"O tempo pode ser medido com a batidas de um relógio, ou pode ser medido com as batidas do coração."

(Rubem Alves)

***


Apartamento de Jill Valentine

— Você já viu o Leon agindo assim antes com outra mulher? — Claire questiona Jill enquanto as duas assistem a um filme.

— Não fica remoendo isso, marrentinha! — Era o jeito carinhoso que Jill e Chris costumavam chamar Claire. — Leon me disse que só se aproximou da Wong pra descobrir mais sobre a relação dela com a mãe dele. — Jill tenta explicar enquanto faz um cafuné nos cabelos da filha que está dormindo com a cabeça em seu colo.

— Então, você acha que ele só tá tentando ganhar a confiança dela pra conseguir alguma informação valiosa? — A ruiva estava insegura. — Ele chegou a leva-la para o nosso apartamento. Além disso, a irmã dela chegou a insinuar que eles estavam sim tendo um caso. — Ela não conseguia parar de pensar em Leon e em toda essas questões.

— A única coisa que sei conhecendo o Leon todo esse tempo, é que ele sempre foi um cara impetuoso e persistente, que leva muito a sério o trabalho. E o seu ponto fraco era a mãe. Portanto, tudo que ele está fazendo... é pra descobrir quem assassinou a sua mãe. Então, eu não sei se o que está rolando entre eles é tão profundo a ponto... de virar um romance.

— Mas, ele está diferente. Eu sinto isso. — Claire continuou se sentindo indignada. — Nós temos brigado mais que o normal. Eu disse a ele que iria retirar todas as minhas coisas do apartamento dele. Mas, ele nem se importou.

— Meu Deus! — Jill não conseguiu se controlar e riu. — Vocês parecem um casal brigando mesmo. — Seu riso faz Jenna resmungar incomodada pela conversa delas.

— Ah, que legal que o meu sofrimento te diverte.

— Claire, a gente está tendo uma semana difícil. Estamos todos sob pressão. Ainda há um assassino a solta fazendo vítimas. Então, não pressione o Leon e nem vá atrás da Wong. Isso só vai fazer o Leon acabar se afastando de você. — Valentine continuou lhe dando conselhos, mesmo sabendo que sua cunhada, dificilmente, iria seguir.

— Eu fui no apartamento hoje pegar as minhas coisas e ele deixou um bilhete se desculpando e dizendo para eu ficar e aproveitar o apartamento. Ele terminou escrevendo que SENTE MUITO.

— Esse "SINTO MUITO" vindo de Leon... poderia ser equivalente ao... EU TE AMO. — Jill resolve enfatizar para irritação de Claire que joga uma almofada na cabeça de sua amiga.

— Ei, que droga! — Jenna acorda de mal humor.

— A culpa é da sua mãe. — A ruiva solta um suspiro meio tristonho enquanto desfaz o rabo de cavalo e tenta pentear suas madeixas com os dedos. — Parece que o Leon vai estar fora por alguns dias. Eu me pergunto... Aonde ele foi?

— Não olhe pra mim... Eu não faço ideia. O único que com certeza deve saber... é o babaca do seu irmão.

— Papai não é um babaca. — Jenna resolve defender Chris deixando sua mãe frustrada.




Residência Kennedy

Subitamente, ela se vê de volta na estação de metrô discutindo com Annie Kennedy.

"Por que você está fazendo isso? Por que você quer tanto que eu vá embora?"

"Não há nada nessa cidade para você a não ser morte e sofrimento. Se ficar, todos nós iremos morrer." Porém, quando se vira para ir embora se depara com Leon parado na sua frente.

"Você nunca deveria ter voltado para esta cidade. Por que você voltou? Por quê?" Ele começou a encurrala-la impedindo-a de fugir e a assustando. "Por sua causa todos eles estão mortos." Leon arqueia a cabeça e olha para atrás dela, forçando Ada confrontar a pilha de cadáveres de todos os seus amigos mortos.

O cenário se torna ainda mais aterrorizante, quando ela olha de volta na direção de Leon e ele está sangrando no meio do peito, pois havia acabado de ser apunhalado pelo assassino.

