Efeito Borboleta
29 Lar Doce Lar

"O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna."
(Clarice Lispector)
***
Raccoon City
2021
— Afinal, como foi o seu depoimento? — Ele a questiona depois de dirigir algum tempo em silêncio. — Acho que pelo seu humor, o capitão não foi gentil.
— Então, ele é acostumado a ser assim? Achei que era só comigo! — Ela murmura com os olhos fechados. — Me senti como se eu fosse a suspeita, ou a criminosa. — Apesar de que no fundo, Ada sabia que não tinha sido completamente honesta, pois omitiu coisas importantes. E entre essas coisas, estava o fato de que Wesker apareceu para salva-la do Assassino, antes de Leon chegar.
Todavia Albert Wesker era para estar morto. Então, Burton lhe mostrou as câmeras do elevador que flagraram o suposto sequestrador de Spencer e, surpreendentemente, ele também se parecia com Wesker.
A questão é... Como isso era possível? Só haviam duas explicações: Ou Albert Wesker forjou a própria morte, ou...
— Ele era uma duplicata. Talvez de outra dimensão... — Sussurrou distraidamente.
— O que você disse? — Leon retrucou curioso para saber o que estava se passando na cabeça dela.
— Não é nada demais. — Ada decide manter essa informação pelo menos por enquanto em segredo. Afinal, se Leon soubesse disso, era bem capaz de querer prender Wesker de novo. E ela não queria vê-lo preso de novo.
— Vamos escutar um pouco de música. Isso sempre me relaxa. — Ela resolve acabar com a conversa ligando o rádio numa música qualquer.
A princípio Leon se sentiu um pouco frustrado com isso, porque fazia tanto tempo que não ouvia música e sabia que a Ada fez isso meio que para ignora-lo. Ele estava pronto para reclamar e até entrar em outra discussão com ela. No entanto, acabou desistindo ao vê-la cantarolando baixinho, com os olhos fechados e, realmente, parecendo relaxar um pouco.
Somente alguns minutos depois, é que Ada percebeu que Leon parecia ter mudado a rota do carro, os levando pela estrada que passava próximo da floresta Arklay.
— Aonde estamos indo? — Os castanhos dela o fitam com curiosidade e certa preocupação.
— Você já vai saber. Estamos quase chegando lá. — A estrada logo os leva a uma vila que ficava mais distante da cidade e não demora muito para eles chegarem ao seu destino.
Leon estaciona o carro na frente de uma casa com um grande portão que parecia ter sido recém pintado com uma cor bege. A casa era modesta com dois andares, um sótão, três quartos, mas apenas um banheiro, no andar debaixo havia a cozinha, uma pequena lavanderia e, por fim, a sala de estar onde sua mãe havia sido assassinada. Aliás, cada canto daquele lugar estava cheio de memórias dela, algumas felizes, outras muito dolorosas:
"Então, você vai sair agora?" Annie para bem na sua frente com suas roupas um pouco largas e com o cabelo já começando a ficar grisalho preso num coque.
"Sim, mãe. Eu não vou demorar."
"Pelo menos posso saber aonde você vai?"
"Não muito longe. Vou caminhar aqui por perto."
"Você vai sair sozinho de novo?"
"Não me censura, mãe."
"Eu não quero te censurar. Só me preocupo que você está sempre só."
"A solidão pode ser uma boa companhia."
"Uma melhor companhia até mais que a sua mãe, eu vejo."
"A solidão nunca poderá competir com você, mãe."
"Isso é uma promessa?"
"Sim, mãe. Sempre será nós dois contra o mundo."
E, apesar daquelas lembranças fortes e de ainda se pegar lembrando do corpo morto de sua mãe na sala de estar que teimava a lhe assombrar, ainda assim, nunca conseguiu se livrar da casa.
No início quando Burton o convenceu a ficar com eles, Leon cogitou a vender o imóvel, no entanto, não teve coragem de prosseguir com essa ideia. Claro que com o passar dos anos, o rapaz teve que se desfazer de algumas coisas, móveis que iriam começar a apodrecer, outros objetos que começou a mudar de lugar, outras coisas quis manter do mesmo jeito. Porém, foi só nos últimos dois anos que começou a fazer uma reforma no lugar, sem mexer muito na estrutura dela. Ele trocou o forro, algumas telhas, mudou todo o assoalho. No último mês começou a trocar as tintas das paredes. E tudo isso foi bom de certa forma, porque era quase uma terapia para se livrar do rancor, do ódio e acalentar essa saudade imensa que ainda sentia de Annie. E a única coisa que permaneceu igual era o quarto dela que sempre manteve limpo e com tudo em seu devido lugar. Um quarto que estava sempre trancado.
