Efeito Borboleta
22 Confissões

"Existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no Universo, ou não. Ambas são igualmente aterrorizantes."
(Arthur C. Clarke)
***
Jack's Bar
Leon teve uma discussão difícil com o Chefe de Polícia. Na verdade Irons estava tentando jogar toda a culpa dos últimos acontecimentos; que culminaram na morte de Wesker; nas costas do pessoal dos S.T.A.R.S. O assassinato de um civil havia acontecido bem debaixo de seus narizes dentro da RPD e isso mancharia a reputação da instituição. Além disso, a família Wesker com certeza iria querer processá-los por isso.
Leon estava pronto para aceitar qualquer consequência, pois se sentia responsável pelo o que houve. O problema era que Irons estava querendo punir não somente ele, mas também o resto dos S.T.A.R.S e isso não era justo. Os ânimos ficaram exaltados, precisou do capitão Burton intervir de novo e negociar uma forma de livrar sua equipe de uma punição mais severa.
— Então, o Chefe da Polícia quer punir todos vocês? — Claire questiona enquanto abre sua lata de cerveja. Ela havia ficado, praticamente, a tarde inteira na RPD os esperando, principalmente, porque sabia que Leon precisaria de uma carona já que o carro dele ainda estava na Oficina terminando de ser consertado.
— É, as coisas se complicaram para o nosso lado. — Reclamava Chris sentando na sua frente. — Mas, acredito que ele não vai poder nos demitir, né.
— É óbvio que ele não vai querer perder toda a sua equipe. Mas, pelo menos um de vocês vai ser punido com certeza.
— Relaxa! Se alguém vai ser punido... esse alguém será Eu. — Leon era teimoso e já havia tomado a sua decisão. — Eu vou assumir toda a responsabilidade. — Os dois irmãos se entreolham preocupados com as atitudes de seu amigo.
— Quer saber, não quero mais falar sobre isso. Vou só encher a cara mesmo. — Chris pega a sua garrafa e toma um grande gole de cerveja.
Os poucos clientes que estavam aquelas horas por ali, pararam por alguns instantes para assistir as últimas notícias que passavam na TV. Pela cidade repercutia sobre um assassino que estava a solta cometendo crimes pela cidade ao anoitecer. E alguns já afirmavam que ele poderia ser até um Serial Killer, pois já havia cometido outras mortes antes e de formas iguais. Além disso, as semelhanças entre as vítimas também chamavam a atenção.
"Foram três vítimas. E todas elas eram Cientistas, ou Professores da Universidade de Raccoon City." Dizia a repórter da TV.
— Na verdade, não foram só três vítimas. — Murmurou Claire em tom mais baixo e cauteloso.
— Como assim? O que você quer dizer com isso? — Chris se sentiu confuso com aquela nova informação.
— Antes do Birkin, do Wesker e... da minha mãe. — Leon diz um pouco hesitante. — Houveram mais dois assassinatos que aconteceram em 1989.
— Sério isso? Mas, isso foi há tantos anos. — Chris permanecia descrente.
— Sim, nós sabemos. — Claire sibila olhando para Leon. — Mas, o Leon e Eu começamos a investigar e achamos que o assassino de 1989, possa estar seguindo o mesmo modus operandi que o nosso atual serial Killer.
— Como eu não fiquei sabendo sobre essa história antes? E por que Leon tá investigando isso com você? — Redfield está descontente ao descobrir os segredos que sua irmã e seu amigo vinham escondendo dele.
— Não faça drama sobre isso! — Claire exclama com presunção. — Talvez, seja porque eu sou mais inteligente, mais charmosa e uma melhor companhia que você. — Ela riu dando uma piscadela para Leon e fazendo uma cara de deboche só para provocar o seu irmão.
Leon só havia vindo ali por um único motivo. Portanto, só estava esperando uma brecha para conseguir se livrar dos irmãos Redfield, principalmente, de Claire. Então, assim que a jovem parou com aquela discussão boba com o irmão e saiu para ir ao banheiro, ele decidiu se despedir de Chris e sair, desajeitadamente.
