Efeito Borboleta

5 Capítulo 4


César saiu para o pátio e olhou ao seu redor. Sua visão limitada não deixava que ele visse com clareza, mas ele podia ver o contorno das pessoas, mulheres e homens, esposas, mães, pais, filhos... famílias que vinham visitar seus filhos, netos, pais, irmãos que estavam presos. Alguns, principalmente as crianças, estavam alegres por rever seus entes queridos, outros pareciam mais tristes. Apesar de César não conseguir ver o seu semblante, era possível identificar a tristeza pelas cabeças baixas ou pelos soluços que lhe chegavam aos ouvidos a cada passo que ele dava.

Ele identificou um banco de cimento que tinha uma mesa também de cimento que estava vazio e rumou pra lá. Com a ajuda da bengala, César conseguiu com certa agilidade sentar-se ali, para seu momento de espera incerta. Ele pôs a bengala sobre a mesa onde também deixou ficar seus braços e pôs-se a olhar novamente o pátio. Há alguns anos ele diria que aquelas pessoas que iam visitar seus parentes presos eram também cúmplices de seus crimes pois, em sua cabeça na época, ele não entendia como alguém poderia ainda ir naquele lugar horrível, para visitar criminosos. Sim, porque ali só haviam criminosos, de todo o tipo, desde aqueles com crimes menores como roubo e alguns até, quem diria, falta de pagamento de pensão alimentícia. Até latrocínios, estupradores ou assassinos, como ele... César concluiu amargamente. O fato é que naquela época ele não admitia que um familiar pudesse se solidarizar com um bandido, seja por que razão fosse.

Agora, no entanto, estava ele ali na mesma situação daqueles que ele tanto desprezava, aqueles dos quais ele tinha tantas criticas, pois na sua visão preconceituosa, a pessoa que embrenha pelo mundo do crime o fez por que quis, porque não tinha índole e era um fraco. No entanto, ele acabou descobrindo da forma mais dura que as coisas não eram tão preto no branco. Ele realmente conheceu diversos homens extremamente maus naquele lugar. Homens que cresceram no mundo do crime ou simplesmente possuem a maldade no seu íntimo, ele diria até psicopatas. Mas César também havia conhecido pessoas boas, pessoas que entraram neste mundo do crime por diversos motivos, a maioria não tão nobres, outros por falta de opção ou por simples descontrole emocional como fora o seu caso.

César revivia aquele dia na sua cabeça dia após dia, noite após noite. Ele se lembrava de começar a desconfiar que a esposa o traía algumas semanas antes, meses talvez, mas a paixão que ele sentia por aquela mulher era tão grande, que ele não podia aceitar uma coisa daquelas, ele não conseguia aceitar que ela seria capaz de traí-lo. Pra ser bem sincero, quando César pôs aquela faca no bolso, seu primeiro pensamento fora de matar o desgraçado que seduzira sua mulher, porque ele tinha certeza que Aline havia sido manipulada, tamanha a sua paixão, ou melhor dizendo obsessão, por aquela mulher. Mas quando César ouviu os gemidos da esposa que transava com outro homem na sua casa, na sua cama na frente de seu filho... ele não conteve a sua ira e partiu para cima daqueles dois. Ele teria matado ambos se o homem não tivesse fugido logo que viu a mulher sangrar sobre seu corpo.

Hoje, mais calmo, mais sábio, ou talvez mais ciente da realidade nua e crua de que ele fora manipulado e enganado. E ele só não tinha outra opção a não ser ficar ali, dia após dia, alimentando sua amargura e esperar pelos fins de semana e pelas visitas dos parentes. Seus filhos... No início elas eram mais frequentes, mas com o passar do tempo suas prioridades foram se alterando e as visitas foram diminuindo e diminuindo, até quase se extinguirem... César enxugou uma lágrima que mesmo um coração duro como o dele não conseguiu ignorar a dor no peito pelo sentimento de abandono, levantando a cabeça ele olhou instintivamente em direção a entrada, foi quando viu a silhueta de um home alto, cabelos negros e andar irritantemente afeminado... Exceto por ele.

— Papi Soberano. A voz estridente e carregada de trejeitos de Félix não deixava dúvidas de que era seu filho que se aproximava. César não pode evitar um sorriso que surgiu no canto de sua boca, mas sua amargura e preconceito não o deixavam ser gentil com a única pessoa que ainda se dispunha a vir naquele inferno com uma certa regularidade.

— Eu já te falei pra não me chamar assim Félix. César falou com sua irritação característica.

— Desculpa Papi. Pai. Félix respondeu resignado e sentou-se no banco a sua frente.

— Como você está pai?

— Vou indo.

— Estão te tratando bem? Porque se algum carcereiro te incomodou de novo por ter uma cela espec...

— Não Félix, está tudo bem. Não tem ninguém me incomodando não. Não mais do que o habitual. César respondeu mais educadamente.

— H-habitual. Papi, tem alguma coisa que você não me contou?

— Não Félix já disse pra não se preocupar.

