Efeito Borboleta

7 E Se o Tempo Parasse





"A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo."

(Mario Quintana)

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Universidade de Raccoon City

2021

— A noção de espaço-tempo é como uma série de fotos que gravam as mudanças do espaço enquanto o tempo progride. Por isso a velocidade é definida pela distância sobre o tempo. — Explicava a professora de Física Ada Wong na frente de uma lousa cheia de fórmulas e equações. Alguns alunos pareciam prestar bastante atenção, ao passo que outros pareciam estar entediados. — E para a velocidade da luz ser consistente, o tempo precisa desacelerar... — Nesse instante, ela é interrompida pelo sinal tocando, anunciando o fim da aula. — Bem pessoal, para o final de semana, recomendo a leitura da página 50, sobre a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein.

Ada Wong era uma professora muito dedicada, apaixonada pelo trabalho e, ao mesmo tempo, muito rigorosa. Ela nascera em Raccoon City, mas quando tinha uns 4, ou 5 anos, seus pais decidiram levá-la para morar em Vancouver no Canadá, onde passou boa parte de sua infância e adolescência. Só depois de completar 15 anos que sua família resolve retornar aos Estados Unidos e, eventualmente, a mulher de origem coreana e chinesa acaba vindo estudar na Universidade de Raccoon City. E, teria se formado ali, se não fosse por um acontecimento trágico ocorrido em 2007 que acabou lhe forçando a largar tudo e ir embora de novo.

— Até hoje eu não entendo, por que você decidiu abandonar o nosso projeto de uma hora para outra e foi embora? — Questiona Spencer.

Após terminar as aulas, Ada havia decidido fazer uma breve visita para seu antigo professor e antigo chefe Oswell E. Spencer, diretor da Corporação Umbrella. O grande centro de pesquisa, de tecnologia e de ciências avançadas ficava bem ao lado da Universidade de Raccoon City. Aliás, muitos alunos de Ciências faziam estágio ali, a própria Professora Wong já tinha feito estágio ali antes de ter que abandonar tudo e ir embora.

— Eu precisei sair. Alguns problemas pessoais me... forçaram a abandonar tudo.

— E agora que você voltou... por acaso, você não tem interesse em retornar para o nosso projeto? — Spencer parou para lhe oferecer uma xícara de café que ela aceitou um pouco hesitante.

— Bem, eu retornei faz um mês. Ainda tô me adaptando a rotina da Universidade e aos novos alunos.

— E os alunos daqui, são muito diferentes dos californianos?

— No geral são iguais. Sempre há aqueles que são preguiçosos, outros que são bastante atenciosos e dedicados. Há aqueles que já demonstram muito talento. — Ela parou para beber o café e fez uma careta ao sentir o gosto forte. — Talvez, a única diferença seja, que os californianos são mais falantes e animados até demais. — Os dois riram. A Professora Wong terminou a sua graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley onde, posteriormente, acabou lecionando também.

— Imagino que deve ter sido muito difícil largar a Califórnia para voltar para esta... cidadezinha. — Spencer podia soar um tanto arrogante quando se tratava de Raccoon City.

— Eu acho que, de alguma forma inexplicável, o destino outra vez decidiu me trazer de volta para a minha cidade Natal. — Os dois trocaram um sorriso.

— É uma grande pena não tê-la ao nosso lado, nesse momento. — Ele dizia pensando no casal Birkin que tiveram que interromper o seu projeto, por questões pessoais. — Não sei se você já sabe, mas a filha dos Birkin desapareceu há mais, ou menos uma semana.

— Sim, fiquei sabendo. Cheguei a falar rapidamente com William. Ele parecia muito mal. E eu não sabia bem o que fazer para conforta-lo.

— Você e William se tornaram grandes amigos, assim como a Annie Kennedy. — Quando Spencer citou o nome de sua antiga professora, Ada se sentiu incomodada. — Annie era uma grande mulher. É uma pena que ela tenha partido desse mundo tão cedo. — Nesse instante, alguém bate na porta os interrompendo. Era Albert Wesker que tinha vindo trazer alguns arquivos para o seu chefe.

Albert Wesker era um estrangeiro que estava trabalhando ali há um ano, era o membro mais novo da equipe. E, assim, que seus olhos se cruzaram, Ada sentiu alguma coisa estranha que a deixou perturbada.

— Albert Wesker veio da Alemanha e é um grande cientista. E já teve experiência até como astronauta. — Dizia Spencer fazendo as apresentações formais entre os dois que se cumprimentam com um aperto de mão demorado. — E esta é a minha cientista brilhante, Ada Wong. — Assim que suas mãos se tocam Ada é, imediatamente, arrastada por um turbilhão de emoções, causadas por pequenos flashes acompanhados por uma sensação forte de Déjà Vu. Uma sensação de já ter vivenciado aquele momento antes e de já ter conhecido aquele homem.

