Efeito Borboleta

2 Capítulo 1


Niko olhou para o relógio pela enésima vez, ansioso voltou a cortar o salmão para a preparação do prato seguinte, mas de minuto em minuto levantava a cabeça para olhar a porta principal do restaurante na esperança de que a qualquer minuto seu principal Sushiman, seu amigo e substituto no Gian, chegasse. _Ai Edgar, cadê você? – Niko voltou novamente a atenção para os ingredientes a sua frente. Niko montava cada niguirizushi com habilidade e rapidez sem sequer pensar no que estava fazendo, tão acostumado ele estava em preparar cada uma daquelas pequenas delícias da cozinhar japonesa.

Alguns pedidos depois um homem ansioso entra pela porta do restaurante o que faz Niko respirar aliviado, mas não sem antes chamar-lhe a atenção pelo seu atraso.

— Edgar isso são horas? Você sabe que dia é hoje?

— Sei sim seu Niko, me desculpe mas...

— Edgar, eu não sou um patrão chato, tá bom, posso ser, às vezes, mas não sou chato demais com pontualidade, mas você sabe muito bem que nas terças e quintas tenho uma compromisso inadiável. Niko falava enquanto tirava o uniforme de Sushiman. _ E, que preciso sair daqui às quatro e meia em ponto.

— Eu sei Seu Niko, mas é que o pneu do carro furou e eu precisei parar pra trocar.

— Tá bom Edgar, me desculpe, mas você sabe o quão importante é pra mim sair no horário. Niko suspirou tristemente, mas voltou-se novamente para o homem com um sorriso doce. _ Enfim, olha. Estes dois pedidos aqui, são da mesa 15 e 26, aqui estão os pedidos das demais mesas em ordem cronológica de chegada. O homem loiro falou apontando para os pratos e uns papeis na bancada. _Já vou indo então, qualquer coisa você me liga.

— Sim Seu Niko. O homem mais velho respondeu e viu seu patrão sair esbaforido pela porta da frente. Ele o olhou tristemente e balançou a cabeça preocupado com aquele garoto que ele gostava como a um filho.

Algum tempo depois Niko estacionava o carro numa singela pracinha onde crianças, acompanhadas principalmente de suas babás, brincavam felizes. Ele desligou a chave do carro, respirou profundamente tentando se acalmar, mas não perdeu muito tempo com esta ação uma vez que ele já estava atrasado e não podia perder mais tempo. Então, ele saiu do carro o mais calmamente que conseguiu e foi em direção a pracinha. Primeiro ficou olhando ao redor, procurando sem sucesso um rostinho loiro que lhe era muito familiar. Em seguida, focou sua procura pelos brinquedo que sabia ser os preferidos da criança. O balanço, o escorregador, a torre de ferro que deixavam seu coração na mão cada vez que o pequeno se embrenhava por entre aquele emaranhado de figuras geométricas e chegava lá no alto. Mas hoje não, ele não estava em nenhum destes lugares. Niko instintivamente olhou para o relógio em seu pulso para ver o tamanho do seu atraso. _ Quinze minutos. Ele falou consigo mesmo. _ Não é possível que eles já foram, eu só me atrasei 15 minutos. Seu rosto era um mar de angústia, seu coração, batia forte e descompassado enquanto lágrimas ameaçavam sair de seus olhos. Ele estava tão absorto em seu desespero por ter perdido uma oportunidade, uma mísera oportunidade, mas era exatamente esta migalha, este pequeno “encontro”, que lhe dava forças para passar a semana, que não percebeu a bola que vinha em sua direção e acertava em cheio sua cabeça.

A bola não o acertara muito forte, mas foi o suficiente para fazê-lo olhar na direção que ela viera e foi quando toda a sua angustia se derreteu e transformou em uma alegria sem fim. Ele estava ali, correndo em sua direção, os olhinhos verdes brilhantes e um sorriso grande e aberto em seu rosto. Niko entortou levemente a cabeça para olhá-lo, ele segurava a bola em suas mãos enquanto o garoto parou em sua frente gargalhando pela travessura. Niko estava no céu, havia anos que não ficava tão próximo dele, mas antes que pudesse pronunciar qualquer palavra ouviu a babá que estava ao seu lado chamar-lhe atenção.