— Ok. Olha, trouxe umas coisinhas pra vocês. Felix tirava algumas coisas de uma sacola enquanto falava. _ Este bolo foi a Gina quem fez viu? Deve estar uma delícia, porque aquela ali cozinha muito bem. Na verdade só conheci uma pessoa que cozinha melhor do que ela... Ele falou apontando para uma vasilha que parecia ser de plástico sem expressar em voz alta a quem ele se referia, uma vez que o pai não devia conhecer o Niko. _ Já está até fatiado pro senhor viu? Eu trouxe também este pacote de cigarros, imagino que o último que eu trouxe já tenha acabado né? Félix apontou para um pacote embrulhado em algum papel que César supôs ser de alguma mercearia ou algo do gênero. Apesar de saber que o pai não fumava Félix sempre que podia trazia um pacote de cigarros pois sabia que aquilo era uma moeda de troca valiosíssima naquele lugar. É claro que aquela estripulia lhe causaria um desfalque que ele nem queria pensar agora, mesmo porque seus problemas e privações eram com certeza infinitamente menores do que os do pai. _ Por fim tem estas frutas aqui. Tem banana, maçã e goiaba. Eu tive que deixar os morangos com os agentes que me revistaram pra não criarem caso com as outras coisas.

— Obrigado. César falou secamente. Apesar de se emocionar com o gesto do filho, sua amargura por ter que receber tal agrado justamente dele. Do filho que ele sempre rejeitou, do filho que ele até hoje não conseguia aceitar como ele era o corroía.

— De nada. Mas não pense que os morangos foram em vão não, olha aqui o que os agentes fingiram não ver... Félix abriu um sorriso enorme ao pegar um pequeno aparelho e coloca-lo em sua mão. _ Mas o que é isso Félix. O médico perguntou curioso, embora incomodado com aquilo.

— É um gravador digital pai, o Jonathan comprou pra mim... — César não entendia porque o Félix tinha que pedir o Jonathan para comprar um simples gravador. _Ele grava muitas horas de voz então eu... — Félix engasgou um pouco antes de continuar. _ Como eu sei que é sempre difícil para o senhor conseguir alguém para ler para o Senhor, então eu gravei alguns livros aqui. Félix pôs o aparelho na mão do pai e colocou seu dedo sobre uma das teclas. _ Veja, o senhor aperta esta tecla e fala o nome do livro e o capitulo que quer ouvir, o gravador vai então posicionar naquele livro e capítulos.

— Entendi.

— Eu consegui dois clássicos que eu sei que o Senhor gosta, mas como não sei que dia vou poder voltar e como não achei mais nenhum, eu mesmo gravei o terceiro. Félix falou com os olhos cheios de lágrimas, mas conseguiu disfarçar a voz embargada.

— Então quer dizer que além de ter que te aguentar aqui nos dias de visita, ainda vou ter que ouvir sua voz por semanas se eu quiser ouvir este livro?

—Ai Papi, também não precisa falar assim né... Depois, minha voz é magnifica como todo o resto. Félix usou o humor pra esconder sua decepção.

— Espero que você tenha pelo menos feito voz de homem nestas gravações. Félix baixou o queixo e fez um esforço descomunal pra não chorar com o comentário do pai.

— Não pai. Minha voz está normal. Ele conseguiu responder seriamente.

— Melhor.

Félix olhou para o lado, e ficou em silêncio. Apreciou por algum tempo as pessoas ao redor que, assim como ele, estava ali visitando seus parentes e amigos. Pessoas de todas as idades, raças, crenças, com suas roupas bregas que traziam um colorido divertido que se misturava com o alaranjado das vestes dos presos e por um momento alegrava aquele pátio cercado de muros cinza e triste. O silêncio entre pai e filho se manteve por longos 10 minutos até que finalmente Félix olhou de volta para o pai pôs o cotovelo sobre a mesa juntou as mãos uma na outra entrelaçando os dedos e começou novamente a falar.

— Pai. Ele falou num tom de voz grave para demonstrar que o assunto seria sério. _ Eu estive na defensoria pública esta semana.

— Hum. César ruminou indiferente.

— O advogado já deu entrada na apelação do seu julgamento.

— Não sei porque você perde tempo com esta bobagem.

— Não é bobagem pai.

— Defensoria pública, são todos um bando de filhinhos de papai que compraram uma vaga pra ganhar as custas do contribuinte.

— Não é bem assim pai. Olha eles conseguiram a cela especial para o Senhor não foi?

— É, tenho que admitir que isso me surpreendeu.

— Então. Eles só tem muito trabalho, tudo bem que é uma burocracia enorme, sem falar que eles trocam de gente todo dia. Félix alterou novamente a voz e gesticulava como de costume, mas ao ver a impaciência do pai ele voltou ao estado comedido. _ Mas, enfim. Ontem estive conversando com seu novo advogado, Doutor Lucas. Um amor de pessoa. Ele riu com simpatia mas o pai fechou ainda mais cara. _ Pois então, eu estava conversando com ele, e existe uma maneira de tirar você daqui.