Todavia, aquela sensação não fazia o menor sentido.

— Ah, já ouvi falar muito de você, senhorita Wong. Já até li um de seus livros. — Wesker responde parecendo encantado com a mulher e, completamente, alheio ao desconforto e confusão dela.

— Ah, que ótimo! É um prazer conhecê-lo também. — Ela abruptamente, puxa a sua mão e se afasta dele. Depois dá uma desculpa qualquer, se despede deles e sai o mais rápido possível dali, deixando dois cientista confusos para trás.



Apartamento de Ada Wong


Depois de chegar em casa, tomar um banho e se trocar, Ada decide se jogar em sua cama e tentar dormir. Porém, a presença daquele homem ficou na sua mente. Aquelas memórias fragmentadas e a sensação de Déjà Vu a deixaram muito confusas. Foi só um simples aperto de mão, ainda assim foi capaz de lhe trazer aquela sensação de já ter visto ou vívido aquilo antes. Era por isso que tinha dificuldade em ser tocado por outras pessoas. Ela simplesmente não gostava de ser tocada por nenhum estranho. Abraços só eram permitidos quando eram de seus pais e de sua irmã. Ou seja, namorar sempre foi uma coisa bem complicada.

Não é que Ada nunca tivesse se relacionou antes com outros caras. Na verdade ela já se relacionou com vários... Relacionamentos casuais e superficiais que nunca duravam, às vezes, era apenas sexo sem compromisso. E de alguma forma, relacionamentos íntimos sempre davam muita responsabilidade e geravam muitas expectativas que, no fim, viravam grandes decepções. E ela não queria decepcionar ninguém, assim, como também não queria se machucar. Resumindo: Ada Wong nunca se apaixonou, ou conseguiu se entregar de verdade para ninguém.

A pior parte é que seus pais viviam a pressionando para arranjar um bom partido, casar e ter filhos. Sua mãe era até mais radical e dizia que o tempo estava passando e o tempo era cruel demais com as mulheres. E Ada já tinha 36 anos, se continuasse assim, ela acabaria se tornando uma velha solitária, sem um companheiro para lhe aquecer seus pés nas noites frias, sem filhos para continuar o legado da família. Lembrar-se disso, a fez rir no meio do escuro, enquanto se debatia para dormir.

Ela não era da mesma geração de seus pais que tinham uma visão um tanto ultrapassada da vida. Houve um tempo que casamento poderia ser a única coisa que daria algum conforto financeiro e emocional a mulher. Porém, hoje em dia, tudo mudou. Era só ver o quanto o divórcio aumentou e o quanto que ter filhos não era sinônimo de casamento feliz e duradouro. Aliás, filhos poderiam ser uma grande responsabilidade e uma grande dor de cabeça. Sem contar que o mundo estava cada vez pior, o aquecimento global estava aumentando, bem como a miséria, a fome, as doenças.

— Talvez, eu esteja sendo muito pessimista. — Ela murmurou olhando para o teto. Depois parou em um pensamento que continuava lhe perturbando. — Albert Wesker. — E de repente ela se viu pronunciando aquele nome com um gosto amargo na boca. — Por que eu sinto que já o vi antes? Por que eu tive aquelas visões?

Em breve, Albert Wesker não seria o único a lhe trazer tais sentimentos confusos e perturbadores.



***/ /***



O trabalho na delegacia de polícia de Raccoon City, às vezes, poderia ser bem difícil e exaustivo. Tinha dias que era uma correria para resolver, desde casos simples a casos de extrema complexidade como assaltos, sequestros, tráfico de drogas, violência doméstica e etc... embora nos últimos anos o índice de criminalidade havia diminuído, significativamente. Todavia, o que realmente estava tirando o sono do capitão Barry Burton e da equipe dos S.T.A.R.S (Serviço Especial de Táticas e Resgate) era o desaparecimento de Sherry Birkin.

A garota de 12 anos sumiu sem deixar qualquer rastro, após sair do colégio e ir com uma amiga brincar no Parque de Raccoon que ficava perto da sua casa. A última imagem que se tinha dela foi capturada por uma câmera de segurança do lugar que flagrou o momento em que a garota, ao atravessar a rua correndo, teria sido atropelada. O problema é que no instante exato do acidente, a câmera para de funcionar, impedindo de ver o que realmente aconteceu. Só se sabia que Sherry desapareceu, repentinamente, como se fosse num passe de mágica sem deixar rastros. Não havia sangue, nem marcas na lataria do carro e nenhum corpo para provar que o acidente ocorreu, ou se ela estava viva, ou morta.

Para uma cidade pequena, o desaparecimento de Sherry Birkin se torna cada vez mais assustador e estranho, porque ele se parecia muito com o desaparecimento de Lisa Trevor que ocorreu em novembro de 2007 e ainda permanecia sem solução.

