estranha em seu peito. Aquilo não era um bom sinal. Assim que pensa sobre isso, Leon entra no carro e sai dirigindo, desenfreadamente, pelas ruas de Raccoon City.
O rádio do carro de repente liga sozinho e começa a fazer zunidos com a transmissão fora do ar. Ele tenta desligá-lo, até que num determinado instante, acaba recebendo uma chamada de socorro. A voz é de Alomar avisando que o carro que levava Ada Wong havia sofrido um acidente.
***/ /***
O acidente em si não tinha sido grave. Ada até havia conseguido sair do carro sem nenhum arranhão, ao contrário de um dos agentes do FBI que ficou preso ao cinto de segurança. Ela e o outro agente tentaram ajudá-lo e pedir ajuda. Entretanto, o Seu Perseguidor havia retornado mais furioso e implacável que nunca.
— Fuja! — Era tudo que um dos agentes lhe disse antes de ser atacado pelo Assassino. Sem saída, Wong é obrigada a fugir para dentro da floresta sem conhecer nada daquela região.
Barry e Alomar chegaram pouco tempo depois, quando já havia uma movimentação de outras pessoas por ali que já haviam chamado por ajuda. A pista precisou ser fechada enquanto esperavam pela ambulância e por reforços. O capitão era impaciente e decidiu que não poderia ficar ali parado, apenas esperando. Sendo assim, ele deixa Sheva para trás e decide embrenhar-se sozinho por dentro daquela floresta, determinado a encontrar Ada e, se necessário, enfrentar o Assassino.
— Sheva, o que está acontecendo? — Quando Leon chega já se depara com uma ambulância fazendo atendimento aos feridos e carros da Polícia Florestal também estavam por ali prestando ajuda.
— Sinto muito Leon... por não ter te avisado antes. — Sheva começa se desculpando. — Estávamos escoltando Ada até a Rodoviária, quando o Assassino reapareceu e fez o carro perder o controle e sair da pista.
— Eu preciso ir atrás deles. — Leon diz em tom ríspido.
— Então, use o rádio para me manter informada. — Sheva diz, lhe entregando o rádio comunicador que ele guarda em um dos bolsos do seu colete à prova de balas. Por fim, Leon recarrega a sua pistola e segue com cautela e determinação na direção da floresta.
Eventualmente, as horas vão passando e se tornando cada vez mais angustiantes, sobretudo, por causa da chuva que não dá trégua e para piorar estava começando a anoitecer. Contudo, subitamente, um barulho de tiro é ouvido no meio daquela imensidão de árvores gigantes, causando uma grande perturbação que ecoou por todo lugar.
Burton tinha se assustado com algum esquilo que havia surgido, fugazmente, em seu caminho. Sua visão estava um tanto comprometida, bem como sua mente nebulosa quando apertou o gatilho e acertou o bicho. Enquanto tenta recuperar o fôlego, o homem apoia suas costas em um tronco e fecha os olhos. Entretanto, não há real tempo para descansar, porque o barulho do tiro, claro, despertou a atenção de alguém que vem correndo desenfreadamente em sua direção. Ao ouvir os passos pesados, ele reabre os olhos já com a lanterna e a sua Magnum em punhos.
Em contrapartida, Ada se encontrava perdida em algum canto dali, com o vento frio e a chuva só aumentando as dificuldades em seu caminho, pois o chão estava lamacento e escorregadio por debaixo de suas botas nada confortáveis. Todavia, o medo era palpável e isso era suficiente para fazê-la continuar correndo, desesperadamente. Porém, subitamente, a cientista escuta um barulho de tiro que a assusta fazendo-a paralisar. Em seguida, é possível também ouvir vozes masculinas discutindo. Vozes que, logo, parecem familiares.
— Quem está aí? — O capitão, logo, fica cara a cara com o seu pupilo. Leon surgi no meio da escuridão, os dois se encaram, pela primeira vez, com olhares hostis e desconfiados.
— Leon, o que você faz aqui? — Embora, a situação fosse tensa, havia também um certo alívio por vê-lo ali.
— Vim atrás da Ada? O senhor a viu? — Só que esse alívio não dura muito.
— Por que você continua se arriscando por causa dessa mulher? Será que não vê que... essa coisa entre vocês dois, não tem futuro?
— Deixa que eu decida isso, capitão! Aliás, por que você a odeia tanto?
— Ela fez tudo isso, Leon! Por causa dela você perdeu a sua mãe. Por causa dela, essas pessoas morreram. E por causa DELA, o Assassino continua voltando. — O capitão enfatizou. — Você sabe o que isso significa?
