"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..."

(Mario Quintana)


R.P.D

Departamento de Polícia de Raccoon City

2021

Ada havia chegado na RPD e foi levada direto para uma pequena sala onde teve que dar seu depoimento diante da agente Jill Valentine e do policial Chris Redfield. Não foi fácil estar ali se sentindo pressionada o tempo todo e sentindo o peso dos olhares que a agente do FBI lhe dava.

Todavia, mesmo se sentindo pressionada, Ada foi revelando tudo que sabia e lembrava daquela fatídica noite que resultou na morte de William Birkin. Ela relatou detalhes desde o encontro deles no Jack's Bar, que eles beberam e jogaram muita conversa fora, mas tentou omitir as partes que falavam sobre Annie Kennedy. Só que, infelizmente, o seu plano de se esquivar de falar da mãe de Leon, acabou caindo por Terra.

— Na noite do acidente, o senhor Wesker acabou nos revelando que viu vocês conversando sobre a falecida Professora Annie Kennedy. Gostaria de saber qual era o teor dessa conversa? — Indaga Valentine trocando olhares fugazes com o Redfield.

— Eu nem lembro direito... — Aquelas perguntas a surpreenderam e a deixaram meio desnorteada.

— Vamos lá, senhora Wong! É só se esforçar mais que você vai lembrar.

— É melhor responder, logo, ou ela vai te fazer passar a noite aqui. — Alertou Chris. — E nenhum de nós quer, realmente, ficar preso aqui com ela, certo? — Ele debochou dando uma piscadela para Ada.

— Para de flertar e se concentra! — Jill rosnou dando um chute numa das pernas de Chris por debaixo da mesa. — Mas, ele tem razão. Estou exausta! — Ela voltou a encarar Ada com seus olhares afiados e suas palavras secas. — O dia foi cansativo com certeza pra todo mundo aqui. E todos nós queremos ir para casa. Então, responda logo e não me enrola!

— Eu não tenho motivo para enrolar ninguém. Principalmente, a polícia. — Ela falava encarando a dupla. Depois respirou fundo, fechou os olhos e decidiu dizer o que se lembrava da conversa. — Foi o William quem trouxe a professora Kennedy na conversa. E ele disse que sentia a falta dela. E ele também... pode ter aproveitado que estava bêbado para se... declarar.

— Como assim se declarar?

— Ele estava tão bêbado que acabou... admitindo que tinha sentimentos profundos pela Professora Kennedy. — Ada se sentiu tão desconfortável por ter que revelar algo tão intimo sobre o seu amigo falecido.

— Então, você está dizendo que Birkin e Annie Kennedy tinham uma relação que ia além da amizade? Eles tiveram algum romance?

— Não! — Ada responde já se sentindo desconfortável e irritada. — Não havia nenhum romance entre eles. Eles foram apenas bons amigos na época. E só agora Will resolveu revelar que, talvez, tivesse um amor platônico pela Professora Annie. E, sinceramente... isso não diz respeito a ninguém. Fim da história.

— Tudo bem. Você pode ficar calma. — Chris decidiu lhe entregar um copo de água, ao menos para acalma-la.

— Você e sua amiga testemunharam o acidente. Eu quero saber se vocês viram algo, ou alguém diferente naquele momento. Alguém suspeito? — Por outro lado, Jill era muito casca grossa que deixava uma impressão de ser um alguém insensível.

— Não. Como eu poderia prestar a atenção em qualquer outra coisa, se meu amigo estava agonizando bem na minha na frente. — Ada diz com a voz alterada, suas emoções já estavam à flor da pele. — Eu acho que já disse tudo o que sabia. Eu posso ir para casa, agora? — Mas, para a infelicidade de Ada, Jill ainda tinha uma última pergunta.

— Quais foram as últimas palavras que Annie Kennedy lhe disse, quando vocês se despediram na Estação de Metrô? Foi lá que você a viu pela última vez, antes dela ser assassinada, não é Ada Wong?


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Ela estava na frente da delegacia tentando ligar para a irmã vir buscá-la, já que Fong Ling havia pedido o seu carro emprestado. Só que para o seu desânimo, o celular só dava na caixa postal.

— Eu juro que ainda vou arrancar a sua cabeça! — A bela de ascendência asiática resmungava furiosa olhando para a tela do seu celular.

— Quem é a vítima? — Leon apareceu, subitamente, ao lado dela, fazendo a mulher dar um pulo de susto.

— Meu Deus, você quer me matar do coração?! — Ela reclama ainda tentando se recuperar do susto. Seu coração estava batendo acelerado.

— Não sou eu que estava planejando arrancar a cabeça de alguém. — O policial diz com uma expressão neutra que a impede de saber se ele estava brincando, ou falando sério. — Não é algo legal pra se dizer na frente de uma Delegacia de Polícia.

— De repente você vai querer me prender por isso? — Ada diz ironicamente. — E vai me acusar do quê?

— Eu ainda tô pensando sobre isso. Então, é melhor não me provocar. — Os dois se encaram por um segundo, até que Ada resolve dar as costas para ele e decide ir até o ponto de ônibus mais próximo.

— O que você acha que está fazendo? — Entretanto, Leon não parecia que ia deixá-la em paz, já que decidiu segui-la.

— Eu estou indo pegar um ônibus.

— A essa hora o ônibus já passou e o próximo vai demorar.

— Sério?! Que droga! — Ela xinga, mas continua a sua caminhada.

