Efeito Borboleta

8 Capítulo 7


Notas iniciais
Olá pessoal, desculpe a demora, comecei a estudar para concurso e ficou mais difícil escrever com regularidade. Segue mais um capítulo. Félix e Jonathan vão ao Gian...

Jonathan desligou o carro depois de pará-lo no estacionamento do shopping e olhou para o homem ao seu lado. Fazia muitos anos que não o via vestido daquele jeito. O terno não era novo, mas estava em perfeito estado, provavelmente pela falta de uso, também não estava assim tão bem passado como antes, mas ainda assim deixava seu pai elegante como nunca. Mas ele estranhara que de todos os restaurantes luxuosos de São Paulo, seu pai escolhera juntamente um restaurante de shopping. _ Pai, você tem certeza que quer jantar aqui?

— Claro meu filho. Porquê não?

— Mas num restaurante de shopping?

— Ahh Jonathan, desde quando você passou a desdenhar restaurantes de shopping? Félix falou já saindo do carro. _ E o restaurante do Niko é muito bom por sinal, não é nenhum destes fast foods que vocês jovens adoram não viu?

— Eu não tô desdenhando pai – Jonathan falava enquanto o seguia – mas você bem vestido deste jeito, pensei que você fosse querer ir em algum restaurante elegante daqueles que você costumava ir antes... Jonathan parou no meio da frase, de repente, percebendo o que ele acabara de dizer.

— Pode falar meu filho. Antes de ser expulso do hospital e da casa de Mami Poderosa... Félix falou com tristeza, mas continuou caminhando pelo estacionamento.

— Não foi o que eu quis dizer pai.

— Não é uma questão de querer ou não querer dizer Jonathan, é apenas um fato. Felix entrou no elevador e apertou o botão, para o andar do Restaurante, em seu rosto a expressão de serenidade podia enganar aos muitos que não conheciam seu pai, mas não enganava a Jonathan, não mais.

— Ela sente saudades sabia? O rapaz disse após alguns minutos de silêncio.

— Eu não quero falar na sua avó Jonathan. Félix continuava com a expressão calma e séria, mas seus dedos se curvaram e suas mãos se fecharam em punho e Félix imediatamente as colocou dentro do bolso da calça.

Jonathan viu o pai mudar a postura, ele colocou as mãos no bolso da calça e levantou levemente o queixo. Gestos que lhe garantiam uma postura de superioridade, aquela que o antigo Félix sempre tivera, mas o enrijecer do seu maxilar deixavam claro sua insegurança. Algo que nunca ninguém percebia, não percebiam porque não o conheciam, não como Jonathan o conhecia agora. _ Você devia ir falar com ela pai. O belo rapaz arriscou.

— Falar o quê Jonathan? Félix não conseguiu manter a pose, fazendo uma careta ele tirou as mãos do bolso gesticulando-as com impaciência apertando novamente o botão do elevador. Felizmente a porta se abriu e Félix aproveitou pra sair rápido como se aquilo fosse fazer o filho mudar de assunto.

— Falar, conversar, dizer que sente saudades... Jonathan, apesar de mais baixo, rapidamente alcançou o pai e seguiu caminhando lado a lado ao homem que aprendera a admirar.

Félix se irritou quando percebeu que o filho não desistiria assim tão fácil. _ Sua vó foi muito clara na ultima vez que conversamos meu filho, ela disse que eu não devia procurá-la nunca mais. Estou apenas respeitando o seu desejo. É o mínimo que posso fazer. O homem moreno falou acreditando que aquilo poria um ponto final no assunto.

— Isso foi há quatro anos pai.

Ele não queria falar sobre sua mãe, ele a amava muito e o filho sabia disso, mas principalmente porque Félix a amava muito, principalmente por saber o quão complacente ela fora com ele durante todos aqueles anos, é que doía tanto se lembrar da última coisa que ela lhe dissera. E Félix se lembrava de casa uma de suas palavras como se fosse ontem “... você era uma menino estranho, um menino mal...” sua mãe, sua própria mãe praticamente disse que ele tinha uma alma má, ela praticamente o chamara de... Félix sacudiu a cabeça pra tentar se livrar daqueles pensamentos que há anos lhe agonizavam “... jogar uma criança recém nascida numa caçamba tem um nome. Maldade.” Félix teve que se controlar para não chorar bem ali, no meio do shopping.

— Mas será que eu fiz cachinhos nos cabelos de Sansão pra você me convidar pra jantar pra ficar falando do meu passado. Félix usou uma de suas piadas para tentar, mais uma vez encerrar o assunto.

— Tá bom pai. Não vamos falar mais nisso.

