Efeito Borboleta
36 Meu Eu do Futuro

“O tempo é a moeda da sua vida. É a única moeda que você tem e só você pode determinar como ela será gasta.”
(Carl Sandburg)
***
Raccoon City
2021
— Você é louco! — Albert para olhando entre os dois Spencer, achando aquela cena toda bizarra demais.
— Nada é mais louco, do que ter um filho que parece ser a reencarnação do seu próprio inimigo.
— Cala a boca! — Wesker ainda se sentia incomodado e meio perdido desde que descobriu que, nesse mundo, Monica e ele tiveram um filho. E esse filho, ironicamente, se chamava Leon Scott Kennedy e, surpreendentemente, se parecia muito com o tio.
— Mas, você há de convir que é uma baita coincidência o seu filho se parecer tanto com o irmão da Monica. Até a mesma profissão do tio ele escolheu. — Spencer murmura antes de beber mais um gole de seu drink gelado. — Agora só falta ele acabar... na cama da Ada.
— Cala a sua maldita boca! — Wesker puxa o copo da mão de Spencer e o joga contra a parede. — Você já bebeu demais!
— Ei, não fica com raiva! Eu só estou com um pouco... de inveja de você. — Spencer sorri estupidamente embriagado, enquanto Wesker lhe dá as costas. — Depois de todo esse tempo viajando pelo multiverso... agora você tem a chance de conhecer... o seu filho e poder conviver com ele e consertar os seus erros. — O homem mais velho dá um suspiro melancólico, pensando em seu próprio filho que estava morto.
O chefe da Umbrella havia construído a máquina do tempo, no intuito de voltar para o passado e impedir que seu único filho morresse num acidente de carro. E durante uma dessas viagens pelo Multiverso, o cientista, enfim, conseguiu ter êxito e salvar o jovem. Entretanto, a Morte continuou o perseguindo, até que um certo dia, os encontrou... Era para Spencer ter levado aquele tiro, porém Billy acabou entrando no caminho e morrendo em seu lugar. Billy morreu tentando salvar o pai de ser assassinado.
— Eu só queria poder encarar o Senhor do Tempo e... saber o porquê de tudo isso.
Um silêncio pesado se faz presente, até ser interrompido pelo barulho do rádio que havia acabado de pegar uma transmissão direta da RPD, alertando que o Assassino reapareceu e foi visto aos arredores da Corporação Umbrella.
— Droga! Ele voltou para se vingar da gente. Por que ele não morre logo? — Spencer rosna totalmente transtornado. — Ei, aonde você pensa que vai?!
— Não se preocupe comigo... — Wesker lhe responde com uma calma impressionante, enquanto engatilha a sua Samurai Edge e se dirige para o elevador. — Eu vou pegar aquele cretino. E dessa vez, eu não vou falhar.
Raccoon City
2050
— Doutora Wesker, para onde devo levá-las? — A Inteligência Artificial era quem controlava a direção do carro. Há muitos obstáculos pelo caminho, mas ALICE é habilidosa em desviar de todos eles.
— Ache a rota mais segura e continue dirigindo sem parar. — Dizia a Ada de 2050, sentada no banco do motorista e parecendo bastante familiarizada com aquele mundo. — É muito assustador e bizarro se deparar com a sua gêmea, não é? — A sua doppelganger murmura enquanto o carro continua se movendo, freneticamente, pelas ruas caóticas de Raccoon City.
— O que... O que está acontecendo aqui? — Ada de 2021 está tão atordoada com tudo aquilo que de novo começa a pensar que nada daquilo é real. Que tudo poderia ser no final um pesadelo.
— Tudo está se repetindo. — A outra Ada afirma desanimada. — Eu tentei parar isso. Parar esse ciclo sem fim do destino. — A Ada de 2021 que estava sentada no banco do passageiro, ainda está em choque ouvindo a sua duplicata do futuro desabafar. — Mas, não importa o quanto eu lute... sempre acabo falhando. Eu até tentei... matar o Senhor do Tempo.
— Quem é o Senhor do Tempo? — Seus pequenos olhos se arregalam tentando entender tudo o que a sua duplicata do futuro estava falando.
— Eu ainda não sei qual é a identidade dele. Só sei que o cara está nos perseguindo através das dimensões. — Por um instante, ambas se distraem trocando um olhar breve. — E ele não vai parar enquanto não conseguir matar os criadores da máquina do tempo... — A sua duplicata para e solta um suspiro nervoso. — Ele só vai parar quando todas as nossas duplicatas estiverem mortas.
