Efeito Borboleta
25 Confie em Mim

"Entenda os seus medos, mas jamais deixe que eles sufoquem os seus sonhos."
(Alice no País das Maravilhas)
***
Apartamento de
Leon Scott Kennedy
Havia uma menina caminhando sozinha por um corredor escuro. Ela está assustada com o barulho furioso da tempestade que caía lá fora, pelo reflexo das cortinas da janela podia ver que estava relampejando muito e era a única coisa que iluminava aquela noite infernal. Logo, o barulho da tempestade diminuiu dando lugar para o som de vozes de seus pais que parecem brigar.
A menina começa a chamar por eles. Ela chama pela mãe e principalmente pelo pai, porém ninguém vem em seu socorro. É então que o seu caminho se cruza com alguém. Um estranho apontando uma arma para ela.
O estranho aperta o gatilho...
Com o barulho ensurdecedor do tiro, Ada acorda apavorada sentindo uma baita dor de cabeça. Do seu lado sua irmã continua dormindo, pesadamente. Elas estavam no apartamento de Leon, dormindo no quarto de hóspedes que, tecnicamente, mais parecia ter virado o quarto de Claire (já que havia tantas coisas da ruiva ali), até o cheiro dela parecia impregnado no ar, fazendo a mulher de traços orientais se sentir desconfortável. Entretanto, ela não podia reclamar, pois no fundo ali parecia ser o lugar mais seguro agora.
É óbvio que sua estadia ali era provisória, enquanto Burton e sua equipe cuidavam do caso envolvendo os assassinatos. Com certeza até amanhã, ela acabará sendo levada para outro lugar. Algum lugar desconhecido. Ou seja, nem se quisesse ir embora de Raccoon City e retornar para Califórnia, agora poderia. Sua rotina será toda mudada por causa daquele maldito assassino que havia acabado de fazer mais uma vítima.
Rebecca Chambers, a sua melhor amiga foi morta de uma forma tão bizarra e cruel. Era tão assustador imaginar que algumas horas antes, elas estiveram juntas, rindo, brindando e compartilhando um momento que se desfez dessa forma tão súbita e brutal. Pensar sobre isso lhe dá um aperto em seu coração e ela precisa lutar, novamente, contra as lágrimas que teimam a molhar o seu rosto.
Ela solta um suspiro triste, antes de pegar o smartphone na mesa de cabeceira, constatando que ainda eram 4 da manhã e que só havia conseguido dormir por uma hora. Depois decide se levantar, veste um roupão (que o detetive lhe emprestou) e tenta sair pelo corredor que a leva até o banheiro. O problema é que o corredor está escuro como no seu sonho e parece tão longo para ser percorrido, isso quase a faz travar no meio do caminho sentindo-se claustrofóbica. Ao menos poderia usar a lanterna do celular que por sorte decidiu trazer consigo. Por fim, quase sofre um enfarte quando um sonolento Leon surgi de repente na sua frente.
— Você quer me matar do coração? — Ela reclama ainda paralisada.
— O que você está fazendo acordado a essas horas? — Ele liga o interruptor de luz, fazendo com que o lugar pareça menos assustador e, assim, permitindo que a mulher possa vislumbra-lo melhor.
— Perdi meu sono. — Murmura ainda tentando recuperar o fôlego depois do susto. — E você, o que tá fazendo zanzando por aí a essa hora, como se fosse uma assombração? — Pela aspereza de sua voz, ele pode perceber que ela não estava de bom humor.
— Também perdi meu sono. — Ele também tinha uma expressão cansada. As roupas do dia-dia que usava na RPD foram substituídas por uma calça de moletom preta e uma camisa de manga longa azul, seus cabelos estavam um tanto selvagens e seu rosto esboçava uma sombra de sonolência.— Tive um pesadelo ruim... Sonhei com você. — Isso a faz soltar um breve riso sarcástico.
— Essa é uma péssima hora para fazer piadas. — Ada resmunga.
— Não é uma piada! — Leon retruca sem um pingo de humor enquanto sua mente vai se enchendo de flashes daquele sonho. — Eu realmente sonhei com você. E foi muito ruim. — Por um instante, ele parecia perdido em pensamentos. — Você pode não acreditar em mim, mas... eu me preocupo com você. — Ele murmura a olhando com tanta intensidade que a deixa nervosa.
