Efeito Borboleta
35 A Beira de um Colapso

"O futuro vai mostrar os resultados e julgar cada um segundo as suas realizações."
(Nikola Tesla)
***
Hospital Geral de Raccoon City
2050
- Como está a futura mamãe? — Ada se senta numa poltrona ao lado da cama e espera que a outra mulher lhe olhe de volta, entretanto, a sua amiga parecia esgotada, seus olhos azuis estão inchados e vermelhos, sinal de que havia chorado muito.
- Estou bem. Foi só um susto. — A voz de Monica é fraca e meio embargada e ela não consegue encarar Ada nos olhos, há esse sentimento de vergonha e covardia a dominando.
- E enquanto ao bebê... Ele vai ficar bem, né? — Não há nenhum resquício de aspereza, ou sarcasmo na voz da Ada, é apenas uma genuína preocupação.
- Sim. Meu bebê vai ficar bem. — Por um instante, seus olhos se cruzam. — Eu só preciso dar um tempo do trabalho pra cuidar mais de mim e dele... É uma gravidez de risco.
- Hmmm... Bem, se eu fosse você, daria um tempo mesmo. — Ada se levanta e tenta observar a barriga da outra mulher que sem aquelas roupas largas de inverno, deveria já demonstrar algum sinal de gravidez. — Você está de quantos meses?
- Estou entrando no terceiro mês. Mas ainda não dá pra ver a barriga. — Monica dá um sorriso tímido e desvia os olhos de novo. — Em breve vou saber se é menina, ou menino. — Suas mãos acariciam a barriga com carinho. — Espero que seja um menino, porque eu até já tenho um nome perfeito para ele.
- Leon? — Naquele momento uma luz estalou na cabeça de Ada.
- Sim. Leon em homenagem ao tio. — Monica dá um sorriso triste enquanto seus olhos azuis se enchem de lágrimas. — Por que você disse que... que no seu mundo o Leon está vivo? O que isso significa?
- Que eu não sou a Ada que vocês conhecem. Eu vim do passado que pertence a outra realidade.
- Isso... é impossível.
- Tão impossível quanto a criação de uma máquina do tempo. — As duas se encaram. — Eu não sei como vim parar aqui... Por isso vou precisar da sua ajuda, Annie... Quer dizer, Monica. — Ada, instintivamente, toca numa das mãos de sua amiga e, nesse momento, outros flashes vem em sua mente:
"Há quanto tempo você sabe que estou grávida?"
"Desde que voltei do futuro... Precisei viajar para o futuro para descobrir que... que vocês dois... Vocês dois estavam me traindo."
Os Flashes terminam com Ada se sentindo, totalmente, desnorteada.
- Quem é o pai do seu filho? — Ela resolveu perguntar tão, repentinamente, pegando Monica desprevenida.
- Isso não importa! — Monica diz desviando o olhar outra vez e ficando nervosa.
- É o... Wesker, não é? — Ela continua a pressionar Monica que opta por ficar em silêncio.
A Ada de 2021 chegou a conclusão que a Ada de 2050 além de sofrer com a perda da filha Alice, ainda estava presa a um casamento fracassado, cujo seu marido era amante de sua melhor amiga. Embora a sua duplicata não fosse santa e também tivesse cometido uma grande traição, ainda assim, um erro não deveria justificar o outro.
Só agora Wong começou a entender como o seu destino estava tão intrinsecamente ligado àquelas pessoas. E, de alguma forma, o seu destino acabou sendo todo modificado; não pelas suas próprias escolhas; mas pela ação de um terceiro indivíduo que tinha informações privilegiadas sobre o futuro. Ou seja, esse Alguém teria que ser um viajante do tempo, alguém como o Assassino, ou Wesker...
"Se você estiver certa e o Assassino for um viajante do tempo, então, ele veio por causa dessa máquina do tempo que vocês criaram." Outro flashback surge em sua mente lhe causando um terrível arrepio.
"Não. Nós não chegamos a concluir o projeto. Ele está incompleto."
"Nesse mundo ele está incompleto, mas de onde o Assassino veio..."
"Você tem razão. Ele deve ter vindo do futuro, onde a máquina do tempo já foi concluída." Toda aquela conversa de dias atrás que teve com o Leon, agora começou a fazer sentido.
