Efêmero
8 Capítulo VII: Potter
Notas iniciais
Capítulo VII: Potter
Escrito por: Wenky (Andréia)
.
.
Monstro cumpria suas atribuições como elfo doméstico com a maior eficácia possível, de maneira que não havia restado resquício algum da espessa camada de poeira anteriormente distribuída pela mobília da antiga residência de Sirius Black. No entanto, o velho elfo não conseguiu esconder seu olhar de ressentimento ao reencontrar Harry Potter, seu mais recente mestre que dois anos atrás havia o deixado e que só agora tornava a aparecer.
Mas não era Monstro que realmente incomodava a Harry no momento, particularmente ele acreditava que em breve o elfo esqueceria o acontecido e, em todo caso, o cheiro que o jantar recém preparado exalava estava fazendo com que seu estômago falasse mais alto do que qualquer preocupação que pudesse lhe acometer no momento. A não ser por Hermione Granger, que sentada do outro lado da mesa mantinha uma expressão séria e de desaprovação.
— Harry, você tem certeza se...
— Você fala como se Malfoy já não soubesse que eu sobrevivi — Harry a entrecortou falando enquanto comia seu jantar, de forma que as palavras estavam relativamente mais difíceis de entender — Você mesma o contou, Hermione — completou, agora com a boca vazia.
Hermione se calou e se deteve a responde-lo com um olhar de fúria contida, os dois se encararam por alguns segundos até que a garota desistiu de argumentar e decidiu se concentrar no seu próprio jantar. De repente, estava com raiva de Draco de novo, se as provocações dele não a afetassem tanto agora ela teria como manter Harry na casa de Bill e Fleur Weasley sob a premissa que ele não deveria se expor a um aliado muito pouco confiável como Draco Malfoy.
Todo seu empenho de anos havia sido direcionado a garantir que Harry não se expusesse, Voldemort ainda não havia sido derrotado e a farsa precisava ser mantida até que o momento certo chegasse. Se o garoto que sobreviveu não fosse capaz de salvar o mundo mágico, ela não sabia mais como deter o avanço do Lorde das Trevas. Além disso, era como se um buraco se formasse em seu estômago a cada vez que pensava que poderia perder a Harry, assim como perdera Ron há quase três anos atrás.
Em seu último encontro, quando esboçaram um plano juntos, era quase como se uma trégua tivesse sido estabelecida entre ela e Draco. Porém, algo lhe dizia que aquilo não era motivo para que abaixasse a guarda com ele. Hermione ainda estava tentando descobrir mais sobre ele, por isso manter os nervos no lugar quando fosse lidar com suas provocações era tão essencial.
Era ela quem deveria desvendá-lo, e nunca o contrário, e para isso, precisava de toda sua calma e objetividade direcionadas à tarefa. Em prol de sua própria segurança, e da de seus amigos, precisava descobrir onde realmente estava a lealdade de Draco. E ela bem sabia que antes da tempestade vem a calmaria e, portanto, deveria estar preparada.
Quando Draco aparatou na sala de jantar, a primeira coisa que irrompeu em sua visão foi o par de óculos do rapaz sentado do lado oposto a Hermione, seu antigo rival em Hogwarts, Harry Potter. Reencontrá-lo na mansão que outrora pertencera aos Black lhe causava uma sensação estranha, como se durante alguns segundos ele fosse atingido por um choque de realidade e uma linha paralela entre como as coisas são e como elas poderiam ter sido se formasse em sua mente.
Ele e Harry nunca realmente estiveram do mesmo lado, até agora. Anos atrás, no Expresso de Hogwarts, quando Draco havia tentado uma aproximação que rapidamente foi rejeitada pelo garoto que sobreviveu, a ideia de que poderiam ter sido amigos parecia razoável, até que a rivalidade fosse se expandindo no decorrer dos anos. Agora, porém, ao reencontrá-lo, Draco tinha a sensação de que tudo não passava de um detalhe dentre uma infinidade de outros detalhes que outrora fizeram parte da sua vida e que começavam a se desfazer, perdendo significado. Harry Potter, definitivamente, não era mais seu rival.
