Efeito Borboleta

26 Um Momento Inesperado




“Corro perigo como toda pessoa que vive.

E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado.”

(Clarice Lispector)

***



R.P.D

Departamento de Polícia de Raccoon City

"Rebecca Chambers, 36 anos. Pesquisadora da Corporação Umbrella." Estava escrito na prancheta que estava nas mãos de Jill. Ela e Burton estavam no necrotério checando o cadáver de Rebecca.

— Causa da morte?

— Asfixia por cianeto de hidrogênio. — Explicava o Médico legista.

— E o suspeito?

— Não foi identificado. Ele não deixou nenhum fio de cabelo sequer.

— Ah capitão, mandamos para análise os pelos de gato encontrados no tapete da sala de Chambers e é compatível com o sangue do gato morto no apartamento da Professora Wong. — O médico afirmava.

— Então, era o mesmo gato? — Jill questionou, trocando um olhar tenso com Burton.

— Sim, senhora. — Em seguida eles descobriram que o Assassino esteve primeiro na casa de Rebecca para depois invadir o apartamento de Ada. Chambers morava a poucos quarteirões do Jack’s Bar, o que significava que seria fácil para ele ir e vir entre os dois endereços.

— E sobre a suposta morte do Assassino... temos alguma confirmação?

— Fomos averiguar e não encontramos nem um vestígio de sangue, ou pedaço de carne, ou um corpo morto para comprovar a sua morte. — Argumentou a agente do FBI. — Ou seja...

— O Suspeito não morreu. E ainda está solto por aí, certamente, esperando para fazer outra vítima. — Sentenciou Burton ainda folheando os papéis com todos os dados que sua equipe havia coletado. As dúvidas e os mistérios que pairavam sobre esse caso deixava tudo muito sombrio.

— Isso significa que precisamos reforçar a segurança desses cientistas. E também ficar de olho neles. — Concluiu Jill pensando, sobretudo, em Spencer e Ada.




Corporação Umbrella

Para Ada estava sendo difícil conseguir se habituar a ter a polícia escoltando ela para todos os lados, isso era frustrante, desconfortável e assustador, ao mesmo tempo em que era a única forma de fazê-la se sentir segura.

"Se ao menos a polícia tivesse conseguido pegar aquele Assassino." Ela reflete enquanto segue para a sala de Spencer.

— Quanto tempo você acha que vai levar até que Kennedy e os STARS nos transformem em suspeitos? — Spencer cospe as palavras rudemente, assim que ela entra em sua sala.

— Espera! O que o senhor está insinuando?

— Que graças a sua língua solta, agora não somos mais só alvos do assassino. — Spencer que estava de pé próximo a janela olhando a movimentação da cidade, resolve se virar para encara-la. — Agora também viramos alvos da polícia. Você acabou nos transformando em Suspeitos.

— Mas, eu não disse nada a eles... — Wong se vê forçada a se justificar, frustrada com toda aquela situação.

— Burton, veio me procurar. Eles também foram atrás da Annette e agora estão tentando decifrar o código que o Assassino deixou no seu apartamento.

— Então você também reconheceu aquele código?

— Óbvio, fomos nós que criamos ele.

— Isso significa que o Assassino misterioso...

— Sim. O assassino sabia detalhes do nosso projeto. A pergunta é saber como ele sabia? — A pergunta de Spencer paira no ar de forma obscura e inquietante. — Ou um de nós deixou a informação vazar, ou...

— Eu sei que não revelei nada a ninguém, nem quando fui embora. — Ela o interrompe desesperada. — E caso tenha esquecido, quando eu saí do projeto eu assinei um contrato de confidencialidade. Até agora estou honrando isso. — Até porque se quebrasse o contrato, isso iria atrapalhar os seus futuros projetos e iria prejudicar a sua carreira de cientista e escritora. Embora agora com as mortes de seus amigos, Ada estava cogitando revelar tudo para a polícia.

— O fato é que estávamos tão perto de concluir o nosso projeto mais audacioso. Passei boa parte da minha vida trabalhando nisso. Um sonho que idealizei junto com um amigo que acabou morrendo cedo demais.

