Efeito Borboleta

8 O Primeiro Encontro





"Hoje é o dia que tudo começou. Que o seu mundo e o meu, são ligados por um nó inseparável."

(Dark)

***




Hospital Geral de Raccoon City


Ada sabia que não precisava ser levada ao hospital, pois não havia se machucado, porém esse foi um bom motivo para tentar afastar o tal cara que todos comentavam ter salvado a vida dela. Entretanto, seu plano acaba não dando certo já que o seu Salvador decidiu acompanha-la dentro da ambulância. E durante todo o percurso, ele não conseguia tirar os olhos dela.

"E, santo de Deus!" Aquele homem tinha os olhos azuis mais bonitos que já viu em seus 36 anos, mas apesar de bonitos eram olhos que também a fizeram teme-lo. Ainda dentro da ambulância, ela também se lembrava de ter visto rapidamente na camisa dele o emblema dos STARS, o que a fez pensar que o seu "Herói" era da equipe de elite da RPD. Ou seja, era um policial... Ou seja, não foi um salvamento casual.

Já no quarto de hospital e longe do estranho, ela pôde se recuperar um pouco do susto e de todas as emoções confusas que estavam a dominando no momento. Todavia, a solidão só a fez pensar mais sobre o que havia acontecido na praça da Torre do Relógio.

Ada ainda se sentia perturbada por aquelas visões que acabou tendo quando aquele policial a tocou. Naquelas visões, a Professora de Física pôde vislumbrar cenas dos dois se olhando num parque de diversão enquanto ela lhe entrega um balão azul. Depois eles apareciam sorrindo e caminhando lado a lado com as suas mãos entrelaçadas como se fossem namorados, ou amantes... E o mais chocante de tudo, era que a cena demonstrava dois jovens apaixonados.

"Aquilo não era real. Foi apenas um devaneio meu." Aquilo a deixou ainda mais angustiada e querendo, simplesmente, fugir para longe dele.

Minutos depois, um médico veio falar com Ada e fazer alguns exames só para comprovar que ela estava bem. Assim que ele termina com as perguntas: "Você sente alguma dor? Tontura? Enjôo?" A Professora de Física responde que está com um pouco de enxaqueca e que se sente ainda um pouco assustada e cansada, mas só quer ir para o seu apartamento. O Doutor George Hamilton, então, decide libera-la para poder se recuperar do trauma em casa e apenas receita um remédio para a sua dor de cabeça e lhe recomenda repouso.

Ele também lhe avisa que há dois policiais do lado de fora do quarto esperando para falar com ela. E, um deles era o seu Salvador. Obviamente, ela se sente desconfortável, sua enxaqueca parece piorar.

Os dois policiais entram no quarto, o grandalhão de cabelo escuro se aproxima mais da cama, enquanto o outro cara dos olhos azuis bonitos que a salvou, para na entrada da porta e cruza os braços sobre o peito e ainda lhe dá aquele olhar penetrante que a força a ter que desviar seus olhos para longe dele.

- Então, como está a nossa paciente? — Diz o policial grandalhão lhe dando um sorriso simpático que ela não conseguiu retribuir. — Quer dizer, acho que devemos antes de tudo, nos apresentar. Eu sou o detetive Christopher Redfield... — Ele estende a mão para cumprimenta-la, só que Ada apenas decide ignora-lo sentindo as suas bochechas esquentarem de vergonha pelo ato. E Chris ao se deparar com o jeito displicente dela, resolveu mudar o foco todo para Leon, tentando esconder o seu desconforto. — Bem... e o herói aqui... se chama Leon Kennedy. – Há uma troca de olhar tensa entre os dois.

Talvez, eles iriam acha-la sem educação e mal agradecida, mas Ada sabia que um simples aperto de mão podia trazer um turbilhão emoções e fazê-la ver coisas do futuro que não queria ver. Isto é, ela não sabia se aquelas visões que surgiam quando tocava em algumas pessoas, eram mesmo visões sobre o seu futuro.