Félix viu a expressão no rosto do pai se suavizar. E, apesar do homem não admitir, ele ficou esperançoso. Félix não pode evitar a felicidade em seu peito por ver o seu pai com este fio de esperança. Quem sabe até ele poderia chegar a se orgulhar dele.

— Estou ouvindo.

— Se desistirmos da apelação, ele pode entrar com um pedido de redução de pena devido a sua idade, bom comportamento, etc.. se conseguirmos uma redução da pena para 12 anos ele já entraria na sequencia com um pedido de liberdade condicional pois, neste caso, o senhor já teria cumprido os requisitos necessários. Félix respirou fundo novamente antes de seguir com a explicação. _ O problema neste caso é que o Senhor permaneceria como condenado por crime passional. Félix olhou atentamente para o rosto do pai, que neste momento tinha uma expressão neutra.

— E... quanto tempo levaria pra fazer todo este processo acontecer. Ouviu o pai perguntar

— O Advogado disse que faria o possível para agilizar o processo, mas de qualquer forma existem prazos legais que precisam ser respeitados, já que ele vai ter que pedir o cancelamento do recurso, entrar com um novo processo, depois...

— Quanto tempo Félix! César interrompeu impaciente.

— De 3 a 6 meses.

Félix disse de uma vez e mais uma vez e um novo silencio incômodo se fez entre eles. Félix sabia que seu pai precisava de tempo para digerir a notícia. Então, desta fez o moreno pôs-se a analisar o seu pai. Sua pela tinha um tom bonito cor jambo, que Félix atribuiu aos banhos de sol que eram diários, mas as rugas eram mais evidentes que antes, assim como a expressão sisuda que antes Félix via apenas em seus momentos de raiva normalmente direcionadas a ele, agora estava cravada na face de seu pai. Como se sorrir não fizesse mais parte de seu dia a dia. Félix também notou que seu pai engordara um pouco desde sua ultima visita, mas naquela ocasião ele estava se recuperando de uma pneumonia e...

— O que a Paloma disse dobre isso?

—Hã? Félix foi pego de surpresa pela pergunta.

—É, a Paloma sua irmã.

— Eu não falei com a Paloma Papi.

— Porque não?

— Papi... Félix usou seu tom mais doce. _ A Paloma e eu não temos exatamente um relacionamento... digamos ...regular.

— Ela não te suporta Félix.

— É. Ela não me suporta. Ele não conseguiu evitar a raiva por ouvir seu pai falar na Paloma, quando era ele quem sempre ia atrás dos advogados para saber sobre sua situação. _ E ela tem razão, você jogou a filha dela numa caçamba. O pai o relembrou de seu passado vergonhoso.

— Eu sei, pai. Eu sei o que eu fiz. Eu sei que a ratin... Paulinha poderia ter até morrido, eu sei de tudo... mas eu devo ter feito cachinhos em Maria Madalena pra você reviver esta estória justo agora.

— Muito bem. Suponho que você não falou com sua irmão sobre esta proposta do advogado.

— Não pai. Eu não falei com a Paloma. Eu vim aqui falar com o senhor. Afinal você é o mais interessado no assunto não é mesmo?

— Tá certo. César respirou fundo.

— E, então. O que eu digo pro advogado? Félix voltou com o seu tom normal de voz.

— Diga pra seguir em frente. Félix abriu um sorriso. _ Mas eu também quero que você faça mais uma coisa por mim.

— Claro pai, pode falar.

— Quero que você fale com esse advogadozinho aí que você ficou tão impressionado e consiga uma forma de eu receber uma visita da Paloma em um outro lugar. Fora deste presídio.

— Mas eu devo ter...

— Félix! César o interrompeu irritado.

— Mas pai... O moreno estava verdadeiramente chateado.

— Você vai fazer o que eu te pedi.

— Eu vou pai. Claro que eu vou. Félix disse resignado.

Notas finais
Ai gente... que tristeza, mesmo fazendo tudo para o pai, o Félix ainda não consegue que ele o respeite não é... O Félix precisava de ombro do Carneirinho pra chorar agora, fala a verdade? Recados: — Reforço que não entendo de lei penal, então considerem este tópico apenas como uma liberdade criativa (faz de conta que está certo... rsrs). — Sobre a Paloma não visitar o pai, será explicado mais a frente, mas parte da explicação foi dada no capitulo 2, a presidente do San Magno num presidio é escândalo na certa. ;) — Por fim... Consegui fazer uma montagem bobinha, mas como se passaram 4 anos achei algumas fotos dos atores mais velhos e eu achei que ficaria bem legal. O que vocês acharam? Eu queria umas fotos do Félix com roupa de pobre mais não achei nada como eu queria então peguei aquelas em que ele está mais simples como jeans e camiseta rsrs. Ahh a cereja do bolo (pelo menos pra mim) foi uma foto do Thiago Fragoso bem novinho, na montagem desta estória aquela foto representa o Fabrício aos 4 anos... Como assim ninguém percebeu que ele é filho biológico do Niko gente!?!