Jonathan concordou sabendo que não adiantaria nada insistir. Seu pai estava magoado, Jonathan até entendia essa mágoa, afinal sua avó era tudo para o pai. Ele a idolatrava, se tinha uma coisa que o seu ‘antigo’ pai tinha de bom era o amor pela mãe, e ser expulso de casa sem ter chance de volta, e não receber o perdão da pessoa que mais lhe importava no mundo, com certeza, era um golpe muito duro. Jonathan sabia que o pai, no início, tinha a esperança de ser perdoado pela Dona Pilar, e, por conseguinte, cada ano que passava sem que o avó o procurasse, o deixava mais triste e mais sem esperança.

Eles caminharam em silêncio até chegarem ao restaurante. O lugar estava cheio, e o cheiro agradável de algum tipo de incenso juntamente com uma luz amarela e mais baixa deixava-o bastante aconchegante. Um garçom veio recebê-los e indicou uma mesa à direita do restaurante e pai e filho seguiram para lá, após sentarem-se deu a eles o cardápio saindo em seguida em direção a outro cliente que entrava. Félix ainda estava distraído, em parte pelos pensamentos tristes que a pouco lhe torturavam a alma, mas também porque alguma coisa estava faltando àquele lugar.

— Tá tudo bem pai? Jonathan perguntou ao notar o pai inquieto.

— Claro Jonathan.

— Parece que você está preocupado com alguma coisa? Olha se é por causa da vovó, ou do que...

— Não Jonathan, mas pelas contas do rosário, eu já não falei pra deixar o passado no passado? Que coisa mais irritante... Félix respondeu irritado.

— Desculpa pai. Jonathan respondeu com um sussurro de voz e abaixou a cabeça com a desculpa de olhar o cardápio. Ele amava o pai, mas mesmo depois de todos esses anos e de todas as mudanças pelo que seu pai passara, ele ainda tinha o poder de fazê-lo se sentir diminuído.

— Ai, não meu filho. Félix se deu conta do quão rude foram suas palavras e levou a mão a boca fazendo uma careta de vergonha de sim mesmo. _ Me desculpa. Eu não devia ter falado assim com você, desculpa seu pai. O moreno estendeu a mão para pegar nas mãos do filho. _Eu... é que... esse... o meu passado, filho isso mexe comigo de um jeito que eu fico fora de mim. Félix falava com o coração, e Jonathan percebeu mais uma vez o quanto tinha razão sobre seu pai e sua avó.

— Tá tudo bem pai. Vamos falar de coisas alegres. Hein? Que tal a gente pedir uma cerveja para brindar o meu novo emprego hã?

Félix olhou para o filho desconfiado, ele queria ter certeza que estava mesmo tudo bem entre ele e o filho. Ele o analisou cuidadosamente enquanto o filho fazia sinal para o garçom, seu sorriso era modesto mas parecia sincero, seu corpo estava relaxado, mas Félix percebeu que o seu olhar continha algo que ele não soube bem identificar, ansiedade talvez, quando o garçom se aproximou o filho fez o seu pedido e olhou para o pai sorridente.

— E você pai?

— Pra mim pode ser essa duplinha de camarões... uma não, duas duplinhas de camarões. Félix fez o gesto do número 2 com os dedos e depois levou-os na boca enquanto olhava o cardápio para o próximo pedido. _Eu também vou querer um destes de salmão, dois... Ele riu e entregou o cardápio para o garçom.

— E para beber?

— Um Chopp. Falou Jonathan

— Pra mim uma água.

— Água!?!

O rapaz perguntou.

— Tenho que trabalhar amanhã filho, e depois não sou muito fã de cerveja, prefiro vinho, champanhe...

— Aqui deve ter também...

— Não, Jonathan. Só água mesmo. Depois você está de carro não está? Então, melhor eu ser o motorista da vez.

— Tem certeza?

— Claro que tenho meu filho. É sua comemoração, você bebe e eu dirijo. Félix sorriu para o filho que lhe sorriu de volta, desta vez seu sorriso chegava aos olhos e Félix viu desaparecer aquela pequena ruga de insegurança de poucos minutos atrás e Félix ampliou ainda mais o seu próprio sorriso com a constatação, e, por um momento lembrou-se de um outro sorriso, tão doce e puro quanto aquele a sua frente, um sorriso que transpirava amor e cheirava a família. Instintivamente Félix olhou em direção ao balcão que ficava ao fundo do restaurante. E, mais uma vez constatou que Niko não estava lá, e por uma razão que ele não sabia explicar aquilo o incomodou.

Jonathan fez sinal para o Garçom que era isso mesmo e este antes de sair ainda confirmou. _Mais alguma coisa?

— N-nã... Jonathan ia respondendo quando foi interrompido pelo pai. _ Eu não estou vendo o Niko... Félix viu o garçom frisar a sobrancelha e pensamento de que o loiro não mais trabalhava ali fez uma bola invisível subir por sua garganta. _ Ele ainda é dono do restaurante não é? Ele perguntou preocupado.