— E ir a pé para casa com esse saltos... — Leon tenta dizer sabendo que da RPD até o Jack's Bar seria uma caminhada de, aproximadamente, uns 20 minutos. Andando de salto, talvez, levaria mais.

— Já estou acostumada. — Seus pés já estavam reclamando, mas a Professora não queria dar o braço a torcer.

— Duvido muito que consiga ir longe com eles. — Leon percebeu que ela parecia caminhar com certa dificuldade.

— E por que você se importa?! — Ada grita e se vira para ele, abruptamente, fazendo o peito dele se chocar contra ela que acaba se desequilibrando. Sua sorte é que Leon reagiu rápido e conseguiu segura-la impedindo que a mulher caísse.

— Acho que é o meu instinto protetor. — Ele diz, francamente, enquanto suas mãos serpenteiam a cintura dela, assim, diminuindo a distância entre seus corpos e fazendo seus corações baterem no mesmo ritmo frenético. Nesse instante, seus olhos se fixam um no outro e, de repente, o tempo parece parar.

Havia algo, assustadoramente, familiar sobre esse momento e Ada sentia isso. Era uma sensação estranha e, ao mesmo tempo, reconfortante, como se já tivesse estado ali nos braços dele outras vezes. E tudo parecia se encaixar, perfeitamente.

Por outro lado, Leon sente como se tivesse vivendo uma experiência nova. Há um sentimento avassalador crescendo muito rápido dentro dele, despertando um desejo que achava nunca ter sentido antes.

Com aqueles lábios pintados de vermelho tão perto, de repente Leon sente uma vontade louca de poder beija-la e saber qual era o gosto dela. Instintivamente, ele arqueia seu corpo grande na direção dela, enquanto Ada fecha seus olhos já antecipando e ansiando pelo beijo.

Foi por um milésimo de segundos e seus lábios quase se tocaram. Até que...

— Kennedy, é você aí? — Alguém os interrompe, fazendo com que ambos saiam daquele transe e, rapidamente, se afastem, colocando uma distância segura entre eles. — Desculpe, eu não queria atrapalha-los. — Marvin Branagh tinha um sorriso irônico ao perceber que havia um clima rolando entre os dois. Nesse instante, Ada sente suas pernas ficarem bambas e suas bochechas ficarem quentes.

— Como está tarde, resolvi que vou escoltar a Professora Wong até a casa dela. — Tecnicamente, Leon não mentiu, porque ao vê-la sozinha o detetive dos STARS já tinha tomado essa decisão, mesmo sabendo que tinha passado dos limites ao tê-la tocado e, ainda por cima, desobedecido às ordens do seu capitão.

— Ah. Tá certo. — Marvin ainda mantinha uma expressão divertida no rosto. — Já tá tarde mesmo. Às vezes, as pessoas abaixam a guarda só porque estão numa cidade pequena e acham que é mais seguro.

— É verdade. Muitas pessoas são imprudentes e não levam a sério a sua própria segurança. — Leon nem sabia como conseguiu responder com tanta firmeza, sendo que por dentro se sentia nervoso e ainda muito confuso com o que havia quase acontecido ali. — Boa noite! — Assim que consegue se despedir do outro policial, Kennedy dá uma olhada fugaz para a mulher, antes de decidir retornar para o estacionamento da RPD onde se encontrava o seu carro. Ada não teve escolha, senão segui-lo em silêncio.

Dentro do carro eles se mantiveram em silêncio, perdido em seus próprios conflitos internos. E esse silêncio se manteve durante todo o trajeto.

A ironia é que ambos saíram da delegacia compartilhando de um mesmo sentimento (a raiva), que de forma inesperada, acabou sendo substituída por outros sentimentos que nenhum dos dois sabia descrever.

A única certeza que tinha era que essa confusão de sentimentos havia começado, no instante em que Leon se viu segurando ela em seus braços. Lembrar-se disso, fez seu coração bater desenfreado e um calor se espalhar por seu corpo. Ele apertou o volante tentando controlar a sua frustração, mas não pode evitar de acabar em algum momento, dando um olhar furtivo para a mulher sentado ao seu lado que, aparentemente, parecia inabalável olhando pela janela.

Ada por outro lado também estava sofrendo um dilema. Aquele momento em quase rolou um beijo a afetou sim, tanto que seu coração ainda continuava bastante inquieto. Enfim, a viagem foi breve, embora para eles parecesse que foram os 15 minutos mais longos de suas vidas.

Quando chegaram na frente do Jack's Bar o silêncio ainda predominava entre eles. Ada toma a decisão de dizer alguma coisa, estava pronta para abrir a boca e dizer um "OBRIGADO PELA CARONA." Até que o estômago de alguém resolveu se adiantar e romper aquele silêncio, avisando que esse alguém estava muito faminto.

Ao reconhecer a origem daquele barulho, Ada não conseguiu se controlar e caiu na gargalhada. Logo, ela para e olha para o cara sentado ao seu lado que está lhe encarando com uma expressão carrancuda e com uma postura toda tensa. Os olhos azuis dele parecem cansados enquanto suas mãos continuam segurando apertado o volante do carro.

Ada desvia os olhos e respira fundo, tentando se controlar para não rir de novo. Depois decide abrir a porta do carro e sair, mas para de novo ao olhar na direção do segunda andar onde ficava o seu apartamento. As luzes estão apagadas, indicando que a sua irmã idiota ainda não havia chegado. Por isso ela decide voltar para a porta do Toyota e dar uma espiada, novamente, em Leon.

— Ei, você por acaso... não quer comer um hambúrguer, comigo?