— Pensei que isso tinha se iniciado com a professora Kennedy?

— Ela veio algum tempo depois. E, no fim, também me abandonou... Assim como você. — Seu rosto marcado pelo tempo, parecia ainda mais envelhecido, ele retira seus óculos deixando explícito seus olhos melancólicos. — Ao longo da minha vida as pessoas me abandonaram, ou foram levadas pela morte. Isso me faz pensar que estou destinado a seguir sozinho. — Entretanto, aquele olhar dele logo ficou estranho, deixando Ada com um pouco de medo. — E agora vem esse assassino e nos sabota. Mas, por quê? O que você acha que ele quer?

— Não faço a mínima ideia. De qualquer forma, eu preciso voltar para a Universidade. — Ela se vira para sair, porém as próximas palavras de Spencer a paralisam por um segundo.

— Tenha cuidado com a Annette. Ela acredita que desde que você retornou, coisas estranhas começaram a acontecer em Raccoon City. E ela pode ter dito isso para a polícia.

— Que porcaria! — Ada esbraveja, depois respira fundo e tenta ser objetiva. — Não se preocupe, eu vou tomar cuidado. Obrigado pelo aviso, Diretor! — Ela o agradece antes de abrir a porta e acabar, inesperadamente, dando de cara com um Leon muito carrancudo e desconfiado.


***/ /***


— Então, Spencer estava passando mal? — Leon diz assim que saem da sala de Spencer e entram no elevador.

— Sim. Eu só estava lhe fazendo um pouco de companhia. — Ela continuava a se explicar enquanto o elevador começa a descer. — Ele perdeu três amigos num curto espaço de tempo. — De certa forma, a conversa meio sinistra que teve com o Spencer iria lhe ser muito útil agora. — Além disso, Becca era como uma filha para ele. — Ada parou ao sentir a voz ficar embargada.

— Sinto muito! — Leon acabou sendo forçado a ceder quando aqueles castanhos ficaram lacrimejados. A perda cruel da amiga ainda estava doendo.

— Afinal, o que você veio fazer aqui agora? — Ela decidiu que iria parar de expor suas emoções e assumiu uma postura mais apática.

— Queria saber se... você estava bem. E, talvez, conversar um pouco. — Seus olhos a confundiram tanto e a enervam também.

— Essa não é uma boa hora para conversarmos. — As portas do elevador se abrem e, logo, já estão de volta no salão, onde acabam se cruzando com Annette Birkin.

— Então, você estava com Spencer? — O tom da voz de Annette parecia cheia de insinuações. — Como ele está?

— Ele vai ficar bem. — Ada responde se sentindo meio tensa na presença de Annette.

— Vamos ver até quando. — A viúva de William Birkin afirma, maldosamente. — Afinal, enquanto Ada Wong estiver nessa cidade... é impossível ficarmos seguro.

— O quê? Mas do que você está falando? — Ada trocou um olhar tenso com Leon. — Você está louca!

— Você sabe muito bem que nunca deveria ter voltado para esta cidade. — Annette cospe de volta. — Já parou para pensar que eles morreram por sua causa? — E as palavras dela se tornaram cruéis. — Aliás, por que você voltou, Ada? Por quê?

— Cala a sua boca! — Ada quase voa no pescoço de Annette, se não fosse por Leon que precisou intervir e puxa-la para longe da mulher e para fora da Umbrella.

Talvez, ter retornado para essa cidade tivesse mesmo sido um grande erro. E, talvez, foi o seu retorno que outra vez desencadeou tudo isso. A questão era que agora era impossível conseguir sair. Ada está presa em Raccoon City, sendo pressionada de todos os lados e não sabe como fugir disso.

— Ada, você precisa se acalmar. — Era a primeira vez que Leon a chamava pelo primeiro nome.

— Para de fingir que se importa! Você só veio aqui para me espionar! — Ela continua andando na sua frente e esbravejando.

— Eu realmente me importo com você até mais do que deveria. — As palavras sinceras de Leon chamaram a sua atenção. — E eu pensei que... você já confiava em mim. — Ele para na sua frente e lhe dá aquele seu famoso olhar impetuoso.