— Isso não é justo! — A Ada de 2021 exclama indignada com o seu destino. — Ele está nos punindo por um erro que vocês cometeram.
— É tão fácil agora você nos julgar. — Em resposta, a Ada do futuro lhe dá um olhar frio. — Lembre-se que você é a minha duplicata e, portanto, as minhas escolhas erradas, consequentemente, tornam-se as suas escolhas também. Não importa em que mundo esteja. Como eu disse... tudo se repete.
— Sinto muito em lhe informar, mas algumas escolhas que eu fiz... já tornam o nosso futuro bem diferente. — Ada de 2021 lhe responde sem pestanejar. — Poço enumerar pelo menos três diferenças gritantes: 1) A máquina do tempo não foi concretizada. 2) Eu não me casei com Albert Wesker e 3) Eu não tenho nenhuma filha. — Talvez, estivesse sendo um pouco cruel ao esfregar esses fatos na cara do seu Eu do futuro.
— O quê? — A Ada do futuro se distrai lhe encarando em choque. — Mas, ainda há um Leon S. Kennedy vivo lá, não é? — Só que a Ada de 2021 decide não lhe responder e, apenas desvia seus pequenos olhos para a janela. — Isso já será suficiente para afetar o seu futuro.
— Espera, o que é aquilo? — A passageira só resolve abrir a boca de novo ao avistar um enorme tornado a poucos quilômetros delas.
— É o nosso buraco de minhoca que ficou instável demais e... acabou criando esse caos. — Quem lhe responde é a voz robótica de ALICE, que continua tentando ultrapassar todos os obstáculos pelo caminho. Há placas, postes de luz, carros e algumas pessoas sendo arrastadas pela força dos ventos.
— Meu Deus! Tira a gente daqui! — E tudo a sua volta parece estar sendo sugado para dentro daquilo.
— Não. A melhor saída é pegar esse Atalho! — Ada fica confusa e atônita, ao perceber que sua doppelganger resolveu mandar ALICE pisar no acelerador sem piedade e ir de encontro ao tal tornado.
— Não! Para esse carro! Você está louca?! — Ada está gritando com a sua versão do futuro. Nesse momento, o Senhor do Tempo resolve surgir, bruscamente, em seu caminho, fazendo a AI acabar perdendo o controle do carro que sai da pista e capota.
— Sinto muito, doutora Wesker. — ALICE se desculpa, porém rapidamente já está tentando organizar seus dados para reconstruir o carro e continuar o trajeto.
Em contrapartida, o coração da Ada de 2021 está a mil, dominada por pura adrenalina e medo que não dá nem tempo de reclamar, ou averiguar o quão grave foi acidente. Tudo o que consegue pensar é em sair dali. Ela solta seu cinto de segurança e se vira para encarar a outra mulher sentada no banco do motorista que parece muito ferida.
— Meu sistema diz que uma de vocês sofreu fraturas externas. A melhor rota é levá-las ao hospital mais próximo.
— Não temos... mais... mais tempo. — A Ada do futuro murmura, fracamente, se contorcendo de dor.
— Ei, nós duas vamos sair daqui agora. Eu vou te ajudar. — A Ada de 2021 tenta soltar o cinto da outra que lhe encara com uma expressão cansada e amedrontada.
— Se você... tem a chance de... de mudar o seu... o seu destino... Então... se afasta do Leon... Não deixe que esse... desti... cruel se... cumpra. Por fav... — Seu conselho é interrompido, cruelmente, por um tiro certeiro que consegue atravessar a blindagem do carro e atingir a sua cabeça.
— Ah, meu Deus! — Ada está em estado de choque ao ver aquela cena, ao ver alguém ser morto bem na sua frente. Para piorar, esse ALGUÉM não era um estranho qualquer, era a sua própria duplicata, tornando aquele cenário ainda mais horroroso.
— Alice, você precisa me tirar daqui, agora! — Quando o choque passa é que ela cria coragem para tomar alguma atitude e fugir. O Assassino está lá fora a esperando, como um caçador frio e calculista que espera o momento perfeito para atacar a sua caça. Ele a deixa fugir, sabendo que, dessa vez, Ada não teria onde se esconder.
Raccoon City
2021
Como um dos principais membros da Umbrella Corp, Wesker conhecia aquelas regiões com a palma de sua mão, portanto, mesmo com o mapa do lugar tendo mudado no futuro, ainda assim algumas passagens secretas de Raccoon City de 2021 continuavam existindo. E elas se encontravam no subterrâneo da cidade ligando vários pontos importantes como a Torre do Relógio, a Universidade, até a RPD e o próprio prédio da Umbrella.
