Efeito Borboleta
39 Destino
"Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida e se torna o nosso destino."
(Desconhecido)
***
Raccoon City
2021
Para chegar até aonde ele estava, teve que sair sorrateiramente pelos fundos, passando por um portão que dava acesso a uma trilha cheia de árvores e arbustos de hibiscos, que a leva a beira de um lago que ficava aos arredores da floresta Arklay. A região era bem próxima da casa e não era de difícil acesso. Ela se lembrou que Leon havia lhe falado sobre este lugar, onde costumava vir ali para espairecer, fazer uma caminhada e até pescar com Burton.
— Obrigado por vir falar comigo. Eu quase achei que você não viria. — Albert Wesker estava de costas para ela, brincando de jogar pedrinhas no lago.
— Bem, sua ligação me pegou de surpresa. Como você conseguiu o meu número? — Ela decide parar ao lado dele e observar o movimenta da água. Ali parecia muito calmo.
— Isso não importa. O que importa é saber o que aconteceu com você. — Ele para de jogar as pedrinhas na água e se vira para encará-la.
— Por que isso seria importante pra você? E quem é você realmente? — Seus castanhos o avaliam da cabeça aos pés. Ele se parecia com o Wesker do futuro, mas ao mesmo tempo parecia diferente, mais carrancudo e misterioso e seus olhos azuis pareciam cansados. Esses olhos azuis fazem-na pensar em Leon.
— Eu acho que você já sabe a resposta. Sou um viajante do tempo. E você... você também é uma viajante?
— Agora Sou. Mas, sinceramente, gostaria de nunca ter viajado no tempo. — Aqueles castanhos refletiam sinceridade e um pouco de angústia. — Quer dizer, há momentos em que acho que tudo não passou de um terrível pesadelo.
— Eu te entendo. Foi a mesma sensação que senti quando isso aconteceu comigo na primeira vez.
— Como foi a sua primeira vez? — Os dois se olham, demoradamente, e neste momento Wesker tem certeza que aqueles castanhos curiosos, não pertenciam a sua esposa.
— Foi assustador e aconteceu por acidente. — Sua mente logo se enche de memórias daquele fatídico dia. — Estávamos testando a nossa máquina do tempo, mas ela acabou colapsando... E, quando percebemos, todos fomos sugados para dentro dela.
— E depois? O que aconteceu depois? — Ela o observa, se sentindo tão ansiosa.
— Eu despertei em 2007, bem na noite da morte da Monica... Quer dizer, Annie Kennedy. — Tentou se corrigir.
— Então, a Monica e a Annie... Elas são a mesma pessoa? — Sua pergunta causou uma expressão de surpresa momentâneo no rosto de Wesker.
— Sim. — Ele para e fica pensativo. — Se você sabe sobre a... Monica Birkin. Isso significava que você... já foi para o futuro.
— Sim. 2050. E foi horrível. — Ela precisava desabafar com alguém e aquele homem parecia ser o único que poderia entendê-la. — Eu vi você lá também. Você, a Annie, Becca...
— O que mais você descobriu lá no futuro?
— Que nos casamos e tivemos uma... uma filha. — Ela tinha se sentado em um tronco caído, Wesker decidiu fazer o mesmo vindo se sentar ao seu lado.
— Você... viu Alice também? — Um nó se forma em sua garganta ao pensar na menina.
— Infelizmente, eu só a vi por fotos e conheci o... túmulo dela. — Para Wesker aquelas palavras foram como uma punhalada em seu coração. — Eu sinto muito! — Ada coloca a sua mão sobre a mão dele, num gesto de carinho e respeito pela perda, porém assim que se tocam, ela tem outro Déjà Vu:
"Eu sei que eu estraguei tudo. Mas, eu ainda acredito que podemos e devemos consertar as coisas. Nós devemos isso a nossa filha."
"A nossa filha?! Não. Alice não era a sua filha."
"O quê? Não! Isso é mentira sua... Então, isso significa que você também me traiu. E que tem mentido pra mim todo esse tempo."
"É por isso que eu preciso voltar ao passado. Voltar para o dia antes do nosso casamento... Ou, talvez, voltar muito antes disso... Antes de termos nos conhecido. Talvez, seja o único jeito de consertarmos tudo."
— Mas, a sua esposa estava errada. Vocês não conseguiram consertar nada. — Ada diz se afastando de Wesker e se levantando. — Vocês só conseguiram bagunçar a vida de todo mundo. — Wesker ficou confuso com a mudança repentina de humor dela.
— Você parece que descobriu muitas coisas sobre o nosso futuro. — Ele permanece sentado e mantém a mesma postura ponderada.