— Confiança é uma coisa que só funciona se for recíproco... — Ela devolve o olhar, demonstrando que a confiança poderia ser algo bastante difícil de ser conquistado, depois decide desviar os olhos para o céu, percebendo às nuvens de chuva se aproximando, rapidamente. O modo como às nuvens se moveram lhe pareceu estranho, assim, como aquele relâmpago e as luzes.

— Bom, eu ainda preciso retornar para a Universidade. — Ela afirma nervosa ao ouvir o barulho estrondoso de um trovão anunciando o que viria depois.

— Eu te acompanho. — Ele percebe como o prenúncio de uma tempestade parecia assustá-la.

— Eu já tenho uma escolta. Então...

— A sua escolta no momento está patrulhando por aí. Além disso, você está mais segura comigo. — O pior era que Ada se sentia mais segura e confortável com ele, mas nunca iria admitir isso em voz alta.

— Droga! Nesse lugar nunca para de chover! — Ela resmunga, ao sentir as primeiras gostas de chuva começar a cair sobre eles. — Vou estragar os meus sapatos.

— Caramba, você reclama demais. — Seus azuis olham de relance para os sapatos que ela está usando. E ele tem uma ideia.

— Espera! O que você está fazendo? — Ignorando os protestos dela, Leon resolve ergue-la em seus braços e sair correndo no meio da chuva que começa a ficar mais forte. Ele só queria aliviar aquele clima estranho entre eles e, talvez distrai-la um pouco. Sem saída, Ada enrosca suas mãos no pescoço dele e esconde o rosto em seu ombro e sem querer acaba inalando o cheiro dele, enquanto fazem o curto percurso até chegar na Universidade que por sorte ficava quase em frente da Corporação Umbrella.


Entretanto, aquela pequena cena entre eles, a faz ter o que parecia ser mais um Déjà Vu passando, fugazmente, por sua mente. Só que nesse Déjà Vu eles pareciam como um casal de namorados brincando no meio da chuva, trocando beijos e Leon até estava sorrindo. Até que, repentinamente, Ada pisca e sai daquele transe, assim que se refugiam dentro da Universidade.

"Meu Deus, o que foi aquilo?" Sua mente ainda está tentando entender o que foi aquelas visões estranhas que teve. E porque havia essa sensação tão forte de já ter vivido aquilo antes.

— E, então, não vai nem me agradecer pelo seu sapato permanecer intacto. — Leon diz, presunçosamente, enquanto a acompanha pelos corredores, esbarrando em pelo menos dois policiais que estavam infiltrados ali como funcionários. — Eu acho que até já perdi as contas de quantas vezes já te salvei.

— Ah, não sabia que você estava contando. — Ela rebate irritada e meio desconcertada ao perceber que o cheiro do perfume dele se impregnou em sua roupa que agora estava um pouco úmida e que o seu corpo agora sentia frio com a perda do calor do corpo dele. — Bom, já estou segura. Você já pode ir agora. — Ada para na porta de sua sala e se vira para se despedir de Leon que parece distraído olhando de um jeito suspeito para ambos os lados do corredor. — Qual é o problema?

— Nada. Só estava checando se é seguro. Afinal, hoje a Universidade parece mais vazia.

— É por causa do campeonato estadual de basquete entre Universidades que está acontecendo na cidade. Então, estão todos no Ginásio de Esportes. — Os dois por um minuto se encaram em silêncio: Os castanhos mel parecem tão atormentados e os azuis parecem ansiar por alguma coisa difícil de decifrar.

— Se precisar, não hesite em me ligar... — Ele esconde as mãos no bolso de sua calça, tentando esconder a sua ansiedade e hesitação.

— Pode deixar senhor Kennedy... Eu não vou hesitar. — Ada força um sorriso para Leon, tentando convencê-lo que estava tudo bem, mesmo que no fundo estivesse apavorada pela ideia de ficar sozinha. No fim, ele retorna pelo corredor ainda parecendo cauteloso, troca um olhar de aviso com os outros policiais responsáveis por vigia-la, antes de ser forçado a sair, novamente, no meio da chuva.


{Continua...}