Efêmero
10 Capítulo IX: Confiança
Notas iniciais
Capítulo IX: Confiança
Escrito por: Wenky (Andréia)
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Antes
Durante o resto do dia Draco tivera mais afazeres do que o usual no Ministério. Em partes, considerou como algo positivo, não somente para mantê-lo ocupado e possibilitar que ele aliviasse a tensão, mas também para que sobrasse mais tempo para que pudesse convencer a si mesmo que havia tomado a decisão certa. Naquele momento, todo cuidado era pouco, e ele bem sabia disso.
Ele havia pensado muito antes de iniciar seu primeiro movimento. Sabia que estava perdido caso algo desse errado, mas também sabia que não poderia mais voltar atrás. Não poderia voltar atrás com Hermione ou com a Ordem.
Ele havia decidido salvá-la, por isso, focou em colocar em ação o plano que os dois haviam traçado juntos, antes que Yaxley o propusesse entregar Hermione a fim de reconquistar seu espaço no Ministério e, por conseguinte, no mundo mágico também. Àquela altura, ele não saberia dizer com certeza se estava tendo uma crise moral ou se sua incapacidade de mentir para Hermione havia o influenciado a mudar de ideia. De qualquer forma, Draco já havia desistido de tentar entender.
A princípio, Draco pensou que contar a Yaxley onde encontrar Hermione pareceria uma prova de que ele estava realmente cumprindo sua parte no acordo e lhe ganharia confiança. Assim, ele poderia atrair o outro Comensal até o local e colocá-lo à mercê da Ordem a fim de extrair dele informações que lhes poderiam ser úteis contra Voldemort, bastava que se certificasse de comunicar a Hermione para que ela instruísse aos outros para que eles também pudessem agir no momento certo. A julgar pela resposta de Yaxley, ele diria que estava indo muito bem. Sendo assim, estava satisfeito.
Quando chegou ao pequeno apartamento onde havia se instalado há algumas semanas, ele se permitiu relaxar. Tomou um banho demorado, na expectativa de que conseguisse aliviar a tensão os músculos de seu corpo. Em seguida, sozinho no local, divagou sobre os acontecimentos recentes. Sua mente, que parecia o trair constantemente, o levou até Hermione, o que estava dificultando o processo e, por consequência, sua tentativa de ter uma noite agradável.
Como se já não bastasse o sonho nada agradável que tivera com ela na noite anterior, que resultou num dia inteiro com as imagens se repetindo em flash na sua mente, agora ele estava sendo atormentado por um pressentimento ruim de que havia algo errado. Bufando, ele se pôs a procurar a moeda que os dois usavam para se comunicar e quando não a encontrou, quase que instintivamente, ele soube o que estava acontecendo.
*****
O corpo de Yaxley caiu duro sobre o chão de madeira, fazendo um baque surdo. Ele havia morrido com uma expressão de incredulidade após ouvir Hermione mencionar Harry e um misto de uma euforia quase sádica de alguém que havia finalmente encontrado o que tanto procurava e que receberia condecorações de seu mestre. Subitamente, Hermione se sentiu enjoada mas teve pouco tempo para se recuperar de seu transe. Um dos dementadores ainda estava pairando ao seu redor e, quando foi atirada para trás, uma distância se formou entre ela e o vulto negro flutuante. Porém, faltava muito pouco para que ele completasse o que havia sido ordenado a começar.
Quem é que tivesse matado Yaxley, não havia se dado o trabalho de lançar um patrono. De repente, um sentimento de aflição a invadiu com uma intensidade ainda maior, se é que isso fosse possível, quando se deu conta que dificilmente conseguiria passar pela dementador e reconquistar sua varinha. Ela cerrou os punhos com força, apertando as unhas contra sua própria carne. Precisava pensar em algo, mas ainda estava com dificuldade em enxergar muita coisa na escuridão que pairava o local.
— Granger! — uma voz conhecida a despertou e ao se dar conta de que, ao contrário do que havia suposto, a presença de Draco ali não era fruto de sua imaginação, uma sensação que até então ela desconhecia, a invadiu. Hermione estava surpresa, mas não era só isso.