— E aquele quarto? — É óbvio que isso começaria a mudar, a partir do momento em que tomou a decisão arriscada de trazer Ada ali. Aliás, ele nunca convidou ninguém para visitar aquela casa, com exceção de Claire. E foram raras às vezes em que a jornalista veio ali.
— Esquece aquele quarto. Ele está trancado. E o dono não quer que... ninguém entre lá. — Leon mente tentando demonstrar desinteresse pelo assunto.
— O que será que ele tem lá? — Só que às vezes Ada poderia ser alguém, teimosamente, curioso. Leon ainda estava receoso, pois sabia que se a Professora descobrisse sobre a sua ligação com este lugar, ela provavelmente ficaria com medo e o acharia louco. E, talvez, ele de fato fosse louco e masoquista por trazê-la ali em sua antiga casa, onde uma tragédia havia acontecido.
— Não importa. Você tem outras partes da casa para explorar. — Ele decide puxá-la pela mão como se ela fosse uma criança e levá-la para um outro quarto. — Você vai ficar aqui. — O quarto parecia espaçoso, limpo e tudo bem organizado, havia uma janela grande com uma sacada.
Por um instante, Leon até decide sair para tomar um ar fresco na sacada, dali se podia ver o quintal que praticamente dava de fundo com a floresta Arklay e também onde haviam várias árvores e folhas que nesse período ganhavam tons alaranjados, resultado do outono e que davam um ar diferente para a paisagem, sem falar em algumas flores típicas da estação que estavam espalhadas pela região. Surpreendentemente, lá fora o céu parecia azul, ensolarado e menos frio.
— Aqui é bonito e parece calmo. Acho que vai ser bom respirar novos ares. Só tem um único problema... — Ada diz parando no outro canto da sacada, observando o quintal e a vegetação atrás dela.
— Que problema? — Leon a encara intrigado.
— Deve ser um pouco assustador aqui durante a noite. — No fundo, ela estava outra vez começando a ter medo do escuro.
— Você não vai precisar se preocupar com isso, porque não vai estar sozinha. Eu vou ficar e cuidar de você. Aliás, se precisar de mim vou estar no quarto da frente. — A ironia é que pela primeira vez, ele será forçado a ter que compartilhar aquele lugar com ela. Isso seria um baita incômodo, mas fazer o quê se precisavam mantê-la segura e longe daquele Assassino.
— Quer dizer que... só vai estar nós dois aqui, sozinhos? — Agora ela estava bem nervosa com isso.
— Você tá com medo de mim? — Ele ironiza lhe dando um olhar muito insinuante, enquanto caminha em direção a ela.
— Não... — Sua voz parece vacilar e ela se vê recuando. — Só acho que será estranho. — Ela entra de volta para dentro do quarto e vai se sentar na cama, tentando fingir se distrair com o colchão. — E o resto das minhas coisas?
— Bom, não precisa se preocupar. Sua irmã fez uma lista. Só não deu para trazer tudo... Eu trouxe só o necessário que está no porta-malas do carro.
— Posso usar meu celular? Aliás, cadê ele?
— Você deve tê-lo perdido.
— Ah, droga! É verdade. — Ela se lembrou que o perdeu quando estava fugindo do assassino.
— Tentamos encontra-lo, mas sem sucesso. De qualquer forma, você não iria poder usá-lo mesmo. Então, nada de internet, celular, ou computador. Bloqueamos tudo.
— Caramba, estou me sentindo como se tivesse numa prisão. — Ela realmente estava chateada agora. — Como vou falar com os meus pais e minha irmã?
— Você não vai poder falar com eles. É muito perigoso. Ninguém pode saber que você está aqui. Nem mesmo a sua irmã. Então, tudo o que você precisar é só pedir pra mim.
— Como vou me distrair aqui?
— Você vai ter a TV e alguns serviços de streaming para se distrair. E se você achar que tudo ficou tedioso... — Seu tom é irônico. — Aproveita esse isolamento e escreve um novo livro. — Ele já estava se preparando para sair quando se lembrou de mais uma coisa importante. Leon pega do seu bolso um pequeno dispositivo e coloca na palma da mão de Ada. — É um rastreador. Use ele o tempo todo, assim vou saber onde você está e que está segura.
