Efeito Borboleta
37 Transcendendo o Tempo e o Espaço

“O amor é a única coisa que somos capazes de perceber que transcende as dimensões do tempo e do espaço.”
(Interestelar)
***
Alice Wong Wesker
(2045-2050)
Enquanto Ada corria desesperadamente pela sua vida, por ironia do destino a sua fuga acaba a levando até o cemitério de Raccoon City onde acaba se deparando com o túmulo da filha da Ada de 2050. E mesmo que ela nunca tenha se tornado uma mãe em seu próprio mundo, aquelas memórias e aquele sentimento de Déjà Vu estavam lá de novo para atormentá-la.
E tudo se torna ainda mais cruel e doloroso quando se depara com um outro túmulo ali:
Leon Scott Kennedy
(2020-2050)
Seu coração doeu e, logo, seus olhos se encheram lágrimas. Ela se viu sucumbir ali mesmo caindo ajoelhada na frente do túmulo dele e chorando. Estava exausta, assustada e tão sozinha. E nunca na sua vida se sentiu tão sozinha e sem esperança como naquele momento.
— Você ainda pode salvá-lo e impedir que esse futuro se concretize. — De repente ela ouviu aquela voz gélida. — Você só tem que parar de fugir. — Afirma o Assassino com a sua voz apática e fria. Aquilo com certeza foi o ápice da crueldade.
— Se vai me matar... então... faça isso logo. — Há uma chuva fria caindo sobre si, molhando suas roupas e deixando-a congelar cada vez mais. De um jeito, ou de outro Ada sente que irá morrer, seja congelando pelo frio, ou pelas mãos de seu Algoz. — Que seja rápido! — Ela fecha seus olhos e faz quase uma prece para que a sua morte seja breve e indolor.
Raccoon City
2021
O rastreador acaba levando o detetive até o cemitério de Raccoon City, onde mais uma vez o seu caminho e o do Assassino acabam se cruzando. Nesse instante, Kennedy percebe a presença de uma terceira pessoa ali. Ela está ajoelhada no chão diante do seu Algoz que, traiçoeiramente, aperta o gatilho. Sem pestanejar, Leon corre e se joga sobre o corpo de Ada a protegendo. No meio dessa confusão, há um segundo disparo que, surpreendentemente, nunca chega a atingir o seu alvo. Ao invés disso, algo inexplicável acontece...
Como num passe de mágica, O TEMPO resolve parar... Até mesmo as minúsculas gotas de chuva se congelam ao seu redor. O Assassino também permanece ali como se tivesse sido petrificado, segurando a sua arma em punho enquanto aquela segunda bala, simplesmente, para no ar a poucos centímetros do rosto de Leon. Seus azuis piscam tentando saber se aquilo é real, até que resolve se mover e segurar aquele projétil entre seus dedos trêmulos.
— Leon é você?! — No minuto seguinte, seus azuis se cruzam com os castanhos mel de Ada.
— Ada! — De alguma forma inexplicável, eles conseguiram transcender as dimensões do Tempo e do Espaço que os separava.
— Obrigada, obrigada... Obrigada, por não me deixar! — Ada está chorando enquanto o abraça apertado com medo de perdê-lo. — Muito obrigada, Leon! — O corpo dele parece tão quente e acolhedor e tem o cheiro de casa. Agora ela estava em casa.
— Está tudo bem agora. Eu estou aqui. — O Detetive também está a abraçando apertado. Por um minuto, eles ficam no meio da chuva ainda presos naquele abraço, até que Leon se lembrou do Assassino. Entretanto, ele já havia desaparecido.
Hospital Geral de Raccoon City
Eles haviam passado por algumas horas cansativas no hospital. Por sorte a bala pegou de raspão no ombro de Leon, ainda assim precisou de pontos e de curativos. Ada também teve que passar por uma série de exames para averiguar o seu estado. Ela teve alguns arranhões e um corte na testa, porém o pior era os traumas que ficaram.