— Leon, não! Por favor, nãooo! — Ela acorda e se senta na cama, sentindo sua face molhada pelas lágrimas e com o coração batendo a mil por hora. Esse pesadelo conseguiu ser mais aterrorizante que todos os outros. E essa noite seria com certeza mais uma noite infernal.

Aquele pesadelo a deixou tão atormentada que Ada ficou com medo de dormir. Ela decide ligar o abajur para iluminar o quarto e fazê-la se sentir menos desprotegida, somente alguns minutos depois que cria coragem para se levantar. Estava frio, então, jogou apenas seu roupão por cima de seu pijama, antes de abrir a porta do quarto e dar de cara com um corredor silencioso. Pelo menos as luzes dali estavam acesas.

Por um instante, para na frente da porta do quarto de Leon e pensa em bater, porém no fim desiste, não querendo dar mais trabalho. Depois decide descer as escadas, só que infelizmente o primeiro andar está escuro. Ela respira fundo e toma coragem para continuar. Sua sorte é que o interruptor de luz é fácil de encontrar. E, assim, ela segue acendendo todas as luzes da casa até chegar na cozinha. Tudo estava indo bem, até que o barulho de um trovão a faz pular assustada e, consequentemente, a fazendo derrubar o copo de água que havia acabado de pegar.

— Porcaria! — Exclama sentindo seu coração acelerado. Ela se abaixa para tentar pegar alguns pedaços de vidro, porém leva mais um susto quando se levanta e dá de cara com Leon, ao mesmo tempo que a luz de um relâmpago reflete em seu rosto, causando uma cena de filme de terror e, consequentemente, fazendo-a soltar um berro estridente que o assusta também.

— Eu acho que você quer mesmo me matar do coração. — Sua voz quase falha enquanto sente seu corpo todo tremer de medo.

— Idem... Você também me assustou agora.

— Claro, você aparece aí como uma assombração.

Nos próximos minutos, eles já estão na sala com Leon ajoelhado na frente de Ada enquanto ela está sentada no sofá observando-o retirar, tranquilamente, o pequeno pedaço de vidro da mão dela.

— Pronto. — Ele diz assim que termina de jogar um spray antisséptico e colocar um band-aid na região do dedo indicador. — É, você vai sobreviver!

— Obrigado, doutor. — Ela ironiza.

— Então, o que te fez perder o sono? — Algum tempo depois, Leon decide questiona-la sobre os pesadelos que tanto lhe atormentavam.

— Não é nada. — Ela descansa a cabeça no encosto do sofá e olha para o teto. Mas, então outro trovão a perturba, fazendo-a estremecer e se mover mais para perto de Leon que acabou de sentar ao seu lado. As luzes piscam a deixando mais nervosa. Pelo menos o detetive decidiu acender a lareira, assim, se houvesse algum blackout o fogo ainda os manteria aquecidos e haveria ainda alguma iluminação na sala.

— Relaxa, Ada! — Ele lhe diz em tom gentil. — Não vou deixar que nada aconteça com você. Portanto, você está em boas mãos. — Seus ombros se tocam assim como seus olhos se fitam, demoradamente.

— Eu só não quero que ninguém mais se machuque por minha causa. — Ela estava sendo muito sincera e ele estava disposto a ser apenas um bom ouvinte.

Eles acabam ficando por mais tempo conversando na sala e Ada acaba falando um pouco sobre a sua família e do quanto estava sentindo falta deles. E se surpreendeu por conseguir se abrir com Leon.

— Aposto que você se daria muito bem com meu pai. — Ada sorri divertida, imaginando como seria um encontro entre o senhor Wong e Leon. — Ele sempre quis ser policial, um sonho que nunca se realizou. Ao invés disso, ele virou dono de um restaurante chinês que foi crescendo e se expandido pela a América do norte. Mas apesar disso, eles ainda levam uma vida simples. — A tempestade continua a cair lá fora enquanto ela se distrai com a conversa.