Diferentemente do que ela pensou, ele não havia a traído. Muito pelo contrário, ele havia ido até ali para salvá-la. E essa simples conclusão mudava tudo.
— Malfoy! — ela o respondeu — Faça um patrono! — disse — Rápido!
— Eu não consigo! — ele retorquiu, havia um tom de frustração evidente em sua voz cujo ele teve dificuldade de esconder.
Hermione respirou fundo e enquanto o dementador se aproximava, ela tentou dar mais alguns passos para trás, a fim de aumentar a distância. Foi quando, para seu horror, suas costas bateram em uma parede, indicando que aquele era o máximo que ela conseguiria se afastar.
— Você consegue encontrar minha varinha? — ela indagou.
Draco, com a ajuda do feitiço Lumos, tentou olhar ao seu redor. Mas não havia tempo de encontrar a varinha de Hermione considerando que dois dementadores se encontravam no cômodo no momento sendo que um deles estava prestes a sugar a alma da garota.
— Pega a minha! — ele gritou em resposta, atirando o objeto para ela. Ele pôde ouvir quando o barulho de madeira batendo contra o chão se materializou e supôs que a varinha estava perto o suficiente para que Hermione a pegasse, e foi o que ela fez.
Num movimento rápido, a garota tomou a varinha em suas mãos. Não pôde deixar de notar o estranhamento que utilizar uma varinha diferente lhe causava, mas supôs que o que provavelmente a mais intrigava era o significado daquele gesto, afinal, entre bruxos, compartilhar varinhas era um sinal de confiança.
Sendo assim, ela precisava se concentrar e agir rápido, especialmente porque ela não dominava o feitiço em questão como gostaria, mesmo que tivesse se dedicado por anos a fio deveria admitir que conjurar patronos não era uma das suas maiores habilidades.
Focou todas suas energias em pensar em algum momento feliz, a fim de conjurar um patrono eficiente. A princípio, tudo que vinha na sua mente era o momento em que Rony e Harry a ajudaram a se salvar do trasgo no primeiro ano dos três em Hogwarts. Por alguma razão, talvez uma peça que o destino estava a lhe pregar, a situação se repetia com Draco Malfoy agora, anos mais tarde.
Era claro que as coisas não haviam alcançado extremos e tudo que ela cultivava pelos garotos era uma antipatia que frequentemente se apresentava entre as crianças na faixa etária em que eles se encontravam. Porém, ter a vida salva por alguém já naquela época tinha certo significado e agora não poderia ser diferente.
Tendo essas lembranças em mente, junto do alívio que ter sua vida salva quando menos esperava que isso pudesse acontecer, Hermione apertou a varinha de pilriteiro entre seus dedos e nos instantes que se seguiram, um patrono em forma de lontra se materializou no local fazendo com que os dementadores desaparecessem.
Rapidamente tudo se normalizou, a sensação de frio e desesperança desapareceram, junto com a escuridão que pairava o local. Hermione emitiu um suspiro aliviado, embora ela soubesse que tudo que acabara de acontecer provavelmente não durara mais do que cinco minutos, era como se o tempo estivesse diferente do normal, passando mais lentamente.
Pela primeira vez naquela noite, enfim, ela pôde realmente ver Draco Malfoy a alguns metros de distância, parado na sua frente. Ele tinha a cabeça baixa e, quando num movimento quase que furtivo ele a levantou e seus olhos se encontraram, Hermione ficou sem ação. Seu olhar estava distante e era como se ele tentasse mas encontrasse grande dificuldade em evitar a visão do corpo de um Yaxley esticado no chão perto deles, já sem vida e com uma expressão de incredulidade estampada no rosto.
Hermione, que tinha a varinha do rapaz em mãos e pretendia entrega-lo, já não sabia exatamente como proceder. Porém, rapidamente foi atingida por uma compreensão devastadora acerca da dimensão do que Draco havia acabado de fazer. Ela deu alguns passos para frente, cautelosamente, e esperou para se certificar de que ele não recuaria. Draco, porém, permaneceu imóvel.