Por causa do seu estado traumático, Ada havia conseguido se livrar dos questionamentos da agente Valentine e da polícia. Contudo, não conseguiu se livrar da bronca que recebeu da sua mãe. Ela conseguiu conversar com os pais pelo telefone e teve que arranjar uma desculpa para justificar a sua ausência.
Ada ainda estava em choque ao descobrir que havia ficado desaparecida por duas semanas e, durante esse período, sua irmã tentou lhe dar cobertura.
— Olha, tudo o que a Fong disse é verdade. Eu estava sem tempo, tive muito trabalho por esses dias. — Ada troca um olhar cúmplice com a sua irmã enquanto continua conversando com a mãe. — Mãe, não precisa se preocupar... Eu prometo que logo... vou embora dessa cidade... É. Estou falando sério. — Fong agora lhe dá um olhar incrédulo que ela resolve ignorar. — Eu também amo vocês. Tchau!
— Então, você pensa em ir embora de Raccoon City? — Contudo, o momento é interrompido pela presença inesperada do capitão Burton. — Essa é com certeza uma sábia decisão. — Seu olhar é duro enquanto encara a mulher de descendência oriental, fazendo-a se sentir nervosa com a sua presença.
— Capitão, Burton. — Contudo, o capitão acaba se distraindo por um segundo ao se aproximar da cama e pegar um papel que estava caído no chão.
— Mas, o que é isso? — Seu rosto antes passivo, logo se torna carrancudo, assim que desdobra o papel e reconhece a letra e aquela assinatura.
— Ah, isso é meu! — Ada tenta dizer enquanto se aproxima para pegar de volta aquela carta.
— Como é que isso veio parar aqui? — Sua voz demonstra desespero enquanto desvia o olhar para Ada que está apreensiva.
— Eu já disse, isso é meu! — Esbraveja indignada quando Barry recua em lhe devolver a carta.
— Não. Isso não podia estar aqui! — Barry hesita tentando entender o que estava acontecendo ali. — A menos que... Quem é você? E como conseguiu esta carta? — Assim que uma de suas mãos ríspidas a toca, Ada tem um novo Déjà Vu:
“Eu encontrei esta carta ao lado do corpo dele. É uma carta de despedida que ele deixou para você.”
“Jogue isso fora! Eu não quero ler. Ou, então... entregue a Monica e me deixe em paz.”
“Mas, senhora Wesker...”
“Não me procure mais, Burton!” E, então, com lágrimas de ódio, ela bate a porta na cara dele.
É por causa desse Déjà Vu que Ada descobre que, naquele futuro alternativo, a primeira pessoa a encontrar o corpo morto de Leon... foi o próprio capitão Burton.
— Capitão, o que o senhor faz aqui? — Assim que a voz confusa de Leon rompe pelo quarto de hospital, ela sai daquele Déjà vu se sentindo tão atônita, com a consciência pesada e o coração apertado enquanto encara assustada o homem parado na porta.
— Leon, você não deveria estar repousando?! — Burton troca um olhar apreensivo com Ada, antes de amassar a carta e escondê-la no bolso de sua jaqueta. — Bem, eu só estava checando como ela estava. — As duas irmãs trocam olhares desconfortáveis, mas não ousam desmentir o capitão. — E como a segurança dela foi corrompida, a melhor saída seria retirá-la da cidade o quanto antes.
— O quê? — Seus olhos azuis abatidos encaram, demoradamente, Ada que engole em seco. — Eu não acho que tirá-la daqui... seja a coisa certa a se fazer.
— Sinto muito detetive Kennedy, mas nós dois sabemos que Aqui... não é seguro. Não é seguro para nenhum de nós. — Tudo o que mais queria naquele momento era ir para bem longe daquele lugar, ao mesmo tempo em que não queria deixar Leon para trás. — E você... você também deveria ir embora, Leon... Antes que seja tarde demais. — Agora Ada realmente parecia obcecada por aquela ideia.
— Mas, porque você está falando isso? — Seu braço havia sido enfaixado e, mesmo estando sob efeito de medicamentos, isso não o impediu de sentir dor em seu corpo cansado.