Particularmente, achava que o rapaz tinha a aparência de um fantasma sentado naquela mesa com seu rosto mais magro e envelhecido do que se lembrava. Talvez fosse, considerou, afinal, ele havia conseguido o feito impressionante de sobreviver a Voldemort mais uma vez e apenas agora tornava a vê-lo pessoalmente Draco começava a tomar uma real consciência disso.
— Potter — o cumprimentou monossilábico assumindo um tom familiar. Harry o encarou por alguns segundos e então desviou o olhar para Hermione que observava a cena em silêncio e com certa dificuldade em esconder seu descontentamento.
— Meu senhor — disse Monstro, apressando-se para cumprimenta-lo e puxar uma cadeira para que Draco se sentasse à mesa.
O principal objetivo daquela reunião era atualizar a Harry e Hermione sobre como o plano que haviam traçado duas semanas atrás estava sendo colocado em prática. Ele havia adiado o encontro o máximo que pôde, pois não era como se tivesse alguma informação para dar a eles, as circunstâncias estavam completamente diferentes agora. Sendo assim, serviu-se de uma taça de uma das garrafas de vinho que Monstro deixara sobre a mesa e começou a falar.
— Yaxley ainda não apareceu no Ministério — mentiu. Sentia-se nervoso, era fato, mas através de muito esforço, seu tom de voz soava natural e quase que despreocupado — Eu não obtive muitas informações sobre onde exatamente ele foi, não é como se deixassem o Departamento dos Trouxas entrar em contato com esses assuntos com frequência —completou fazendo uma carranca.
Harry deu uma risada em tom de deboche antes de retorquir:
— Eu pensei que você fosse um Comensal da Morte, Malfoy — apontou.
— Eu sou — Draco deu de ombros — Só que não um dos mais confiáveis no momento, Granger deve ter falado melhor sobre isso com você — disse fazendo referência a Hermione e pela primeira vez naquela noite, mesmo que brevemente, seus olhares se cruzaram.
Hermione, por sua vez, parecia irritada. Bufando, ela deixou os talheres no prato antes começar a questioná-lo. Draco desviou o olhar e decidiu focar na taça de vinho a sua frente, mesmo que o líquido estivesse praticamente intocado até então.
— Malfoy, não foi você que disse que precisávamos agir rápido na última vez que conversamos? — perguntou inquisitiva, indo direto ao ponto — O que está realmente acontecendo?
— As circunstâncias mudaram — ele retorquiu, apreensivo sob o olhar dela que demandava por uma resposta que a convencesse — Assim que Yaxley retornar eu farei a minha parte o mais rápido possível — garantiu, por fim.
Hermione continuava a encará-lo com certa desconfiança. Harry parecia consternado enquanto escutava o breve diálogo entre os dois e, de repente, quando a garota se levantou da mesa abruptamente anunciando que voltaria em breve, a presença de Potter ali se tornou uma verdadeira inconveniência. Mais do que nunca, Draco precisava de um momento a sós na casa para que pudesse ao menos tentar ser bem-sucedido no real motivo que o levara até ali naquela noite: encontrar o medalhão, como havia sido solicitado por Yaxley. Se despistar Hermione não era fácil, a presença de Potter ali lhe renderia o dobro do trabalho.
Desde sua conversa com o outro comensal, ele tivera dificuldades em retirar o assunto da cabeça. Havia sido incumbido encontrar a joia e entregar Hermione a Yaxley a fim de que conseguisse não somente recuperar seu espaço no mundo mágico como também teria grande chances de retirar os Malfoy de sua decadência. Sem dúvidas, muita coisa estava em jogo naquele momento. Contudo, apesar do prazo estar se esgotando, Draco não fazia a menor ideia de como sequer conseguir o medalhão.
A despeito do fato de que estava prestes a trair seus recentes aliados, e que de alguma forma aquilo estava deixando seu estômago embrulhado, ele não sabia exatamente como o medalhão se parecia pois Yaxley não havia fornecido maiores detalhes. Não se lembrava de ter visto o objeto em qualquer outro momento junto de Hermione, afinal, se assim fosse poderia pelo menos tentar tirá-lo dela contra sua vontade.
