Efeito Borboleta

18 Ecos do Ontem





"Você tem de conhecer o passado para compreender o presente."

(Carl Sagan)

***


Universidade de Raccoon City

2021

— E se alguém exatamente como eu entrasse pela porta agora. Quem saberia me explicar o que aconteceu? — Questionava Ada olhando para a sua sala cheia de alunos.

— Aqui, professora! — Uma aluna ergue a mão parecendo um pouco insegura. — A teoria de universos paralelos baseada nas funções de ondas?

— Não!

— A repetição e replicação sem fim do universo, originada pela teoria do Big Bang. E a possibilidade de haver doppelgangers. — Tentou responder outro aluno.

— Errado também.

— O Homem-formiga e a vespa? Ou o estalar de dedos do Thanos? — Outro aluno se pronúncia fazendo todo mundo cair na risada. — Ou a resposta certa é que... — Ele para encarando o olhar desafiador da Professora Wong que está de braços cruzados esperando pela sua próxima resposta. — O Flash fez merda e bagunçou mais uma vez a linha do tempo.

— Ah, saia daqui! — Ada rosna fingindo braveza e provocando mais algazarras. — Como foi dito, a teoria do Big Bang diz que o universo é grande e que há vários deles. — Ela falava caminhando de um lado para o outro enquanto continuava explicando todas aquelas teorias. — De acordo com a mecânica quântica, mais de um mesmo objeto pode existir no mesmo espaço. Entretanto, a mecânica quântica, a teoria do Big Bang e de universos paralelos, não são a resposta. — Ela para novamente passando as mãos nos cabelos, nervosa. Embora seu corpo estivesse ali, sua mente parecia que estava bem longe. — A resposta certa é que... Ainda não há resposta. É por isso que aprendemos sobre o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Ela continua se dividindo entre prosseguir com as aulas e, vez ou outra, parar e olhar no celular ou olhar para a tela de seu notebook. Aliás, na tela do seu notebook há uma página aberta com os principais assuntos do Raccoon Press. E, entre esses assuntos, o que estava mais repercutindo pela cidade era o desaparecimento misterioso do Policial Kennedy. Tudo parecia muito estranho e assustador.

"Como poderia alguém de uma hora para outra desaparecer sem deixar rastros?" E Ada não conseguia parar de pensar nele e se sentir preocupada. Para piorar a polícia andou rondando a Universidade e vigiando cada passo que ela dava, como se fosse a suspeita pelo sumiço dele.

— Droga! Onde você está, senhor Kennedy?

Assim que a aula termina, Ada sai pelos corredores da Universidade sem prestar a atenção onde está indo, até que acaba se trombando com um corpo grande e forte que quase a derruba. Os dois se olham assustados.

— Senhor Kennedy! — Ela murmura aflita e chocada ao vê-lo surgir, assim, tão de repente. — Meu Deus! O que aconteceu com você? — Ele estava em um estado deplorável, há um hematoma num dos olhos, uma ferida nos lábios que ainda parece sangrar e as roupas dele estão sujas e molhadas.

— Onde está a minha mãe? — É a única coisa que consegue murmurar de volta.

— Sua mãe? — Ela está em choque encarando aqueles azuis tão tristes. — Você sabe que ela... Ela morreu há muito tempo. — Assim que diz aquelas palavras os olhos dele se enchem de lágrimas. E é a primeira vez que a professora Wong o vê chorar.

Se sentindo tão vulnerável, Leon fecha a distância entre eles e a abraça apertado. Ada a princípio fica sem reação, mas acaba o abraçando de volta e deixando-o chorar em seu ombro. Mesmo sobre a roupa molhada dele, a professora podia sentir o calor que irradiava dele e como aquele corpo grande tremia em seus braços. Logo, o corpo também começa a ficar muito pesado.

