"Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo."

(Sófocles)

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Hospital Geral de Raccoon City

Ada estava se debatendo muito, tudo por conta de um pesadelo horrendo. Ela se via, novamente, correndo pelo corredor escuro, tentando escapar das garras mortíferas do Assassino. Seu pesadelo só termina quando o seu Algoz cruelmente a mata. E, em seguida desperta gritando, completamente, alterada e chorando com a voz rouca. Demora minutos para conseguirem fazê-la se acalmar.

Sua irmã está ali ao lado da cama tentando convencê-la que não havia mais o que temer, pois estava segura no quarto do hospital. Só que no fundo, a Professora de Física sabia que não estava, realmente, segura enquanto não pegassem o tal Serial Killer.

Do lado de fora do quarto, havia policiais cuidando da segurança delas, incluindo Leon que havia montado todo um novo esquema para mantê-la segura, inclusiva arranjar um novo lugar para que ela pudesse ficar.

— Precisamos de várias viaturas rondando todas as ruas da cidade e também cuidando das fronteiras. Temos um assassino de alta periculosidade a solta. Por isso é possível que precisaremos também ter toque de recolher. Eu sei que é uma medida radical, mas é o único jeito de conseguirmos manter Raccoon City segura. Ah, preciso que seja alertado todas as outras delegacias do Condado de Arklay. — Ele continuou distribuindo ordens até seu celular tocar. Era Chris ligando incessantemente. Quando atende, recebe de cara a notícia de que Spencer havia sido sequestrado. Pelo jeito a noite continuaria sendo bem agitada.

Depois de falar com Chris, Leon decidiu permanecer ainda no hospital para visitar Ada. Precisava ter certeza que ela estaria bem e segura. Ele abre a porta do quarto onde a mulher está e a encontra conversando mais calma com a irmã e Sally Burton.

Aparentemente ela parece bem, já que está reclamando que quer ir embora. E só para de reclamar quando o policial entra em sua linha de visão. O detetive se sentiu perturbado por ver o rosto dela parecendo tão abatido.

— Detetive Kennedy, você ainda está... por aqui. — Ela muda um pouco o tom da voz soando mais tímida. — Você poderia convencer a enfermeira Burton a me deixar ir embora? — Aqueles castanhos mel pareciam tão cansados e ainda bastante assustados.

— Eu não ousaria desobedecer a tia Sally. — Leon troca um olhar simpático com a esposa de Burton, antes de desviar a sua atenção para a cientista. — Se ela disse que você tem que ficar, então...

— Então, terei que passar a noite no hospital. — Ela se lamenta fechando a cara e voltando a se deitar na cama.

— É só por hoje, senhora Wong. — Argumenta Sally. — Amanhã de manhã, talvez, já estará em casa de novo.

— Esse "TALVEZ" não me anima nenhum pouco. — Ela encara o teto desanimada. Seu corpo ainda dói muito como se um trator tivesse a atropelado, apesar de nunca ter sido atropelada.

— Bem, eu gostaria de falar em particular com a paciente. — Leon resolveu parar de enrolar e focar no que importava.

— Ah, vou terminar de falar com a mãe e o pai. Eles estão ligando o tempo todo. E pode ter certeza que se a mãe souber o que tá acontecendo aqui, ela não vai sossegar até te convencer a ir embora. — As palavras de Fong Ling pairam no ar, deixando Leon apreensivo. Sally que já estava no fim do seu turno, também se despede e vai embora os deixando sozinhos.

— Eu sinto muito. — Ele escondeu as mãos no bolso da calça jeans e a fitou com olhos culpados. — Eu deveria ter chegado mais rápido até você e... e...

— Leon! — Ada o cortou virando o rosto para fita-lo e resolveu deixar a formalidade de lado. — Você não tem que se desculpar. — Sua voz está ainda meio rouca e cansada, apesar disso, ela se sente aliviada por tê-lo por perto. — Nossa, foi um grande alívio quando... você apareceu lá... e... me salvou. — Seus castanhos transmitiam uma vulnerabilidade que causaram um aperto no peito de Leon. — Eu estava tão apavorada. Pensei que... que... eu iria morrer. — Ela parou e ficou pensativa, agora olhando para as suas mãos que estavam frias.

— Ei, não pense sobre isso! — Leon puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama, depois agarrou uma das mãos dela. Ele estava sendo tão gentil e esse pequeno gesto fez ela se sentir aquecida por dentro e fez seu coração se aquietar. — Eu te prometo que não vou descansar até pegar ele. — Sua mão continuava segurando gentilmente a mão dela, enquanto mantinha aquela postura determinada. — Nem que seja a última coisa que eu faça.