— Ah, vamos parar com essa ladainha, detetive Kennedy! — Ela resolveu mostrar um outro lado dela que ele ainda não conhecia... O seu jeito rancoroso. — Você costuma se importar com todas as vítimas e testemunhas? Isso não é antiético se envolver, emocionalmente, com elas? — Ele nem lhe responde, apenas fica calado deixando ela falar a vontade. — Nós nem somos amigos. — Até que ela finaliza jogando na cara dele, aquelas mesmas palavras que Leon havia dito ao capitão Burton.
— Uau, você ouviu tudo mesmo. É uma bisbilhoteira! — Leon debocha enquanto Ada passa por ele e se tranca no banheiro. — É claro que não somos amigos. — Ironiza quando uma lembrança lhe vem a mente. — Se fôssemos... eu nunca teria te beijado daquele jeito na sala de interrogatório.
Por essa Ada não esperava.
— Além disso, eu não costumo trazer vítimas dos casos que investigo para a minha casa...
— Então, eu sou a sua exceção. — A mulher se olha no espelho reconhecendo em seu reflexo o quão abatida está. Há olheiras profundas abaixo dos olhos, resultado da noite mal dormida e seu rosto está um pouco inchado devido ao choro. Ela resolve jogar uma água na cara a fim de se recompor. Foi quando acabou se distraindo ao avistar a escova de dente de cabo rosa ao lado de uma escova de cabo azul escuro que estava no armário sobre a pia, formando assim um par de escovas de dente, algo que parecia bobo, mas com um significado bem pontual (já que a faz se lembrar que Leon não vivia sozinho nesse apartamento).
Ou seja, ele compartilhava o seu espaço com alguém e não era qualquer pessoa, senão alguém que confiava e com quem já tinha intimidade há anos.
— Você é um grande mentiroso! — A mulher retruca gritando do banheiro sem saber se Leon ainda estava por ali a ouvindo. — E a Claire... como ela fica nessa história? Eu aposto que vocês não foram apenas amigos todo esse tempo.
"Afinal, juntar as escovas de dente não é um ato banal, ou insignificante." Ela pensa. Isso significava que existia sim uma relação de intimidade entre Leon e Claire. E, constatar isso, de alguma forma lhe causou algum reboliço por dentro, deixando-a desconcertada.
— Ah, então é esse o seu problema?! — Ele ainda estava do lado de fora do banheiro, esperando ela sair. — Você está com ciúmes? — Embora não costumava sorrir, seus lábios se contraíram quase num sorriso torto.
— Vai se ferrar, seu presunçoso filha da...
— Olha a boca, senhorita! — Ele a repreende agora não querendo prosseguir com aquela conversa. — Você acha que homens e mulheres não podem ser apenas bons amigos?
— É claro que pode! Eu mesmo tinha o Will... que era quase... como um irmão mais velho. — A lembrança da perda dele a faz triste, novamente. — Mas, não é o mesmo caso seu com a Claire.
— Por que não?
— Porque eu sei que você e ela já foram mais que amigos. Tá na cara que existe algo mal resolvido entre vocês. Você só é alheio, ou fingi que não vê como a Claire te olha e como ela não gosta de mim.
— Tá. Agora você virou a Conselheira Amorosa... — Ele debocha. — Que tal a gente parar com essa discussão idiota e beber um chocolate quente?
— Você faz chocolate quente para todas as outras testemunhas e vítimas? — Ela diz abrindo a porta do banheiro e lhe encarando muito seriamente.
— Não. Só para as mais irritantes. — Ele ironiza outra vez. Em seu rosto há uma expressão divertida enquanto seus azuis contemplam o quanto ela parece combinar tão bem com o seu roupão.
Eventualmente, eles param a discussão e acabam indo para a cozinha. Ele lhe prepara um delicioso chocolate quente sob os olhares atentos e silenciosos dela.
— Hmmm...— Ela faz um gemido de satisfação, assim que prova um gole da xícara de chocolate. — Então, por trás desse detetive casca grossa, existe um cara que sabe fazer um saboroso chocolate quente.
