Efeito Borboleta
41 Traição

“Tudo fica claro quando chega a hora certa. O tempo é o pai da verdade.”
(K-drama Alice)
***
RPD
Delegacia de Polícia de Raccoon City
Ela tentou esconder suas olheiras causadas pela noite mal dormida, por debaixo de muita maquiagem e uma cara simpática ao cumprimentar o Tenente Marvin Branagh e Sheva que estavam a esperando no andar debaixo. Mas, manter uma cara boa e uma falsa calmaria, não foi tão simples ao se ver encarando, fugazmente, o rosto inexpressivo de Leon que, apenas se despediu de forma fria dela, antes de deixá-la sair para dar o seu depoimento.
Lidar com a rejeição nunca é fácil e pelo jeito Leon resolveu tratá-la com indiferença. E a indiferença era o pior sentimento que existia. Portanto, ter se permitido ultrapassar os limites ontem tinha sido um erro, pois ela deveria ter previsto que, consequentemente, alguém terminaria magoado e com um coração partido.
Sua mente continuava cheia de pensamentos tortuosos enquanto o carro de Sheva fazia o trajeto até a RPD em completo silêncio. A sua chegada na Delegacia foi bastante conturbada porque já na entrada do lugar, havia uma movimentação de repórteres e curiosos que estavam ali para vê-la. Entretanto, Ada não estava pronta para enfrentar todo aquele holofote. Por sorte a polícia conseguiu tirá-la daquela situação e levá-la em segurança para dentro do local. Ainda teve que esperar quase uma hora para dar o seu depoimento e, quando chegou o momento se sentiu nervosa, pois sabia que seria impossível revelar a verdade.
Afinal, quem acreditaria que ela viajou para o futuro? Ou que o Assassino é um viajante do tempo?
— Então, gostaríamos de saber o que realmente aconteceu com você? Onde você esteve durante essas duas semanas em que esteve desaparecida? E o que aconteceu com o Assassino? — Todas aquelas perguntas pareciam intermináveis e só fazia sua crise de ansiedade piorar.
— Eu não sei dizer o que aconteceu. — Ada não via outra saída, senão fingir uma certa amnésia. — Tudo foi muito confuso e assustador.
— Se você quer que esse Assassino seja pego logo, precisa nos ajudar. — Jill estava sedenta por respostas e não estava disposta a deixar Ada ir embora sem ao menos lhes dar alguma informação relevante. — Diga alguma coisa, Ada Wong! Qualquer coisa que possa nos levar até ele. Você precisa se lembrar!
— Pega leve, Jill! — Burton interveio deixando a agente Valentine irritada. — Ela deve estar com medo. Passou por uma experiência traumática. — Ele surpreendeu Ada ao de certa forma acobertá-la.
— Senhora Wong, você percebe que o Assassino está caçando um por dos seus amigos cientistas? O que você acha que ele quer? — Jill continuou pressionando.
— Me matar. — Responde inexpressivamente.
— Isto é óbvio! Mas, por quê?
— Porque... — Ada dá um suspira profundo. — Tentamos brincar de ser Deus e, como consequência... criamos um monstro. — Seu comentário foi bizarro, fazendo a agente do FBI e o capitão Burton se olharem tensos.
— O que quer dizer com... criamos um Monstro? — Burton e ela se encararam num clima pesado.
— Você já deve saber que o Ozwell Spencer foi resgatado. — Em contrapartida, Jill resolveu fazer uma outra abordagem, a fim de chegar ao ponto que importava. — E ele nos contou uma história muito louca e fantasiosa.
— O que ele disse? — Isso a deixou curiosa sobre o que realmente aconteceu com Spencer.
— Bem, ele falou sobre... um Buraco de Minhoca e sobre a existência de viajantes do tempo. — Jill explicou sem muita paciência. — É óbvio que isso tudo é fruto de uma mente muito transtornada.
— Mas... e se tudo isso não fosse loucura? — Ada tomou coragem para rebater. — E se todos esses desaparecimentos, as mortes e o assassino estivessem ligados a um... Buraco de Minhoca. — Por um instante, tudo fica num silêncio constrangedor enquanto Valentine e Burton a julgam com o olhar. — Ela cruza os braços sobre o peito e solta um suspiro exausto.