— É. Ouvi dizer que os Wong já tiveram um restaurante famoso na década de 80 aqui na cidade. — Ele estica um dos braços por cima da cabeça dela sem toca-la, porque não queria que isso a fizesse se afastar. Mesmo sem se tocar, eles continuam muito próximos.

— É verdade. E tudo começou aqui nessa pequena cidade. Essa pequena cidade que hoje em dia a minha mãe odeia. — Essa informação deixou Leon muito intrigado.

— Por que a sua mãe odeia Raccoon City? — Sua cabeça se vira para observar mais atentamente as reações de Ada.

— Bem, é complicado. Eu acho que é mais que ódio... é medo. — Seus pequenos olhos de traços orientais agora estão distraídos com a lareira.

— Medo do quê? — Ele indaga torcendo para que ela não queira se calar agora.

— Se eu continuar falando, daqui a pouco você saberá mais sobre mim, do que eu de você. — Ela decide reclamar com toda razão. — Não acho isso justo!

— Tá bom. O que você quer saber sobre mim? — Suas palavras parecem firmes, mas seus azuis são inseguros.

— Ah, sei lá... — Ada parou tentando pensar no que gostaria de perguntar, até que se lembrou de algo que lhe intrigava bastante. —Desde que te conheci... eu nunca te ouvi falar sobre o seu pai.

— Eu não o conheci. — Ele é direto e um pouco áspero, pois aquele assunto era algo que lhe incomodava muito. — Minha mãe não falava muito sobre ele e eu nunca me esforcei pra querer saber. Talvez, porque já havia uma presença paterna na minha vida. — Leon lembrou de Burton que sempre esteve ao seu lado lhe ensinando tantas coisas.

— Acho que temos algo em comum. Eu também não conheci o meu pai biológico. — Ela solta aquela informação tão de repente, deixando Leon perplexo.

— Não entendi? — Ele tenta chamar a atenção dela, antes que a professora pegue no sono e o deixe no vácuo.

— Meus pais biológicos morreram quando eu era muito pequena. Então, os Wong me adotaram. — Ela começa a bocejar parecendo cansada.

Toda aquela história estava o intrigando tanto. Seu lado investigador não conseguia parar de querer ir mais afundo e descobrir mais sobre o passado dessa mulher que estava sentado ao seu lado e com quem começaria a compartilhar a sua casa, sem saber por quanto tempo eles permaneceriam ali.

— Às vezes, eu acho que... sonho com o meu pai biológico. Mas, não são sonhos felizes... É trágico, assustador... — Ela boceja novamente, pisca os olhos, depois se encolhe mais perto do corpo de Leon e deixa a sua cabeça pousar no ombro dele. — Nesses sonhos a morte vem me buscar... — Sussurra antes de fechar os olhos completamente e acabar adormecendo.

Kennedy está ainda em choque por tudo que ela lhe revelou. Sua mente estava tentando montar aquele quebra-cabeça. Cada informação nova iria o levar a algum lugar. Agora ele sabia que se aproximar dela foi a coisa certa a fazer. De repente ele boceja, sinal que o cansaço estava lhe vencendo, seus olhos também começam a pesar. E, assim acaba caindo no sono e dormindo com Ada no sofá da sala.


***/ /***


Ela estava o beijando muito, apaixonadamente, enquanto seus corpos nus continuavam emaranhados. A boca dela vai deslizando por seu pescoço, depois por seu peito, parando por um instante sobre o seu coração que naquele momento estava batendo, freneticamente. Em seguida, os beijos continuam seguindo por um caminho mais perigoso e ousado quase o deixando louco. Naquele momento, se sentia tão rendido aquela mulher que estava dominando sua mente, seu corpo e seu coração. Entretanto, quando estava prestes a atingir o seu ápice, a voz de Ada o desperta.

— Aí meu Deus! — Ada se levanta e começa a massagear a nuca um pouco encabulada, ao mesmo tempo em que Leon se senta e puxa uma almofada, tentando esconder a sua ereção.

