Efeito Borboleta
13 Em Busca da Verdade

"Não se entristeça ao olhar para o passado, ele não vai voltar. Melhore o presente onde você se encontra, ele pertence a você."
(Henry Wadsworth Longfellow)
***
Universidade de Raccoon City
— Aconteceu alguma coisa? — Indaga Rebecca parando de mexer em seu computador e encarando a sua amiga.
Ada havia retornado da sua visita ao laboratório da Umbrella com uma postura tensa e uma carranca enorme de preocupação. Tudo por causa da discussão que teve com Leon no elevador.
— Não é nada. É só... — Em contrapartida, Ada ficou pensando se deveria, ou não desabafar, afinal, ela sempre foi uma pessoa de poucos amigos e, Rebecca Chambers era no momento a sua única amiga. — Becca, você já falou com a polícia? Já prestou algum depoimento?
— Sim. Ontem. — Rebecca lhe contou que a agente Valentine do FBI apareceu em sua casa, acompanhada do policial Redfield para pegarem o depoimento dela.
— E o que você disse? — Ada decide beber um gole de água, tentando aliviar aquela sensação de ter um nó se formando na garganta.
— Que na noite do acidente, fomos os últimos a estar com o Will. — Rebecca murmurou melancólica. — E que ele disse algumas coisas estranhas como se... Como se soubesse que iria morrer naquela noite. — As duas mulheres trocaram olhares angustiados ao se lembrar da noite da morte do amigo.
— Becca, preciso te fazer uma outra pergunta... — Ada se sentia vacilando, seu coração acelerou mais, enquanto ela se sentia presa num dilema.
— Vai mulher, desembucha! — Rebecca tentou incentiva-la a prosseguir, ainda mais agora que sua amiga aguçou a sua curiosidade.
— Tá... Na época da morte da Professora Kennedy... a polícia chegou a perguntar sobre mim?
— Bem, pelo que me lembro... a RPD veio até a Universidade e fez algumas perguntas. O capitão Burton queria saber quem era a aluna que costumava pegar carona com a Professora até a Estação do metrô. — Ao ouvir aquilo Ada engoliu em seco e desviou os olhos. Sua mente se encheu de pequenos flashbacks daquele dia, da última vez que viu sua professora ainda com vida. A lembrança só a deixou mais apreensiva.
— Na época Spencer foi quem mais falou com a policia. E com certeza disse que você ganhou uma bolsa de estudos e foi estudar em Berkeley. — De repente ela para, começando a ficar cismada com as atitudes estranhas de sua amiga que agora tinha uma expressão sombria. — Mas, por que você está perguntando isso agora? Aconteceu alguma coisa com você, Ada?
— Não! — Ada a interrompe. — É melhor a gente esquecer desse assunto. — Ela respira fundo e fecha os olhos, já parecendo estar esgotada.
— É isso que dá ficar desenterrando fantasmas do passado. — Ironizou Rebecca atraindo um olhar ácido de Ada. Nesse instante, o seu celular toca. E, coincidentemente, era uma ligação da RPD.
***/ /***
Leon estava dirigindo de volta para a RPD, quando acabou se cruzando por acaso com a sua amiga Claire que estava conversando com Sherry Birkin. A menina acabou revelando algumas coisas tão estranhas e chocantes que aguçaram a sua curiosidade:
"Lá no outro mundo que era muito igualzinho a esse, eu já tinha visto o túmulo de meu pai. Ele já havia morrido lá. Então, quando o Senhor do Tempo me deixou voltar..."
"O Senhor do Tempo?!"
"É. Ele é como o Doutor Estranho... que é tipo um guardião do multiverso."
"Você tá falando sobre universos paralelos?"
"Sim. O Senhor do Tempo me disse que estamos presos no ciclo infinito do destino. Então, tudo que aconteceu em outro mundo, irá acontecer aqui também. Tudo vai se repetir. Mas, eu... eu não quis acreditar. Eu tentei salvar papai, mas falhei..."
"Como era o Senhor do Tempo?"
"Eu não vi o rosto dele. Só sei que ele é alto como você e se veste todo de preto. E ele me disse que a única forma de quebrar o ciclo é... É punindo aquela que deixou a porta do tempo aberta..."