— Senhor Kennedy... — Ela tenta se afastar um pouco para olhar no rosto dele e, ao tocar em sua pele é que percebe o quanto está febril. Ele não estava nada bem e tudo só piora quando seu nariz começa a sangrar muito. — O que está acontecendo com você? — Eventualmente, ela não tem força o suficiente para segura-lo e ambos acabam caindo no chão, com Leon desmaiando em seus braços. — Por favor, alguém me ajuda!



Hospital Geral de Raccoon City

Leon foi levado às pressas ao hospital. E assim que chegaram lá, Ada precisou ligar para o capitão Burton e avisar sobre o ocorrido. É óbvio que quando Barry e os irmãos Redfield apareceram ali, a Professora já se sentiu deslocada e nervosa. Afinal, os três já foram lhe enchendo de questionamentos e mais uma vez de acusações também. Acusações descabidas.

— Pelo amor de Deus! Eu já disse que não tenho nada a ver com o sumiço dele e nem por ele estar naquele estado.

— É bom mesmo que você não tenha nada a ver com isso. Ou eu juro...

— Claire, não faça ameaças! Isso pode se virar contra você. — Chris tentava controlar a língua da sua irmã, mas não era uma tarefa fácil.

— Seu irmão tem razão, é melhor você manter essa sua língua afiada dentro da sua boca. — Ada continuava a retrucando com arrogância. Claire só não lhe respondeu, porque foi interrompida por Burton.

— Mas, afinal, por que ele iria de novo atrás de você? — Questiona Burton enquanto espera que sua esposa retorne com notícias de seu pupilo.

— Eu não sei. Simplesmente, aconteceu. — Ada responde se sentindo tão pressionada.

— Nossa, é tão habitual que coisas, simplesmente, aconteçam ao seu redor? Coisas bem estranhas, né? — Claire continuava mantendo um tom afrontoso.

— E o que o Leon te disse? Ele te falou alguma coisa, Professora Wong? — O capitão decidiu intervir de novo, antes que as duas mulheres discutissem, ao mesmo tempo em que tentava descobrir o que aconteceu com Leon.

— Ele parecia muito confuso e tão... triste. E começou a me perguntar onde estava a mãe dele. E depois ele desmaiou. — E embora ela tentava se esconder atrás de uma postura arrogante e firme, no fundo, Ada estava abalada pelo o que havia acontecido. Por acaso as conversas, logo, cessaram quando Sally apareceu para lhes dar notícias sobre o estado de Leon.

— Aparentemente, ele está bem, mas parece que entrou em alguma briga corporal. Há um corte de faca no braço que não foi profundo, mas que ainda precisará de alguns pontos. — Sally lhes explicava fazendo o possível para acalmar os ânimos de todos, sobretudo, do seu marido.

— Mas quem faria isso com ele? Com quem ele possa ter brigado assim? — Claire indaga se sentindo muito aturdida com tudo aquilo.

— Ele é um policial habilidoso. Talvez, ele tenha entrado em confronto com o seu sequestrador. — Era a primeira explicação que apareceu na mente de Chris naquele momento.

— Ele tá bem mesmo? — Burton ainda estava receoso.

— Está. O médico deu alguns medicamentos para ele. Agora ele está dormindo. — Sally passa as mãos sobre os ombros de seu marido tentando acalma-lo. — Mesmo assim, você pode entrar para vê-lo.

— Ei, eu também posso entrar? — Claire, praticamente, pula ao lado de Barry toda desesperada.

— Claro, mas é melhor entrarem apenas duas pessoas por vez. — Sally dá um olhar atencioso entre as quatro pessoas, se demorando mais sobre a mulher de traços orientais que ainda era uma verdadeira desconhecida para ela.

— Então, Claire entra comigo enquanto o Christopher leva a... senhora Wong pra casa. — Mesmo à contragosto, Redfield não teve saída, senão acatar às ordens de seu capitão. Ada estava tão cansada também que não quis discutir. Além disso, não havia mais nada para ela fazer ali. Embora uma parte dela queria ficar e rever aqueles olhos azuis e saber mesmo se ele estava bem.