— Eu sei que você quer pegar ele. Mas, não faça nenhuma idiotice! — Exclamou nervosa. — Sei que a sua mãe não iria querer que você se colocasse em risco. — Quando ela citou a sua mãe na conversa, Leon se tornou rígido e tentou se afastar, só que dessa vez é Ada que segura a mão dele apertado impedindo-o de fugir. — Eu quero que você me prometa que, acima de tudo... você vai se cuidar. — Aquelas íris de cor âmbar lhe olham cheio de súplica e alguma coisa a mais que não sabia descrever, mas que foi capaz de lhe deixar atordoado.

— Não se preocupe comigo. Agora o mais importante é cuidar de você, Ada. — Suas mãos ainda estavam entrelaçadas enquanto seus olhos permaneciam conectados.

— Certo. Vou me cuidar pra que você... possa ir descansar a sua capa de herói. — Apesar de tudo, Ela sorriu se permitindo relaxar um pouco. E o sorriso dela causava sensações estranhas dentro dele que era difícil explicar. Nessa hora, Fong Ling reaparece e faz quebrar aquele momento entre os dois que se afastam.

— O que aconteceu, Fong Ling? — Sua irmã tinha uma expressão estranha quando olhou para o Kennedy. E ela bem que tentou segurar a língua, mas Ada não deixou. — Desembucha!

— Sua amiga está lá fora. E ela parece bem furiosa, depois que descobriu que...

— Ah, droga! Eu lido com ela depois. — Para Leon lidar com uma Claire raivosa seria o menor dos seus problemas.


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Assim que Kennedy sai do quarto de hospital já dá de cara com Claire conversando com alguns polícias da RPD no corredor. A conversa é interrompida e os dois amigos se encaram de um jeito muito tenso.

— Ah, será que agora posso entrar para entrevistar a sua protegida? — De sua língua pingava sarcasmo que irritou Leon.

— Não. Deixe-a descansar. — Ele se coloca na frente dela a impedindo de seguir em frente.

— Desde quando você virou o guarda-costas particular dela? — Ela cruza os braços na frente do peito.

— Ah, Claire, por favor! Agora não é nem lugar pra gente ficar discutindo. — Ele passa por ela e segue para o elevador.

— Eu não acredito que você levou ela para o seu apartamento. — Claire decide segui-lo também, decidida a não deixa-lo fugir facilmente.

— Ela havia acabado de descobrir que a melhor amiga tinha sido assassinada daquela forma brutal e estava apavorada. — Leon clica no botão fazendo o elevador descer enquanto continua tentando se explicar. — Ela praticamente me implorou pra não deixa-la sozinha. — E era verdade. Se dependesse dele nunca a teria levado para o seu apartamento sabendo que isso poderia complicar as coisas, mas Ada estava tão assustada com aqueles pequenos olhos castanhos refletindo tanta vulnerabilidade, que acabou mais uma vez, quebrando suas regras por ela.

— E desde de quando você se importa com as vítimas dos casos que você está investigando a ponto de levá-las para sua casa? — Claire continuou o intimidando. — Ou você está fingindo, ou ainda não percebeu que está se envolvendo demais com ela...

— Para com isso, Claire!

— Pior... você a deixou dormir no meu quarto e nem me informou sobre isso. Como se eu não fosse importante pra você. — Sua voz agora soava rancorosa.

— Claire é óbvio que eu... — As portas do elevador se abrem e ela sai em disparada passando pelo saguão que estava com pouco movimento. — Claire, espera! — Ele precisa apertar mais o passo para conseguir segurar um dos braços dela e fazê-la parar. — Eu entendo que você está com raiva de mim. E talvez com razão...

— É claro que tenho razão! Aquele é o meu quarto, o meu espaço! Deixa-las lá me fez sentir que a minha privacidade foi invadida. E você não tinha esse direito.

— Lembre-se que aquele ainda é o meu apartamento. E que eu também tive que te deixar ficar quando você precisava, mesmo me sentindo um pouco desconfortável por ter mais alguém invadindo o... Meu Espaço... — Suas palavras foram cruéis, mas já que ela estava fazendo um drama e querendo fazê-lo se sentir culpado, então, ele também poderia jogar o mesmo jogo.

