Efeito Borboleta

12 Segredos Obscuros





"Não há segredos que o tempo não revele."

(Jean Racine)

***



Corporação Umbrella


- Então, você já conhecia o filho da Annie Kennedy? — Spencer, praticamente, vomita aquelas palavras, pegando Ada Wong, completamente, despreparada.

- Como assim? — Ada decide se fazer de desentendida. — Ele... Ele é... o filho da professora Kennedy?! — Mas, o seu gaguejar foi verdadeiro, porque ela se viu nervosa diante do olhar que o policial Kennedy lhe deu naquele momento. E com certeza não foi um olhar amigável.

- Ah, você ainda não sabia que o policial Kennedy é filho da nossa amada professora, Annie Kennedy? — Spencer deu de ombros parecendo alheio a tensão que estava se criando entre Leon e Ada.

- Tecnicamente, já nos esbarramos algumas vezes. Afinal, vivemos numa cidade pequena. — Leon tinha um tom irônico e um olhar mordaz sobre a Professora de Física. — Mas, não imaginava que a senhora Wong... conhecia minha mãe.

Era lógico que Kennedy já havia descoberto que Ada conheceu a sua mãe, após ter ouvido a discussão entre ela e Annette no cemitério. Mesmo assim, ele decidiu jogar o mesmo jogo e ver até aonde as mentiras dela o levaria.

"Ela seria apenas uma mentirosa e dissimulada? Ou alguém pior e ainda mais perigoso?" Ele travou a mandíbula e fechou os punhos ao pensar sobre isso. A única certeza que tinha era de que Ada Wong poderia ser a peça fundamental que faltava para descobrir a verdade por trás da morte da sua mãe.

Em contrapartida, Ada continuou nervosa e insegura ao estar na presença do policial. Talvez, a Professora estivesse sentindo toda a raiva que irradiava dele. Ela só queria ir embora, arranjar uma brecha e sair o mais rápido dali.

Sua sorte foi que Wesker acabou aparecendo para libertá-la daquela situação tão tensa e desconcertante.


***/ /***


- Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Prometo que serei breve e objetivo. — Leon diz assim que se senta na cadeira do outro lado da mesa do escritório de Spencer.

- Claro, senhor Kennedy. Se eu souber respondê-las.

- Qual foi a última vez que você viu William Birkin? — Leon como sempre preferiu seguir a linha direta e sem enrolação.

- No dia 14. — Spencer começou a lhe contar que ele e Birkin passaram todo aquele dia trabalhando juntos num projeto científico. E que a sua última lembrança do marido de Annette foi no final da tarde, quando o viu convidando Wesker para tomarem uma cerveja. — Nunca imaginei que aquele momento, seria a última vez que o veria.

- Naquele dia 14... Ele parecia estar agindo diferente?

- Diferente como exatamente?

- Ele parecia estar mais agitado que o normal? Ou preocupado com alguma coisa, ou com medo?

- Não me lembro de ver o Birkin agindo fora do normal. Para mim ele estava sendo o mesmo de sempre. Um cara dedicado, muito inteligente e obcecado pelo trabalho.

- O que eu quero realmente saber é... Birkin poderia ter algum inimigo?

- Que pergunta é essa?

- Apenas responda, doutor Spencer.

- Não. Birkin não era alguém que tinha desafetos. Todos que o conheceram o admiravam muito. Além de ser um grande cientista, ele também era um bom amigo. Uma característica que ele compartilhava com a sua mãe.

- Minha mãe? — Falar sobre sua mãe fez ele vacilar um pouco e o seu coração se apertar de saudades. — Minha mãe e ele eram muito amigos?

- Sim. Eles foram grandes amigos no passado. Muito antes dele conhecer Annette. — Aquela informação o deixou com uma pulga atrás da orelha.

- O quão próximo eles eram? — Sua postura agora não era tão fria, ou impessoal como deveria ser para lidar com aquelas questões.