— Vai encontrar com a professora Wong, né. — Não era bem uma pergunta, era mais uma afirmação. — Você sabe que isso é uma péssima ideia, né?! — Chris lhe dá um sorriso malicioso. Ele já sabia que o seu amigo estava ansioso para encontrar, novamente, com aquela mulher. — Tenha cuidado. Mulheres como Ada são lindas, sexy e muito perigosas. Elas também podem arruinar a sua vida.
— Cala a boca, Redfield! — Leon bufa irritado. — Se a Claire perguntar, diz que decide ir caminhando sozinho para casa.
Apartamento de Ada Wong
No apartamento de Ada, apenas o barulho da TV ligada se fazia presente. Ela tinha resolvido pôr em algum filme aleatório a fim de se distrair um pouco. Sua irmã ainda não havia chegado, provavelmente, estava na casa de algum de seus Amigos que Wong ainda nem conhecia.
Portanto, Ada se encontrava sozinha, até que alguém resolveu bater na sua porta. A princípio pensa em ignorar, só que a batida continuou persistente.
— Droga! O que ele quer, agora? — Ela murmura para si depois de olhar pelo olho mágico e descobrir quem estava perturbando o seu sossego.
— Ei, eu sei que você tá aí. Não vai poder fugir de mim para sempre. — No fundo, Leon estava começando a se sentir ansioso. — Eu só queria que... a gente pudesse terminar... aquela nossa conversa. — O coração dela ficou agitado e nervoso, pois Ada não se sentia confortável no momento para falar com ele, ainda mais quando aquele cara estava começando a mexer tanto com as suas emoções.
— Você sabe o quanto a sua persistência é inconveniente. — Eventualmente, a porta se abre para revelar a mulher de traços orientais lhe olhando aborrecida. Ela estava usando um pijama de seda bordô e calçava um par de pantufas da mesma cor.
— Eu sei. Já me falaram isso antes. — Os dois ficaram parados na porta se olhando, demoradamente.
— Afinal, o que você quer? — Ada se sentia ridícula por estar agindo como uma adolescente que está tentando fugir do garoto da escola que lhe deu um beijo roubado. Só que na real, eles não estavam mais no colegial e ela era uma mulher adulta que precisava parar de agir, assim, de uma forma tão imatura.
— Você quer que eu implore pra você me deixar entrar? — Ele tinha uma expressão irônica. — Por favor, senhora Wong!
— Eu acho que não tenho escolha. — Suspira frustrada. — E você não vai desistir, né. — Portanto, ela abre espaço para que ele a siga para dentro do apartamento.
— Não. A persistência é a minha maior qualidade e o meu maior defeito. E eu nunca desisto das coisas que, eu realmente quero. — Assim que se vira para encara-lo, Ada se surpreende com o olhar intenso que aquele homem lhe dá. Isso a deixou confusa, assustada e com o coração batendo acelerado.
— É por isso que você nunca vai desistir de achar o assassino da sua mãe. — Ela resolveu que o melhor era manter o foco em outra coisa. E a mudança repentina de assunto, faz as feições dele se tornarem sombrias.
— É. Nunca vou parar até encontrar o assassino dela.
— Justiça é uma coisa... Mas o que você está atrás é vingança. Isso é perigoso, detetive Kennedy.
— Justiça, ou vingança... Para mim são a mesma coisa.
— Não é não.
— Você diz isso porque não foi você que perdeu a sua mãe... Ou perdeu a coisa mais importante que tinha na vida. — E lá estava ele de novo, assumindo a sua postura fria e impetuosa.
O detetive pensa em dar meia volta e ir embora, porém algo o impede de ir. Ao invés disso, ele permanece empacado no meio da sala dela a observando se movimentar por ali, há uma garrafa de vinho rosé que está ainda pela metade sobre a mesinha de centro, ao lado de uma taça que Ada ergue para terminar de beber o seu conteúdo rosado.
