Efeito Borboleta

38 Consequências





“Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um SIM, ou um NÃO pode mudar toda a nossa existência.”

(Paulo Coelho)

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Raccoon City

2021

— Spencer, o que foi que você fez?! — Wesker chegou e encontrou aquele cenário todo revirado e o corpo do diretor da Umbrella caído no chão sobre uma poça de sangue, enquanto o outro Spencer permanecia ali com uma expressão sádica no rosto.

— Agora já foi... Não tem como voltar atrás.

Uma hora depois os dois homens tinham se embrenhado pela floresta Arklay até chegarem na beira de um dos rios mais importantes da cidade. Há uma intensidade de água caindo de uma cachoeira ali perto, o lugar perfeito que Spencer decidiu usar para desovar o corpo morto da sua própria duplicata.

— Você matou uma pessoa. E não é qualquer pessoa, mas a sua própria duplicata.

— Foi legítima defesa.

— Não importa! Isso ocorreu porque você o manteve em cativeiro todo esse tempo. — Wesker estava furioso por se tornar cúmplice de um homicídio. — Eu disse pra você deixá-lo livre.

— Ele está morto, mas eu estou vivo e não tem como mudar isso.

— Se a polícia descobrir? — Wesker estava realmente frustrado e irritado com toda aquela situação.

— Não vai descobrir porque o capitão Burton vai cuidar disso.





Hospital Geral de Raccoon City


Depois de ser supostamente resgatado, Spencer foi levado para fazer um check-up no hospital a fim de averiguarem o seu estado de saúde. Claro que ele bancou a vítima frágil e traumatizada, com uma atuação perfeita que deixou Barry atônito.

Depois de dar o seu primeiro depoimento para polícia, logo, Spencer é deixado sozinho para ser confrontado por Barry.

— Você acabou de usurpar a vida de outra pessoa e nem sente um pingo de remorso sobre isso? — Barry murmura, cautelosamente, lhe encarando chocado.

— Sim. Exatamente como VOCÊ usurpou a vida de outro Barry Burton. E é por isso que você está me ajudando. Porque eu sei sobre esse seu segredinho sujo.

— Mas, eu não o matei! — O coração de Barry estava batendo no peito com a menção disso. — Eu ainda tentei salvá-lo... mas cheguei tarde demais.

— Não importa. Porque no fim aquele bandido lhe fez um favor. Graças a isso você pôde ficar nesse mundo e aproveitar para ficar com a sua esposa. — Spencer tinha razão, o capitão mesmo à contragosto, acabou fazendo o que o chefe da Umbrella queria. E mais uma vez, ele quebrou as leis para beneficiar aquele homem.

— Essa é a última vez que vou ajudá-lo. Entendeu, Spencer? Depois disso, não me procure mais.

Depois daquela conversa tensa com Spencer, Barry resolveu ir embora. Enquanto dirigia seu carro, sua mente estava muito atormentada com os últimos acontecimentos.

“Que tipo de policial ele estava se tornando ao acobertar outro crime?”

De repente leva um baita susto quando o seu celular toca, o obrigando a parar o carro. Dessa vez, é Wesker querendo saber se o plano de Spencer tinha dado certo. No meio da conversa o capitão dos STARS resolve também lhe dar um aviso importante:

— Você precisa ter cuidado! Os STARS estão de olho em você, por isso é melhor você desaparecer.

— Não vou mais fugir. Dessa vez, eu vou ficar e ajudar o Leon a pegar aquele psicopata.

— Ah, agora você vai querer bancar o paizão do ano? Não acha que é tarde demais?

— Nunca é tarde demais para se fazer a coisa certa. — Wesker desliga o celular e o guarda no bolso interno de sua jaqueta, depois retorna a olhar para aquela lápide, passando os dedos sobre letreiro com o nome dela: “Annie Kennedy.”


— Eu prometo que vou proteger o nosso filho. Nem que seja a última coisa que eu faça.




