Efeito Borboleta

17 Em Algum Lugar do Passado





"Estamos destinados a perdermos as pessoas que amamos.

De que outra forma saberíamos o quanto elas foram importantes?"

(O Curioso Caso de Benjamin Button)

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Raccoon City

2007

Annie dirigia, apressadamente, pelas ruas movimentadas da cidade, passando quase raspando por entre carros e ônibus.

— Professora, será que você podia diminuir a velocidade. — Ada dizia olhando preocupada para a mulher ao seu lado.

— Nós não temos tempo.

— Como assim?

— Já estamos quase perto da estação do metrô. Eu vou te deixar lá em segurança. E, por favor, vá direto pra casa e só saia para ir embora dessa cidade. — Annie dizia entredentes apertando o volante, nervosamente.

— Mas, eu... Eu não decidi se quero ir embora. Eu estava tão empolgada com a ideia de criarmos uma máquina do tempo e...

— Esqueça o projeto! — Annie grita sem paciência. Ela precisa convencer a jovem a largar tudo e ir embora, antes que seja tarde demais.

— Por que você está fazendo isso? Por que você quer tanto que eu vá embora? É por causa daquele cara? A senhora o que conhece?

— Não. — Ela mente. Annie ainda estava confusa quando viu aquele homem que se parecia muito com o seu irmão falecido. E tudo ficou mais sinistro quando ele lhe chamou de Mãe. Ela precisava chegar, urgentemente, em casa e ver o seu filho, pois sentia que algo muito ruim estava prestes a acontecer.

— Não há nada nessa cidade pra você... a não ser morte e sofrimento. — Annie para o carro, assim, que chegam na estação do metrô.

— O quê? Você está começando a me assustar, Professora.

— Se você ficar e prosseguir com o projeto... — Seus olhos azuis estão cheios de urgência e pânico. — Todos nós iremos morrer, entendeu?! — Quando Ada se deparou com aquele olhar sombrio e aquelas palavras mordazes, ela percebeu que aquilo era muito sério. — Então, pegue essa bolsa de estudos e vá se tornar uma cientista brilhante lá fora. Vá e jamais volte aqui. — Aquele momento se torna a última vez que ela vê a Professora Annie Kennedy.



Hospital Geral de Raccoon City


No Hospital de Raccoon City, Leon acorda desorientado. Um médico tenta falar com ele e acalma-lo. Aparentemente, o que o trouxe ali foi um mal súbito que agora já havia passado. E, apesar de estar fora de risco, o médico ainda decide que o melhor era mantê-lo ali em repouso.

— Que dia é hoje? — Leon indaga se sentindo incerto do que estava acontecendo com ele agora.

— É 14 de junho. — Aquilo já estava o deixando totalmente conturbado.

— De que ano?

— De 2007. — Assim que o médico diz aquelas palavras, sem pestanejar Leon pula da cama e se veste, rapidamente. Ignorando todas as recomendações do médico, Ele sai do hospital frenético, pensando somente em uma coisa: Se era julho de 2007, isso significava que... Que ele viajou no tempo. E aqui a sua mãe ainda estava viva. Portanto, Ele precisava, desesperadamente, encontra-la e impedir o seu assassinato.



Raccoon City

2021

A RPD passou dias difíceis e muito agitados após os últimos acontecimentos. O desaparecimento de Leon tinha causada uma comoção grande entre seus colegas e outros membros do departamento de polícia. O capitão Burton estava num estado de nervo terrível, ele mobilizou todas as equipes possíveis para fazer uma busca geral por toda a cidade. E eles continuaram, incessantemente, procurando por alguma pista que os levassem até o Kennedy.

O máximo que a polícia conseguiu chegar nas investigações foi na última ligação que Leon recebeu de Ada Wong. Aliás, a conexão com Ada Wong foi mais além, já que no meio das investigações os S.T.A.R.S acabaram descobrindo que, quatro dias antes do seu desaparecimento, o detetive teria jantado com a Professora de Física no Jack's Bar. Essa informação acabou chegando aos ouvidos de Claire Redfield.

