Efeito Borboleta

4 Capítulo 3


Niko estava tão extasiado com o tempo que ele passou com o Fabrício, que ele precisava comemorar e pra Niko não havia melhor comemoração do que cozinhar, então ele resolveu passar no mercado e comprar alguns ingredientes, pois ele hoje iria fazer um de seus jantares maravilhosos. Mas ao entrar encontrou uma Adriana desesperada que vinha em sua direção aos prantos com o telefone na mão.

— Graças a Deus que o senhor chegou Seu Niko. Eu estou tentando falar com o senhor faz um tempão.

—Mas o que foi Adriana. O que aconteceu?

— O Jayminho não voltou da escola. Adriana disse chorando.

— O quê? Niko largou todas as sacolas ali mesmo no meio da sala e pegou o celular. _Você já tentou falar com ele? Meu telefone acabou a bateria.

— Tentei Seu Niko, mas ele também não atende o telefone. A mulher confirmou angustiada. _ Quando o Juliano... sabe o moço da van, ele me ligou lá da escola do Jayminho dizendo que ele não estava lá, perguntou se tinha alguma coisa diferente hoje ou se o Senhor ia pegá-lo, eu disse que não.

— E porque você não falou pra ele procurar pelo Jayminho Adriana? Niko falou angustiado enquanto procurava o carregador de seu celular.

— Eu falei seu Niko e ele disse que já tinha procurado mas não encontrou e que ele não podia ficar esperando mais porque tinha outras criança na van. Eu tentei ligar para o Jayminho, mas ele não atendeu, depois eu tentei falar com o senhor e também não consegui. A mulher falava e chorava ao mesmo tempo.

— Se acalma Adriana, eu vou... eu... Niko também estava desesperado e não sabia bem o que fazer. Isso nunca havia acontecido antes, tudo bem que ultimamente seu filho vinha tendo um comportamento mais difícil, deixava o Niko falando sozinho algumas vezes, principalmente quando este estava chamando a sua atenção por ficar muito tempo no vídeo game em detrimento dos estudos. Niko também tentava conversar com ele sobre o seu dia a dia, amigos, namoradas, etc. Mas ele sempre lhe respondia com monossílabos. Mas Niko havia atribuído este comportamento a sua idade, afinal Jayminho estava entrando na pré-adolescência.

— Se acalma Niko. O Sushiman falou consigo mesmo enquanto começava um exercício de respiração. _ Primeiro eu vou carregar meu celular e, ver quais amigos dele eu tenho o telefone. É isso, eu vou ligar para os amigos dele. Niko tentava se acalmar mas estava tão nervoso que teve dificuldade para encaixar o carregador ao celular. E quando o aparelho finalmente ligou Niko pôs-se a procurar pelos nomes dos amigos do filho. _ Deixa eu ver aqui Adriana, qual o nome mesmo dos amigos dele? Tem o Martelo... não é isso?

— É Magrelo, né não seu Niko?

—Magrelo? Niko olhou pra ela em dúvida. _ Mas também isso é nome. Deixa eu ver, não tenho nem Martelo nem Magrelo. E aquele outro, aquele baixinho de olhos grandes. Niko já se culpava mentalmente por não ter os telefones dos amigos de seu filho.

— Caveira!!! Adriana falou agitada como se aquilo fosse uma competição de quem acerta primeiro.

— Isso caveira, deixa eu ver aqui... Não tenho também. A cada minuto que passava Niko ia ficando mais desesperado, seus olhos se enchiam de lágrimas e já cogitava em ligar para a polícia. Quando finalmente encontrou um nome conhecido.

— Pedro Pino, achei o telefone dele Adriana. Niko clicou no botão ligar enquanto a mulher pos-se a rezar ao seu lado. Porém antes da ligação completar a porta da sala se abriu e Niko viu o filho entrar por ela calmamente como se nada tivesse acontecido. _Jayminho!!! Niko desligou o telefone imediatamente e foi até o filho para abraçá-lo.

— Ai pára pai. O menino se desvencilhou rapidamente dos braços do pai.

— Jayminho! Niko falou com voz firme. _ O que houve? Adriana e eu estávamos aqui deseperados, você não veio na van, não deu notícias, não atende o telefone. Onde você estava? Como você veio pra casa?

— Hoje tinha eliminatórias do volei. A mãe do Marreco me trouxe. Ele falou com desdém o que deixou Niko bastante incomodado. _ Eliminatórias. Do volei. Na escola. Niko pausava a cada afirmativa e o menino apenas soltava um “É” e balançava a cabeça positivamente. _ E você não fala nada?!? Jayminho, Adriana e eu ficamos desesperados, achando que alguma coisa grave estava acontecendo e você estava na escola?

— Ihhh pai, não faz drama. Não aconteceu nada. Tô aqui num tá vendo?