No caminho de volta para o apartamento de Wong, a princípio só se ouvia apenas o som do rádio que Chris ligou para quebrar um pouco o silêncio entre os dois. Mesmo assim, em algum momento eles acabaram debatendo sobre o que teria acontecido com Leon e até sobre Claire.

— Eu sei que houve muita hostilidade em cima de você. E eles podem ter... cometido algumas injustiças...

— Algumas?! — Ada resmunga.

— Olha, teve coisas que foram realmente suspeitas. Quer dizer, o Leon começou a agir muito diferente depois que te conheceu.

— Mas, eu nem o conheço direito. Trocamos algumas palavras e tivemos... sei lá... uns três encontros casuais. — Ela olha para a janela vendo os prédios da cidade passando, rapidamente, enquanto o carro continua a se movimentar pelas ruas que estavam mais calmas. — E, sinceramente, não nos demos muito bem. Acho até que o senhor Kennedy... me odeia.

— Você sabe que existe uma linha tênue entre o amor e o ódio, né? — Chris diz com um sorriso zombeteiro.

— Ah, claro! Essa é a linha tênue que está entre você e a agente Valentine. — Ada afirmou em tom presunçoso se virando para encara-lo. Chris apenas deu uma leve bufada descontente e depois tentou fingir que estava concentrado em dirigir.

Ela havia estado duas, ou três vezes em torno do ex-casal quando precisou prestar alguns depoimentos, então, conseguiu perceber que havia mais do que dois parceiros de trabalho. Havia muita tensão...

— Uma tensão sexual mal resolvida. — Ela acabou pensando alto.

— O quê?! — Chris se distraiu um pouco da direção e olhou para a sua passageira que estava tentando segurar o riso.

— Ah, vamos ser francos! Você e aquela agente durona...

— Ah, não! Que saco! — Chris exclamou irritado e interrompendo Ada. — A minha história com ela é passado.

— Tem certeza? Às vezes, mesmo o passado... continua sendo algo muito presente em nossas vidas.

— É óbvio que a Valentona está sempre presente na minha vida... Trabalhamos juntos, diariamente. — Ele solta um suspiro de frustração. — Além disso, ela é a mãe da minha filha.

— Uau! Vocês tem uma filha?

— Sim. Ela é linda, tá crescendo rápido demais. E tenho certeza que vai me dar muita dor de cabeça. Ainda mais se herdar o gênio dos Redfield.

— Isso explicaria o Porquê a sua irmã tem um gênio... difícil. Ela sempre foi assim... tão irritante?

— Não fala mal dela! — Chris tentou defender a irmã, mas tudo era apenas uma brincadeira. — Só eu posso fazer isso, porque sou o irmão mais velho.

— Desculpa. —Ela deu um meio sorriso e depois decidiu se calar.

— Claire só tem um único ponto fraco... o Leon. — Por algum motivo as palavras de Redfield causaram um incomodo irritante em Ada. — É por isso que ela ficou tão incomodada com a sua presença. Porque minha irmã está acostumada a ser a única mulher na vida do Leon.


***/ /***


Leon tinha passado a noite no hospital e só conseguiu ser liberado no dia seguinte. Claire decidiu até deixar de ir trabalhar durante a manhã para ir buscá-lo. E enquanto ela dirigia o seu carro de volta para o apartamento dele, o detetive permaneceu em silêncio apenas absorvendo algumas coisas que Barry e ela haviam lhe contado. Ele descobriu que havia sumido por uma semana e que a cidade ficou toda assustada com o seu desaparecimento.