— Você está bem? — ela perguntou. Mas Draco não respondeu, era como se ele estivesse perdido demais em alguma dimensão que Hermione não era capaz de adentrar.
Por alguns segundos, um silêncio mortal se fez entre eles. Até que Draco finalmente o quebrasse.
— Eu nunca... — ele começou a falar num tom baixo no que parecia se tratar de uma confissão — Eu nunca tinha feito isso antes — completou, agora a olhando de forma inexpressiva. Hermione cerrou o cenho em confusão, tentando descobrir onde ele queria chegar com aquilo – Naquela noite, na Torre de Astronomia, eu não consegui matar ele, eu deveria, mas eu não consegui — ele completou. E foi quando Hermione entendeu que ele estava falando de Dumbledore.
— Malfoy... — ela disse, mas não conseguia encontrar palavras para completar sua sentença. Supôs que sua incapacidade de formular uma resposta no momento se tratava de um efeito compreensível, afinal, ela ainda estava atordoada devido o que acabara de vivenciar. Mas no fundo sabia que não. Ela estava surpresa, se é que isso ainda fosse possível — Eu sei que não — completou, e foi tudo o que conseguiu dizer.
Ele se demorou alguns segundos a olhando, Hermione não pôde ter certeza se era apenas a sua imaginação lhe pregando uma peça devido a seu estado de exaustão, mas parte de si poderia jurar que os olhos de seu aliado estavam marejados. Ele estava com medo, e ela sabia disso porque naquele momento ele não parecia mais capaz de esconder nenhuma das suas emoções.
Mais tarde, ambos Draco e Hermione teriam dificuldades em compreender como aquilo havia acontecido, mas no momento fazia todo sentido que Hermione se movesse gentilmente para abraça-lo. A princípio, ela foi cautelosa, a fim de se certificar que ele não iria recuar. Draco, no entanto, parecia surpreso demais para fazer qualquer movimento. Ele apenas deixou que ela conduzisse o gesto.
Aquela era a segunda vez na vida que ele chegava realmente perto de Hermione, e foi ainda mais estranho do que na primeira vez. Não somente porque tudo aconteceu de forma completamente involuntária, mas porque em função de ser uma situação atípica, onde nenhum dos dois estava movido pelo calor de uma discussão, para Draco, era como se o momento acontecesse em câmera lenta.
Em função da diferença de altura entre os dois, Hermione teve que fazer um esforço para que conseguisse alcança-lo, se colocando na ponta dos pés. Seus braços envolveram-no pelo pescoço, de forma a aproxima-lo dela, puxando-o para si. Draco ainda surpreso, e um tanto confuso, moveu uma das mãos, depositando-a na cintura da garota.
A verdade era que ele mal conseguia se lembrar da última vez que havia sido abraçado, de maneira que o gesto era, muito provavelmente, o que ele mais precisava no momento. Ele sentia como se os fardos deveras pesados que vinha carregando nos últimos tempos se tornassem relativamente mais leves, mesmo que durante breves segundos.
Apesar da estranha sensação de que o momento ocorria lentamente e que, na verdade, o abraço não tivesse durado mais do que alguns segundos, foi inevitável que a mesma sensação familiar que o visitara em sonho durante a noite o anterior se manifestasse novamente. Numa intensidade ainda maior, ele, deveria admitir, o que o impulsionou a se afastar dela mais rápido do que realmente gostaria.
Tratava-se de um frio na barriga bastante peculiar, seguido de um formigamento que ele podia jurar que estava mexendo com a sua ansiedade e que ia um pouco além dos acontecimentos naquela noite, pois era absolutamente sobre ela.
De súbito era como se seus sentidos estivessem o traindo ao se tornarem mais aguçados. Ele não havia se dado conta de que ela tinha um cheiro bastante agradável, e agora era como se seu olfato o acentuasse ainda mais e ele podia jurar que suas roupas passaram a cheirar exatamente como ela. O mesmo servia para o seu tato que, mesmo depois que Hermione já havia se afastado, ainda fazia parecer como se ela estivesse ali.
