Efeito Borboleta
15 Quebrando Regras

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."
(Dalai Lama)
***
Jack's Bar
O Bar estava bastante movimentado, mas era de se esperar já que era uma sexta-feira e alguns clientes aproveitavam para beber muito enquanto batiam papo até altas horas, pois muitos não tinham a responsabilidade de acordar cedo no dia seguinte e ir trabalhar.
Leon na verdade não curtia lugares barulhentos, cheios de pessoas falando ao mesmo tempo, isso o deixava meio tonto e fazia o seu mau humor piorar. Portanto, ele evitava vir ali com frequência, especialmente nas sextas-feiras. Ainda assim, acabou quebrando essa regra por causa de Ada.
O detetive tinha que admitir que estava faminto, foi logo devorando seu hambúrguer. Ada também havia pedido uma garrafa de Coca-Cola para dividirem entre eles. A princípio a dupla só focou entre comer e beber o refrigerante em silêncio, até que Cindy veio avisar que Fong Ling saiu para fazer compras.
- Nossa, pela demora ela deve estar comprando o mercado inteiro. E pior... vai estourar o meu cartão de crédito. — Ela diz entredentes, fazendo Cindy rir. — Ei Cindy, trás pra mim uma garrafa de Soju de frutas de sabor limão.
- Não vai pedir o tradicional dessa vez? — Indaga a garçonete.
- Não. É que vou compartilhar com o meu... amigo aqui. — Ela lhe dá uma piscadela. — E sei que a maioria dos meus amigos, não gostam do tradicional.
Leon se sentiu surpreso por ela descrevê-lo como um AMIGO, sendo que a relação deles ainda era confusa e cheia de desentendimentos.
- Mas, o senhor Kennedy não gosta de beber nenhuma gota de álcool. — A garçonete conhecia muito bem os seus clientes e sabia que Leon não gostava de bebida alcoólica.
- Ela tem razão. Eu não bebo. — Leon diz pegando a garrafa de Coca-Cola e virando o resto que havia sobrado em seu copo.
- Traz mesmo assim. — Ada repete decidida. — Vou beber sozinha. — Assim que Cindy se afasta, ela foca sua atenção no seu acompanhante. — Então, você é um cara que gosta de seguir as regras. É o CARA certinho do grupo?
- Se eu fosse tão certinho, eu não estaria aqui com você. — Leon diz dando de ombros enquanto terminava de mastigar seu último pedaço de pão. — Então, você tem uma irmã que está na cidade? — Ele percebeu que através de uma conversa casual, talvez, pudesse conhecê-la melhor.
- Sim. Ela é a minha irmã caçula que acabou vindo parar aqui... para me espionar.
- Te espionar? Por quê? Você estava fazendo algo suspeito? — Ele arqueou uma de suas sobrancelhas em um gesto de ironia que fez Ada rir. De alguma forma, o barulho do sorriso dela começou a causar algumas coisas estranhas em seu peito.
- Nossa, você realmente não confia em mim. — Ela resmunga.
- Confiança leva tempo. E você tem que merecê-lo. — Ele foi direto e franco encarando aqueles pequenos castanhos mel enigmáticos.
- Nossa... Então, vou ter que me esforçar bastante para conquistar a sua confiança. — Ada murmura meio indignada olhando para o rosto bonito de Leon e, de repente percebendo que num dos cantos dos lábios dele, havia ficado uma pequena sujeira de catchup e isso começou a incomoda-la.
- Tem um pouco de mostarda aí... bem no canto da sua boca. — Assim que ela tenta avisá-lo, Leon tenta se limpar, só que acaba se sujando mais. Isso faz Ada rir achando que aquele cara sisudo que sempre leva tudo a sério, agora parecia um garoto grande e desengonçado. — Espera. — No fim, ela mesma resolve pegar um pedaço de guardanapo e limpar o rosto dele.
Novamente, lá estava ambos ultrapassando certos limites e quebrando suas próprias regras. E, mais uma vez, Leon se sentiu perturbado com a proximidade dela.
- Aqui está o seu Soju de frutas. — Cindy reapareceu colocando a garrafa de Soju sobre a mesa e dando uma piscadela maliciosa para a dupla. Ada salta de novo para a sua cadeira, ignorando as insinuações que estavam por trás dos olhares e sorrisos da garçonete.
Assim que a outra mulher se afasta, a Professora de Física decide encher o seu copo e virar tudo de uma vez em sua boca, em seguida retorna a encher o copo e bebe mais uma dose, sentindo o gosto da bebida lhe aquecer por dentro e fazê-la dar uma leve arrotada. Tudo isso sob os olhares desconcertados de Leon.
