Efeito Borboleta
6 Noite Sangrenta

"As pessoas vivem três vidas. A primeira termina com a perda da ingenuidade, a segunda com a perda da inocência e a terceira com a perda da própria vida."
(Dark)
Raccoon City
2007
Leon conseguiu provar a sua inocência graças ao testemunho de Claire Redfield. Claire era a melhor amiga de Lisa e sabia de toda a história com as fotos vazadas e o cara que havia; não somente partido o coração da garota; como também a humilhado e tentado expor a sua intimidade. O tal cara foi preso e seu celular e computadores foram confiscados. E de fato no meio das coisas dele conseguiram encontrar fotos, um vídeo e ligações entre eles que comprovavam a sua culpa. Ele já possuía um histórico de praticar bullying com outros estudantes e a situação dele ainda poderia piorar caso o corpo da garota fosse encontrado. Entretanto, o corpo continuava desaparecido, o que também os fez questionar se a jovem havia realmente morrido.
— Eu não sei o que é pior, viver nessa espera sem fim de que encontrem o corpo dela, ou viver esperando que ela ainda esteja viva em algum lugar desse mundo. — Dizia Claire diante do memorial feito em homenagem a Lisa Trevor. Ali alguns estudantes vinham e deixavam mensagens de carinho e apoio, outros acendiam velas.
— Sabe, talvez, ela realmente possa estar viva em outro universo. Um universo paralelo. — Respondeu Leon com uma expressão séria. — Você já pensou sobre a teoria do multiverso? E se existisse vários mundos paralelos? E se a Lisa tivesse caindo em outro mundo? E se tivesse ido parar em outra dimensão? — Os dois param para refletir sobre isso, mas para Claire isso era uma coisa, completamente, sem lógica.
— Não. Isso seria loucura. Aliás, essa teoria é tão louca quanto a existência de ETs. — Claire estava surpresa que o garoto que, normalmente, parecia tão antissocial e que, raramente, conversava com alguém na escola, estivesse conversando de forma espontânea com ela. Mal sabia ela, que esse seria o início de uma grande amizade.
***/ /***
Alguns dias depois, acontece o baile de formatura. Tinha sido um dia de muita felicidade e orgulho para sua mãe, Barry e Sally que ficaram ainda mais felizes ao vê-lo vestido num terno que o próprio Burton tinha lhe dado de presente.
— Você tá tão lindo. — Annie diz terminando de arrumar a gravata dele.
— É, nosso rapaz está crescendo. — Brinca Barry. — Tenho certeza que a senhorita Redfield será a garota mais sortuda da noite.
— Ah por favor, não exagerem! — O garoto faz uma cara não tão animada. No fundo Leon não queria ir a festa porque nunca gostou de socializar com tantas pessoas, sobretudo, com aqueles adolescentes tão insuportáveis que convivia, diariamente, na escola. — Eu tenho que ir mesmo? — Ele quase súplica para que sua mãe o deixe ficar para o jantar com os Burton.
— Só se tem 17 anos uma vez na vida, Leon. Então, aproveite esse momento. Se divirta e faça essa noite ser inesquecível para a Claire.
Um carro para na frente da casa e buzina. Era os irmãos Redfield que tinham vindo buscar Leon. Chris tinha ficado responsável por ser o motorista da noite e leva-los em segurança para o baile.
Mais tarde quando Leon retorna, o casal Burton já havia ido embora. Ele encontra Anne sentada no chão da sala, bebendo vinho tinto.
— Então, a festa foi legal?
— Sim. Foi. — Ele dá de ombros como se fosse uma coisa banal enquanto vai se livrando da gravata e do terno.
— Venha Leon, sente-se aqui do meu lado e me faça companhia. — Ela lhe oferece um copo do seu vinho assim que seu filho se senta ao seu lado.
— Mãe, você sabe que eu não gosto de beber. — Ele reclama de cara amarrada. Lá fora começava a cair uma garoa fina.
— Meu Deus, criança! Logo, você... você vai pra facul...dade e eu... vou te perder. — Ela dizia com a voz meio grogue depois de já ter bebido quase toda a garrafa de vinho. — E eu vou ficar sozinha aqui.
— Mãe, não seja dramática! — Ele revirou os olhos e acabou ganhando um cascudo na cabeça. — Aí!
— Você nem está me levando a sério, garoto. — Ele se sentia meio estranho pelo jeito que a sua mãe estava agindo.
— Mãe, eu não estou indo pra outro país e nem me mudando para outro estado.
— Mas, vai me deixar. Cedo ou tarde, você vai precisar me deixar ir... embora. — Agora havia uma amargura e pesar na voz dela. Ela bebericou um resto de vinho antes de continuar. — Eu vou ter que partir, porque no fundo, não posso... Eu não posso... pertencer a... a esse lugar. — Seus olhos azuis se cruzaram com os azuis dele e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — Você é o grande amor da minha vida. O melhor presente que a vida me deu. E por isso... não posso me arrepender... das escolhas que fiz. Porque se... se eu tentasse mudar alguma... pequenina coisa... talvez, você nem estaria aqui. Eu só preciso que saiba... Eu te amo muito, Leon.
— Eu sei mãe. — Ele lhe respondeu se aproximando mais dela e deixando que ela repousasse a cabeça em seu ombro. — Eu também te amo. — Ele murmura baixinho, aproveitando que sua mãe havia acabado de adormecer. Leon não era acostumado a expor muito de seus sentimentos. Às vezes, o rapaz poderia parecer um pouco indiferente, ou seco e direto, mas no fundo havia muito amor dentro dele, sobretudo, pela sua mãe.