— Claire, se você vai tentar falar com aquela mulher, ao menos tente segurar esse... seu gênio difícil. — Chris tentou aconselhar a irmã, sabendo que ela podia ser muitas vezes teimosa.

— Olha só quem fala?! Como se você fosse um anjinho. — O que ambos os irmãos mais tinham em comum era a personalidade forte.

— Tem certeza que vai fazer isso? — Os dois terminam de subir as escadas e param na frente da porta do apartamento de Ada Wong. — Ela pode nem querer nos atender. E ainda estaria no direito dela.

— É por isso que eu te trouxe aqui... — Ela diz encarando, sarcasticamente, seu irmão mais velho. — Como você é da polícia, ela não vai poder se negar a falar com a gente.

— Você me trouxe para intimidá-la? — O homem grandalhão faz uma careta desanimada.

— Exatamente. — Claire em seguida aperta a campainha, insistentemente, até que uma Fong Ling aborrecida vem lhes atender.

Ada estava em seu quarto trabalhando arrodeada de papéis, livros e do computador e montando as atividades de sua próxima aula, quando precisou ser interrompida pela inconveniência dos irmãos Redfield.

— O que vocês querem agora? — Ada já estava tão cansada das mesmas indagações e dos olhares acusatórios de todos, como se realmente a tivessem culpando pelo que houve com aquele Detetive.

— Bem, essa é a minha irmã Claire. Ela é... — Chris tenta fazer as apresentações entre as duas mulheres, mas logo vê que o clima estava hostil.

— Sim, eu já sei que ela é jornalista. Já ouvi falar dela. — Ada sibila grosseiramente, trocando um olhar frio com Claire.

— Só queremos que você... apenas abra o jogo e diga a verdade! — Claire já chegou cheia de exigências. — Eu quero saber como foi que você conheceu o Leon? Que tipo de relação vocês estavam tendo? E o que aconteceu entre vocês dois na sexta-feira passada? — Ela, praticamente, cuspia tudo de uma vez sem piedade.

— E você... Qual é o tipo de relação que você tem com o policial Kennedy? — Ada decidiu rebater com o mesmo tom exigente. — Isso é só uma questão jornalística, ou é pessoal?

— Ele é o meu melhor amigo, porra! — A ruiva exclamou entredentes. — Ao contrário de você, eu o conheço há bastante tempo. E eu sei que Leon nunca gostou de beber e, muito menos de encher a cara e acabar dormindo na casa de uma... desconhecida. — A ruiva tinha um tom de desdém.

— Eu acho que o pior seria se... ele tivesse dormido na cama da Ada. — Zombou Fong Ling, dando um sorriso irônico que só aguçou ainda mais a raiva de Claire e deixou Ada em pânico.

— Cala a boca, Fong! — A professora Wong diz com os lábios semicerrados.

— O Leon não é esse tipo de cara! — Claire enfatiza convicta de seus argumentos. — Ele sempre gostou de seguir as regras que até chega a ser chato. Além disso, sua irmã com certeza... não faz o tipo dele. — Ela continuou desdenhando Ada.

— Oras, sempre tem uma primeira vez para tudo. Até pra se quebrar suas próprias regras. — Interferiu Fong Ling mais uma vez achando um saco tudo aquilo. — Além disso, o cara é adulto e solteiro... Ou não é? — Ela continuou provocando Claire que a fuzilou com os olhos. — E se Ada e o detetive Kennedy estivessem tendo alguma coisa, isso não é da conta de ninguém.

— Para! Isso não tá ajudando! — Chris grunhi ficando sem paciência com todas aquelas picuinhas entre elas.

— Então, você está insinuando que... — Mas, Claire continuou ignorando os olhares de advertência de seu irmão.

— Não tô insinuando nada! — Fong Ling retruca novamente.

— Droga! O que eu sei é que você... — A ruiva encara Ada com um olhar furioso e acusatório. — Está apenas tentando enrolar todo mundo. Minha intuição diz pra não confiar em você. E a minha intuição nunca falha.