- Você não deveria beber tão rápido assim. Vai acabar ficando bêbada e passando mal. — O detetive tenta fazê-la parar, mas Ada dá de ombros e enche uma terceira vez o copo.
- Eu já estou acostumada. E sou adulta. Além disso, não vou dirigir e ainda moro logo ali em cima. — A mulher faz um gesto com uma das mãos e ergue os olhos para o teto, depois volta a encarar o homem na sua frente. — Cara, você precisa parar de se preocupar tanto e, apenas relaxar. — Ela toma uma terceira dose. — Eu tive um dia de merda hoje e só quero me distrair um pouco. — Depois solta um suspiro, antes de prosseguir com as suas lamúrias. — E isso é culpa tua!
- Culpa minha?! — Ele franze a testa numa expressão de quem não estava entendendo nada.
- É. Sua. — Ela afirma com convicção lhe dando um olhar desafiador. — Desde que nos cruzamos hoje mais cedo, sinto que meu dia azedou. Eu nem consegui almoçar e... depois eu ainda tive que ir na delegacia.
- Cedo, ou tarde, você teria que ir depor, como todos os outros amigos do Birkin. — Ele afirma o óbvio. — Você não tinha escolha. A menos que... decidisse fugir como há 14 anos. — Seu tom era acusatório, assim, como o olhar que ele lhe dá.
- O que você está insinuando? — Ao invés de respondê-la, ele decide fazer outra pergunta.
- Por que você fingiu que não sabia que eu era filho da Annie Kennedy? Por que mentiu? — Leon conseguiu deixá-la boquiaberta. Sem conseguir respondê-lo, ela abaixa os olhos para o prato que ainda continha uns restos do seu hambúrguer. — Eu também já sei que você foi uma das últimas pessoas que esteve com a minha mãe... no dia da morte dela.
- É óbvio! Eu era aluna dela. — Dessa vez, Ada decidiu interrompê-lo.
- É. Pelo que andei ouvindo, você era a aluna FAVORITA dela... Até ganhou uma bolsa de estudos que ela conseguiu para você. Mesmo assim, você foi incapaz de comparecer no enterro dela. — Leon decidiu persistir com aquele assunto, deixando a mulher cada vez mais nervosa. — Ao invés disso, você foi embora... Foi embora antes que a polícia batesse na sua porta. Você arranjou um jeito e fugiu.
- Para! — Irritada com aquela pressão, ela bate a mão na mesa com força, conseguindo fazê-lo se calar. — Que merda! — Sua atitude a faz grunhir frustrada. Eventualmente, um silêncio pesado se faz presente entre eles enquanto os dois trocam olhares raivosos. A sorte é que os outros clientes nem parecem notar nada, já que estão distraídos com suas próprias conversas e bebedeiras.
- Não foi só você que teve um dia de merda. — Leon murmura pegando o seu copo que estava vazio e o colocando ao lado da garrafa de Soju, que ainda continha um pouco da bebida coreana. — Isso é bom para anestesiar a raiva e a frustração? — Ada fica surpresa com a pergunta dele.
- Só vai saber... se provar. — Seu tom ainda é rude, porém ela decide se vingar dele fazendo-o beber a bebida. E, assim Leon o faz, virando o seu primeiro copo de Soju, consequentemente, sentindo o gosto do álcool lhe arder um pouco a garganta.
- Ah, isso não parece tão ruim. Vamos pedir mais uma. — Suas palavras pareciam não combinar com o seu rosto que esboçava uma careta. Ada mesmo querendo ir para bem longe dele, resolveu ceder e pedir por mais uma garrafa que, dessa vez, eles compartilharam.
No final, lá estava Kennedy de novo quebrando mais uma de suas regras, tentando afogar a sua raiva na bebida. Com certeza, amanhã ele irá se arrepender disso. Porém, hoje o homem decidiu ligar o Foda-se.
- Então, você é sempre assim... Sai atacando pessoas quando está com raiva? — Ada ainda se lembrava do ataque de fúria que ele teve contra Spencer e depois do jeito ameaçador com que falou com ela mais cedo na Corporação Umbrella.
- Isso de certa forma foi culpa sua também. — Seus burburinhos alterados se misturam a outros barulhos do bar que incluíam até uma música de fundo bem agitada.
- Culpa minha... Por quê?