— Desculpa, eu... — Sua voz está tão ofegante, seu rosto está corado e seus azuis estão constrangidos. Num piscar de olhos, Leon resolve desaparecer da sua vista, se trancando no banheiro e depois tomando um banho frio. Mais tarde, Ada se pega rindo dessa situação toda.


***/ /***


— Vocês falaram com o capitão sobre o caso de 1989? Conseguiram descobrir mais alguma coisa sobre Monica Birkin? — Leon indaga olhando para o painel de investigação criminal que estava montado em seu sótão longe da vista de Ada.

No painel foi colocado o máximo de informações que tinham. Ali haviam fotos da primeira vítima de 1989 que era o caso do doutor Park Seong-chan, ao lado de sua foto havia apenas um nome destacado em vermelho de Monica Birkin e embaixo do nome dela havia uma foto de Annie Kennedy. Leon nem imaginava que as duas eram na verdade a mesma pessoa.

Depois ele ainda acrescentou fotos das vítimas atuais (William Birkin, Albert Wesker e Rebecca Chambers). Havia também uma foto de Spencer que foi marcado como DESAPARECIDO. E, claro, um retrato falado do Assassino Misterioso que ainda estava marcado com um ponto de Interrogação.

— Infelizmente, o capitão não me deu muitas informações. Afinal, esse caso foi arquivado por falta de provas. — Chris responde ainda intrigado por aquele caso que parecia impossível de ser solucionado. — As únicas informações que conseguimos é que ninguém na cidade ouviu falar dessa mulher. Nem mesmo os Birkin.

— É. Isso é verdade. Eu fui pessoalmente com Claire falar com a Annette e ela disse que não conhecia nenhuma Monica. — Jill se encontrava em seu escritório na RPD falando com Chris e Leon por vídeo chamada.

— E sobre a filha do doutor Park? — Leon vinha pensando muito sobre aquela criança, especialmente, após descobrir que ela se parecia muito com a garotinha que aparecia em seus pesadelos, desde quando ele ainda era um garoto.

— Quando perguntamos sobre a criança, o capitão ficou estranho, tenso... — Burton decidiu revelar para Chris apenas que a garota foi levada em estado de choque para o hospital e, que no dia seguinte, um casal de amigos do cientista vieram e levaram ela embora. — Não há mais informações sobre o paradeiro da menina e nem quem eram esses amigos que a levaram, porque eles foram colocados no Programa de Proteção a Testemunha. Ou seja, podem ter mudado de nomes e estão vivendo até em outro país.

— Isso complica as coisas. — Interrompe Jill pensativa. — Embora mesmo que os encontrássemos, não quer dizer que isso irá nos ajudar a solucionar os crimes de agora.

— E se eu disser que posso ter encontrado o paradeiro da garota e da atual família dela? — Leon terminou de montar o seu painel de investigação criminal, por fim colocando a foto da criança (retirada do jornal da época) ao lado de uma foto de infância de Ada Wong que havia conseguido com a Fong Ling. Para ele a criança e a cientista estavam no centro de todos os acontecimentos. E a possível conexão entre elas e o Assassino misterioso era a chave que faltava para desvendar o caso.

— Espera... Você acha que filha daquele cientista é a... Ada Wong? — Chris se levanta e para ao lado de Leon com uma expressão de choque.

— Pessoal, eu ainda estou aqui! Do que vocês estão falando? — Jill questiona sem poder ter uma visão dos dois policiais. Os dois caras se entreolham, antes de Chris pegar o seu celular, tirar uma foto do painel e enviar para a agente do FBI. Ela abre a foto e amplia a imagem se surpreendendo com o que Leon havia descoberto. — Kennedy como é que você descobriu isso?

— Olha isso ainda é só uma suspeita. Por isso vamos precisar investigar os pais da Ada primeiro. — Leon diz enfaticamente encarando Chris. — E por enquanto é melhor que esta investigação sobre a família dela, fique somente entre nós três.




Notas finais
O Leon safadinho tá querendo um carinho especial da Ada, mas num tá sabendo pedir kkkkk