— Valentine, você estava lá quando, inexplicavelmente, eu cai daquele prédio. — Enquanto a vítima vai narrando os fatos, Jill começa a sentir um arrepio terrível lhe percorrer a espinha só de relembrar aquela cena. Aquela com certeza era uma das cenas mais bizarras que já tinha presenciado na vida.
— Você consegue explicar o que viu naquele dia? Eu sei o que vi e foi assustador... — As duas mulheres se entreolham compartilhando o mesmo sentimento de medo.
— Podemos encerrar por aqui... — Barry de repente sentiu urgência em dar um fim ao interrogatório. — Vamos deixar a senhora Wong descansar... Ela parece mentalmente perturbada. — Ada se sentiu indignada com aquela afirmação do capitão, porém ficou calada.
Eventualmente, o interrogatório termina, o capitão vai embora, deixando somente as duas mulheres sozinhas.
— Como está o Chris? Quer dizer, eu não o vi depois daquele dia em que fui sequestrada. — Ada sentia a ansiedade crescendo dentro de si ao se lembrar daquele dia terrível.
— Por que você quer saber? — Jill indaga de mau humor enquanto organiza os seus papéis e arquivos de investigação.
— Sheva e o Chris arriscaram as suas vidas para me proteger. E eu ainda nem pude agradecê-lo.
— Ele está bem, se recuperando em casa. — Jill fica desconfiada com a preocupação repentina de Ada. — Ele vai passar uns meses ainda longe do trabalho. O bom é que ele agora pode bancar o paizão e passar mais tempo com a Jenna. — A verdade é que toda vez que ela vê pai e filha juntos, seu coração se aquece e, por um instante, a agente do FBI se pega pensando em como seria se nunca tivesse rompido seu noivado com Chris.
— Valentine... — A voz de Ada a tira de seus devaneios. — O que você faria se... Se descobrisse que... o homem que você ama vai morrer em breve?
— Credo! Por que está falando isso, Wong? — Jill sentiu outro arrepio horrível.
— Eu não me importo se vão me achar louca, mas... — Ada tomou uma decisão corajosa. — Eu acho que a próxima vítima do assassino... pode ser o Leon.
***/ /***
Ele queria poder refazer os passos daquele dia onde confrontou pela última vez o Assassino. Aquele dia tinha sido de fato muito estranho, coisas inexplicáveis haviam acontecido. Era como se tivesse estalado os dedos e feito o Tempo, literalmente, congelar. Isso já havia acontecido antes lá na ponte da Torre do Relógio, no dia em que conheceu Ada e a salvou de ser atropelada. Aliás, foi exatamente o fato do Tempo Parar que fez com que ele conseguisse salvá-la por duas vezes.
“Como isso era possível? Como alguém poderia, num piscar de olhos, fazer o Tempo parar?” Leon também ficou pensando se isso não era coisa do Assassino. Talvez, uma espécie de habilidade especial. Ele ficou remoendo isto enquanto estava novamente diante do túmulo de sua mãe.
Sem encontrar as respostas que tanto desejava, então, decidiu fazer uma visita a Chris Redfield.
O seu companheiro parecia animado, apesar de estar afastado da RPD, ainda se recuperando. Chris estava feliz porque podia passar mais tempo com a filha que estava distraída na sala jogando vídeo game.
Contudo, essa animação toda se desfez, depois que recebeu uma ligação de Jill e os dois acabaram discutindo outra vez.
— Você acredita que o FBI escolheu a Jill para ser a guarda-costas da Ada. — Chris desabafa após a ligação terminar. — Em breve ela vai se mudar para a Califórnia e sabe se lá por quanto tempo. — Ele estava fazendo algum movimento sutil para se reaproximar dela e consertar as coisas entre eles. Contudo, sempre acontecia algo para separá-los.
— Chris, se acalma! — Leon o repreende. — Em breve nós vamos pegar o assassino e tudo vai voltar a normal.