Depois Annette Birkin apareceu irritada por ver a filha conversando com eles e levou a menina embora.
— Toda essa história me pareceu muito fantasiosa. Você não acha, Leon? — Questionou Claire sentada no banco do passageiro e tirando Leon de seus próprios devaneios. — É só um modo que a Sherry achou para suportar a ausência do pai.
— Talvez, não seja uma mera ilusão de uma garotinha. — Discordou Leon já mau humorado. — O fato de você não acreditar na existência do multiverso, não prova que ele não exista. É como você pensar sobre Deus. Você é uma cristã, mas há aqueles que são ateus. E para os ateus, Deus é apenas uma mera ilusão.
— Ah, sério que você vai fazer essa comparação? — Resmungava Claire que odiava se sentir contrariada. Ela era uma mulher que gostava de argumentar muito e muitas vezes era muito crítica e orgulhosa. — As nossas opiniões pessoais não importam. O que no fim vai importar, é ter provas concretas. — Os dois se entreolharam, concordando ao menos com isso.
— E eu acho que encontrei uma prova concreta... E que de fato faz sentido.
— Que prova? — Leon olhou rapidamente para a ruiva, antes de retornar a olhar para a estrada.
— Eu posso ter descoberto uma imagem antiga do tal Senhor do Tempo descrito pela Sherry. — Agora ela tinha conseguido chamar, realmente, a atenção dele.
— Me mostra essa imagem. Eu quero ver. — Leon diz assim que consegue estacionar o carro.
— Achei numa matéria de jornal antiga de 1989. — Aqueles olhos verdes astutos da ruiva ficam encarando Leon, enquanto ele segurava em suas mãos o jornal com a tal foto. E, apesar da foto ser antiga, ainda se podia vislumbrar a imagem exata de alguém vestido de preto, encapuzado parado na frente de uma grande casa.
— Onde você encontrou isso? — Ele indaga contemplando a manchete do jornal que dizia sobre um assassinato ocorrido em abril de 1989. Ali também havia fotos da vítima, antes e depois do assassinato.
— Bom, foi o Bertolucci que trouxe à tona essa matéria antiga. Parece que a foto do suposto assassino, foi capturado por um vizinho. E esse vizinho é tio do Bertolucci. — Claire solta um suspiro depois de falar tudo de uma vez. — Mas, o que mais me chamou a atenção foi... o nome de um dos policiais presentes na cena do crime.
— Barry Burton. — Concluiu Leon com uma expressão carrancuda e meio desnorteada. — Tem que haver mais informações sobre esse crime de 1989. Eu preciso descobrir mais.
— Bem, você tem acesso a RPD, só tem que conseguir acessar os arquivos antigos daquela época.
— Você tem razão. Farei isso. — Agora Leon tinha em suas mãos mais um mistério para resolver. — Você acha que... que esse caso de 89, pode estar conectado com... — Ele hesitou e fechou os olhos. — Com o assassinato da minha mãe?
RPD
Departamento de Polícia de Raccoon City
Aquele dia não poderia terminar de forma pior para Leon. Tudo já tinha desmoronado quando decidiu ir até a Corporação Umbrella tentar descobrir informações importantes sobre o passado de sua mãe e de Ada Wong. As coisas saíram do controle depois de discutir com o diretor Spencer e quase perder a cabeça. É óbvio que essa sua atitude imprudente acabaria por colocá-lo em maus lençóis.
— Sabe o que você fez? Você está muito encrencado, rapaz! — Barry Burton o encurralou numa das salas da RPD.
— Nada disso teria acontecido se ele não...
— Não tente se justificar! Nada justifica a sua atitude inconsequente. — Seu capitão continuava lhe dando vários sermões. — Meu Deus! O que você tava pensando quando atacou aquele cientista?
— Eu só queria a verdade. Eu queria saber sobre a morte da minha mãe! — Ele permanecia irredutível.
— Não é sendo agressivo e ameaçando pessoas inocentes, que você vai conseguir descobrir isso.