De qualquer forma, a situação desconfortável já havia se instalado no quarto de hospital e tudo o que conseguiu fazer foi ficar em silêncio olhando para as suas mãos. Porém, mesmo evitando a todo o custo de olhar na direção da porta onde estava o tal Leon Kennedy, a Professora sabia que ele continuava olhando para ela.

- Ela está bem. Talvez, só um pouco traumatizada pelo acidente. — O médico decidiu dizer para quebrar o silêncio desconfortável. — Eu já dei alta para a senhorita Wong. Só recomendo que ela não dirija por hoje.

- O quê? — Ela se sentiu frustrada e irritada com o médico. — Deixei o meu carro na praça e...

- Não tem problema! — Leon a cortou, rispidamente. Ele também estava irritado com a forma indiferente que ela estava tentando trata-los. — Nós pegamos o seu carro e te levamos em segurança até a sua casa. — Kennedy era um cara que, por muitas vezes, era descrito como frio e apático, só conseguia demostrar emoções para a sua mãe e seus amigos e, raramente, sorria. Entretanto, ao ver a mulher esboçar uma expressão de irritação, isso o fez sorrir por dentro.

O caminho de volta para a praça da Torre do Relógio foi breve já que o hospital ficava, praticamente, aos fundos da Torre. Eles ainda conseguiram passar próximo ao local do acidente e viram um guindaste retirando a cabine do caminhão todo amassado de dentro do lago que não era profundo.

- O motorista não estava dentro do caminhão na hora que tudo aconteceu. — Explicava Chris enquanto dirigia a viatura. — Se tivesse, provavelmente, estaria morto, ou gravemente ferido. — Minutos antes do acidente, o motorista tinha acabado de sair do caminhão para fazer uma entrega ali perto quando o caminhão desceu ladeira abaixo. — A sorte é que só houveram estragos materiais. Mas, o proprietário ainda terá que responder por isso.

- Aqui. Meu carro está aqui. — Ada o interrompe assim que encontra seu carro estacionado.

- Um conversível vermelho. Uau, vou amar dirigi-lo! — Brincou Chris já saindo do carro animado.

- Não, Redfield! Eu vou com ela. E você vai nos seguindo. — Leon o puxou de volta o impedindo de prosseguir e, em resposta, ganhou algumas reclamações ásperas de Chris.

Enfim, Ada relutantemente teve que ceder e entregar a chave do carro para Leon. Neste momento, suas mãos se tocaram, fazendo ambos sentiram como se uma pequena corrente elétrica tivesse lhes atingido. Imediatamente, ela se afastou dele e se encolheu em seu banco, decidida a ficar quieta até o fim da viagem. Curiosamente, dessa vez que se tocaram, a professora não teve nenhuma visão, o que a deixou mais calma.

O trajeto demoraria mais do que ela gostaria, pois para complicar a sua situação, o trânsito naquelas horas era terrível, muito fluxo de automóveis indo e vindo. E olha que eles viviam numa cidade pequena. Sem contar os semáforos que parecia uma eternidade para abrir, assim, os forçando a ter que parar e esperar. Leon por outro lado se sentiu estranho na presença dela. Era difícil decifra-la, a única certeza que tinha era que a mulher parecia não gostar da presença dele, ou talvez... tivesse medo.

O silêncio entre eles foi se tornando tão desconfortável, que Ada decidiu ligar o rádio e abrir a capota do conversível para ao menos poder curtir o céu ao anoitecer e aproveitar melhor o ar fresco que vinha bagunçar um pouco os seus cabelos.

Leon não ouvia música já fazia algum tempo, certamente, desde a morte da sua mãe. Ele tentou se distrair desse pensamento olhando de soslaio para a Ada, o vento bagunçava os cabelos curtos dela enquanto ela parecia distraída olhando para o céu.

- Antes do acidente lá na ponte... você estava tirando fotos do céu? — A pergunta repentina conseguiu chamar a atenção dela. — Você também viu aquele clarão colorido? — Ada não esperava que aquele policial fosse tentar puxar conversa.

- Vi. — Ela hesitou, mas acabou respondendo. — Eu achei bonito e muito interessante pra compartilhar com os meus alunos.

- Então, você é Professora?