- Próximos como melhores amigos que compartilhavam um sonho em comum... Como por exemplo, fazer uma grande descoberta cientifica que iria mudar o mundo.

- Isso tem a ver com esse tal "Projeto" que até hoje vocês cientistas continuam trabalhando? — Mas, Spencer não quis lhe responder, apenas parou e arrumou seus óculos sobre o nariz enquanto pensava em como se livrar do filho bisbilhoteiro de Annie. — Aliás, qual é o nome desse Projeto? — Entretanto, Leon continuou, teimosamente, com aquelas indagações.

- Por que a RPD está interessada nisso? Você prometeu que não seria um interrogatório. — Spencer se mexeu parecendo desconfortável em sua poltrona.

- Eu não estou aqui em nome da RPD. Eu vim como o filho de Annie Kennedy. Então, relaxa Doutor Spencer. — Leon continuou pressionando, ganhando uma expressão azeda do diretor da Umbrella. — Eu só fiquei curioso sobre esse "PROJETO" porque minha mãe falou dele uma vez para mim. Ela parecia bastante orgulhosa porque alguns dos seus alunos estavam envolvidos nesse mesmo projeto. — Na verdade Leon estava tentando jogar verde para colher maduro, pois ele e sua mãe nunca tiveram essa conversa.

- Ela chegou a falar sobre o nosso projeto com você? — Spencer ficou desconfiado e, ao mesmo tempo, intrigado.

- Ela não deu detalhes. E por isso estou tão intrigado. A propósito, além de você e o do doutor Birkin, quem mais fazia parte desse projeto?

- A esposa do Birkin, o Albert Wesker que é o mais jovem da equipe e a Rebecca Chambers que era uma das alunas da sua mãe na época. — O velho respondeu hesitante.

- Mas e... a senhora Wong?- O sobrenome saiu de seus lábios com um gosto amargo. — Ela também estava no projeto?

- Sim. Na época ela já demonstrava que se tornaria uma cientista brilhante no futuro... Sua mãe acreditava nisso.

- Aliás, tenho mais uma pergunta... Por que Ada Wong foi embora um dia depois da morte da minha mãe? — O detetive continuou com as indagações em tom provocativo, ao mesmo tempo em que tentava manipular Spencer. — E pelo que investiguei... Ela abandonou o projeto e foi embora como se tivesse fugindo de alguma coisa.

- Por que você parece tão interessado na senhora Wong? — O velho decidiu retrucar. — Sinceramente, somente ela pode lhe responder estas questões.

- Você tem razão. Vamos voltar a questão do início. — Aquele cientista velho não era alguém fácil para ser manipulado, da mesma forma, que Leon não era alguém que desistia, facilmente. — Me diga que Projeto é esse que vocês tem trabalhado todo esse tempo? Por que fazer segredo sobre isso?

- Te respondo se responder a minha pergunta... — Spencer já estava frustrado e irritado com toda aquela conversa e decidiu retrucar usando o mesmo tom provocador do policial. — Por que você está aqui perdendo o seu tempo, ao invés de estar lá fora procurando o assassino da sua mãe?

- Cala a sua maldita boca! — Leon vociferou se levantando, abruptamente, da cadeira e agarrando Spencer pela gravata. — O que você sabe sobre a morte da minha mãe? — O policial estava com tanta raiva que conseguiu puxar o cientista velho para cima da mesa de escritório (que era o único obstáculo entre eles). Nessa hora, Wesker invade a sala com um dos seguranças da Umbrella.

- Solta ele, agora! — Wesker tenta puxar Leon para longe de Spencer, porém o segurança e ele tiveram dificuldades para segurarem o policial que estava cego de raiva.