— Não sei se quero que tudo volte a normal. — Afinal, Jill só retornou para Raccoon City para investigar os casos de desaparecimentos. — Olha agora já estou tão acostumado a ter a minha filha por perto. — Ele diz olhando para Jenna que ainda está entretida jogando Resident Evil.
— Você deveria parar de brigar com a Jill e admitir... que ainda ama ela.
— Olha só quem fala! — Chris exclama com ironia. — E você já conseguiu admitir que está apaixonado pela Ada? — Agora ele conseguiu cutucar onça com vara curta.
— Vai se fuder, Chris! — Leon vocifera já se arrependendo da visita. Ele só não vai embora, pois Claire aparece com uma informação que os pega de surpresa.
— Ontem quando estava saindo da Raccoon Press, de repente um estranho todo encapuzado me abordou. Levei o maior susto. — Relatava Claire.
— Como assim um estranho lhe abordou? O que ele queria? Ele tentou alguma coisa com você? — Questionou um Chris bancando o irmão mais velho super protetor.
— Relaxa. Ele apenas me entregou esse pendrive e depois desapareceu. — Enquanto ela continua a lhes revelar toda aquela história, Leon e Chris trocam olhares apreensíveis.
— Então, o que tem aí nesse pendrive? — Leon questiona.
— É melhor que você mesmo veja. — Havia apreensão em seu tom de voz enquanto olhava para Leon, já sabendo que seu amigo era quem mais seria atingido pelo conteúdo do pendrive. A ruiva entrega o pequeno objeto para seu irmão que o conecta, imediatamente, ao seu notebook.
Ao clicar em cima do arquivo, logo, surgem fotos de Ada Wong ao lado de um homem loiro alto. Aquilo já deixou Leon enervado e muito inquieto. A situação piora quando Chris decide abrir um vídeo de um minuto que mostrava cenas da Professora Wong conversando com o tal homem e no final eles se abraçando.
Leon estava perplexo, com o coração martelando, furiosamente, no peito quando pede para Chris paralisar o vídeo e ampliar as imagens, assim, conseguindo reconhecer o lugar em que os dois estavam.
— Esse cara se parece com o Wesker, mas ele está morto. — Chris ainda tentava arranjar uma explicação mais plausível para aquilo. — Talvez, seja só alguém parecido.
— Mas, se não for ele... Então, quem é esse cara que está abraçando... Ada Wong? — Claire indaga dando um olhar irônico para Leon que tinha uma expressão carrancuda estampada no rosto.
— O que mais importa agora é descobrir... porque esse estranho encapuzado apareceu e te entregou esse pendrive? Qual é o interesse dele em Ada Wong?
Enquanto os Redfield discutem sobre o assunto, Leon já não suportava mais estar ali.
— Leon, espera! — Claire até tenta impedi-lo, mas sem sucesso. Com a raiva que estava se acumulando dentro dele, naquele instante, nada iria pará-lo.
Residência Kennedy
Sheva resolveu levar Ada para almoçar com a irmã e, assim, aliviar um pouco o clima. E de fato a Professora de Física conseguiu se distrair um pouco. Depois teve que retornar para a casa dos Kennedy, com o pensamento que precisava começar a arrumar as malas, já que em breve vai partir de Raccoon City e sair da vida daquele detetive teimoso.
— Desde quando você está mentindo para mim?
— Você me assustou? — Sua voz não passa de um sussurro quando Leon cruza o seu caminho a impedindo de seguir para o seu quarto.
— Você andou se encontrando com Albert Wesker, não é? — Assim que o detetive pronúncia aquele nome, Ada fica em choque. — Não tente negar que será pior, porque há provas.
— O quê? É algum tipo de brincadeira isso? — Ada estava tentando esconder que estava nervosa com aquela questão.
— Eu vi algumas fotos e um vídeo seu com o Wesker. — Seu olhar é fulminante. — Vocês estavam se abraçando.
— Caramba, isso é o quê? Ciúmes? — Ela desajeitadamente tentou brincar, não querendo levar a sério aquela conversa.
— Claro que não! — Ele fecha o cenho indignado. — Eu desconheço esse tipo de sentimento. — Seu tom era desdenhoso. — Eu acho que o sentimento real é... de traição, porque eu confiava em você... Só que você preferiu mentir para mim.