— Inocentes?! Eu não acho que existam pessoas inocentes naquele lugar. — Kennedy se referia a Umbrella Corp. — Há pessoas lá que sabem mais do que dizem. E que são muito habilidosas na arte da manipulação. Tipo aquele velho. Spencer não é um homem confiável. Nunca foi.
— Aonde você quer chegar com isso? — Burton dizia passando a mão em sua cabeça que já estava começando a sofrer de calvície. Antes ele reclamava de seus cabelos grisalhos, agora ele reclama da falta que cada fio daqueles lhe fazia.
— Você me prometeu que pegaríamos o assassino. — A sua franqueza, despertou o sentimento de culpa em Burton que, de repente, não sabia como lidar com aquela versão rancorosa de Leon. — Já se passaram 14 anos e até agora não descobrimos nada. Eu não quero que o caso Annie Kennedy seja arquivado como o do Doutor Park Seong Chan.
— O quê? — Aquilo foi tão inesperado para Burton. — Como você...
— Claire me mostrou uma manchete antiga de jornal, que falava sobre o assassinato do Doutor Park em 1989. Parece que ele foi um cientista e professor muito famoso na cidade... Não é mesmo capitão? — Burton estava perplexo. Por essa ele não esperava.
Leon continuou desabafando e se mostrando frustrado e decepcionado pelo seu capitão nunca ter lhe contado sobre esse Caso de 1989 que era muito semelhante ao Caso da sua mãe. E nem mesmo citou isso durante as investigações de 2007 que se seguiram por longos anos e que continuava sem um desfecho.
— Se Claire não tivesse achado esse material... Eu nunca iria saber sobre isto, né?
— Olha, você está me julgando errado, garoto.
— Faz tempo que já não sou mais um garoto, capitão.
— Para mim sempre será. Porque você é como um filho pra mim. E para os pais, os filhos nunca crescem. — Havia carinho em suas palavras e Leon acreditava nisso. Acreditava que o homem diante dele o amava como um filho, assim, como Leon o amava como um pai.
— Talvez, você não queira acreditar em seu capitão agora. Mas, eu nunca desisti de pegar o assassino... Em ambos os casos eu investiguei, incansavelmente. E tentei achar alguma conexão entre ambos. Infelizmente, nunca encontrei nada concreto. Tem que haver provas consistentes. Sem elas, ficamos impotentes. E você sabe disso.
— Bom, então, agora eu vou investigar. Talvez, eu descubra o que realmente aconteceu em 89 e em 2007. — Leon ainda parecia muito obcecado com aquilo, deixando Burton mais preocupado.
— Eu admiro a sua determinação. Mas, agora você vai precisar se preocupar com outra coisa... — Burton ficou mais tenso, antes de dizer as próximas palavras. — Assim que o chefe Irons descobriu sobre a sua discussão com o doutor Spencer, ele se sentiu forçado a lhe dar... uma punição.
— Não. Não é justo!
— Sim, é. Portanto, achamos que a melhor punição... é te afastar do caso Birkin.
— Não. Vocês não podem fazer isso, capitão!
— Eu não terminei ainda. Além de se afastar do caso Birkin, você vai ser transferido para funções administrativas.
— Por quando tempo? — Leon diz entredentes se segurando muito para não esmurrar alguma coisa.
— Por enquanto será por tempo indeterminado.
— Eu odeio isso! — Aquele policial frio que sempre carregava uma postura impetuosa e que não se abalava, facilmente, agora se sentia tão revoltado com aquela situação. Ele só parou de esbravejar quando um par de pequenos olhos de traços orientais entraram em sua linha de visão.
Ada havia acabado de sair da sala de interrogatório, quando se deparou com o capitão dos STARS e o detetive Kennedy discutindo na outra sala. Ela não queria bisbilhotar, mas aconteceu por acaso.
Constrangida e também já exausta, a Professora desvia o olhar e segue o seu caminho pelo corredor rumo a saída da RPD, desejando nunca mais pisar naquele lugar.
— Não faça isso! — Ordena Burton para um Leon que já estava prestes a sair atrás do rastro daquela mulher. — Para você não entrar em mais uma encrenca, é melhor você ficar bem longe de Ada Wong.
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