- Ah, merda! — Só agora Ada se dá conta do real perigo que era estar ali.
- Então, como está as coisas por aqui? — Wesker reaparece na porta segurando um copo de café na mão e trocando um olhar intenso primeiro com Monica e depois com Ada. — O que foi? — Ele indaga se sentindo temeroso com o olhar que ela lhe dá.
- É melhor você cuidar da Monica... Eu preciso sair daqui. — Ela resolve sair do quarto.
- Ei, aonde você pensa que vai? — Wesker agarra o seu braço. Logo, os dois se encontram no corredor que de repente vira um caos com pessoas correndo desesperadas, como se tivessem fugindo de alguma coisa. A coisa que os assustou, nada mais era que o Assassino com seu sobretudo preto encapuzado, sua arma em punho e caminhando impiedosamente na direção deles.
- Wesker, vá para o elevador! — Ada grita correndo na direção dos elevadores. Os dois correm desesperados batendo em algumas pessoas e até às derrubando no chão.
- Meu Deus, o que tá acontecendo? Quem é aquele cara? — Wesker diz ofegante quando já estão seguros no elevador que começa a descer para o térreo.
- Eu não sei... Só sei que ele quer nos matar... E eu acho que é por causa da máquina do tempo que vocês criaram. — Ela também está ainda lutando parar recuperar as suas forças, seu coração está tão acelerado quase ameaçando sair pela boca.
- O quê? Por que eu acreditaria em você? E o que está acontecendo aqui? — As portas do elevador se abrem revelando uma recepção caótica.
- Apenas faça o que eu disse! Pegue a Mônica e fujam. Faça isso pelo seu filho! — Os dois se encaram uma última vez, antes das portas do elevador se fecharem, separando o casal.
E assim Ada é deixada para encarar aquela situação aterrorizante sozinha. Como Ela havia planejado, o seu Algoz já estava bem ali em seu encalço, forçando a mulher a fugir para fora do hospital, onde se depara com várias viaturas de polícia cercando o local.
Chris Redfield está ali em posição de capitão e negociador, tentando convencer o Assassino a se render enquanto Ada se vê paralisada no meio do confronto. De repente há um estrondo tão forte, seguido por um tremor de terra e uma ventania intensa que está prestes a se transformar num furacão e causar muitos estragos por ali.
"Quando foi que o clima mudou?" Aqueles fenômenos naturais não eram normais de acontecer naquele período do ano e muito menos naquela região, assim como nevar em Raccoon City era raro. Mas, ironicamente, é a força da natureza que a salva naquele momento, dando uma brecha para conseguir fugir. Ela corre sem rumo e quase é atropelada no processo.
- Ei, entra aqui! — O dono do carro em questão para bem na sua frente e a chama. Não há tempo para hesitação, então, Ada decide aceitar a carona daquele estranho. — Obrigada! — Assim que se senta no banco do passageiro e se vira para agradecer ao motorista, ela acabava levando um baita susto ao se deparar com um clone perfeito de si mesma.
R.P.D
Departamento de Polícia de Raccoon City
2021
Leon passou horas trancado na sua sala, olhando seus arquivos e checando, várias e várias vezes, as câmeras de segurança a fim de encontrar qualquer pista que pudesse ajudá-lo a encontrar Ada, ou que o levasse até ao atirador de elite que atirou na direção dela e do Assassino. O exame de sangue encontrado no local do acidente deu inconclusivo. A única certeza que tinha era que alguém foi ferido e esse alguém poderia ser a Professora Wong. Ele nem conseguia dormir e nem se alimentar direito, apenas pensando que ela poderia estar ferida, talvez, em alguma outra dimensão.
- Você precisa parar um pouco e ir descansar. — Jill resolve aparecer por ali e incomodá-lo. — Que tal fazermos uma pausa para um lanche? — Ela espera que seu amigo teimoso cedesse.
- Obrigado, mas não estou com fome. — Ele continua compenetrado em seu computador.
- Todos nós queremos encontrá-la, Leon. — Os dois se encaram com expressões, igualmente, tensas. — E todos nós sentimos que falhamos em protegê-la. — Ela também se sentia chateada porque Chris havia se ferido.
Quando soube que o Redfield levou um tiro, sentiu um aperto no coração e um medo enorme de perdê-lo. É óbvio que depois que viu que o seu ex-noivo estava bem e fora de perigo, Valentine retornou a ser a mesma durona de sempre.
