O grito que sai do fundo da garganta de Liz é tão cortante e falhado que chega a ser inumano. Ela cambaleia para trás, as pernas já não a respondendo mais. Cai sentada por um mísero segundo antes de desviar a visão do pior cenário de sua vida e correr de volta para a casa.

Ela adentra a varanda quase levando a porta de vidro consigo.

Não ousa olhar para trás enquanto corre aos prantos corredor adentro, o coração quase lhe saindo pela boca.

Quando ousa olhar para a porta que deixou aberta atrás de si, tromba com alguém a sua frente. O grito agudo que sai de sua boca é de pavor e alívio, assim que vê Erik parado à sua frente, as mãos segurando-lhe os antebraços, com o rosto tão espantado quanto o dela.

A música para, e as luzes roxas dão lugar à iluminação amarelada original.

— Liz, o que foi?! — Ele a olha como se a garota tivesse enlouquecido. Dani a observa parada ao lado do interruptor.

Liz não sabe como reagir. Sente vontade de desvencilhar-se das mãos que a seguram e correr para longe, mas percebe o quanto não quer ficar sozinha.

Ela se joga nos braços de Erik por um segundo, os soluços ecoando pela casa inteira. Ele faz menção de guiá-la até o sofá, mas ela afasta as mãos dele de si e anda ao redor da sala. Os dois estão tão assustados quanto ela.

— O que aconteceu? — Gabrieli e Samantha já estão rumando escada abaixo quando Mateus e Alice aparecem na beira do mezanino para olhá-los lá embaixo.

Liz se vê o centro das atenções, mas não como gostaria de ser.

— O Caio... E-ele... — Seus soluços não a deixam terminar.

— O que ele fez, Liz? Se acalme. — Erik se aproxima devagar, como se falasse com um animal assustado.

— Ele está morto. — As palavras ecoam no ar por um instante. — Nós não estamos seguros!

— Liz, se acalme... — Samantha se aproxima dela e faz menção de segurar em seus ombros, mas Liz desvencilha-se.

— Não estamos seguros! Fechem as portas, andem!

Os seis a olham como se ela tivesse enlouquecido, e ela sente vontade de agredir cada um deles.

— Ok, Liz, tudo bem. Prefere conversar em outro lugar? Um lugar seguro. — Alice se aproxima dela, devagar, como se ela fosse fugir.

Em meio aos soluços, Liz confirma, olhando para todos os lados.

Alice balança a cabeça, os olhos tão assustados quanto os dela. A anfitriã a guia para um escritório na direção em que Liz entrara. Os outros a seguem, sentindo o frio que irrompe pela porta escancarada e enxergando as pegadas de sangue deixadas por Liz, temendo pela primeira vez que o que ela diz seja verdade.

— Liz, se o que diz for verdade... Se for algum tipo de brincadeira eu juro que...

As palavras de Mateus saem falhadas, como se um bolo dentro de sua garganta o impedisse de dizê-las.

Liz contou desde o momento que viu o sangue até a cena, que não conseguiu detalhar.

— Parece que eu estou brincando? — O rímel da garota escorre por suas bochechas. Seus olhos vermelhos estão inchados, e seu peito dói, ela não sabe se de soluçar ou de pavor.

— Você têm certeza? — Sam pergunta. Parece ser a que mais está com a cabeça no lugar. Ela se abaixa ao lado da amiga, sentada em uma cadeira de rodinhas, processando tudo.

— Eu sei o que eu vi.

Os sete se encaram, cada um parece estar ouvindo as palavras com um sentimento diferente.

Erik está com os olhos tensos perdidos no chão, os braços cruzados. Dani tapa a boca, incrédula, sentada no chão de carpete. Gabrieli está com o corpo inteiro tremendo, não sabe se de frio, de medo, ou de bebida. Mateus permite-se chorar, e Alice o abraça, sentindo sua dor. Caio era seu amigo. Para os outros, apenas um desconhecido.

Erik parece estar mais com a cabeça no lugar do que os outros. Ele olha ao redor da sala e encontra o que procura — de um porta canetas, tira uma tesoura de ponta afiada.

— Eu vou vê-lo.

— O quê? — Gabrieli pergunta, ainda sentindo o corpo trêmulo. Anda de um lado para o outro para fazer o sangue circular.

— Eu vou vê-lo. Temos que... ter certeza.

Liz não se ofende com a desconfiança.

— Erik... — Dani o chama, parecendo ainda menor, encolhida em seu canto. Levanta-se para olhar nos olhos do namorado. — Se o que ela diz for verdade, então... alguém matou o Caio. Não pode simplesmente ir lá fora.

Ela verbaliza as palavras que estão todos pensando.

— Têm mais alguém na ilha? — Liz pergunta, tirando o cabelo ensopado por lágrimas da frente do rosto.

— Não deveria. — Alice responde, segurando as próprias lágrimas de pavor.

— Eu vou com você. — Sam olha para Erik. Limpa o suor das mãos, que denunciam a si mesma o quanto está nervosa.

Alguém tem que ir. Se Erik for, Sam não o deixará ir sozinho.

— Ok. — Ele concorda rapidamente com a cabeça. Rouba um beijo de Dani antes de se virar para a amiga. — Então vamos.