Seu outro problema era o que fazer com a garota, se encontrar um medalhão tendo que passar pela vigilância dela parecia ruim o suficiente, leva-la até Yaxley certamente iria requerer uma luta e, ainda que contra sua vontade, mais de uma vez ele era obrigado a reconhecer as habilidades da bruxa. Além disso, não era como se realmente quisesse entrega-la. Nessa parte, Draco havia tido dores de cabeça enquanto tentava buscar uma solução. Poderia mentir, considerou, dizer que ela estava morta, que ele havia a matado, e talvez somente por ter conseguido obter a joia já fosse o suficiente para que Yaxley cumprisse com a promessa. Aquele parecia ser um bom plano.
Ele direcionou um olhar de esguelha para Harry antes de se levantar também, dando a entender que já estava de partida.
— Então, isso é tudo o que temos a conversar hoje? — lançou uma pergunta retórica — Você pode dizer a Granger quando ela voltar que eu entrarei em contato assim que conseguir dar início ao plano — completou assumindo um tom entediado.
— Você pode dizer a ela pessoalmente — Harry retrucou — Isso é realmente tudo que você tem a falar hoje? — perguntou encarando o antigo rival talvez com maior desconfiança do que a própria Hermione.
— Eu não tenho muito tempo a perder. Até breve, Potter — respondeu com um ar de sarcasmo antes de desaparatar, sumindo do campo de visão de Harry.
Draco tinha que agir rápido. Ele não tinha muito tempo disponível para ficar ali sem ser descoberto. Esperava que tivesse convencido a Harry, e embora algo lhe dissesse que não, decidiu ignorar a sensação. Alguns minutos depois da primeira aparatação, aparatou novamente próximo às escadarias que levavam ao primeiro andar e pôs-se a vasculhar o local com os olhos, na intenção de encontrar algo que lhe pudesse ser útil. Se direcionou até umas gavetas velhas que ficavam no canto do cômodo e começou a abri-las na esperança de encontrar algo que pudesse ser relevante, mas acabou sem sucesso.
Esforçou-se para que fizesse o mínimo de barulho possível, a fim de não levantar suspeitas. No entanto, quando estava prestes a subir às escadas para vasculhar o que poderia haver nos andares superiores, foi surpreendido pela voz de Hermione em suas costas.
— Malfoy — Draco se virou, se deparando com a garota o olhando com os braços cruzados — Você está mentindo — acusou, seus olhos se estreitaram enquanto ela falava.
Ao vê-la ali, ele se calou. Sentiu algo lhe gelar a espinha e, enquanto buscava as palavras para responder à acusação, imaginou que a mudança no seu comportamento só fazia a desconfiança de Hermione aumentar. Naturalmente, ele já teria retorquido, de forma que sua dificuldade em encontrar uma resposta só piorava a situação. Suspirou contrariado e antes que pudesse abrir a boca para falar alguma coisa, seus olhos recaíram sobre o pescoço de Hermione e uma corrente dourada chamou sua atenção.
— Granger — começou, se aproximando abruptamente, de tal maneira que a garota deu um passo para trás numa reação quase instintiva – O que você está escondendo aí? — indagou apontando para o pescoço dela.
Confusa, Hermione baixou o olhar para o medalhão que carregava no pescoço e levantou a cabeça novamente para olhá-lo. Uma de suas mãos, a que segurava a varinha atrás de si, apertou o objeto com maior intensidade.
— O quê? Não mude o foco! — respondeu exasperada. Em seguida, ao ouvir o barulho de uma das cadeiras sendo movida na sala de jantar, sua voz se tornou quase um sussurro — Se você está escondendo alguma coisa da gente... — disse, agora apontando sua varinha para o peitoral dele — Merda! — praguejou quando ouviu os passos de Harry se aproximando deles.
Num movimento rápido, antes mesmo que Draco conseguisse se expressar, ela o puxou até uma porta atrás da qual ficavam as escadas que levavam ao porão da casa, onde se localizava a cozinha. O pequeno hall onde os dois haviam parado estava escuro, de forma que Hermione utilizou o feitiço Lumus para conseguir enxergar um palmo a sua frente que fosse.