— É verdade que enviaram um agente do FBI pra ajudar no caso do desaparecimento da Sherry? —­ Indagou Claire Redfield curiosa encarando o seu irmão.

— Sim. E ela tá no nosso pé o tempo todo. Adivinha quem é? — Chris diz enquanto dirige o seu carro mal humorado.

— Quem?

— É a Valentine.

— Sério? Nossa, você deve estar tão feliz! — Claire deu um risinho sarcástico ao imaginar a cara de seu irmão ao se deparar com sua ex-noiva que agora havia se tornado a sua própria superiora.

Christopher Redfield e Jill Valentine tinham namorado por anos, até resolverem morar juntos depois que ela engravidou. Eles até chegam a ficar noivos, porém a relação não durou muito após o nascimento da filha, Jenna. Com as brigas constantes e uma oferta de emprego onde trabalharia para o FBI, Jill decide romper de vez o noivado e ir embora levando consigo a menina. Para Claire esse retorno poderia reacender velhas feridas e sentimentos mal resolvidos.

— E como foi reencontrar a sua ex? — Ela continuou o provocando.

— Ah, cala a boca, Claire! — E enquanto os irmãos Redfield discutiam, Leon que estava sentado em silêncio no banco de trás, de repente se distraiu ao olhar pela janela do carro e avistar um clarão colorido que surgiu quando as nuvens se moveram. E havia uma mistura de roxo, verde e amarelo envolta delas. Foi nesse momento que ele se lembrou de já ter visto aquele fenômeno,14 anos atrás.

— Para o carro! — O carro é freado, abruptamente, em seguida, Leon sai correndo sem explicar o motivo.

O detetive corre, desenfreadamente, até chegar a ponte que dava acesso a praça da Torre do Relógio de São Miguel. Leon para sobre a ponte e continua a olhar o céu, se sentindo obcecado pelo relâmpago, ou seja lá, o que era aquilo. No entanto, um vento forte passa por ele deixando no ar um perfume suave e inebriante que, imediatamente, o atraí. Seus azuis se distraem a procura da origem daquele perfume tão inebriante.

Ada Wong também estava passando próximo a Torre do Relógio quando viu aquele mesmo fenômeno sobre o céu. Aquele show de luzes entre às nuvens era fascinantes. Ela pensou em registrar e compartilhar isso com seus alunos, por isso pegou o celular e tentou gravar o momento. É neste instante, que a Professora de Física teve uma sensação de estar sendo observada. Logo, os seus pequenos olhos se deparam com um par de olhos azuis lhe encarando, fixamente.

O momento em que ambos se distraem apenas se olhando, demoradamente, só é rompido quando eles escutam o barulho de buzinas e freios de carro, bem como gritos de pessoas. Fugazmente, um caminhão desgovernado atravessa o parque, batendo em alguns carros e depois vem na direção de Ada. Não há muito o que fazer, senão ver o acidente trágico acontecer, num milésimo de segundos.

— Não! — Leon grita desesperado e estende a sua mão como se quisesse alcança-la. Todavia, algo que só poderia ser descrito como sobrenatural, subitamente, acontece...

De repente todos os relógios param de contar as horas. Até mesmo a Torre do Relógio paralisa completamente, assim como o fluxo de pessoas, os barulhos ao seu redor, o caminhão que para a poucos centímetros de atingir a bela mulher que permanece estagnada no mesmo lugar, sem mover um fio de cabelo... Em contrapartida, Leon é o único que está presenciando aquele momento, olhando para todos os lados e constatando que tudo paralisou, exceto as batidas do seu coração e o relâmpago no céu.

Por puro instinto, Leon corre, freneticamente, na direção daquela mulher e, por uma fração de segundos, consegue se jogar sobre o corpo dela e arrasta-la para longe do perigo, no exato momento em que o Tempo volta a correr normalmente, fazendo tudo ao seu redor retornar ao seu fluxo natural, inclusive o caminhão desenfreado que atravessa a ponte e cai direto no lago.

— Você está bem? — Ele diz enquanto tenta recuperar o seu próprio fôlego com a adrenalina causada pela situação perigosa e pela presença dela. Ele ainda está com o seu corpo sobre o corpo dela, a olhando com aqueles olhos azuis que a atraem com uma força avassaladora.

Tudo sobre aquele momento, a faz sentir como se já tivesse vivido aquilo antes. Novamente, Ada estava tendo uma sensação de Déjà Vu. Só que essa sensação era também muito diferente de tudo o que já sentiu antes... Era algo mais profundo e arrebatador.


Notas finais
HEHE... Até que enfim AEON se conheceu. E que encontro louco foi esse? Bjus e até a próxima!!!