Efeito Borboleta

5 Durante a Tormenta



"Se pensar bem, todos somos viajantes do tempo."

(Stranger Things)

***


Raccoon City

1995


Era o dia das crianças e, para comemorar, Annie decidiu levar Leon para se divertir num parque de diversão, aproveitando que a tarde estava ensolarada e quente. Várias crianças lotavam o parque e se divertiam nos brinquedos, ou se empanturravam de doces ou de cachorro-quente. Naquela tarde algo curioso acabou acontecendo que chamou bastante a sua atenção. Enquanto se distraiu pegando um algodão doce para o seu filho o garoto se afastou por meros segundos, o suficiente para quase deixá-la em pânico, até que o encontrou a poucos metros acompanhado de uma garota que deveria ter uns 10 anos mais ou menos. A garota segurava um balão azul que parecia ter sido o motivo que o atraiu até ela.

Annie ficou por alguns instantes, apenas observando a interação das duas crianças, algo sobre os dois a fez sentir um aperto no coração e uma intuição estranha. Olhando para os dois ELA se lembrou do dia em que apresentou seu irmão caçula para a sua amiga de faculdade e tudo tinha acontecido, assim, de forma casual enquanto estavam num parque de diversão. Exatamente, como estava acontecendo com seu filho e aquela menina que, curiosamente, possuía traços orientais como o formato de olhos pequenos e puxados, ou os cabelos pretos e lisos que caiam por seus ombros. Talvez, por conta desses traços tão marcantes a menina lhe pareceu tão familiar e lhe fez pensar em... Ada.

Nesse momento, a ex-cientista aproveita que estava com uma máquina fotográfica e decide tirar uma foto de seu filho com a garota para guardar de recordação. Após tirar a foto, Annie pôde ouvir alguém chamando a garota. E, para o seu espanto, o nome da garota não era qualquer um, senão...

— Ada. — Havia uma mulher que também possuía traços orientais chamando a garotinha que antes de ir embora, decide dar a Leon o seu balão azul.

— Isso só pode ser uma grande e bizarra ironia do destino! — Ela murmura para si.



Raccoon City

1999


Leon sempre fora uma criança mais introvertida uma característica que o fazia ser solitário na escola. Sua mãe sempre tentava fazê-lo se enturmar, mas o garoto não gostava e na maior parte do tempo as outras crianças sentiam, ou medo de seu filho, ou gozavam dele por acha-lo esquisito. Isso foi piorando com o tempo, por conta dos desenhos macabros que seu filho desenhava.

Certo dia Annie foi chamada a escola após a professora de Artes ter se deparado com um rascunho bizarro feito por Leon. Ele havia desenhado uma menina sendo enrolado pelo o que parecia ser uma enorme cobra preta.

— Por que você fez esse desenho, Leon? — Mais tarde quando já estavam em casa, ela decide questionar o garoto. — Me fala. Você sabe que pode me contar tudo, certo?

— A cobra é a morte vindo buscar a garota de cabelos pretos como as penas de um corvo. — A resposta era tão bizarra quanto o seu rascunho.

— Por que você desenhou isso?

— Porque eu sonhei com isso. E desenhar é a minha forma de não esquecer do sonho.

Quando as coisas continuavam estranhas envolvendo seu filho e as brigas na escola também foram se tornando frequentes, Annie com a ajuda dos Burton decidiu que o melhor a se fazer era leva-lo a um psicólogo que pudesse ajudá-los a lidar com Leon.

O psicólogo sempre dizia que Leon era uma criança normal como qualquer outra, que a sua personalidade introvertida era apenas uma característica que não precisava ser tratado como um problema. Mas, talvez, a parte mais preocupante eram os sonhos estranhos que tanto afetavam o sono do garoto e o fazia, às vezes, inquieto. O psicólogo achava que os desenhos eram uma forma do menino se expressar e desabafar sobre o mundo que estava a sua volta, pois afinal, nem sempre as palavras são suficientes. Os desenhos refletiam talvez seus medos, sua raiva, suas alegrias, ou refletiam muito mais que apenas sentimentos.

— Nós temos conversado tanto sobre a personalidade do Leon, sobre a sua relação com ele e a rotina da escola, mas percebi que nunca falamos sobre o pai dele. — Um dia o psicólogo decidiu falar sobre o pai de Leon, pegando desprevenida Annie.

— É complicado. Faz mais de 10 anos que não vejo o pai dele. E nem sei onde ele está. — Wesker estava vivendo num futuro muito distante do seu, eles estavam separados por 51 anos de distância. Ou, talvez, eles estivessem separados por universos diferentes.

— Eu sei. Imagino que não é fácil criar seu filho sozinha. Ser mãe e pai ao mesmo tempo é difícil. Ainda assim, talvez, ele precise de uma presença paterna na vida dele. Talvez, Leon esteja sentindo a falta de um pai presente em sua vida. — Annie passou a pensar mais sobre isso.

E, foi então, que Barry Burton passa a ser mais importante na vida deles. Que dizer, os Burton já eram seus amigos há um longo tempo, mas Barry como o policial da RPD (que nessa realidade ainda nem tinha se tornado capitão) e, mesmo assim, já trabalhava tanto. Então, como ele teria tempo para se divertir com Leon?

Bom, surpreendentemente, com muito incentivo de Sally, seu marido começa a passar os finais semana levando o garoto para se divertir, indo pescar, jogar bola, jogar vídeo game, ou basebol. E isso pareceu ajudar muito o garoto introvertido a se soltar mais de forma espontânea. Mesmo assim, haveria momentos que seu filho ainda sim iria querer se isolar em seu mundinho e aqueles sonhos voltariam a lhes atormentar.