- Talvez, a sua mãe esteja se contorcendo na sua cova de vergonha pela incompetência do filho. — Porém, Spencer não recuou e ainda riu sarcástico enquanto ajeitava o seu terno e a sua gravata. Isso óbvio só alimentou o ódio de Leon que num piscar de olhos conseguiu derrubar o segurança que caiu no chão gemendo de dor ao sentir que seu braço foi quebrado.

- Para com isso, por favor! — De repente Ada gritou, ao mesmo tempo em que Wesker surgiu na frente de Leon impedindo-o de partir de novo para cima do cientista mais velho. Os dois homens se encararam partilhando do mesmo sentimento... a teimosia.

- A sua mãe não te criou para... para você se tornar um policial prepotente que sai atacando pessoas inocentes. — As palavras de Ada conseguiu afetar Leon, drasticamente, que sua expressão de fúria, logo, se transformou em angústia. E, como um soldado que perdeu a guerra, ele decidiu recuar e saiu dali cabisbaixo.

Leon sai pelo corredor e entra no elevador, depois aperta o botão do andar térreo. Entretanto, Ada decide segui-lo, deixando Spencer aos cuidados de Wesker. E, enquanto as portas se fecham o Detetive abre a boca na intenção de mandar aquela mulher desaparecer da sua frente, mas ele não consegue dizer nada, pois sua mente está cansada e seu coração se sente pesado.

- O que deu na sua cabeça para atacar o Diretor Spencer? — Ada para se encostando na parede do elevador, colocando uma distância segura entre ela e Leon. — Agora ele pode até te processar. E, na pior das hipóteses, você poder até ser expulso da RPD.

- Por que você se importa? — Leon rosnou desejando que ela, simplesmente, o deixasse em paz.

- Na verdade eu não me importo com você. — Ada desviou o olhar e cruzou os braços na frente do peito, fingindo indiferença. — Eu só queria entender o porquê você atacou o Diretor Spencer. Afinal, por que você veio aqui? Isso tudo tem a ver com a morte do... William?

- Sim. — Leon deu um olhar de soslaio para a mulher ao seu lado, constatando que aquela afirmação pareceu deixá-la tensa e nervosa.

- O que você está fazendo? — Ada diz assustada quando Leon resolveu travar o elevador. Seu coração acelerou de medo por estar ali sozinha com aquele homem.

- Olha, o que vou dizer aqui... tem que ficar entre nós. — Ele resolveu quebrar um dos protocolos da RPD, para testar a reação de Ada. — Então, você tem que me prometer que...

- Eu prometo! — Ada o cortou ansiosa para que aquela conversa terminasse logo. — Você pode confiar em mim. — Os dois se olharam, brevemente, antes de Leon tomar a decisão de abrir a boca, sabendo que depois disso, não haveria mais volta.

- A morte do Birkin não foi um acidente. — Ele diz, cautelosamente. — Mas, eu acho que você já sabia disso. — O Detetive ironizou.

- É o... senhor Wesker, ele me falou... Mas achei isso tão... assustador. — Ada gaguejou perplexa diante daquelas informações. — Então, o Will foi mesmo assassinado?

- Ainda estamos investigando. No entanto, a morte dele me fez pensar muito sobre... a morte da minha mãe. — Dessa vez, ele se cala e retorna a encará-la como se tivesse estudando, minuciosamente, cada reação da mulher ao seu lado.

- Eu sinto muito pela morte da Professora Annie. — Ela diz com sinceridade, ainda assim Leon não consegue confiar nela.

Nesse instante, o elevador é destravado e as portas se abrem, deixando Ada aliviada, momentaneamente, achando que conseguiria sair dali e se ver livre da presença de Leon.

- Senhorita Wong... — Todavia, Leon segue atrás dela e resolve deixar um aviso em tom quase ameaçador. — Eu espero que dessa vez você não tente fugir da cidade... — Suas palavras a fizeram se virar para encarar os azuis impetuosos dele. — Porque dessa vez, eu vou ficar de olho em você... E não vou deixar você fugir.