Residência Kennedy


Ada decidiu se distrair lavando a louça, contudo, sua mente continuava pesada, cheia de dúvidas, confusão e medo. Por um minuto, se pega pensando sobre mais cedo, quando parou cautelosamente na porta do quarto de Leon e deu uma rápida espiada nele e em Claire. Ele parecia mais relaxado ao redor da jornalista que estava ajudando-o com a troca de curativos enquanto eles conversavam, amigavelmente. A cientista não pôde evitar a pontada de ciúme crescente em seu peito ao vê-lo com a ruiva.

Bom, ao menos isso provava que o detetive ficará bem quando ela fosse embora de Raccoon City. Kennedy tinha seus amigos da RPD, a Claire e o capitão Burton ao seu lado por tanto tempo, por isso não fazia sentido ele se importar tanto com uma mulher que havia surgido só agora em sua vida. Uma mulher que surgiu apenas para bagunçar a vida dele.

Ela se vira para pegar o pano de prato e secar as mãos, depois vai até o armário e resolve pegar uma taça e uma garrafa de vinho tinto (que agora sabia que pertencia a Annie Kennedy).

— Um brinde a nossa desgraça! — Ela diz ironicamente, antes de tomar um grande gole do vinho tinto.

— O que você tanto faz aqui em baixo, sozinha? — Ela dá um pulo assustada quando Leon aparece de supetão.

— Droga! — Ela o encara irritada enquanto seu coração continua martelando em seu peito, incessantemente. — Qual é o seu problema?

— Qual é o SEU problema? — Ele rebate a um passo de distância dela. — Você sabe que a gente precisa conversar, mas você fica me evitando. — De repente aquelas íris de cor âmbar olham para os pés, incapaz de encará-lo. — Acho que está na hora da gente conversar sobre o seu desaparecimento. Você sabe que pode confiar em mim.

A Verdade era que depois que Ada retornou da sua viagem do tempo e depois do que rolou entre eles no banheiro, Ada fez o possível para evitá-lo. E isso só deu certo porque sempre tinha, ou a polícia por perto, ou a Claire para incomodá-los.

— Eu... nem sei direito o que... o que aconteceu. É muito confuso. — Ela passa a língua nervosamente sobre o lábio inferior, mas ainda evita de olhá-lo nos olhos. Por algum motivo, agora que retornou para esse mundo, sente que uma barreira havia se erguido entre eles.

— Você viajou no tempo, não é? Como eu disse, você pode confiar em mim. Não tem porque manter segredos. — Ele estava se sentindo tão agitado e ansioso. —Então, me fala o que você viu lá?

— Eu diria que não foi divertido. Foi mais como um pesadelo. — Ela quase murmura para si. — E ainda penso que tudo aquilo não foi real.

— Mas, com certeza foi real. Tão real que você ainda está com medo. Parece que está com muito medo. — Ele dá um passo mais perto dela e, com a mão esquerda ergue o seu queixo a forçando a ter que encará-lo. — O que aconteceu lá? E como foi que você foi parar no cemitério?

— Eu estava fugindo do assassino, não tinha para onde ir e acabei por acaso lá. — Seus olhos se tornam vítreos quando se lembra daqueles túmulos (os Túmulos de Alice e Leon). E, por um segundo, é como se sua alma tivesse sido sugada. — Ada, Ada! — Mas, a voz do detetive a trás de volta e a faz lembrar que ele estava bem ali na sua frente, são e salvo.

— Leon! — Ela não consegue continuar, seus olhos se enchem de lágrimas, ainda assim seus pés decidem se mover e, no minuto seguinte, ela já está o abraçando apertado enquanto chora angustiada, com a cabeça encostada em seu peito e ouvindo o coração dele bater forte.

— Ada, tá tudo bem! Tá tudo bem agora! — Ele tenta acalmá-la na medida do possível.

“Lembre-se que você é a minha duplicata e, portanto, as minhas escolhas erradas, consequentemente, tornam-se as suas escolhas também. Não importa em que mundo você esteja... Como eu disse... tudo se repete.” A voz cruel da Ada de 2050 ecoa em sua mente, junto com outras lembranças assustadoras do seu futuro.