— Sempre tem uma primeira vez! — Ada ri, sarcasticamente, querendo no fundo mandar aquela jornalista insolente, se foder.

— Já chega vocês duas! — Chris decidiu intervir uma última vez, antes que as duas mulheres acabassem até chegando as vias de fato. — Na verdade só estamos perdendo tempo aqui. Não é dessa forma que vamos encontrar o Leon.



Raccoon City

2007

— Ah querido, você demorou pra chegar! — Ela diz puxando um adolescente Leon para os seus braços.

— O que foi mãe? — Leon achou estranho o jeito que sua mãe estava agindo desde que acordaram naquele dia.

— Me diz se... se algum estranho apareceu hoje na escola e... tentou falar com você? Ou te ligou?

— Não.

— Aconteceu alguma coisa diferente hoje com você?

— Eu acho que não. A única coisa diferente agora é você agindo assim, mãe.

— Me desculpa. Eu só estou preocupada com bobagens. — Ela diz arrumando a gravata dele.

— Ah, ela só deve estar preocupada, porque seu único filho está indo para o seu primeiro baile de formatura. — Burton tentou aliviar o clima.

— Então, mãe... E se eu não for? Sabe, eu não me importo com o baile e...

— Não, querido. Você tem que ir e aproveitar esse momento. Afinal, só se tem 17 anos uma vez na vida. — Ele estava vestido em seu terno de gala, parecendo tão elegante e bonito. — Então, vá e se divirta. Ah, e faça essa noite ser inesquecível para Claire.

Do lado de fora da casa, se encontra um outro Leon observando toda a cena pela janela, como se fosse um mero telespectador. E ele estava em choque vendo aquilo. Logo, uma buzina de carro o interrompe, lhe forçando a se esconder enquanto observa a sua versão mais jovem sair pela porta e seguir até o carro onde se encontrava os irmãos Redfield.

Depois que o trio sai, Leon retorna para a janela e passa a assistir aquele último jantar de sua mãe com o casal Burton. E enquanto os observava, seus olhos se encheram de lágrimas, lágrimas de saudade. Nesse instante, ele escuta um estrondo forte, um barulho que retumba no céu chamando a sua atenção.

Ele desvia os olhos para o céu escuro, vislumbrando um relâmpago iluminar, furiosamente, aquela noite. Não demora muito para sentir as primeiras gotas de chuva caírem sobre seus cabelos e sua jaqueta. O relâmpago vem acompanhado de trovões e raios. É quando um zunido ensurdecedor o atinge, forçando-o a tapar as orelhas com as mãos. O zunido é tão forte que não apenas faz os seus ouvidos doerem, como também faz a sua cabeça latejar, incessantemente, como se fosse explodir.

Leon cai de joelhos se contorcendo de dor e morde os lábios, a fim de segurar seus gritos na garganta. De alguma forma, aquilo o faz perder a noção do tempo e o deixa tão desorientado que, quando consegue se reorientar e se levantar, o casal Burton já havia ido embora e sua mãe se encontrava sozinha, bebendo uma taça de vinho. É nesse instante que ele sente como se tivesse sendo observado também.

Logo, seus azuis se fixam na direção do portão, onde se encontra um sujeito estranho, vestindo o que parecia ser uma capa de chuva cinza escura. O estranho ao perceber que foi pego tenta fugir, porém Leon não hesita em segui-lo. Ele sai numa perseguição alucinante até chegar num beco escuro, onde consegue encurralar o seu inimigo.

Há uma breve luta corporal entre eles. E, no meio desse confronto, seu inimigo puxa uma faca conseguindo fazer um corte no braço do policial. Isso ainda não é suficiente para aplacar a fúria de Leon.

— Foi você seu desgraçado! — Leon vocifera, depois de conseguir vislumbrar o rosto de seu inimigo. — Era você todo esse tempo? Fala? — Nesse instante, seus azuis se chocam com outros azuis. Ambos estão ofegantes, sangrando e se encarando. — Era você o assassino?