- Sim. — Ela não teve muita escolha, senão abrir o jogo e falar um pouco de si. — Dou aula de Física para a Universidade de Raccoon. E também sou cientista. — Nesse instante, alguém buzina atrás deles, avisando que o sinal abriu.

- Que ironia! — Leon retorna a dirigir enquanto continua puxando assunto. — Então, você é uma cientista que dirige um conversível com a capota aberta.

- E o que tem isso?

- Bem, eu li recentemente, que cientistas fizeram uma pesquisa sobre pessoas que dirigem com a capota abaixada. Isso pode causar problemas irreversíveis a audição.

- Ah, eu sei. Mas, não se preocupe... Eu não dirijo sempre, assim. Só quando estou despreocupada e por pouco tempo. — Ela, tecnicamente, não precisava ter que explicar isso a ele. Mas... — Mas, você não precisa... realmente, se preocupar comigo.

- Esse é o meu trabalho. Sou policial pra manter as pessoas seguras e longe do perigo. — Ele foi direto e um tanto seco.

- Certo. E hoje você cumpriu mais uma vez o seu dever. — Ela devolve a resposta com o mesmo tom direto, mesmo que no fundo, a professora sabia que estava sendo injusta. Afinal, o policial havia arriscado a própria vida para salva-la, o mínimo que deveria fazer era pelo menos agradecê-lo. Ada para e reflete sobre isso, até que resolve que deveria ao menos dizer um simples OBRIGADO. No entanto, quando estava prestes a abrir a boca pra dizer aquela palavrinha mágica, Leon a interrompe com sua próxima pergunta.

- O que você acha que era aquele clarão? — Leon ainda estava obcecada com aquilo. — Quer dizer, se você é mesmo uma cientista deve entender melhor os segredos que se escondem sobre céu. — Leon olhou de canto para ela, percebendo que Ada deu um sorrisinho.

- Bem, há duas teorias: A primeira é que o clarão poderia ser lixo espacial. A segunda é que... pode ser um meteoro... — Ela parou e ficou séria de repente. — Há uma terceira teoria. Mas, essa é só... A MINHA TEORIA.

- Gostaria de saber sobre essa sua... TEORIA. — Kennedy está curioso e, dessa vez, eles trocam um breve olhar.

- Eu ainda não sei... — Por um breve momento, ela se permitiu observar melhor o rosto dele e era um rosto bonito, embora a barba por fazer o deixasse com uma expressão mais carrancuda e o fazia parecer mais velho, porém por trás de suas órbitas azuis havia uma certa inocência. Isso a fez lembrar daquela visão sobre os dois. Só que na sua visão, ele surgia sem barba e parecia bem mais jovem.

— Talvez, ainda não exista uma resposta... — A professora e cientista desvia os olhos para longe dele se sentindo tão atormentada por aqueles pensamentos. — Talvez, aquilo que vimos no céu... seja uma das várias coisas inexplicáveis, que existe no universo e que ainda... buscamos decifrar.

O silêncio volta a pairar sobre eles e permanece assim até chegarem a seu destino. Ironicamente, ela morava no andar de cima do Jack's Bar que era um lugar bastante frequentado por Chris, Barry e outros policiais que costumavam aproveitar o final do expediente, principalmente, às sextas.

- Então, você mora aqui. — Leon diz, assim, que entrega a chave do carro para ela. — Por que nunca nos vimos antes? — A pergunta também era uma reflexão pessoal.

- Ah, eu... sei lá... Talvez, seja porque estou na cidade há pouco tempo. — A professora se sentiu hesitante e só desejava que ele fosse embora e parasse com todo aquele interrogatório. Afinal, eles tinham se conhecido há poucas horas e parecia que aquele policial já estava sabendo muito sobre ela.

- Não queria interromper o casalzinho aí, mas a gente tem que ir... — Redfield surgiu com a viatura de polícia e não perdeu tempo em provoca-los. Leon resolveu apenas ignora-lo como sempre fazia, depois deu um último olhar para a mulher e, quando já estava prestes a entrar na viatura, ele ouvi a voz dela, chamando-o.

- Só queria lhe agradecer por... ter salvado a minha vida. Obrigada! — Seus olhos se cruzaram mais uma vez.