—Fabrício, o quê é isso menino?! Não pode rir deste jeito. Que coisa feia, você acertou a cabeça do moço. Vai pede desculpas.

Niko olhou para a mulher de meia idade que estava a sua frente e depois para a criança que agora tampava a boca para abafar o riso que ainda saia sem pudores.

— Imagina, não foi nada. Niko falou com a mulher mas sem desviar o olhar do menino. _ Foi realmente engraçado não foi. O Shushiman agora perguntava diretamente para o pequeno travesso que balançava a cabeça ainda contagiado pelo riso. Niko se ajoelhou para ficar da altura da criança e entregou-lhe a bola.

—Desculpa. Ouviu o garoto dizer, e aquilo foi como se um furacão tivesse lhe atingido, mas por dentro. E Niko teve que se conter para não soltar um gemido alto de dor contida durante anos de espera.

— Você não precisa pedir desculpas. Imagina Fabrício. Ele conseguiu falar ainda tentando segurar as lágrimas. _ Seu nome é Fabrício não é? Ele viu o pequeno balançar a cabeça em sinal positivo. _ Eu sou o Niko. O homem loiro falou colocando sua mão direita no peito para se identificar. _Você estava jogando futebol?

— Uhum... Foi o que saiu da boca da criança que agora ficara tímida. E Niko não se continha de felicidade. _Você gosta de futebol?

— O meu pai falou que eu não devo falar com estranhos. O garoto falou ao invés de responder a pergunta de Niko e a sua resposta trouxe outra onda de tristeza ao pobre Sushiman, que desta vez não conseguiu conter uma lágrima que percorreu lentamente o seu rosto. Niko rapidamente a limpou e estendeu a mão para o garoto. _ E o seu pai tem razão. A voz de Niko saiu embargada, mas ele respirou rápido e se conteve antes de falar a frase seguinte. _ Muito prazer eu sou o Niko. Ele tirou forças sabe-se lá dá onde para sorrir e estendeu a mão para o filho.

O menino hesitou, olhou para a babá que acenou positivamente e, só então segurou a mão de Niko que não conseguiu mais controlar e deixou que as demais lágrimas que queimavam seus olhos jorrassem. Aquilo assustou levemente o menino que então soltou a sua mão, olhou-o curioso e na sequencia perguntou. _ Está doendo?

—Hã?! Niko foi pego de surpresa com a pergunta.

— A bola que eu chutei na sua cabeça. O pequeno explicou apontando para a cabeça de Niko.

— Ah.. N-não. Niko levou o braço ao rosto para enxugar as lágrimas na manga da camisa.

— Mas então porque você está chorando? O garoto perguntou curioso.

— A-ah. N-não é nad... Mas antes de terminar Niko foi interrompido por aquela vozinha doce e infantil.

— Você quer que eu dou um beijinho pra sarar?

—Hã? Niko ficou tão surpreso que quase caiu pra trás.

— Quando eu caio ou machuco a Nina sempre dá um beijinho no lugar do machucado pra passar. Ele disse inocentemente, claramente falando da babá.

Niko se recompô a tempo e desta vez conseguiu juntar um pouco de razão à sua cabeça atordoada e então olhou para a babá em busca de aprovação. Quando viu ela acenar positivamente voltou-se para o garoto para responder-lhe.

— C-claro, eu acho que um beijinho vai ajudar. Niko falou num fio de voz e viu o menino se aproximar dele, segurar sua cabeça abaixando-a para ficar mais na sua altura, e então beijou entre a sua testa e o cabelo. Niko fechou os olhos para impedir que mais lágrimas saíssem de seus olhos. Desta vez lágrimas de felicidade. Seu filho, seu bebê estava lhe dando um beijo na testa. Niko sonhara tanto com isso, durante os últimos 4 anos imaginara inúmeras vezes que o colocara na cama, contava histórias e depois lhe beijava a face e em seguida via o menino retribuir-lhe o beijo, assim como o Jayminho sempre fazia.

Toda a ação não durou mais que alguns segundos, mas para Niko aquilo ficaria marcado para a eternidade. E quando o pequeno se afastou ele deu-lhe um sorriso tenro com os olhos brilhantes das lágrimas que insistiam em brotar ali.

—Melhorou. Perguntou a criança.