— Eu ia te oferecer uma taça. Mas, acho que você... não gosta. — Ela passa por ele carregando a taça vazia e a garrafa. Ele continua a seguindo pelo apartamento até chegarem na cozinha. — Eu ainda posso te oferecer um café se...
— Um café seria ótimo. — Leon lhe responde ainda sério. Há alguns minutos de silêncio, enquanto Ada se concentra apenas na tarefa de preparar o café, ao mesmo tempo em que tenta ignorar o homem parado a alguns metros atrás dela.
— Então, você também gosta de vinho. — Leon diz se distraindo com a garrafa que ela deixa esquecida sobre a mesa. — Minha mãe também gostava. — Sua voz não passava de um sussurro. — Toda noite depois do jantar, ela sempre bebia um cálice de vinho tinto. — Ele parou quando lembranças começaram a surgir na sua mente. — Uma das minhas últimas lembranças daquela noite, foi de encontra-la sentada no chão da sala, com uma taça de vinho na mão e a garrafa quase vazia. Ela estava bêbada, tentou me convencer a beber com ela... — Em seus lábios se formou um breve sorriso triste. — Se eu soubesse que aquele seria nosso último momento juntos... teria aproveitado melhor cada minuto ao lado dela.
A verdade é que Leon não costumava a se abrir assim para ninguém, nem mesmo para seus amigos. Entretanto, aqui estava ele se abrindo para aquela mulher que conhecera há pouco mais de um mês.
— Durante a sua aula sobre o Efeito Borboleta, você fez uma pergunta... — Ele caminha até a pia e para ao lado dela. — Se o passado mudar, o futuro pode mudar também?
— Então, o que você acha, detetive Kennedy? — Ela indagou curiosa com a resposta dele.
— Bem, a minha resposta é... Sim. — Ele diz conseguindo roubar toda a atenção de Ada que se vira para encara-lo.
Então, ele novamente lhe conta sobre a sua viagem no tempo. Que ele havia, inesperadamente, voltado para o dia da morte da sua mãe. E que lá naquele passado, ele viveu algumas experiências diferentes, como se deparar com a versão jovem de Ada, ou ficar cara a cara com o assassino de Annie Kennedy.
— Então, você viu o assassino da sua mãe?
— Enquanto eu segurava o corpo morto da minha mãe, o maldito assassino apareceu e parou bem na minha frente. Eu não pude ver o seu rosto, mas pude sentir o cano frio da sua arma. — Por muito tempo, Leon havia mantido tudo aquilo entalado em sua garganta. — E depois havia uma luz forte me cegando, em seguida veio o barulho do tiro. — Porém, agora se sentia aliviado por poder compartilhar isso com alguém. — Depois de passar por tudo isso, de repente eu acordei e estava de novo em 2021.
— Isso parece loucura demais! Você contou isso pra mais alguém?
— É óbvio que não. Como você mesmo disse, é loucura demais. Quem acreditaria em mim? — Isso causou uma expressão desanimada em seu rosto cansado que só se desfaz, quando ela lhe entrega a caneca de café puro e quente que não está nem doce e nem amargo, mas exatamente do jeito que ele gosta.
— Por que você decidiu contar isso justamente para mim?
— Primeiro porque você é uma cientista que tem estudado sobre as teorias de viagem no tempo e universos paralelos. E segundo... porque você sabe que não tô mentindo. — Seus azuis são sinceros e, ao mesmo tempo, sombrios. — As lembranças estão aí pra te atormentar e provar que estou falando a verdade. — Eles continuaram debatendo sobre aquele assunto polêmico enquanto bebiam o café, porém o clima entre eles havia se tornado menos tenso.
— Eu estou genuinamente chocada. Isto é, eu estou na frente de alguém que... — Ela para perdida e confusa com aqueles pensamentos. — Você realmente viajou no tempo? Isso é real?
— Você sabe que é.
— Não me leve a mal, é só que... durante tantos séculos, cientistas tentaram provar que viajar no tempo era possível. Mas, ninguém nunca conseguiu... Até que surge você... um detetive de polícia que, acidentalmente, se tornou o primeiro viajante do tempo. — Ela não sabia se estava assustada, eufórica pela descoberta, ou se sentia uma baita inveja dele.