Enfim, Leon sabia que todos começariam a fazer questionamentos acerca do seu misterioso desaparecimento, especialmente, Claire. Só que para ele tudo ainda era muito confuso e complicado de explicar. Ainda mais depois de perceber que aquilo que vivenciou e viu não era um mero sonho, ou pesadelo. Seu olho roxo, o corte no braço (que levou alguns pontos), suas roupas que foram levadas para a polícia científica analisar, tudo isso eram provas de que todas aquelas coisas foram bem reais.

"Mas e se foram reais, o que isso significava? Será que ele viajou no tempo? Isso era possível?"

Ele continuou remoendo esses pensamentos até chegar em seu apartamento, onde tudo parecia o mesmo de sempre. Tudo estava no seu devido lugar. Mesmo na sua ausência, Claire continuou cuidando daquele lugar.

— Obrigado. — Ele murmura com sinceridade se sentando em sua cama.

— Não foi nada. Você sabe que mesmo sem você aqui, eu nunca deixaria a sua casa ficar abandonada. E eu também... sabia que você voltaria. — Claire solta um suspiro de alívio se sentado ao seu lado. — Você nos assustou tanto...

— Eu sei. E eu sinto muito por isso. Eu nunca iria desaparecer, assim, sem avisar.

— É claro que não. Teria que ter acontecido algo muito grave... E é por isso que eu preciso saber... — Ela coloca a sua mão sobre a dele num sinal de carinho. — O que aconteceu com você? Onde você esteve todo esse tempo? —

— Eu... Eu ainda não sei o que... aconteceu comigo. — Leon diz não sendo, totalmente, sincero. — Eu não lembro direito. — Ele desvia os seus olhos dos verdes astutos dela, depois se afasta e se levanta.

— Leon, por favor, se abra comigo... Eu sou a sua melhor amiga! — Ela sai andando atrás dele, determinada a descobrir a verdade. — Confia em mim, porra!

— Eu confio em você! — Ele afirma sem hesitar.

— Se você realmente confiasse em mim, não estaria mentindo.

— Eu não tô mentindo!

— Então, olha bem no fundo dos meus olhos e me fala a verdade.

— Que verdade?! — Dessa vez, ele se vira para encara-la. — Eu já disse que não sei o que aconteceu comigo! — Leon, praticamente, cuspiu aquelas palavras, demonstrando a sua falta de paciência com tudo aquilo. — E ao invés de você me ajudar... você está me fazendo se sentir sufocado. — Ele para respirando, pesadamente, e confronta os verdes dela que agora pareciam refletir uma mistura de raiva e magoa.

— Tá certo. — A ruiva sibila irritada pegando a sua bolsa e decidindo ir embora. — Eu sou uma idiota mesmo por viver me preocu...

— Para, Claire! — Leon exclama nervoso se aproximando dela e a impedindo de sair assim brava com ele. — Me Desculpa! Eu só... só estou... tão cansado, Claire. — Os dois se olham por um instante em silêncio. — Eu confio você. Eu só não tenho as respostas que você quer agora. — Ele ergue suas mãos sobre os ombros dela e dá um aperto suave que parece fazê-la ceder um pouco. — Preciso de um tempo pra descobrir o que aconteceu. E quando eu descobrir, você será a primeira saber.

— Você realmente promete que vai me contar?

— Sim. Prometo. — Aquele momento entre eles acaba sendo quebrado, quando a campainha da porta toca.

— Deixa que eu atendo e já despacho... — Entretanto, do outro lado da porta estavam o capitão Burton, Jill e Chris com a filha deles. Eles haviam combinado de fazer um almoço surpresa para comemorar o retorno de Leon.

— Olá cara, como você está?! — Jill já puxa o loiro para um abraço camarada. — Adivinha o que eu trouxe aqui? — Ela carrega algumas sacolas que dividiu com Chris.

— Tem um cheiro bom. — O cheiro realmente estava muito bom, o problema era que Leon só desejava ficar sozinho.


Notas finais
Eu só acho que se fosse a Ada aparecendo no apê do Leon ele não estaria tão mal humorado.