— Jayminho!!! Niko agora estava realmente bravo. _Isso são modos? Pra começo de conversa, não é assim que se fala comigo, eu sou seu pai. Enquanto Niko falava o garoto mantinha expressão típica de adolescente que se traduz em ‘que saco!’ e Niko viu que não adiantaria ir por este caminho. Ele então respirou fundo.

Desde que se tornou pai, cada dia era um desafio, no começo foi a timidez, por ter passado por mais de um lar adotivo além de alguns problemas no abrigo, sem mencionar as besteiras que a Amarilys disse a ele. O menino era retraído, apesar de ser sorridente e estar sempre alegre na presença de Niko, Jayminho era muito tímido em outros ambientes, inclusive na escola onde teve dificuldades de se enturmar assim como, de acompanhar os coleguinhas nas atividades escolares. Niko se desdobrou para ajudá-lo na escola e, contou com a ajuda da sua terapeuta para trabalhar a timidez. Passada esta fase, o menino começou a desenvolver a sexualidade, e Niko se viu tendo que explicar sobre o tema, o que fez Niko recorrer a sua mãe pois sabia muito bem o quanto sua mãe era sábia e ele precisa muito de ajuda para explicar certas coisas para o filho sem ser nem muito descritivo nem evasivo. Agora ele entrou nesta fase controversa onde, ora ele o enfrentava, ora o ignorava e em outros momentos ficava arredio. Niko estava ainda tentando entender como lidar com isso, mas ele tinha que admitir pra si mesmo que fazer aquilo sozinho estava sendo muito difícil.

— Filho. Niko adoçou a voz. _ Porque você não me falou das eliminatórias. Hein meu filho? Niko usou um tom de voz calmo, tentando demonstrar cumplicidade. Mas viu o filho mexer os ombros com indiferenças e responder sem olhar nos seus olhos. _ Pra quê? Hoje não é o dia do Fabrício?

— Oi??? Aquilo pegou Niko de surpresa.

— Você ouviu. O garoto falou virando de costas para ir pro seu quarto.

— Jayminho, sim, hoje eu fui ver o Fabrício, mas isso não tem nada a ver... Mas antes que pudesse completar sua frase viu o menino virar-se de uma vez no meio da sala de jantar. _ Como não pai? Por acaso você iria deixar de ir lá ver o Fabrício pra ir na minha escola me ver jogar?

Niko titubeou, mas recuperou-se a tempo de não deixar o garoto perceber. _ Mas é claro que sim Jayminho.

— Ia mesmo? Porque toda terça e quinta você só pensa nele. Você vai sei lá onde pra vê-lo, volta triste e não faz mais nada a não ser pensar nele. Então, porque eu tenho que te falar sobre minhas coisas?

— Oh meu filho, vem cá. Niko segurou o braço do filho, sentou no braço do sofá puxando-o suavemente para que pai e filho ficassem frente a frente. _ Eu sei que às vezes fico um pouco chateado quando vejo o Fabrício, mas olha pro seu pai. Niko segurou no queixo do menino que olhava para outro lado e delicadamente fez com que ele o encarasse. _ Eu amo você e seu irmão do mesmo jeito viu?

Mas ao contrário do que Niko pensou, aquela fala só piorou a reação do menino. _ Ele não é meu irmão! O garoto falou e voltou a olhar para outra direção. E aquilo foi como jogar um balde de água fria sobre Niko. O seu filho tinha razão, por mais que ele não quisesse admitir... Fabrício não cresceu naquela casa, não cresceu junto com o irmão mais velho. Como ele poderia querer que houvesse amor fraterno entre eles? O Fabrício, provavelemnete nem sabia da existencia de Jayminho, sem falar que hoje foi apenas um grão de areia na imensidão da praia. Uma migalha que Niko nem mesmo sabia se iria se repetir, mas Niko se recusava a aceitar. Fabrício era seu filho e irmão do Jayminho.

— Não fala isso meu filho. Mas tão logo Niko terminou de falar Jayminho puxou seu braço e falou num tom elevado porém choroso enquanto dirigia-se para o seu quarto. _ É verdade pai. Aquele garoto não é meu irmão, não é nada meu. Eu odeio ele!!! O Garoto finalizou pisando duro já entrando no corredor.

Os olhos de Niko brilharam, mas desta vez não foi de alegria. Seu filho mais velho estava se sentindo rejeitado e ele não foi capaz de perceber isso. Niko colocou os dedos da mão direita sobre a boca numa tentativa vã de dissipar sua tristeza enquanto ouvia a porta bater no meio do corredor.

Notas finais
Nossa gente, a vida do Niko não está nada fácil não é? Ele cria o filho sozinho, tendo que lidar com seu próprio sentimento de perda e agora mais essa... Cadê o Félix pra ajudar nosso amado carneirinho?!?