— O Seu Niko? É sim, claro. Mas o seu Niko raramente trabalha no turno da noite, só em época de muito movimento... ele olhou ao redor, os enfeites de Natal o contradiziam e Félix franziu as sobrancelhas claramente confuso. _ É... é que hoje o seu Niko tinha um compromisso. O Garçom finalmente completou sem jeito.

— Ah.. sei... compromisso é?

— É, um compromisso pessoal. O garçom falou sorridente sem perceber que estava falando mais do que devia a respeito do patrão.

— Claro. Então vai, vai buscar este Chopp e agilizar nosso pedido pois estamos famintos. Félix finalizou a conversa impaciente.

Jonathan observou aquilo curioso. Ele não sabia que o pai conhecia o dono do restaurante, mas agora fazia sentido ele querer vir aquele restaurante específico, dentre tantos. Mas o que o deixou curioso foi ver o pai mudar a expressão de seu rosto, a cada palavra do garçom, Jonathan via desaparecer uma micro ruga aparecia no dos seus olho quando o seu sorriso chegava até al. E, aos poucos e quase imperceptivelmente, aquele sorriso que chegava aos olhos foi substituído por um sorriso aberto e grande mas pouco sincero.

— E, então pai? Me conta como vão as coisas... a vida...

Jonathan resolveu tentar saber o que se passava com seu pai. Ele já tentara antes mas não obteve sucesso. Ele, então, viu o homem moreno balançar a cabeça e se animou, pensando que finalmente o pai se abriria com ele.

Félix não tinha muitas novidades, sua vida não era exatamente um mar de excitação, ele até pensou em fazer uma de suas piadas reclamando de sua van e do mecânico que ainda volta e meia dava-lhe uma cantada inapropriada, ou quem sabe falar daquele cliente mala que todo dia vinha comer seu hot-dog mas sempre reclamava que estava quente demais, ou salgado demais, ou frio demais... mas antes que Félix pudesse dizer qualquer coisa o filho emendou. _ Tá namorando? Aquilo pegou Félix completamente de surpresa.

— Mas... humh... o quê?

— Perguntei se você está saindo com alguém, se tem um namorado...

— Ahh, mais eu devo ter... não sei nem o que eu devo ter... Félix olhava para o filho completamente pasmo e porque não dizer envergonhado. Ele nunca falou sobre sua vida intima com Jonathan, embora Edith tenha jogado aquelas fotos para todos verem, inclusive seu filho, mas...

— O que foi pai, qual o problema?

— Jonathan, mas é o apocalipse você vir falar comigo sobre... me perguntar se eu...

— O que tem isso pai? Minha mãe sempre me fala sobre os namorados dela. O rapaz respondeu com um misto de embaraço e divertimento em seu semblante.

— E sua mãe, é alguém que se pode tirar como base, por acaso? Olha Jonathan acho que foi você quem deve ter surfado no mar egeu para ter eu e sua mãe como seus pais. Félix encontrou seu modo brincalhão que sempre o ajudara em momentos constrangedores como este.

— Imagina pai. Tenho muito orgulho de você. E minha mãe também mudou muito sabia?

— Ahh... sei, ela mudou de Prada para Louis Vuitton. Félix comentou, mas logo que viu a cara do filho e se desculpou. _Desculpa.

— Ela mudou mesmo pai, se separou do Doutor Herbert e está morando com um cara de quem ela realmente gosta.

— Mais essa eu duvido muito. Aquela ali só gosta de dinheiro. Félix falou em seu tom de voz alto de costume.

— É verdade pai. O Wagner não tem dinheiro, na verdade ele trabalha num cerimonial. Você deve se lembrar dele, ele era mordomo lá na mansão.

— O tapete persa!!! Mentira?!? Félix falou surpreso e colocou a mão na boca, ainda incrédulo.

— É. Jonathan riu. _ Ele mesmo. Minha mãe montou um cerimonial e ele toma conta.

— Quem diria!!! A Edith e o tapete persa... Félix continuou rindo, mas de repente, algumas peças se encaixaram, porém ele preferiu não comentar. Mesmo porque foi interrompido pelo garçom que trouxe as bebidas e na sequencia o filho voltou a insistir em falar de sua vida amorosa.

— Mas nós estávamos falando de você pai. Porquê você nunca fala pra mim sobre você... sobre seus sentimentos... seus relacionamentos.

Quando viu que Jonathan não iria desistir ele, deu um longo suspiro, e resolveu ser sincero. _ Ahh meu filho, eu não me sinto a vontade de falar sobre... sobre isso com você... com ninguém na verdade.

— Mas porque pai?

— Como porque Jonathan. Porque eu... Félix arqueou as duas sobrancelhas. _ Eu não tenho um relacionamento... — Ele não sabia qual palavra usar — ... normal.