— Que bom que gostou. — Leon vem e se senta ao seu lado, sem querer fazendo suas pernas se roçarem por debaixo da mesa. Por um instante, eles bebem suas xícaras de chocolate num silêncio confortável, que só é rompido pela curiosidade dela.
— Me fala sobre aquele pesadelo... que você teve comigo. — Leon lhe dá um olhar hesitante enquanto a sua mente se enche de flashbacks:
Em seu sonho ele e Ada estão num parque de diversão e ela parecia tão feliz. Também havia uma garotinha muito linda que se parecia bastante com Ada, com os mesmos olhinhos de traços orientais, rosto delicado que lhe davam um ar de inocência. Até que de uma hora para outra, a criança desaparece, deixando-os desesperados.
Entretanto, a parte mais bizarra e assustadora do sonho, foi quando Leon encontrou uma enorme caixa de onde parecia sair o som dos gritos da menina chamando pelo pai.
— No fim despertei sozinho em meu quarto, sem saber como o sonho termina. Sem conseguir descobrir se a garota estava, ou não... dentro daquela caixa. — Seu relato fez Ada pensar novamente sobre a morte de sua amiga e a conexão com o Gato de Schrodinger, o que também a fez lembrar naquele código que o assassino deixou na sua sala, provando que o seu Algoz não era um alguém qualquer.
Essa era a parte mais aterrorizante... A possibilidade da figura misteriosa ser alguém próximo. Alguém que entendia muito bem de física quântica... Ou pior, poderia até ser um possível cientista. Um cientista até mesmo ligado a Umbrella e ao Projeto que ela já não fazia mais parte.
— Professora. — Leon precisa tocar na mão dela para chamar a sua atenção. — No que você estava pensando? — Seus azuis a confrontam.
— Não... Não é nada... — Ela desvia o olhar para as suas mãos que estão apertando com força a xícara.
— Eu sou um ótimo observador, então, eu sei que você tá mentindo. — Os dois se encaram deixando o clima, novamente, pesado.
— Sinto muito, mas estou muito cansada. Então, eu acho que vou tentar voltar a dormir. Obrigado pelo chocolate. — Enfim, se levanta e tenta fugir dele.
— Eu entendo que você não confia nos outros. Mas, por que não confiar em mim? —Óbvio que Leon não deixaria ela fugir, assim, facilmente. — Como posso te proteger se você não confia em mim? — Suas mãos seguram o braço dela a impedindo de se afastar, ao mesmo tempo que seus olhos se fitam numa mistura de angústia, dúvida e medo. — Confie em mim! — Leon continua falando, só que Ada já não está mais prestando atenção. Eles estão tão perto que pode sentir a respiração dele batendo em seu rosto. É quando seus olhos recaem sobre a boca dele.
Dessa vez, é Ada quem ousa ultrapassar os limites e beijá-lo. No início Leon fica com o corpo tenso, hesitante, porém logo, retribui. Suas bocas se movem, lentamente, suaves, experimentando o sabor e a maciez de seus lábios. As mãos dele se enroscam em sua cintura enquanto ela se segura em seus ombros largos. Eles ficam naquele abraço apertado, aconchegante.
O beijo continua suave, carinhoso, sem pressa de acabar. Ambos estão experimentando aquela sensação tão boa, gostosa e intensa do amor, mesmo que ambos ainda relutem em admitir isso em voz alta. E, naquele momento, Ada se permitiu esquecer dos problemas, da dor, do medo e só aproveitar para se agarrar aquele homem tão bonito, um pouco rude às vezes, mas que agora estava demonstrando um lado carinhoso e apaixonado. E, que acima de tudo, estava fazendo-a se sentir segura em seus braços.
— Ada! — Porém, eles são interrompidos pela voz de sua irmã lhe chamando. Sem hesitar Ada decide empurrar Leon para longe dela com uma força impressionante que quase o faz se desequilibrar. — Aí está você! — Fong Ling logo aparece na cozinha, percebendo o clima estranho entre eles. — Interrompi alguma coisa?
— Não. Só perdemos o sono e... decidimos tomar um chocolate quente. — Ada sibila fingindo uma tranquilidade que deixa Leon atônito ainda olhando para ela. — Quer se juntar a nós? — Por fim a professora sorri com naturalidade, como se nada tivesse acontecido antes.
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