—Melhorou. Niko balançou a cabeça afirmativamente e se levantou rapidamente para que o garoto não visse as novas lágrimas que ele não poderia mais segurar. Ele as enxugou na mesma rapidez conseguindo assim impedir que seu filho as visse, deixando-o plenamente feliz por ter conseguido corrigir o seu erro.

Nesta hora, a babá que estava o tempo todo ali sem se pronunciar decidiu interrogar-lhe. _Eu me lembro de você. Você está sempre aqui quando eu venho trazer o Fabrício. Ela parecia ter acordado e agora tinha um ar preocupado.

— S-sim, eu... Niko olhava para a mulher que lhe lançava um olhar desconfiado. _Olha, não é isso que você está pensando. A mulher fechou ainda mais a expressão. _ Eu... Eu perdi um filho. Niko decidiu ser sincero. _ Há quatro anos eu tive um filho e a mãe dele o levou de mim. Ele falou sem entrar em detalhes e viu que a expressão da mulher se suavizar.

— Nina, posso brincar no escorregador? Fabrício perguntou.

—Claro. Ela disse olhando para a criança. _Mas lembre-se suba devagar para não cair.

—Tá. Foi a resposta.

—Desculpe. Ela olhou de volta para Niko. _ Você disse que a mãe do seu filho o levou, mas ela fugiu com ele? A mulher, começou a andar em direção ao brinquedo mas voltou a expressão preocupada no rosto.

— Não exatamente. Niko a acompanhava notando o olhar confuso da mulher. Ele sabia que ela tinha razão afinal que tipo de pai não pode ver o filho. _ Não sei se você percebeu, mas eu sou gay. Niko falou sorridente, abrindo os braços e se mexendo descontraidamente, tentando demonstrar o máximo de simpatia. A mulher assentiu e ele continuou. _Então, na ocasião eu tinha um companheiro e nós decidimos ter um filho... Através de inseminação artificial. Ele falou rápido pra evitar confusão. _Bom pra encurtar a estória, a barriga solidaria. A mulher que gerou o nosso bebê, ela... Niko não conseguiu controlar a emoção e lágrimas novamente brotaram em seus olhos. _ Depois que o bebês nasceu, ela... Ele respirou fundo para conseguir falar. _ Ela não quis nos entregar a criança. Niko deixou de fora a traição do Eron, mesmo porque ele já estava se arriscando demais. _ Bom, o bebê era filho biológico do meu companheiro e tudo o que aconteceu acabou fazendo com que a gente se separasse e... Niko suspirou resiliente. _Enfim, eu briguei muito para ficar com meu filho, porque acredite. Eu o amo muito, não importa que ele não seja meu filho biológico, eu sinto que ele é meu filho. Mas por causa disso, quero dizer, porque ele não é meu filho biológico a justiça... Niko engoliu em seco... _Me impediu de ficar com meu bebê... E, Eu... quero dizer ela.... ela passou a me impedir de vê-lo.

Eles já estavam sentados no banco enquanto Niko explicava e ele narrou toda a história olhando para o Fabrício que brincava ali em frente, mas seu olhar parecia distante, em outra época. Seus pensamentos realmente não estavam mais ali, e sim há 4 anos atrás quando Amarilys e Eron levaram o Fabrício. Ele lembrou-se de como a doutora Silvia foi firme e tentou de tudo para dar-lhe o Fabrício de volta. Lembrou-se da audiência na vara de família, da sentença do Juíz, de como ele ficou descontrolado e brigou com a Amarilys e de como o Eron mais uma vez ficou ao lado dela. Era como se um filme passasse por sua cabeça, imagem desconexas... os amigos indo visitá-lo, dizendo para ele esquecer o Fabrício e seguir adiante, lembrou-se de ter ido na casa daqueles dois traíras inúmeras vezes para tentar ver o Fabrício, de ser impedido até que não conseguiu aguentar e acabou por brigar com a Amarilys de ser expulso da casa deles e depois da ordem de restrição e a determinação do Juiz que ele fizesse sessões de terapia.