— Não. Não vai ficar tudo bem. — Ela meio que o empurra e se afasta. — Ela me disse que tudo o que aconteceu lá naquele mundo, vai acontecer aqui também. Tudo vai se repetir. Todas aquelas tragédias vão se repetir. Mas... mas eu não posso deixar que isso aconteça. — Ada estava tagarelando, enlouquecidamente. Leon fica em silêncio, por um instante, refletindo se ela estava mesmo falando sério. — É por isso que precisamos ir embora daqui, Leon!

— Não. Nós não podemos sair daqui. — Ele lhe responde seriamente. — Além disso, aqui é a minha casa, o lugar onde nasci e vivi com a minha mãe e meus amigos... Eu não posso abandonar tudo.

— Mas, Leon... — Ela decide se aproximar dele, com passos hesitantes e medidos até parar bem em sua frente, com aqueles pequenos olhos suplicantes. — Será que não entende que... que eu não posso te perder...

Os dois se encaram em silêncio, demoradamente, azuis contra castanhos mel, no minuto seguinte, ela se encontra na ponta dos pés com as suas mãos enroscadas na camiseta dele enquanto beija-lhe os lábios de um jeito que o faz perder todo o seu raciocínio e faz seu coração acelerar muito rapidamente. E tudo que Leon consegue pensar é em como os lábios dela parecem tão macios e convidativos. Então, quando a mulher resolve quebrar aquele momento e se afastar, o detetive imediatamente a puxa de volta contra ele, esmagando sua boca contra dela com mais paixão. Seus lábios se separam, simultaneamente, e sua língua atrevida encontra a dela, degustando um sabor doce e picante como aquele vinho. Suas bocas se devoram cheio de saudade e desejo.

Infelizmente, eles precisam quebrar o beijo para respirar e recuperar o fôlego. Seus olhos se reabrem e ambos se olham compartilhando um brilho diferente. Ele abre a boca querendo dizer alguma coisa. Entretanto...

— Que interessante... Então, é assim que você protege a sua testemunha, Leon? — De qualquer forma, o momento entre eles é quebrado com a chega surpresa de Barry Burton.


— Outro dia você me disse que ela não seria uma distração. Que ela era apenas uma testemunha como qualquer outra. Mas, você mentiu para mim.

— Não é verdade, capitão. — Leon faz sem querer um movimento brusco que lhe causa outra fisgada de dor em seu braço.

— Droga, você deveria estar repousando, Leon! — Barry se aproxima dele para ajudá-lo.

— Capitão, eu estou bem! — Resmunga muito chateado com toda aquela situação. — Não precisa me tratar como uma criança.

— Leon, é melhor você obedecer seu capitão. Depois a gente se fala! — Ada sibila entredentes, lhe dando um olhar de "Por favor, não complica mais as coisas!" Mesmo contrariado, Leon acaba cedendo ao seu pedido, fazendo Burton ficar ainda mais irritado com a mulher.

Assim que os dois homens a deixam sozinha, ela apenas retorna a encher a sua taça de vinho, bebendo tudo num gole só. Há um pequeno barulho que lhe chama a atenção, vinha do seu celular esquecido sobre a mesa. Ao olhar para a tela, se depara com um número desconhecido. Poderia ser um engano, afinal, seu chip era novo e, por recomendação da polícia, só haviam quatro contatos que pôde salvar em seu celular: da mãe, da irmã, de Leon e da RPD. Ela resolveu que era mais seguro ignorar, porém a ligação ainda persistiu por mais algumas vezes. Aquilo começou a preocupá-la, até pensou em desligar de vez o aparelho, entretanto, uma vozinha em sua mente dizia para atender.

— Alô! — Ela decide seguir a sua intuição e atender a ligação.

— Ada, é você? — E, imediatamente, ela reconhece aquela voz. — Precisamos conversar!