Assim que os dois passam pela porta, sentem o calafrio da chave a trancando atrás deles. Ou talvez seja o frio do vento cortante que entra da porta de vidro escancarada no fim do corredor.

Sam deseja que pelo menos a música ainda estivesse tocando pela casa. Os ruídos assombrosos do vento seriam mais amenos.

Eles seguem exatamente para onde as pegadas de Liz vieram. Sam treme, mas não vai admitir o medo que sente. Ela mal sabe que Erik está mais em pânico que ela, apertando a tesoura entre as mãos como se tivesse medo de soltá-la acidentalmente.

Os dois adentram o ambiente externo que aparenta estar cada vez mais gélido. O banheiro ao lado deles está com a porta escancarada.

Não só o que Liz disse é verdade, como lhes poupou de muitos detalhes.

Sam sente que vai vomitar, mas segura o que quer que seja dentro de seu estômago.

Dá um passo a frente, inevitavelmente manchando os tênis com o sangue do homem que mal havia conhecido. Estende uma das mãos trêmulas e puxa o pedaço de papel do peito de Caio. O grampo se descola e vai ao chão. Ela observa as letras desenhadas com sangue. Por cima do ombro da amiga, Erik lê as palavras que ouviu Liz pronunciar na sala horas atrás.

"Ações têm reações".

Seu celular vibra em seu bolso, e Erik está tão fora de órbita que segura um grito com o susto.

Sam o observa.

O garoto tira o celular do bolso e vê uma mensagem. SMS de um número desconhecido com apenas um link. Acima do mesmo, a simples palavra escrita com letras minúsculas: "abra".

Sam o vê hesitar e se aproxima para olhar a tela do celular, uma fonte de iluminação intensa no banheiro escuro.

Como se fosse ensaiado, os dois levam as mãos a boca para amenizar o pavor quando o vídeo se abre.

Alice derruba o celular das mãos assim que abre o vídeo com a palavra imperativa. Um soluço preso em sua garganta finalmente sai, e Mateus não sabe se a abraça ou pega o celular do chão para ver o que a aflige. Mas não é necessário. Sentada ao seu lado, Dani recebe a mesma mensagem, assim como todos eles. Ela abre o vídeo e fecha os olhos imediatamente. Não têm estômago para assistir.

Reunindo todo o sangue frio que acredita ter, Gabrieli tira o celular de suas mãos e assiste. Os outros se amontoam atrás dela em seu tempo.

No visor do celular, um vídeo caseiro mostra o exato momento em que Caio entra no banheiro. A câmera filma de dentro da floresta, espreitando como um predador em posição de ataque.

O vídeo corta subitamente, e foca bem no rosto de Caio, já sem vida, com os olhos tão arregalados que parecem penetrar a alma de quem os olha. A garganta está recém cortada e, com mãos cobertas por luvas de couro pretas, alguém usa o dedo indicador para pegar o sangue que cai no chão, filmando com a outra mão. Eles percebem que, quem quer que seja, escreve a mensagem com a mão esquerda, antes de grampeá-la sem humanidade no peito do garoto morto.

Quando parece que nada pode piorar, o vídeo corta para outra cena — Sam e Gabrieli se beijando no quarto, sendo vistas da janela, no momento em que Liz entra no quarto. Alguém as observava.

— Ai, meu Deus. — Liz leva a mão ao peito, com uma sensação horrível na boca do estômago.

Outro corte.

— Caio! — A voz de Liz grita na filmagem assim que ela sai da casa. Escondido na mata, alguém a filma de todos os ângulos possíveis, até que ela encontre Caio no banheiro.

Liz recomeça a chorar e não consegue mais manter-se sentada. Se levanta e joga a cabeça para trás, inspirando profundamente.

Quando tudo parece que não pode piorar, a filmagem corta para Sam e Erik encontrando o corpo de Caio, e pior, os mostra abrindo o vídeo no celular de Erik. Alguém está os observando agora.

Batidas na porta faz os cinco gritarem em uníssono.

— Somos nós! — A voz de Sam entra desesperada pelas frestas da porta. Não aguenta mais ficar ali. — Abram a porta, pelo amor de Deus!

Dani se levanta do chão e ruma para a fechadura. Assim que a destranca, Sam e Erik irrompem pelo escritório. A porta é trancada atrás deles logo em seguida.

Naquele momento, os sete se encaram. Não entendem de que tipo de brincadeira doentia estão fazendo parte.

Sam traz consigo duas coisas em mãos. Uma ela coloca em cima da mesa — o papel com as palavras de sangue. A outra, entrega nas mãos de Alice.

— O porta-retrato estava quebrado no corredor.

Alice pega a foto em mãos, e sente que pode desmaiar a qualquer instante. Mateus a ampara.

A foto de família de Alice está amassada, com pequenas gotas de sangue espalhadas por ela. Mas o mais intrigante é o corte em X feito sobre o rosto do irmão.

Antes que possa explicar para os outros, as luzes se apagam. Não só as da casa, mas as da ilha.

A única fonte de luz agora vêm do fogo crescente do lado de fora que sobe pelas paredes da casa de madeira, os cercando.

Notas finais
e aí? aguardo opinioes hehe