- Eu só estava tentando descobrir o que aconteceu com a minha mãe naquela noite. Eu sinto que, talvez, você saiba... Mas, prefere esconder a verdade. — Leon já estava sentindo que o Soju estava fazendo algum efeito em seu organismo, afinal, ele não era acostumado a beber. — Já são 14 longos anos... tentando encontrar respostas e descobrir, quem matou a minha mãe. — Seus olhos se lacrimejaram enquanto ele desabafava. — E se essa pessoa ainda estiver por aí, zombando de mim? — Ver aqueles olhos azuis avermelhados e tão vulneráveis, causaram um aperto no coração de Ada.
- Agora não posso nem continuar investigando esses casos. E eu sinto que... que tudo está conectado. — Ele resmungava aborrecido. — É tão óbvio que me tiraram do caso... porque eu... eu estava incomodando. Porque eu poderia se aproximar da verdade. Eu poderia me tornar uma... pedra no sapato do Spencer, não é? — Leon para e encara a mulher com seus azuis acusatórios. — Eu nem deveria estar aqui com você. Meu capitão me mandou... ficar longe de você. Mas, olha só o que eu tô fazendo?
Ada engoliu em seco, chocada demais com as coisas que ele dizia, sem saber como lidar com aquela situação e nem com aquela versão dele. Se bem que ela mal o conhecia e pelo pouco que viu, Leon era uma pessoa difícil, complicada e implacável. E, acima de tudo, o policial parecia que desconfiava dela e a odiava, ou algo do tipo.
Entretanto, talvez, ninguém poderia culpa-lo por agir assim. O homem era uma pessoa atormentada pelo passado, desesperado por descobrir quem matou a sua mãe.
- Você é... uma... uma cientista também, certo? Então, me diz uma coisa. Seja sincera... — Sua voz já está meio arrastada. — Você acredita que existam... Universos Paralelos?
- Eu acho que sim. Nossa galáxia não é a única. A ciência teoriza que existam várias outras galáxias. E, talvez, não sejamos os únicos seres vivos que existam nesse imenso universo. — Por um instante, aquele assunto serviu como uma boa distração para ambos e ajudou a aliviar um pouco o clima entre eles. — Talvez, nesse exato momento, há um casal como nós em outra dimensão... fazendo a mesma coisa que a gente. — Ada ri achando tão inusitado estar falando sobre aquilo com ele, ao mesmo tempo em que Leon está calado, meio hipnotizado por Ela. — Ou, talvez, Ela tenha tomada uma decisão bem diferente da minha e nunca aceitou a sua carona. E nunca tenha... lhe convidado para comer um hambúrguer.
- Eu não gostei dessa dimensão... onde ela não... aceitou a carona dele. E eles não comeram o... hambúrguer. — Leon com a voz já muito arrastada, ainda insistia com o assunto, só que Ada já se sentia cansada e decide finalizar a conversa e colocar algum limite seguro entre eles.
- Bom, a gente já gastou saliva demais. É hora de cada um seguir o seu rumo. — Ela se levanta pronta para pagar a conta e depois ir embora, mas inesperadamente, Leon segura uma de suas mãos, impedindo-a de se afastar dele e ultrapassando mais uma vez os limites.
Contudo, assim que suas mãos se tocam, uma coisa extraordinária e inesperada acontece... Ada, subitamente, tem um Déjà Vu:
"Não vá embora! Por favor, não desista da gente!"
"Mas, quem desistiu da gente primeiro foi você. Você escolheu continuar arriscando a sua vida pelos outros. Você me abandonou primeiro."
"Não é verdade! Você é e sempre será a coisa mais importante da minha vida."
"É tarde demais. Eu já fiz a minha escolha."
"Wesker não vai te fazer feliz."
"Como você pode saber?"
"Porque você não o ama."
"Leon não piore as coisas. Você tem que me deixar ir."
"Não posso." Ele a puxa entre seus braços e lhe dá um abraço apertado com medo de perdê-la. Ele sabe que falhou com ela, que a magoou. Ainda assim, Leon não consegue deixá-la ir embora da sua vida. "Você é uma parte minha que eu não posso deixar ir. Eu te amo, Ada." Então, ele a beija, um beijo desesperado, apaixonado, que lhe devora os lábios querendo fazer aquele momento durar para sempre.
No entanto, aquele PARA SEMPRE logo acaba e, num piscar de olhos, Ada é puxada de volta para a realidade. Mesmo assim, nem dá tempo dela se recuperar daquelas visões, pois Leon ainda está ali segurando a sua mão e olhando, intensamente, para ela com aquelas íris de cor azul celeste.
- Eu sei que deveria ficar... longe de você. Mas, não sei o porquê eu... eu não consigo me afastar. — Leon diz embriagado, antes de sua cabeça cair com um baque sobre a mesa.
Fale com o autor