— Acho que você quis dizer... Futuro Alternativo. — Eles ficam em silêncio por um momento encarando o horizonte. Estava começando a anoitecer e esfriar cada vez mais. — É por isso que não consigo acreditar que estamos presos num ciclo onde tudo se repete. Porque eu sei que o Meu futuro será bem diferente. Já está sendo, não é? — Talvez, ela estivesse sendo arrogante como todas as outras versões de Ada Wong, ou só estivesse sendo ingênua demais.
— Será? — Wesker indaga se levantando e vindo se aproximar dela. — Me fala... lá naquele Futuro... você conheceu outro Leon?
— Não. Vi uma foto do tio do Leon. Eles são muito parecidos. — Ela se encolhe com a proximidade dele e se abraça como se tentasse se proteger. — Naquela realidade distorcida, aquele Leon... — Sua voz quebra e ela tenta lutar para controlar as suas emoções. — Ele estava morto... por minha culpa... — Wesker nunca a viu tão vulnerável assim. A sua esposa sempre foi uma mulher mais dura, egocêntrica e, não gostava de expor as suas fraquezas.
— Não, não foi culpa sua. — Talvez, por se deparar com aquela versão mais humana e vulnerável dela, Wesker decidiu abraçá-la.
Um abraço podia ser um ato de amor, amizade, ou simplesmente para acalentar o coração de alguém que estava tão triste e com medo. Entretanto, dependendo do ponto de vista de alguém que está, sorrateiramente, observando de fora, um simples abraço pode ser um ato também de traição. Por isso quando eles se afastam, Wesker imediatamente fica inquieto olhando para a floresta e sentindo como se estivessem sendo observados.
— Eu quero acreditar que aquele Leon do futuro não é o mesmo Leon daqui. — Ada continuava desabafando. — Eu tentei acreditar que tudo não passava de uma coincidência infeliz.
— Não é coincidência. É só o universo esfregando na nossa cara, que não temos o controle de nada. — Albert pensou em Leon e na relação conturbada que tinham. — Quer dizer, no meu mundo, Leon e eu nunca nos demos bem. Então, um dia eu descubro que a minha pequena Alice poderia ser a filha dele... E eu o odiei ainda mais. Mesmo depois de morto, eu o odiei.
Wesker acabou lhe revelando que, quando essa coisa da viagem no tempo começou, tentou encontrar Leon para que os dois tivessem, enfim, um acerto de contas.
— Só que não importava em que dimensão eu caísse, sempre chegava tarde demais.
— O que você quer dizer com tarde demais?
— A única coisa que sempre encontrava era a lápide dele com o nome e a data de sua morte. — Agora que pensava sobre isso, seu coração se enchia de receio e tristeza que esse destino se repetisse aqui também.
— Você está me dizendo que... em todas as outras dimensões em que você esteve... Leon... estava... estava... — Um nó se forma em sua garganta enquanto um calafrio frio lhe percorre o corpo.
— Sim. A história dele sempre se repete, com um único PORÉM... — Nesse instante, um flashback lhe vem a mente:
"Leon Scott Kennedy
(1989-2021)"
Havia uma jovem de cabelos ruivos parada na frente daquela lápide chorando em silêncio. Wesker tinha ficado um bom tempo apenas a observando, até que criou coragem e veio falar com ela.
— Sinto muito pela sua perda. — Ele para ao lado dela se sentido tenso com aquele clima pesado, melancólico e frio pairando sobre eles. E ele sempre odiou todo aquele clima fúnebre.
— Ele era o meu melhor amigo, um cara legal, honesto, corajoso. — Ela parecia com o coração partido que o faz sentir pena. — Não é justo que ele tenha partido dessa forma tão repentina... e desse jeito tão horrível. — Suas lágrimas se misturavam com as gotas de chuva que caiam, incessantemente.
— Me desculpa perguntar, mas como foi que ele morreu? — Wesker perguntou intrigado, sem imaginar aonde aquela conversa os levaria.
— Ele caiu numa emboscada. — A resposta dela o deixou completamente atônito. — Ele morreu em serviço, quando estava tentando pegar um Assassino.
— Eu fui checar a história mais a fundo e descobri que ele morreu no dia da Ação de Graças. — Wesker desabafa, ainda sentindo a mente pesar com aquelas lembranças. — Ele morreu enquanto tentava pegar um serial Killer. Isso não lhe parece familiar, Ada? — Ele a encara, no entanto, a mulher está desnorteada demais para respondê-lo. — Antes eu sentia pena por saber que esse era o destino final dele. Mas, agora isso mudou... Desde que cheguei nesse mundo e descobri a verdade sobre a Monica, tudo mudou.