— Você não está realmente planejando usar isso contra mim, Granger... está? — Draco a repreendeu, sua voz assumindo um tom apreensivo.
— Somente se for necessário — respondeu ainda sussurrando — E fale baixo, Harry não pode nos ouvir. Ele nem deveria estar aqui — completou, se movendo para trancar a porta atrás de Draco que a observava consternado.
Hermione havia sido completamente tomada pela adrenalina desde quando, ainda na mesa de jantar, assumiu a possibilidade de Draco estar mentindo. Agora, porém, começava a adquirir consciência de que acabara de se trancar num pequeno cômodo apertado a tal ponto que os dois estavam mais perto do que jamais estiveram em suas vidas. Em função das diferenças entre suas alturas, ela poderia, literalmente, sentir a respiração dele contra seu rosto.
— Potter? Você mesma me contou que ele havia sobrevivido.
— Não aja como se não fosse sua culpa — respondeu aborrecida — E agora você tem certeza, e eu espero que não tenha cometido um erro, especialmente se... — ela se interrompeu, desviando o olhar do rosto pálido e semi iluminado de Draco — Me conta logo o que você está escondendo, Malfoy.
— Não estou escondendo nada. Já falei — garantiu.
— Eu duvido — Hermione zombou, o interrompendo — Eu vi você revirando as gavetas.
— Agora — ele continuou a falar ignorando a acusação — Por que você me conta o que está escondendo, a começar por isto — completou, puxando a joia que estava no pescoço da garota para perto e segurando o medalhão entre seus dedos.
Hermione deu um passo para trás na intenção de criar um espaço entre eles devido a atitude inesperada do rapaz, porém, teve seu objetivo frustrado quando suas costas bateram contra a parede do hall em função da falta de espaço. Se realmente havia conseguido se afastar alguns centímetros, seria muito. Manteve sua varinha acesa entre os dois e observou enquanto, durante os breves segundos que ela permitiu, os olhos de Draco percorriam a joia e ele sentia sua textura contra os dedos.
Draco pôde observar com clareza forma de uma serpente incrustada no objeto característica de sua antiga casa em Hogwarts. Seus olhos então saíram do medalhão e foram de encontro ao rosto da garota iluminado pela luz azul que sua varinha emitia, confuso, ele a perguntou:
— Onde você o conseguiu?
— Eu não tenho que dizer nada a você, não faz parte do nosso acordo — Hermione retorquiu, com a voz mais fraca do que o normal.
— Slytherin — Draco disse num sussurro quase inaudível para ela, apesar proximidade entre os dois. Era como se estivesse falando algo para si mesmo e Hermione pôde observar enquanto sua testa franzida começava a relaxar, dando a impressão que ele acabava de chegar a alguma conclusão.
De fato, após observar do que o medalhão se tratava, fazia sentido Yaxley querer tanto o objeto para si, parecia uma boa forma de agradar ao seu mestre, a princípio joia parecia se configurar mais como um souvenir do que apresentar uma real importância. Ele não poderia ter certeza, mas se sua memória não estava o enganando, aquilo provavelmente pertencera a Salazar Slytherin. Draco se lembrava vagamente de ter visto imagens do mesmo objeto nos pertences de seu pai, sem contar que era a mesma serpente costumeira que representava o símbolo de sua casa em Hogwarts.
Não somente por ela ter sido da Grifinória, mas seria no mínimo estranho, que Hermione guardasse um objeto daqueles somente por capricho. Ou, pior, que carregasse consigo. Assim, considerou a possibilidade de que aquilo era, muito provavelmente, o último trunfo da Ordem e quando Hermione recomeçou a falar, ele teve certeza.
— Você vai ter que me matar se quiser isso — disse com um olhar feroz e puxou com força a joia da mão dele.
Draco demorou alguns segundos a olhando, até que conseguisse digerir o que ela acabara de dizer. De súbito, começou a tomar consciência da proximidade física em que os dois estavam naquele momento e foi acometido por uma sensação estranha na boca do estômago, a qual ele supôs se tratar do nervosismo gerado pelo conteúdo do diálogo que acabaram de ter.