Leon se levanta, pega a sua mãe no colo e, cuidadosamente, a leva para o quarto. Depois de cobri-la, beija a sua testa e decide retornar para a sala, pegando os copos e a garrafa vazia para deixar na cozinha. Com tudo em seu devido lugar, ele por fim decide ir se deitar. O sono não demora a vir. Entretanto, aquela noite seria uma noite difícil, onde aqueles sonhos bizarros decidem que iriam voltar a lhe atormentar.
Horas depois, Leon desperta num solavanco com um grito agoniante ecoando pela casa. Ele se levanta e, por instinto, corre para o quarto de sua mãe, não conseguindo encontra-la lá. Um sentimento de medo começa a se criar na boca do estômago e tudo só piora, quando se vê seguindo alguns rastros de sangue que o leva até a sala onde encontra o corpo de sua mãe caído no meio de uma poça de sangue.
— Mãe! — Ele grita desesperado se ajoelhando ao lado do corpo dela. — Mãe, o que aconteceu? — Suas mãos estão trêmulas quando a puxa para os seus braços. A blusa de lã que ela usava está toda suja de sangue. Pela primeira vez, ele se sente perdido, não sabe o que fazer. — Eu vou chamar ajuda! — Mas Annie o impede de se afastar dela.
— Não, querido. É tarde demais pra mim! — Ela toca o rosto dele usando as suas últimas forças. — Eu... tentei... enganar a mor... Não posso mais... O Sen... Senhor... do... Ele veio me... me buscar... Leon... — Suas palavras começam a não fazer mais sentido.
— Não, mãe! Por favor, não feche os olhos! Fica comigo! Mãe, mãe... Mãeeee... — Ele grita angustiado, ao mesmo tempo em que embala a sua mãe em seus braços e chora como nunca havia chorado antes. No fim, Annie acaba morrendo nos braços do próprio filho sem conseguir lhe revelar a verdade.
Enquanto isso, do lado de fora há a sombra de alguém parado no meio da chuva observando a casa dos Kennedy. E, por trás daquela sombra, se escondia o verdadeiro assassino de Annie Kennedy.
***/ /***
O corpo de Annie Kennedy de 46 anos foi levado para o necrotério da RPD, onde um médico legista fez a necropsia e chegou a conclusão que a morte tinha sido causada por uma arma de fogo, pois foi encontrado em seu corpo uma bala minúscula capaz de causar um grande estrago. Foi um tiro que perfurou órgãos vitais e causou uma grande perda de sangue. Dificilmente, conseguiriam salva-la. A parte complicada era que não sabiam que tipo de arma de fogo tinha sido usada para mata-la. A investigação continuaria em aberto por tempo indeterminado. Além disso, Peritos Criminais foram enviados para a cena do crime e tentaram encontrar qualquer pista que os levassem ao suspeito. Porém, o assassino conseguiu fugir sem deixar nenhum rastro. Ele simplesmente, desapareceu sem deixar qualquer vestígio. No entanto, o que mais perturbava Barry Burton é a possibilidade terrível de que o assassino da mãe de Leon poderia ser o mesmo assassino de Seong-chan Park, morto há 18 anos.
Mas, e se fosse o mesmo assassino? Isso significava que o assassino tinha descoberto a identidade verdadeira de Annie. Se os dois assassinatos poderiam estar conectados, isso quer dizer que seria possível ainda encontrar o tal assassino misterioso e, quem sabe, resolver ambos os casos.
Annie Kennedy (1961-2007)
"Uma mãe amável, uma mulher inteligente, destemida e que estará para sempre em nossos corações."
— Casos assim ainda podem demorar algum tempo para ser solucionado. Mas, eu prometo que farei o possível e impossível pra pegar esse assassino, Leon. — Barry afirma enquanto estão diante da lápide de Annie. A cabeça do rapaz está tão cheio de dúvidas, medo e de uma raiva descomunal. Ele queria tanto descontar essa raiva em alguém. — Eu sei que vai ser difícil, Leon. Mas saiba que você não vai estar sozinho para enfrentar essa barra. Você precisa pensar em seguir com a sua vida e continuar com os seus planos. Era isso que sua mãe iria querer. — De repente Burton se interrompe ao lembrar que havia algo que precisava entregar ao rapaz. — Ah, o médico legista achou isso com a sua mãe... — Era um pedaço de papel dobrado. Dentro do papel havia um desenho feito pelo próprio Leon.
— Por que a minha mãe estaria guardando esse papel? — Leon se questiona ao se deparar com aquele desenho que tinha feito anos atrás.
— É um desenho estranho, realmente. Até cheguei a pensar que, talvez, houvesse alguma pista aí. Alguma pista que ela deixou pra você.
— Espera! — Isso fez Leon parar e prestar atenção ao desenho. No desenho havia uma menina e atrás dela havia uma sombra. E ele de repente se lembrou do que a sombra significava.
"O Senhor... ele... ele veio me buscar." Isso o fez relembrar das últimas palavras estranhas da sua mãe.
— Eu acho que ela tentou me dizer que... Que viu ele...
—Viu ele? Ele quem?
— O Senhor do Tempo.
— O quê? Eu não tô conseguindo te entender, Leon.
— Minha mãe queria me dizer que... Que viu o seu assassino. E eu acho que ela queria que eu o encontrasse. É isso. Eu vou descobrir quem é esse assassino... Quem é o Senhor do Tempo. Talvez, eu seja o único que possa encontra-lo.
— Não, garoto. Você vai pra faculdade. E vai deixar que eu...
— Não. Eu não vou mais pra faculdade. — Ele havia acabado de tomar uma nova decisão. — Eu vou para Academia de Polícia. Vou me tornar um policial como você, senhor Burton. — E, a partir daquele momento, encontrar o assassino de sua mãe se tornaria o seu único objetivo e a sua maior obsessão.
{Continua...}
Fale com o autor