— Mudou porque agora você descobriu que o Leon dessa realidade... ele é o seu filho.
— Sim. É por isso que quero ajudá-lo e, ao mesmo tempo protegê-lo. Fazer o que não pude fazer por Alice.
Nesse instante, Ada tem um pequeno flashback de uma garotinha sozinha num corredor escuro e do barulho ensurdecedor de um tiro.
— Ada, Ada, você está me ouvido?! — Wesker chama a sua atenção.
— O que você quer de mim? — Ela diz amarga, com a cabeça cheia de pensamentos turbulentos.
— Você conheceu o seu Futuro e não gostou do que viu. Então, com certeza não quer que ele se repita aqui.
— É claro que não quero que se repita!
— Se você não quer que se repita... então, se afasta do Leon. Porque o assassino vai continuar voltando e o Leon vai continuar se arriscando pra te proteger. — Era praticamente um ultimato. — Se você se importa com ele, fique longe. Só assim você poderá mudar tudo e salvar o seu futuro. — Wesker para e olha por trás de Ada, quando um barulho lhe chama a atenção. Aquela sensação de estar sendo observado estava ali de novo lhe perturbando. — É melhor você voltar, agora.
***/ /***
Enquanto isso no andar de cima, depois de ajudar Leon, Barry retorna com os sermões e, dessa vez, as coisas se tornam ainda mais sérias.
— Escute bem o que vou te falar, Leon. Isso será decisivo para o seu futuro. Então, faça a escolha certa. — Suas palavras são impetuosas, bem como a sua postura. Ele precisava fazer algo para realmente conseguir proteger Leon, até de si mesmo se fosse preciso. — A partir de agora, ou você se afasta de vez de Ada Wong, ou estará fora da equipe dos STARS.
— O quê? O senhor não está falando sério. — Ele se sente abatido e tão estressado.
— Sim, estou falando muito sério. Se você não quer ser expulso da equipe, terá que abandonar o caso da Wong.
— O senhor não pode fazer isso comigo!
— Posso. Eu sou o seu capitão e vou te expulsar dos STARS, sem hesitar.
Burton sabia que ao pressionar Leon desse jeito, talvez, a relação dois estaria balançada, mas isso era algo necessário a se fazer. Ada precisava sair da vida deles o quanto antes. Talvez, só assim conseguiriam voltar às suas vidas normais.
— Você terá até Sexta para tomar a sua decisão.
— Espera, mas isso é depois de amanhã!
— É o tempo que teremos para resolver algumas burocracias, antes de Wong ser transferida para outro lugar. Bem, eu terei que ir agora. Mas, voltarei amanhã. — Ele segue para sair, mas para e se vira para encarar uma última vez o seu protegido. — Aproveite esse tempo para descansar e refletir. E vê se não faz nada estúpido! — Os dois trocam olhares tensos, antes do homem sair do quarto.
No andar debaixo, ele ainda esbarra numa Ada muito nervosa que havia acabado de retornar.
— Estou indo embora. Só quero ter certeza que tudo ficará bem por aqui. — Ele diz para uma Ada que apenas fica em silêncio com o seu olhar vazio que incomoda Burton e também o deixa apreensivo. — Amanhã alguém virá buscá-la para você dar o seu depoimento, depois você deverá ser transferida para outro lugar. — Embora a sua postura sempre fosse dura, no fundo, o capitão se sentia tão esgotado. — Você entendeu?
— Sim, senhor.
— Tenha uma boa noite, senhora Wong. — Ele lhe dá as costas e segue para porta.
— Espera. Eu ainda tenho uma pergunta pra fazer. — Contudo, as próximas palavras dela, por um instante, interrompem a sua saída. — Por que o senhor agiu tão estranho no hospital quando viu aquela carta comigo? — Para Ada toda aquela reação do Burton foi muito desproporcional.
— Que carta? — Ele fingi não lembrar, o que provoca a irritação dela.
— O senhor sabe muito bem de qual carta estou falando! — Ela cerra os dentes com impaciência.
— Se eu fosse você, se preocupava em arrumar as malas e saber o que vai falar em seu depoimento amanhã. — Ele permanece de costas, com os punhos fechados ao lado do corpo. — Ah, acho que você vai gostar de saber que o seu ex-chefe foi resgatado.
— O quê?! Vocês encontraram o Spencer? — Mas, o homem a ignora e apenas vai embora, batendo a porta e deixando-a muito frustrada e confusa.
{Continua...}
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