— Sim, eu sei. — Leon está determinado.
— E mesmo assim você vai protegê-la? — Não houve chance de resposta, pois ambos se viram, abruptamente, na direção de Ada. Só que naquele instante, ela não era mais a única a ter surgido ali.
O assassino estava atrás dela. Só dá tempo de Ada se jogar no chão e tentar proteger os ouvidos com as mãos trêmulas, no intuito de não ouvir o barulho ensurdecedor e terrível dos tiros enquanto os dois homens abrem fogo contra o seu Algoz.
Por um minuto, aquele barulho dos tiros é como gatilhos para desbloquear velhas memórias de uma garotinha num corredor escuro, onde há um corpo ensanguentado de um homem caído na sua frente, enquanto um estranho vestido todo de preto segura uma arma apontada em sua direção. Contudo, inesperadamente, alguém aparece e se joga sobre o seu corpo.
Quando Ada retorna à realidade, o corpo de Leon está pesando sobre o corpo dela. Quando reabre os olhos se depara com um olhar preocupado dele. Só que não há tempo dele lhe perguntar se ela está bem.
— Fica longe deles! — Ao invés disso, aqueles azuis se desviam para Burton que havia se colocado na frente deles, ao mesmo tempo em que continua atirando na direção do maldito assassino.
— Capitão, nãoooo! — Leon se levanta e vai até o Burton que começa a cambalear e perder o equilíbrio. Logo, ele está caído no chão, agonizando. — Não, não, não... Aguenta firme, capitão! — Nesse instante, o Assassino já havia desaparecido novamente.
— É... tarde demais... — Burton tenta usar seu último resquício de força para acalmar o detetive Kennedy que, até tenta estancar o sangramento em seu peito. — Leon, só me escuta...
— Não, capitão. O senhor... não pode me... me deixar também. — Seus azuis estão lacrimejados e sua voz começa a embargar. Ada continua ali a poucos metros deles, encolhida no chão ainda assustada e sem conseguir reagir.
— Leon, você precisa saber que... que há uma outra ameaça além do assassino...
— O quê? Eu não consigo te entender, capitão. — Leon se interrompe, por um minuto, tentando pedir ajuda via rádio. Porém, as próximas palavras de Barry, acabam tirando Kennedy do seu objetivo.
— Há um viajante do tempo...
— Wesker?!
— Não. Spencer. Você sempre teve razão... ele é... perigoso. — Seus castanhos cansados encaram os azuis tristes e assustados de Leon.
— Capitão, por favor, só aguenta firme. Eu não vou te deixar. — Leon continua o segurando em seus braços.
— Eu sinto muito... por não ter cumprido a minha promessa.... — O capitão sente seus olhos se embaçarem, enquanto tenta terminar a sua despedida. — Eu deveria ter... pegado ele, mas falhei.
— Você é tão teimoso, capitão! Por que não usou o colete a prova de balas? Sabe o que a tia vai dizer? — Em meio as lágrimas, Kennedy tenta brincar e consegue fazê-lo sorrir.
— Eu sei que você vai cuidar bem dela para mim. — Agora ele iria revelar uma parte que havia mantido em segredo por 14 anos. — No futuro, eu a fiz sofrer tanto. Eu a decepcionei... e a perdi. Então, quando... quando viajei no tempo... achei que poderia concertar os meus erros. Eu tive uma segunda chance com Sally e... — Sua voz vacila. — E conheci uma outra versão de você, Leon. — Ele para e começa cuspir sangue, a dor parece estar se esvaindo pouco a pouco. — Leon, não deixe que... o passado te atrapalhe.
— Por que você tá me dizendo tudo isso agora, capitão? — Leon se sentia tão confuso e com medo.
— O Presente é o que é importante. As pessoas que estão ao seu lado agora, é que importam. Por isso viva o hoje. Acima de tudo, viva o hoje. E seja feliz como eu... eu fui ao lado da Sally e... ao seu lado... meu filho.
— Eu também fui muito feliz ao seu lado, capitão. — Burton dá um último sorriso antes de, enfim, desfalecer em seus braços.
— Capitão... capitão! — Leon chora tão melancolicamente pela perda de mais uma pessoa que amava.
Quando a polícia florestal chega, já é tarde demais para se fazer qualquer coisa. O capitão Barry Burton está morto e o Assassino, mais uma vez, desapareceu deixando em seu rastro outra vítima.
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