Então, baixou o olhar, desviando dos olhos castanhos que o fitavam ameaçadores e, de repente, se sentiu patético por ter acreditado que conseguiria tirar o medalhão dela e depois mentir sobre uma possível morte. Ele realmente teria que matá-la caso estivesse disposto a seguir às ordens de Yaxley, e chegar a essa conclusão ali diante dela tornava a ideia ainda mais absurda e a missão mais difícil de ser cumprida. Hermione estava irredutível e ele estava se dando conta que mentir para ela, ou até mesmo omitir alguma coisa, era praticamente impossível.
Em seguida, antes que qualquer um dos dois pudesse tomar alguma atitude, a presença de Monstro, que subia as escadas vindo do porão, os surpreendeu. O pequeno elfo também tinha um olhar surpreso ao vê-los ali sozinhos e numa proximidade física um tanto quanto estranha tendo em vista que eles não tinham o melhor dos relacionamentos até onde havia observado. Porém, não emitiu palavra ou reação alguma e antes mesmo que pudesse considerar fazê-lo, a voz de Harry chamando por Hermione os colocou em alerta.
— Onde você está? Hermione? — a voz vinha do corredor, e estava um pouco abafada pela distância e em função da porta estar fechada, carregava um tom de irritação, o que Hermione atribuiu ser em função de seu sumiço repentino. Ela precisava inventar alguma explicação o mais rápido possível.
Draco prontamente desaparatou deixando somente Monstro e Hermione no pequeno hall que levava até ao porão da casa, a garota desfez o feitiço, apagando sua varinha e em seguida destrancou a porta. Ao receber claridade de súbito, seus olhos ficaram doloridos, mas ela se esforçou para parecer o mais natural possível ao se deparar com um Harry transtornado com uma expressão de quem demandava maiores explicações.
— Onde está Malfoy? — perguntou intrigado.
— Ele... não está aqui — Hermione disse dando de ombros.
— Você... O que você estava fazendo?
— Eu estava na cozinha — ela explicou — Com Monstro — completou olhando para o elfo parado ao seu lado e esperando que ele não a entregasse.
Harry também se virou para ele que, dando um olhar de esguelha para Hermione, confirmou a versão da garota:
— A sangue ruim estava... falando qualquer coisa sobre os direitos dos elfos domésticos — disse num tom ranziza.
Hermione teve que se esforçar para esconder sua surpresa não somente por Monstro ter a acobertado, mas também por ele saber sobre seus interesses em defender os direitos dos elfos. Então, se lembrou da conversa que teve com Draco na última vez que os dois se encontraram. Agora já não tinha certeza se deveria agradecê-lo por tê-la ajudado a mentir para Harry, embora ela já pudesse sentir pontadas de remorso por isso, ou repreendê-lo por estar escutando suas conversas.
— Não chame ela de sangue ruim! — Harry o repreendeu.
— Não tem problema — ela assegurou. Depois, se pôs a caminhar para fora do pequeno hall, se direcionando até à sala de jantar novamente enquanto Harry a seguia.
— Malfoy saiu da mesa logo depois de você — o rapaz explicou — Ele desaparatou, dizendo que que iria embora, e então eu ouvi algumas vozes aqui e achei suspeito — acrescentou.
Hermione balançou a cabeça em negação como se não soubesse de nada, ainda em silêncio, buscava as palavras certas para usar. Harry não estava exatamente acreditando na versão dela e qualquer deslize seria o suficiente para que ela acabasse se entregando. Odiava ter que mentir para seu melhor amigo, porém, se algo desse errado em relação a Draco, sentia como se fosse sua total responsabilidade consertar, ou preveni-los daquilo. Ainda que custasse sua vida, ela não se importava.
— Eu não imaginei que ele iria embora — disse assumindo um tom de preocupação — Eu saí para tomar um ar, ainda estou pensativa sobre o plano que traçamos — explicou. Um breve silêncio se formou entre os dois amigos, até que Hermione recomeçasse a falar: — Você não deveria ter vindo aqui hoje, Harry.
— Não vamos recomeçar com isso, Hermione.
— Não podemos perder você, a Ordem... você é tudo o que temos — disse com os olhos levemente marejados ao pensar na possibilidade de que ela estivesse certa em suas desconfianças.