— Do quê você está falando? — O outro loiro indaga com dificuldade. — É você que não deveria estar aqui. Você deveria estar morto aqui também.

— Aonde você quer chegar com isso? — Ele empurra o homem de novo contra a parede, fazendo-o grunhir de dor.

— Você não sabe não é? Ainda não entende como isso funciona? — O homem indaga e depois tosse um pouco de sangue quase em cima de Leon, antes de tentar prosseguir mesmo com dificuldade. — Ele tá caçando a gente... E só vai parar... quando todos nós estivermos mortos.

— O quê?! — Mas, todo aquele interrogatório acaba sendo interrompido, quando um grito agoniado é ouvido, seguido por um barulho de tiro, fazendo os dois homens se entreolharem assustados. — Mãe?! — Leon grita desesperado ao se lembrar que a mãe está sozinha na casa.

Consequentemente, o detetive abandona o outro homem e sai desatinado de volta para a sua casa. E logo ao adentrar o local, ele já vai se deparando com um rastro de sangue que o leva até a sala.

— Mãe! — Ele exclama angustiado, caindo ajoelhado ao lado do corpo de Annie que está sangrando muito. Há uma marca de sangue em seu peito que está se expandido para toda a sua camisola.

— Ah, Leon... é você mesmo, meu filho? — Ela diz com dificuldade enquanto Leon a pega em seus braços.

— Mãe... só aguenta um pouco... — Ele usa uma de suas mãos trêmulas para pegar o celular no bolso interno da jaqueta, mas o aparelho está com pouca bateria. Ainda assim, ele decide tentar fazer uma chamada para a emergência. Até conseguir ser atendido.

— Olha só pra você... se tornou um homem tão... tão bonito e corajoso como... seu tio... — Mesmo fraca e ferida Annie ergue sua mão até o rosto de Leon, fazendo-o retornar a sua atenção para ela. Inexplicavelmente, a mulher estava ali diante do seu filho vindo do futuro.

— Mãe aguente firme, logo a ambulância vai chegar.

— É tarde demais, querido. — Seus azuis lacrimejados encaram os azuis tristes de seu filho.

— Mãe, por favor... Não me deixe de novo... Eu não vou suportar... — Ele passa a mão, carinhosamente, pelos cabelos de sua mãe. O corpo dela está tremendo de dor em seus braços. — Me diz quem... quem fez isso, mãe? Me diz e eu juro que vou pegá-lo! — Suas palavras são uma mistura de desespero e ódio. Eles estavam ficando cada vez mais sem tempo.

— Esqueça isso... retorne para... o... o seu mundo... nunca mais... volte... aqui. — Então, ela se lembrou de mais um último pedido que precisava lhe fazer. — E, por favor... fique longe... dela...

— Dela quem? Eu não entendo...

— Ada... — O nome saiu num sussurro quase inaudível. Por fim, Mãe e filho trocam olhares cheios de agonia e angústia. Leon nunca se sentiu tão transtornado como naquele instante. Ele estava lá revivendo aquele momento tão horrível e desolador, sem poder mudar nada. Sem poder salvá-la.

— Eu juro que vou descobrir quem fez isso, mãe! — Ele murmura entre lágrimas enquanto embala o corpo já sem vida de sua mãe em seus braços.

De repente, aquele zunido horrível volta, seguido por uma dor de cabeça tão intensa e incontrolável que o força a fechar olhos. Nesse exato momento, alguns passos pesados são ouvidos e, por instinto, Leon reabre seus olhos só para se deparar com um par de botas pretas parados bem na sua frente.

Ele ergue seus olhos na tentativa de descobrir quem é o dono daquele par de botas, só para dar de cara com o cano frio de um tipo de pistola encostando em sua testa. Há uma luz estranha e intensa que surge de forma súbita o cegando, ao mesmo tempo em que um tiro ecoa estrondoso como o trovão que retumba lá fora.