— Então, se eu estava te incomodava tanto... por que você não foi sincero e não me disse?! — Seu coração pareceu falhar uma batida. Ela se sentia tão decepcionada com ele e consigo mesma.

Depois de todos esses anos vivendo juntos como amigos e dividindo tudo, de repente, seus sentimentos começaram a mudar. Agora ela sentia que cada vez mais estava ansiando por estar com ele, porém não mais como apenas bons amigos. E, justamente agora que percebeu que seus sentimentos mudaram e acabou se apaixonando, chega uma forasteira e muda tudo entre eles. Muda tanto que o faz parecer quase um outro homem.

— É. Você mudou mesmo. — Seus verdes parecem tão magoados agora. — Eu vi vocês dois correndo no meio da chuva, parecendo dois namorados.

— Ah, é por isso que você está agindo como se fosse uma namorada ciumenta? — Ele tentou brincar com a situação, não percebendo o quão sério era essa pergunta e o quanto a afetou que ela nem conseguiu lhe dar uma resposta. — Olha, Claire... você é a minha melhor amiga e sempre vai ser. E ninguém vai estragar isso.

— Você ainda não percebeu que tudo já está mudando entre nós. Você é mesmo um idiota! — Ela xinga se sentindo frustrada por Leon ser tão indiferente ao que já está acontecendo entre eles. — Talvez, eu deveria ir embora.

— É. Vamos descansar. Hoje tem sido um dia longo demais.

— Eu quis dizer, ir embora do seu apartamento e retirar todas as minhas coisas daquele quarto. — Os dois se encararam presos naquele impasse. — Daí você pode fazer o que quiser com ele.

— Tá certo. Se é o que você quer, eu não vou te impedir. — Parecia que aquela discussão não ia chegar a lugar nenhum. A sorte é que Burton resolveu aparecer por ali, fazendo Leon se sentir um pouco nervoso com a presença do seu capitão. Afinal, se Claire resolvesse abrir a boca agora e contasse que Ada Wong dormiu em seu apartamento, Kennedy sabia que estaria ferrado.




R.P.D

Departamento de Polícia de Raccoon City

Assim que recebeu alta do hospital, Ada teve que comparecer na RPD para prestar depoimento. Não foi fácil voltar ali e ter que encarar o capitão Burton e seus questionamentos intermináveis. Tudo ainda ficou mais estranho quando ele mesmo lhe informou sobre o sequestro de Spencer e depois resolveu lhe mostrar uma gravação de uma câmera de dentro do elevador, onde se podia ver Spencer ao lado de um homem mais alto, de terno preto e que usava óculos escuros. A câmera de segurança teria capturado algumas imagens do sequestrador atirando em dois seguranças, um pouco antes dele render o chefe da Umbrella e entrarem no elevador.

A parte mais bizarra é que nenhuma das câmeras externas mostram o chefe da Umbrella e o sequestrador saindo do prédio. Ou seja, Spencer desapareceu misteriosamente sem deixar rastros.

— Você por acaso conhece esse homem que está ao lado de Spencer? — O suposto sequestrador, tinha uma aparência que lhe fez lembrar de Wesker.

— Não. Eu não faço ideia de quem é ele. — Ela diz sem hesitar, sabendo que no fundo está mentindo.

— Olha bem para esse cara. Tem certeza que ele não lhe é familiar? — Ainda assim, Burton continua a pressionando.

— Eu já disse que não sei quem é esse... cara. — Ela continua tentando manter uma expressão neutra e uma postura ponderada. Houveram outras perguntas sobre o assassino também, mas isso só serviu para fazê-la reviver as lembranças terríveis da noite anterior. Sua sorte é que Leon acabou aparecendo para resgata-la, o que acabou desagradando, totalmente, o capitão Burton que não teve outra saída, senão deixá-la ir embora.

— É capitão, parece que o nosso jovem Kennedy está realmente apaixonado. — Redfield resolveu brincar, depois que Leon foi embora com Ada.

— Isso é bobagem. E isso não deve durar. — Porém, Burton não achou nada divertido.

— Por que parece que o senhor não gosta da ideia?

— Por que aquela mulher não é confiável. E eu sei que ela está escondendo alguma coisa da gente. — O capitão afirmava com fervor.— Em seu depoimento, Wong não disse toda a verdade.

— Por que ela mentiria?

— Eu ainda não sei. Talvez, porque ela tenha alguma culpa, ou um segredo sujo. Portanto, quero que fique de olho nela.