***/ /***
Por algumas horas, Ada foi deixada sozinha para ter alguma privacidade e poder organizar as suas coisas no seu novo quarto. Cansada acabou se deitando na cama e fechando os olhos até que pegou no sono. Um sono agitado que a levou a ter aqueles terríveis pesadelos que a faz acordar gritando e assustando o Detetive.
— Você está bem? — Ele invade o seu quarto com uma arma em punhos.
— Aí droga, abaixa isso! — Ela reclama nervosa e também assustada.
— Me desculpa! Eu achei que... — Ele abaixa a arma, mas mesmo assim, ainda mantém uma postura tensa olhando pela janela que estava meio entreaberta. — Já está tarde para você ficar com a janela aberta.
— Eu me deitei por um minuto e devo ter cochilado um pouco.
— Um pouco? — Leon ironiza olhando na direção do relógio que está na mesa de cabeceira perto do abajur.
— Caramba, já anoiteceu?
— É. Imagino que você deve estar com fome. Só vi você beliscar uma maçã mais cedo.
— Eu estava um pouco enjoada. Mas, agora acho que tô disposta a jantar. — Ela diz mais animada.
— Certo. O jantar já está pronto, senhorita. — E realmente quando descem para a cozinha, ela já se depara com a mesa já pronta com o jantar. Havia arroz recém cozido, uma tigela com salada, frango frito e, o que mais a surpreendeu, Yakisoba de carne (uma de suas comidas chinesas preferidas).
— Ah, que gentil da sua parte trazer Yakisoba pra mim. — Ela diz fazendo um som de satisfação, após provar a primeira colher.
— Agradeça a sua irmã. — Ele brinca se sentando na sua frente e se servindo. — Ela que me ajudou...
Os dois passam os próximos minutos comendo e, vez ou outra, conversando coisas aleatórias e sem importância. Até que Ada se sente curiosa para saber o que aconteceu entre Leon e Claire na noite passada.
— Então, como ficou as coisas entre você e a sua amiga?
— Bom, como você já sabe, Claire descobriu que vocês estiveram no meu apartamento e dormiram no quarto dela. Nós discutimos. — Leon diz cheio de lembranças desagradáveis da tal briga. E agora estava se sentindo culpado pela forma como a jornalista foi embora. — Por pouco o capitão não ouviu a nossa discussão e descobriu...
— Que você levou uma testemunha para o seu apê. — Ela decide dar a sua própria conclusão sobre a situação. — Acho que no fundo você sabe que o seu capitão tem razão... Estou me tornando uma distração que está te atrapalhando. — Ela desvia os olhos para o seu prato, tentando esconder a sua chateação.
— Você não está me atrapalhando. — Ele discorda, só que ela simplesmente o ignora.
— Estou sim. Você está preso aqui comigo e tendo que bancar a babá.
— É, nisso você tem razão. Você não é uma pessoa fácil de lidar. — Ele não perde a chance de provocá-la. — É quase como uma criança barulhenta.
— Como se você fosse a pessoa mais fácil e doce do mundo, né. — Retrucou Ada.
— Aqui estamos nós em guerra de novo. — Seu comentário bobo fez Ada rir. Pelo menos o clima era bom, leve, confortável e Leon poderia admitir que a presença dela poderia ser uma distração agradável.
— Bom, obrigado pelo jantar, foi gostoso e divertido. Até que você não é uma companhia ruim. — Ada se levanta e vai até o armário procurar um copo limpo para beber água. Só que o copo estava numa prateleira alta e, mesmo nas pontas dos pés, ela não consegue alcançar. É, então, que sente quando suas costas tocam o peito dele.
— Aqui. — Ela se vira para encontrar Leon muito perto dela, quase a encurralando entre a pia da cozinha e o corpo forte dele. Aqueles azuis são penetrantes. Por um instante, a mulher se demora contemplando o quão bonitas são aquelas órbitas de cor celeste e, então, havia os lábios dele convidativos. A vontade de beijar passa rápido, assim, que o celular de Leon começou a tocar quebrando o clima.
— Obrigada! — Ela pigarreou desconcertada, depois tentou se distrair enquanto enchia o copo de água e bebia num gole só. O celular dele ainda continua tocando, irritantemente. — Eu vou aproveitar e... tomar um banho. — Ada dá um sorriso forçado antes de fugir, deixando um Leon dividido entre ir atrás dela, ou atender a ligação.
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