— E desde quando relacionamento homossexual não é normal senhor Félix?

Félix não podia conter sua surpresa, com o passar dos anos, ele e Jonathan haviam desenvolvido um relacionamento incrível, mais do que pai e filho eles se tornaram amigos. O filho até veio chorar em seu ombro quando a namorada Ana o trocou por outro. Ele até já tinha tentado algumas às vezes falar sobre isso com o pai, às vezes fazia uma ou outra insinuação, mas era a primeira vez que ele era tão direto com Félix.

— É... é normal... eu quis dizer diferente da maioria... Félix ainda estava tomado pela surpresa. _ Ahh Jonathan, pelas contas do rosário...

— Pai.

— Que é.

— Eu só quero saber como você está. Jonathan tomou mais um gole na cerveja e se inclinou colocando o dedo indicador no peito do pai. _Como está seu coração. Você ainda gosta daquele homem que morava com você? O Anjinho?

Felix estava emocionado, mas não pode deixar de achar graça da pergunta do filho. _ O Anjinho? Ele falou sorrindo. _ Imagina... Não. O Anjinho. Ele riu novamente com a ideia.

— O que foi. Vocês moraram juntos um bom tempo não foi?

— Nós não moramos juntos. Félix levantou levemente a voz e o dedo indicador tentando enfatizar seu ponto. _Eu deixei ele ficar na casa da Márcia um tempo, quando ele saiu da prisão. Ele concluiu em seguida.

— Ahh sei, e ele dormia no quarto da Valdirene. Jonathan falou cinicamente.

—N-não, não exatamete. Félix confirmou sem graça.

— Não exatamente?! Jonathan arqueou uma sobrancelha, exatamente como o seu pai fazia quando falava com sarcasmo, embora em Jonathan o gesto soava ainda mais enfático.

— Ahh por favor Jonathan... Ele olhava para o filho que tomava mais um gole da cerveja e se divertia com a falta de jeito do pai em falar de seus relacionamentos. _ Tá bom, ele ‘morou’ comigo um tempo, um pequeno tempo tá? Félix viu o filho arquear a sobrancelha novamente, sem falar uma palavra desta vez. _ É, foi um curto prazo de tempo, que aliás me custou quase todos os meus ternos. Félix falou em voz alta quando se lembrou que Anjinho vendeu tudo o que ele tinha de valor, que aliás se resumia na mala, alguns sapatos e seus ternos, para sustentar o vício.

— Hã?

— Ai, filho, é uma longa história e eu não quero falar sobre isso. Basta você saber que o Anjinho só ficou lá na casa da Márcia enquanto ele não conseguiu um outro ricaço que o financiasse. Ele viu uma certa preocupação passar pelos olhos do filho. Ou seria desaprovação? _ É, você não queria saber, então, é isso! Não tem nada de romântico. O Anjinho ele foi... — Félix levantou a cabeça, pra pensar na maneira mais apropriada de dizer — ... Um oásis na minha vida. E como todo oásis no deserto é apenas uma miragem, que normalmente te leva direto para uma armadilha. É isso, o Anjinho é uma ótima pessoa, um doce de pessoa, mas ele tem suas... como devo dizer...necessidades. E, bem, como eu não tenho mais condições de, digamos, ajudá-lo ele se foi.

— Eu sinto muito pai. Jonathan falou sinceramente.

— Não sinta. Olha meu filho. Félix se inclinou para olhar bem nos olhos do filho. Ele não sabia como dizer o que estava pensando para o filho, então se lembrou de algo que o seu pai disse uma vez a seu respeito. _ Eu nunca gostei de ninguém. Não do jeito que você gostou da Ana, o Papi uma vez disse que eu não sou capaz de amar e, eu... eu acho que ele tem razão sabe. Eu até gostava do Anjinho, mas nunca foi assim... você entende?

— Não fala isso pai. É claro que você é capaz de amar. Só não conheceu a pessoa certa ainda. A sua alma gêmea.

— Ahh Jonathan, mais eu devo ter feito cachinhos nos cabelos de Zeus para ter um filho tão romântico. Tem certeza que você é hétero mesmo? Ele deu uma gargalhada.

— Não adianta disfarçar pai. Eu sei que você, faz essa pose de durão mas também tem seus sonhos, só precisa superar seus traumas e preconceitos e abrir o coração. Tenho certeza que lá no fundo... – Jonathan novamente pôs a mão direita no peito do pai — ...você também sonha em encontrar um grande amor.

Félix moveu a cabeça para o lado e abriu um enorme sorriso para o filho. Um sorriso que chegou até os seus olhos. E Jonathan não precisou que ele dissesse mais nada. O seu sorriso e seu olhar já diziam tudo.

Notas finais
Continua... PS: Adoraria saber o que estão achando. Gostando? odiando? Bjs