O baque por saber que não poderia nunca mais se aproximar do filho foi tão grande que Niko só não entrou em depressão por que tinha Jayminho e precisava ter forçar pra cuidar do filho mais velho. Mas mesmo com a terapia ele não conseguia aceitar a perda do filho e Niko tentava, na maioria das vezes sem sucesso, saber notícias do Fabrício através dos amigos que tinha em comum com a Amarilys. Paloma, Patrícia e Michel... mas eles sempre lhe diziam que era melhor ele não saber de nada, que aquilo tornaria mais fácil ele superar. Até que um dia ele ouviu, em seu restaurante, a Patricia contar para outra secretária do hospital que o filho ia naquela pracinha duas vezes por semana com a babá brincar com o filho da Amarilys. A Secretária havia se esquecido da estória do Niko e quando percebeu que ele estava em sua frente sem reação ela se desculpou pediu pra ele se acalmar e depois de passada a surpresa por saber notícias de seu filho depois de tanto tempo Niko disse que estava tudo bem, e saiu deixando-as com seu almoço.

Mas a partir daquele dia, as terças e quintas passaram a ter um novo significado para ele. E foi assim que nos últimos 2 anos Niko conseguiu acompanhar o filho crescer... mesmo de longe. Como um expectador, um expectador assíduo no palco da vida.

— Nossa!!! Eu sinto muito. A voz da babá trouxe Niko a realidade. É claro que ele não contou a babá nada daquilo que sua mente trouxera a tona nestes últimos minutos. E o loiro apenas olhou para a mulher com aqueles olhos doces e concluiu. _ Depois disso, eu fiz terapia e, embora eu nunca tenha esquecido do meu bebê, eu me conformei em ficar longe. Em saber que ele está saudável e... então eu venho aqui, às vezes... quase sempre... Niko riu simpático. _Eu venho ver as crianças da idade dele brincando, fico imaginando como ele possa estar, como ele se diverte... enfim, é isso.

Niko parou de falar pois sabia que não tinha o menor jeito para mentir e acabaria se enrolando e se entregando de vez.

— Você disse que faz 4 anos, então seu filho tem...

— Quatro anos e meio. Niko não quis ser precisar com medo da mulher juntar 2 e 2.

— Eu realmente sinto muito. A mulher falou, mas antes de continuar a conversa o Fabrício escorregou de mal jeito e caiu do aparelho. Niko instintivamente correu para ajuda-lo a levantar-se e o acalentou.

— Hey Fabrício não chora. Ele segurava a criança com doçura passando a mão por sua cabeça. _ Olha, lembra que você deu um beijinho e minha dor passou? O menino balançou a cabeça ainda soluçando. _Então, agora é minha vez de te dar um beijinho pra sua dor passar. Niko falou rindo por poder ser pai de seu filho pela primeira vez em anos. _Tudo bem?

Fabrício balançou a cabeça novamente e Niko o segurou no colo e beijou seus cabelos. Ele não tinha como descrever a sensação de alegria que dominava todo o seu ser. Ele apenas aproveitou aquele momento, pois não sabia quando o teria novamente, quando poderia novamente ter seu filho em seus braços. Quando poderia novamente acalentá-lo, apoiá-lo, ser seu pai. A babá ficou tão comovida com a história de Niko que acabou demorando-se um pouco mais no passeio daquele dia e Niko pode não só observar, mas brincar e rir com o filho. Algum tempo depois a babá anunciou que eles precisavam ir e ele precisou aceitar que tinham que se despedir.

—Tchau Niko. O garoto falou sorridente.

Niko deu tchau com a mão e viu o pequeno se distanciar com a babá, ele ficou ali, olhando os dois sumir por entre as árvores da rua até que finalmente ela virou a esquina e não era mais possível vê-los e ele finalmente respondeu.

—Tchau meu filho.

Notas finais
Ai gente... tadinho do Niko. Sem o Félix pra dar a ele a ideia do exame de DNA o Niko nunca soube que Fabrício era seu filho e acabou não só perdendo a sua guarda, como também foi totalmente privado de conviver com ele. O que vocês acharam hein? E será que só o Niko foi afetado por não ter conseguido convidar Félix para comemorar a volta do Jayminho. Recados: — Eu sei que o Félix já tinha ido antes no restaurante sem que o Niko o convidasse, mas vamos considerar que neste UA, o Félix não conseguiu voltar lá devido ao grande movimento de fim de ano e quando ele finalmente teve um período um pouco menos agitado (ou sem trabalhar até tão tarde) ele considerou que já havia se passado muito tempo e não teria coragem de aparecer pra comer sem pagar.