— Olha, eu nem sei do que exatamente estamos falando. O Wesker, ele... Ele morreu...
— Não faça isso! — Leon esbravejou. — Você sabe que há um Wesker que é viajante do tempo e que está vagando pelo nosso mundo. Ele apareceu no dia que você sumiu, depois apareceu no dia que você retornou. Nós até lutamos.
— Espera! Você não me falou nada sobre isso antes. — Ada lhe dá um olhar acusatório.
— Você não pode me cobrar nada já que também tem escondido segredos de mim. — Eles se encaram por um segundo, antes dela se sentir tão intimidada a ponto de desviar o olhar. — Eu reconheci o lugar onde vocês estavam, reconheci a roupa que você estava usando ontem. — Ele continuou com as suas indagações, como se estivesse num interrogatório. — O que eu gostaria de saber é, em que momento vocês se encontraram? Foi antes do nosso beijo na cozinha, ou durante a visita do capitão?
— O que isto importa! — Ela exclamou indignada. — Ele não é uma ameaça a você e nem a ninguém. Na verdade ele só quer nos ajudar a pegar o assassino.
— Foi por causa dele que você me... me rejeitou? — Sua voz saiu mais baixa, demonstrando como Leon estava tão inseguro e confuso com os seus sentimentos.
— O quê? — Ela se distraiu, novamente, olhando para o homem que estava na sua frente, invadindo o seu espaço pessoal.
— Não importa mais. — Leon resmungou sem paciência. — O que realmente importa é saber o que vocês estão escondendo? — Seus azuis voltam a encará-la de um jeito frio que a faz ficar desconfortável.
— Eu já disse que ele também quer pegar o assassino. E ele está atrás desse cara há mais tempo que você. E assim como eu, Wesker é um sobrevivente.
— Você confia nele?
— Sim. Tanto quanto eu confio em você. — Suas palavras são cheias de sinceridade.
— Eu só gostaria de saber qual é a ligação que você tem com ele? Qual é a ligação que ele tem com a minha mãe? — Ele se sentia tão irritado com essa situação. Não era só ciúme, havia alguma outra coisa que só não sabia explicar.
— Se existe uma ligação entre Wesker e a sua mãe... Eu acho que você vai ter que perguntar isso a ele. — Uma hora ou outra, Leon teria que descobrir que aquele homem que tanto odeia, na verdade era o seu próprio pai.
— A parte pior de tudo é que... eu quase cogitei desistir do caso por você... — Leon a pegou de surpresa com as suas palavras. — Eu quase arrisquei o meu trabalho por alguém que... não vale a pena. — Ele a encurralou contra a parede e demonstrou todo o seu rancor. — O capitão tinha razão, eu nunca deveria ter confiado em você.
— É. Talvez, teria sido melhor se nunca tivéssemos nos conhecido. — Ada murmura cansada e melancólica, confrontando aqueles olhos azuis magoados.
Enquanto isso...
— Por que o Assassino tem tanta obsessão, principalmente, por Ada? Por que ela parece a chave pra resolver todo esse caos?
— A explicação mais simples, talvez, seja... Porque ela foi a primeira viajante do tempo. — Wesker resolve beber uma dose de uma só vez, antes de sua resposta se tornar ainda mais perturbadora. — E o buraco de minhoca está ligado a ela. Portanto, se ela morrer...
— O buraco de minhoca desaparece. — Deduz Burton perplexo. — Mas, a Ada desse mundo é apenas uma duplicata, que nem conseguiu criar a máquina do tempo. Mesmo assim, ela será punida por algo que nem fez?
— É por isso que ela é perfeita para morrer. Por que sem Ada, não há máquina do tempo. E, portanto, aquele nosso futuro... não irá se concretizar aqui. Então, tudo poderá mudar. — A solução para todos os seus problemas parecia tão simples e, ao mesmo tempo, absurda. — Porém, se ela morrer... não é só o buraco de minhoca que vai desaparecer...
— O que você quer dizer com isso?
— Que se Ada morrer, todos nós que pertencemos aquele futuro, iremos desaparecer, como num estalar de dedos.
{Continua...}
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