— Isso é uma grande estupidez! — Ada exclama irritada. — Olha só pra você... Por que continuar se machucando e arriscando a sua vida desse jeito?
— Porque esse é o meu trabalho. E eu também tenho uma missão para cumprir. — Os dois continuaram se encarando. A tensão era pesada demais e muito desconfortável.
— Gente, realmente aqui não é lugar para vocês discutirem sobre isso. — Fong dessa vez interveio, ao mesmo tempo em que Sally surge de supetão na porta do quarto.
— Ah, achei você! Como você me sai do quarto sem avisar ninguém?! — Sally exclama bastante preocupada.
— Eu estou bem, tia. Já podemos ir embora? — Ele se sentia ansioso para sair logo do hospital e retornar para o seu refúgio particular, onde poderia ficar a sós com Ada.
Em contrapartida, Burton se sentia frustrado por ver que Leon estava se envolvendo cada vez mais com aquela mulher. Ele também se sentia muito desconfiado das atitudes estranhas da cientista. Contudo, isso não seria a única coisa que iria atormentá-lo essa noite. Havia aquela carta, a carta que o Leon de 2050 havia escrito antes de cometer suicídio. Agora ele precisava descobrir, como aquela carta veio parar ali nas mãos de Ada Wong.
Residência Kennedy
Ada acabou sendo meio que forçada a retornar para a casa (que agora sabia que pertencia a família Kennedy). Depois de viajar para o futuro, sentia que a sua relação com Leon poderia ficar estranha e tensa. Após um banho demorado ela resolveu que o melhor era se trancar em seu quarto e tentar evitá-lo o máximo que conseguisse.
Ela se senta na frente da penteadeira e se olha no espelho, há um corte sobre uma das sobrancelhas que precisou de ponto e alguns arranhões em seu braço e pescoço, resultado do acidente de carro que sofrera naquele universo paralelo. Seu corpo ainda estava um pouco dolorido também, porém nada disso era o que verdadeiramente a incomodava.
“Se a polícia te liberar para ir embora da cidade... Você vai ter coragem de abandonar tudo? Até mesmo o detetive gato, de sobrenome Kennedy?” Logo, Ada se pega refletindo sobre a última conversa que teve com a sua irmã.
“Sabe, todos esses dias eu ia até a RPD atrás de notícias suas e eu pude ver como o detetive Kennedy estava empenhado em te encontrar. Seus amigos diziam que ele não estava nem comendo direito e nem dormindo.” Fong se sentiu na obrigação de lhe revelar tudo que estava acontecendo durante o seu desaparecimento. “Ele me prometeu que iria continuar te procurando, até conseguir te trazer de volta para casa. E ele conseguiu cumprir essa promessa. Eu acho que isso mostra o quanto ele se importa com você.”
Ada sacode a cabeça, tentando se livrar daqueles pensamentos e vai se deitar. A noite estava fria e muito cansativa, portanto, tudo o que ela mais precisava naquele momento era de uma boa noite de sono.
***/ /***
“Há um assassino entre nós.” A voz de Annie Kennedy retorna para lhe atormentar, ao mesmo tempo em que surge em seu caminho, o Assassino para lhe confrontar.
“E a culpa é toda sua!” Ele está bem ali apontando o dedo em sua direção, a acusando. "A culpa é toda sua!"
“Não, não, não! Eu não queria nada disso. — Naquele momento, Ada sentiu um arrepio horripilante ao vislumbrar as suas mãos sujas de sangue. “Mas o que... o que significa isso?” Dessa vez, quando ergue os olhos para confrontar o Assassino, inesperadamente, acaba sendo forçada a encarar o seu próprio reflexo. O reflexo de uma versão maligna de si mesma.
“Por sua causa, todos eles estão mortos.” Com a voz cruel de sua versão má, Ada acorda assustada, com o coração batendo freneticamente e com o seu corpo suando frio.