- Nós precisamos trabalhar juntos pra conseguir resolver esse caso e resgatar a Ada. — Jill continuou tentando manter a sua antiga equipe unida. Ela poderia ser uma agente do FBI, mesmo assim ainda se sentia parte dos STARS.
- Eu sei que vocês estão fazendo o melhor que podem. — Leon decide dizer para aliviar aquele clima angustiante. — Mas, eu...
- Olá, pessoal! Sabia que ia encontrar vocês por aqui. — Claire surge parecendo desesperada e ofegante como se tivesse feito uma corrida até ali.
- Ei, vai com calma! — Jill a repreende.
- Eu consegui algumas informações importantes sobre esse caso. — Claire faz um suspense, antes de lhes revelar que também estava fazendo a sua própria investigação. — Com certeza esse é o Atirar de Elite que vocês estão procurando, né? — Ela para ao lado de Leon enquanto eles assistem uma gravação em seu celular que mostrava um homem no topo de um dos prédios mais altos da cidade, segurando o que parecia ser um rifle.
O detetive decide passar aquela gravação para um dos computadores e depois averiguar frame por frame, até chegar na última imagem do vídeo que é ampliada. Porém, a imagem não é tão nítida, ainda assim, permite vislumbrar um rosto.
- Ah, podemos jogar essa imagem no programa de reconhecimento facial. — Jill diz se jogando na cadeira ao lado e, praticamente, empurrando Leon para fora do computador. Ela era expert em programas de computadores. — Olha isso, Leon. — O processo é concluído, deixando exposto uma foto de alguém que não era desconhecido.
- Caramba, aí diz que é... Albert Wesker?! — Questiona Claire olhando por cima dos ombros de Leon. — Isso deve estar errado.
- É possível. Esse sistema de reconhecimento facial não é perfeito. — Jill retruca se sentindo um pouco frustrada.
- Não. Eu não acho que houve erro nenhum. — Leon murmura com o olhar distante quando um flashback lhe vem a mente. Ele se lembrou da viagem no tempo que o levou de volta para a fatídica noite da morte de sua mãe. E ao retornar para aquela noite, ele não só reviveu aquela tragédia, como também acabou esbarrando com uma outra versão de Albert Wesker.
Portanto, seu foco agora era ir atrás daquele Wesker, mas para isso ele precisaria de um plano.
Torre do Relógio
Ele não conseguia parar de pensar no momento em que resolveu obedecer aquela ordem e apertar o gatilho. Seu objetivo era simples: — Se livrar do Assassino. — No entanto, Ada também acabou pagando o preço. No fundo, sabia que isso era injusto. Então, quando aquele imprevisto aconteceu e, num piscar de olhos, eles desapareceram no ar sem deixar qualquer vestígio, um resquício de esperança surgiu em seu coração de que ao menos a Professora de Física tinha ganhado mais uma segunda chance para viver, mesmo que agora ela estivesse perdida num outro universo paralelo muito distante do seu.
- Pensa pelo lado positivo, agora estaremos livres do Senhor do Tempo. Além disso, você conseguiu afastar o seu filho de Ada. Não era o que você queria? — Diz Ozwell E. Spencer, surgindo na sala com um copo de Uísque na mão e parando na frente do outro Spencer que eles estavam mantendo como refém.
- Nós nem sabemos se aquele cara está mesmo morto.
- Isso só aconteceu porque você hesitou. Era só apertar o gatilho e esse pesadelo teria acabado.
- Claro, para você é fácil falar. Não é você que está tendo que sujar as mãos. — Wesker também decide encher a cara na tentativa de se livrar de sua própria consciência pesada. — Aliás, por que você me fez sequestrar o seu doppelganger? — O refém em si estava amarrado numa cadeira e sob efeito de algum sonífero que o mantinha a maior parte do tempo inconsciente.
- Eu tinha planos para ele.
- Que tipo de planos?
- Eu sabia que cedo, ou tarde, o Senhor do Tempo viria atrás de mim. Então, eu iria usar o meu irmão gêmeo aqui... — Ele dá um tapa na cara do outro Spencer que se remexe na cadeira, parecendo muito grogue e fraco demais para reagir. — Eu iria usá-lo para enganar a morte.
{Continua}
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