Era por essas passagens secretas que o cientista alemão, conseguia vagar, sorrateiramente, pela cidade sem ser pego pelos STARS. No entanto, isso estava prestes a mudar...
Albert de certa forma interceptava cada informação que conseguia da RPD através de transmissões de rádio, ou hackeando os seus computadores e, foi através de uma dessas transmissões, que acabou sendo atraído para os laboratórios subterrâneas da Umbrella. O cientista se surpreendeu quando se viu de novo dentro da sala onde a máquina do tempo nesse mundo ainda estava no início da sua construção.
É óbvio que estar de novo ali, lhe encheu de várias lembranças sombrias sobre o futuro em 2050. Sobretudo, da última vez que esteve ali com Monica e Ada diante de um buraco de minhoca que estava concluído, mas que acidentalmente colapsou, causando esse enorme caos no Multiverso e transformando, assustadoramente, os seus destinos. Em quando pensava sobre tudo isso, de repente o cientista é atacado de forma inesperada e violenta.
A pessoa está furiosa partindo para cima dele, consequentemente, Wesker tenta se defender como pode. Não é uma tarefa fácil, porque o seu inimigo é mais habilidoso e recebeu um treinamento especial, ao contrário de Albert que (apesar de ter servido por dois anos no exército), hoje era mais cientista que soldado.
— E aqui está o nosso grande rato fugitivo. — Dizia a voz ácida de Leon, assim, que ambos se afastam.
— Caramba, você me assustou. — Wesker retruca segurando a sua Samurai Edge enquanto, cautelosamente, encara o detetive que está a um metro dele também empunhando uma pistola na sua direção. Seu coração de repente fica apertado ao se ver diante de seu filho já crescido. E era tão frustrante perceber quanto tempo perdeu sem estar ao lado de Monica, para ajudá-la a criá-lo e vê-lo crescer e se tornar o homem que era hoje. — Uau, você parece um pouco com ela.
— Ela? — Leon tem um semblante confuso no rosto. — Do que você está falando?
— Da sua mãe. — O cientista percebe que suas palavras deixaram o detetive prestes a vacilar e a abaixar a guarda. — Embora você pareça uma cópia perfeita do seu tio, você ainda tem muito da sua mãe.
— Você conheceu a... a minha mãe? — Leon fica nervoso, porém ainda mantém firmemente a arma apontada para Wesker.
— Sim. Eu a conheci... muito antes de você nascer. — Wesker tenta dar um passo perigoso abaixando a sua arma. — No meu mundo, Moni... — Ele se interrompe ao perceber que aqui, Monica havia assumido o nome de Annie e era assim que Leon a conhecia. — No meu mundo, nós éramos... muito amigos... — Continuou desabafando em tom saudosista. Talvez, fosse o nervosismo misturado a emoção de conhecer o seu filho que o estava deixando-o tão atrapalhado. — Olha, se você abaixar a arma, talvez, a gente possa conversar... — O inusitado era que pai e filho possuíam a mesma idade, o que tornava toda aquela situação ainda mais maluca.
— Não. Você não vai me manipular. E eu não vim aqui pra cair nesse... seu papo furado. — Por algum motivo perto daquele homem, Leon não conseguia se manter frio. Isso o enervava tanto. — Eu quero saber quem é você de verdade? O que vocês querem aqui? E onde está a Ada? Ela ainda está... viva? — Ele estava com medo porque já não conseguia mais rastreá-la.
— Provavelmente, ela ainda está viva.
— Então, onde ela está? — Leon pressiona, dando mais um passo a frente numa postura bastante ameaçadora que força Wesker a recuar. A arma nunca deixando suas mãos frias.
— Você já viajou no tempo, certo? Então, no fundo, você já sabe da resposta. — Wesker dá um suspiro tenso, porque a próxima coisa que sai de seus lábios, deixa Leon ainda mais em choque. — Ela provavelmente está perdida em outra dimensão. E há uma grande possibilidade dela... nunca mais voltar...
— Desgraçado! A culpa é toda sua! — Leon continua esbravejando cheio de ódio. — Por que você atirou nela?
— Não. Eu atirei no assassino. Mas, infelizmente, ela estava junto... — Ele se interrompeu nervoso. — Eu só queria fazer justiça, assim como você.
Nesse exato momento, o celular de Leon começa a tocar lhe chamando a sua atenção. A ligação era de Jill lhe informando que conseguiram rastrear Ada Wong.
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