— Não é real, não é real! — Ela fica murmurando, repetidamente, enquanto se senta na cama ainda sentindo o coração martelando no peito. Ela dá uma rápida olhada em seu celular, são 7 da manhã e uma réstia de sol já está entrando pela janela.
Ela se levanta, veste o seu roupão e depois resolve sair. Assim que abre a porta de seu quarto, já dá de cara com a porta do quarto de Leon aberta. Nesta hora ouve um barulho vindo do banheiro, seguida por um grito raivoso.
— Leon, você está bem? — A porta se abre revelando o detetive Kennedy com os cabelos todo ensaboado, peito nu e molhado e enrolado com uma toalha na cintura. A situação era meio cômica e meio sexy.
— O que você está tentando fazer? — Ela cruza os braços na frente do peito e lhe dá uma encarada, com os seus pequenos castanhos mel traiçoeiros se demorando no corpo pálido e bem definido dele.
— Eu só estava tentando, sei lá... me lavar. Eu ia tentar começar pelo cabelo. — Ele se sente um pouco envergonhado e estressado com a sua limitação.
— Tá, deixa eu te ajudar. — Ela se aproxima dele.
— Não, obrigado! Eu consigo fazer isso. — Ele esbraveja fazendo uma careta que parecia de dor.
— Você tem que parar de achar que pode resolver tudo sozinho. Todo mundo precisa de ajuda em algum momento. — Ada lhe responde impaciente. — Além disso, você se feriu por minha causa. Então, é meu dever ajudá-lo? — Até que ela se cala por um segundo, com um sorriso malicioso enfeitando seus lábios e fazendo Leon ruborizar. — Eu prometo que não vou se aproveitar de você.
Aquela mulher havia acabado de retornar, sabe se lá de onde. E agora que a tinha de volta ao seu lado sã e salva, não fazia sentido gastar o seu tempo e energia, brigando. É por isso que acabou cedendo e deixando-a ajuda-lo com o banho.
Logo, Ada está ajoelhada ao lado da banheira, lavando os seus cabelos, delicadamente. Suas mãos parecem tão macias e reconfortantes que o faz fechar os seus olhos e quase gemer em resposta.
— Isso não é relaxante?! — Ela indaga massageando o coro cabeludo dele sem a menor pressa. Seus olhos azuis se reabrem e, de repente, ficam a observando em silêncio.
Aquela linda mulher está ali tão perto de novo, invadindo o seu espaço, o atordoando e mexendo com o seu coração. E, naquele instante, o detetive resolve ser impulsivo e puxa-la para dentro da banheira, não dando tempo para Ada reclamar. Leon lhe cala com um beijo desesperado, assim, acabando de vez com aquela tortura. Ele a beija cheio de saudade e desejo.
Ada tinha passado por tantas coisas nos últimos dias. Ela viajou para o futuro onde conheceu uma realidade sombria e angustiante. Uma realidade onde Leon estava morto. Então, percebeu que deveria aproveitar cada pequeno momento que pudesse ao lado dele. Portanto, a professora retribui o beijo com o mesmo fervor, enquanto se agarra ao corpo dele. E eles pareciam se encaixar tão perfeitamente.
Todavia, o momento precisou ser interrompido porque o ombro de Leon ainda doía, causando uma enorme frustração em ambos.
— Me desculpa, Leon. — Ada sorri sem graça, em seguida, se afasta dele. Nesse momento, eles escutem uma voz feminina no andar de baixo deixando ambos apreensivos.
— É a Claire. — Ele tenta sair da banheira, mas quase se desequilibra se não fosse por Ada segurá-lo com muita dificuldade.
— Cuidado, Leon! Você não pode sair assim. — Ela enrola uma toalha na cintura dele sobre a cueca molhada. — Sabe, cedo ou tarde, você terá que fazer uma escolha difícil. Não dá para ter nós duas ao mesmo tempo. — Ada decide provocá-lo lhe dando mais um breve beijo nos seus lábios, antes de sair do banheiro.
— É sempre assim. — Leon murmura frustrado.
{Continua...}
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