— Eu não fui o único a viajar no tempo. — Ele se lembrou que ainda havia Sherry. — Sherry chegou a me falar que esteve num mundo muito igual ao nosso. Entretanto, naquele mundo o pai dela já havia morrido. — As palavras de Leon fizeram Ada se lembrar de uma conversa que teve com Annette, onde a outra cientista lhe contava que sua filha de 12 anos previu a morte do próprio pai.
— Isso quer dizer que a Sherry fez uma viagem diferente da sua. Enquanto você foi para o passado, ela foi para o futuro. — Ada parou para refletir em outra possibilidade. — E se essas viagens também envolvesse universos paralelos? E se houvesse outras versões nossa? — A Professora e cientista, realmente, se sentiu eufórica com aquela recente descoberta, porém também havia uma parte que se sentia preocupada. — Então, é possível que o Wesker que você confrontou lá, não fosse...
— Claro que pensei sobre isso. E, talvez, seja por isso que agora tenho me sentido ainda mais culpado pela morte dele. Porque eu acho que... acabei atraindo o assassino direto para Wesker. — Sua carranca se aprofundou, demonstrando o quão transtornado ele estava. — Sinto como se eu mesmo... tivesse apertado o gatilho e matado um inocente.
— Não vai adiantar se culpar, agora. E você... você não é o assassino! — Por instinto, uma de suas mãos toca o braço dele de um jeito carinhoso, tentando tranquiliza-lo e Leon contempla o gesto dela. — Acho que a gente precisa descobrir como isso funciona. — Mas, antes que ele pudesse retribuir o gesto, Ada se afasta deixando-o decepcionado.
— Ah, tem mais uma coisa que preciso te mostrar. — Ele pega o celular e mostra uma fotografia que havia sido tirada da parede da cela onde Wesker foi assassinado.
— Três já foram. Mas, ainda faltam três... O que é isso? — Ela lhe pergunta confusa.
— Foi o que o assassino deixou para trás depois de matar Wesker.
— Ah, meu Deus! — As mãos dela estão trêmulas segurando o celular dele.
— Por acaso você não reconhece essa... assinatura? — Ele amplia a imagem e depois lhe olha desconfiado, deixando-a cada vez mais nervosa.
— Você está querendo insinuar alguma coisa? — Ela entrega o celular para ele e lhe dá um olhar feroz. — O símbolo do infinito é muito comum. Muitos usam pra fazer tatuagens por causa do significado dele, seja filosófico, matemático... — Ela se afasta de novo dele parecendo muito chateada. — Eu o fiz porque era um símbolo simples, mas com um significado forte. Ele representa a eternidade.
Nessa hora as luzes começam a piscar até se apagarem, abruptamente, deixando Ada angustiada e com medo, sobretudo, quando um barulho estranho é ouvido vindo da sala. Ela dá um passo para trás até sentir suas costas baterem contra o peito de Leon. Isso quase a faz soltar um gritinho de susto.
— Shhhh! — Ele lhe sussurra no ouvido para que fique calma e em silêncio, enquanto saca a sua arma e se prepara para averiguar o que estava acontecendo.
— Você tá louco! — Ela consegue balbuciar. — Eu não vou ficar aqui sozinha. — E, então, se agarra no braço dele com medo de soltar. Interiormente, Leon achou isso irônico já que um minutos atrás, a mulher estava fazendo de tudo para manter uma distância dele.
Os dois seguem, cautelosamente, pelo corredor que os leva até a sala, com o detetive seguindo mais a frente em um ato de protegê-la de qualquer possível ameaça.
Há uma tensão pairando ali, causando um clima sombrio. Leon até sente um arrepio terrível como se pressentisse que o perigo estava próximo. E, mesmo no escuro consegue vislumbrar muito, brevemente, um vulto se mover pela sala que o força a erguer mais a arma e quase apertar o gatilho.
— Parado aí! — Ele grita fazendo o intruso paralisar, imediatamente.
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