Depois da breve discussão entre ela e Draco tudo havia ficado ainda mais confuso. Evidentemente quando deixou a mesa de jantar, ela não imaginava que ele seria tão estúpido a ponto de agir tão rápido sem considerar a possibilidade de estar sendo observado. Pela forma como ele reagiu ao ver o medalhão, já havia ficado claro qual era seu interesse ali. O que Hermione não conseguia compreender era o porquê ele parecia ter desistido. A princípio, atribuiu à chegada de Harry, mas não tinha tanta certeza assim.
— E também não podem me deixar de fora de tudo, sendo um inútil trancado numa casa — ele a repreendeu — Essa tática não tem funcionado nos últimos anos, se está bem lembrada — completou sarcástico.
— Eu posso lidar com Malfoy — ela assegurou.
— Nós podemos. Se ele nos trair, faremos algo quanto a isso. Agora, apenas prometa que não vai esconder nada de mim — Harry disse, fitando-a com os olhos azuis que ela conhecia tão bem.
Calada, ela se limitou a assentir com a cabeça. Havia sido invadida por um sentimento de culpa grande demais, quase sufocante, para que fosse capaz de emitir qualquer palavra. Para o próprio bem dele, era uma promessa que não poderia cumprir.
*****
Àquela hora da noite, o Ministério estava vazio. Os corredores escuros e sem a presença humana costumeira do local davam uma terrível impressão de abandono. Os saltos que a mulher usava faziam um barulho quando se chocavam contra o piso que, em função do silêncio que tomava o lugar, se acentuava.
Ela se aproximou da porta e a abriu, um rangido ecoou pelos corredores. O homem, confortavelmente sentado em sua cadeira, levantou os olhos para ela e num sorriso de satisfação, a cumprimentou.
— Senhorita Parkinson.
— Alguma notícia? — Perguntou apreensiva.
Yaxley balançou a cabeça em negação.
— Eu vou precisar da sua ajuda — disse.
— Você... — ela começou a falar num tom de preocupação evidente, Yaxley, por sua vez, a olhava com uma expressão rígida, beirando a indiferença — Fez a proposta a ele como havia me dito? — indagou. — Eu sempre achei que toda essa situação com os Malfoy de alguma forma mexeu com a cabeça dele. Eu o conheço desde Hogwarts, ele sempre teve muito orgulho da família e agora com tudo isso acontecendo — suspirou — Eu quero dizer, ele deve estar realmente desesperado para procurar ajuda com uma sangue-ruim. Ele não é assim.
— Eu propus que ele seria promovido e vocês passariam a trabalhar juntos — o Comensal explicou, Pansy se demonstrou satisfeita ao ouvir a proposta — Em troca disso, eu quero a garota.
O rosto dela enrijeceu. Aquilo era algo que vinha a incomodando desde que escutara Draco falar o nome de Hermione enquanto dormia, parte dela queria acreditar que os dois nunca tivessem se encontrado, mas quando reportou a Yaxley o ocorrido, ele a garantiu que estava ciente do acontecimento. Durante o tempo em que se afastara do ex-namorado, Pansy se esforçou para colocar a cabeça no lugar e tentar entender o que estava realmente acontecendo, tentou compreender ao máximo os motivos que o levaram a considerar trair Voldemort. Enfim, decidiu que precisava impedi-lo.
— Contudo — Yaxley recomeçou a falar — Já faz algum tempo desde a minha proposta e ele ainda não me reportou os resultados. A garota tem algo que precisamos retomar com urgência e se ele não fizer o trabalho, eu mesmo terei que fazer. Não temos muito tempo, Senhorita Parkinson.
— Entendo — ela assentiu, tomada por um ar de decepção. Em seu íntimo, tinha esperanças de que Draco agisse tal como o previsto, tal como o Draco que ela conheceu em seus tempos de escola agiria. Aparentemente, ela estava certa ao concluir que não o conhecia mais — Você quer minha ajuda para convencê-lo? — perguntou.
— Não — ele ponderou — Quero sua ajuda para chegar até a sangue ruim.
Fale com o autor