— Essa é menina que abriu a porta do tempo e viu um mundo que não deveria ser visto. — Leon decidiu fazer mais alguns desenhos para contar o que via em seus sonhos. E, de alguma forma, esses sonhos sempre se repetiam, constantemente.

— E o que é essa enorme sombra atrás da menina? — A pior parte era que a sombra atrás da garotinha do desenho, parecia ser a silhueta de uma pessoa que usava um capuz preto. Sua mente atordoada, logo, a levou a pensar sobre o assassino misterioso que assassinou o Doutor Park e quase matou ela e a filha dele.

— É o Senhor do Tempo. E ele precisa mata-la. — O coração de sua mãe estava martelando no peito ao ouvir toda aquela história sinistra. — A garota precisa morrer... pra que o buraco de minhoca se feche pra sempre. — Isso também a fez pensar sobre o buraco de minhoca que ela e os outros cientistas criaram no futuro.

— Mamãe, por que você fez isso? — Abruptamente, ela decide pegar todos aqueles papéis com aqueles desenhos e joga-los na lareira, para queima-los.

— Leon, escuta bem o que vou te dizer... — Annie segurou o menino pelos braços de forma quase ríspida de tão assustada que estava. — Esqueça esses desenhos! Esqueça esta história! Se você contar pra mais alguém sobre isso, eles vão achar que você está louco e vão tirar você de mim. Você me entendeu?

— Mamãe, você está me assustando. — Pela primeira vez, ela poderia ver seu medo refletido nos olhos azuis de seu filho.

— É pra você ter medo mesmo! Me prometa que vai parar com esses desenhos. E vai esquecer dessa história. — Ela se lembrou que Leon desenhava como forma de lembrar de seus sonhos. Então, se ele parasse de desenhar, Annie acreditava que, eventualmente, seu filho esqueceria desses sonhos.


Raccoon City,

2007


Era o fim da aula quando uma chuva começa a cair sobre o centro da cidade. Leon queria ter conseguido ir embora antes da chuva chegar, mas acabou se atrasando quando viu uma colega de sala subir para o terraço. Fazia alguns dias que ele havia percebido que a garota estava abatida. Ela sempre fora gentil e sorridente, sempre o cumprimentava e nunca o tratava como se ele fosse um cara estranho ou anormal. E, aliás, ontem a garota até tinha lhe dado uma caneta de presente e ainda lhe disse umas coisas estranhas, como se tivesse se despedindo.

Lisa Trevor naquele dia tinha tomado uma decisão horrível, depois de uma semana infernal na qual descobriu que o cara (por quem era apaixonada) havia espalhado fotos pessoais dela para toda a escola e ainda havia um vídeo íntimo dos dois que ele estava usando para chantageá-la. Se sentindo tão humilhada, depressiva e pressionada, enfim, ela decide dar um fim a tudo...

Obviamente, ao perceber o que a adolescente estava prestes a fazer, o rapaz tenta intervir, só que sem sucesso. A garota começou a se debater em seus braços e, de repente suas mãos deslizam pelos braços dela e, tudo o que Leon pode fazer, é gritar o nome de Lisa enquanto a vê caindo para fora do terraço. Entretanto, o corpo da garota nunca chega a atingir o chão, pois inexplicavelmente, ela desaparece.

As próximas 72 horas se tornam um inferno na vida dos Kennedy, pois com o sumiço de Lisa Trevor tudo passa a recair sobre os ombros de Leon, afinal, houveram testemunhas afirmando que ele foi o último a vê-la. Haviam alguns alunos que ainda teimavam em acusar o rapaz e espalhavam o boato de que ele era um psicopata, um assassino e ainda pichavam a sua casa. A família Trevor estava sedenta por respostas e por encontrar um culpado e ainda pressionavam a polícia.

Nessa situação, colocar o rapaz de 17 anos como o principal suspeito era o caminho mais fácil. Só que Barry Burton não era um policial que costumava a seguir por caminhos fáceis ou óbvios. Portanto, ele passa os próximos dias enfurnado na RPD investigando e coletando provas que pudessem provar a inocência do filho de Annie.

Barry havia coletado vários depoimentos, inclusive do próprio Leon. Além de ter passado horas e horas assistindo gravações de câmeras de prédios vizinhos da escola que poderiam ter capturado o momento que Lisa caiu do terraço. Apenas uma das câmeras conseguiu capturar, exatamente, o momento em que a estudante foge do rapaz e se joga do topo do prédio. O problema é que por uns segundos há uma interferência no vídeo e um estrondo. Quando a gravação retorna não há mais nada lá, nem mesmo o corpo caindo.

— Como que pode o corpo desaparecer assim no ar, como se tivesse sido abduzido.

— Bem, tenente Burton... Há pessoas que acreditam em alienígenas. Meu avô era um deles. Ele já contou tantas histórias sobre pessoas que desapareciam e, depois de um tempo, reapareciam sem saber dizer onde estiveram. Como se tivesse perdido um pedaço de suas memórias. E, às vezes, algumas pessoas contavam relatos bizarros de seres estranhos e um mundo diferente do nosso.

— Uau! Que bela história, novato. Mas, sinceramente, no que isso nos ajuda? Não posso dizer para os Trevor que a filha deles... foi abduzida.

— Claro que não, senhor. Talvez, não podemos descobrir onde a garota está, ou o que aconteceu com o corpo dela. Mas... — Havia um policial recém formado, um novato que também estava muito determinado a ajudar. — Há uma testemunha que pode provar que o jovem Kennedy é inocente.

— Uma testemunha? Onde ela está?

— Ela é a minha irmã, senhor. E era a melhor amiga de Lisa Trevor.

Notas finais
Será que Leon vai conseguir provar a sua inocência?