— Obrigada por me salvar — ela disse tímida com um pequeno sorriso se formando pelo canto dos lábios.
Draco, porém, se limitou a assentir com a cabeça. Se ela ao menos soubesse que se não fosse por ele Yaxley sequer teria a encontrado, Hermione dificilmente estaria o agradecendo. Por um breve instante, ele considerou conta-la sobre os acontecimentos mais recentes, mas logo em seguida desistiu. Deixaria isso para depois, estava cansado demais naquela noite e não sabia se conseguiria encarar a hostilidade dela naquele momento.
— O que faremos agora? — ele se limitou a perguntar.
— Nós deveríamos ir logo — Hermione ponderou — Aparentemente não é mais seguro aqui — deu de ombros. — Eu não posso voltar para o esconderijo da Ordem por enquanto — ela o informou — Ainda posso estar sendo vigiada, não quero arriscar os outros.
Draco assentiu.
— Eu conheço um lugar — disse numa sugestão — O que faremos com ele? — perguntou fazendo uma mórbida referência ao cadáver de Yaxley, ainda evitando o contato direto.
— Pensamos nisso amanhã, é melhor descansarmos hoje. Os outros Comensais provavelmente vão encontrá-lo em breve — respondeu — Eu só preciso verificar se...
— O elfo? — Draco perguntou, entendendo onde estava a preocupação de Hermione no momento. Ela assentiu em resposta. — Eu não o vi, ele deve ter fugido — supôs.
A garota, porém, se pôs a vasculhar o local com os olhos, querendo se certificar por conta própria, até se deparar com uma pequena criatura parada na soleira da porta que, assim que se deu conta que ela havia o notado, desaparatou logo em seguida. Ao perceber que o elfo estava ali o tempo todo, ela conteve o riso, poderia apostar que ele estava assistindo tudo.
Sabia que Monstro, devido a sua personalidade rabugenta, continuaria relutante a uma maior aproximação da parte dela. Ainda assim, sentia gratidão pelo pequeno elfo pelas vezes que ele havia se mostrado um aliado leal. Esperava que pudesse revê-lo em breve, ultimamente havia começado a odiar despedidas ainda mais do que o normal. Especialmente porque elas dificilmente eram seguidas de um reencontro.
Em seguida, Hermione recuperou sua varinha caída a alguns metros de distância e quando se reaproximou de Draco ele fez menção de esticar a mão a fim de segurá-la por um dos pulsos, para que pudesse conduzi-la durante uma aparatação acompanhada, ao que ela consentiu. Porém, a partir do momento que os dois adquiriram a dimensão da quantidade de coisas que acabaram de acontecer, da tamanha proximidade que surgira num espaço tão curto de tempo, foi suficiente para gerar certo receio. Se aquela noite poderia ficar ainda mais estranha, Hermione duvidava.
*****
Harry se encontrava no pequeno quarto que Fleur e Bill cederam a ele durante o tempo em que estava hospedado na residência dos dois. Embora ele não gostasse tanto do cômodo quanto uma vez havia gostado de seus aposentos em Hogwarts, era infinitamente melhor do que o armário de vassouras em que havia crescido.
O que realmente lhe incomodava era a ociosidade. Hermione mais uma vez havia saído, ela ainda insistia em deixá-lo de fora dos acontecimentos mais recentes com a desculpa de que queria preservá-lo, como se os dois não tivessem passado mais de um ano juntos se escondendo nos países nórdicos.
Logo após Harry ter forjado sua própria morte, como uma forma de despistar a atenção dirigida ao rapaz e de tornar o fato mais verídico, os dois passaram a viver como nômades, nunca ficavam mais de uma semana em uma estadia ou acampados em algum lugar. Durante o inverno, que era muito mais rigoroso do que eles estavam acostumados na Inglaterra, as estadias eram a saída mais conveniente, embora os acampamentos fossem mais seguros pois lhes garantiam o completo isolamento, além de poupar o uso de poção polissuco para que se parecessem com trouxas.
Porém, desde que assumira uma posição de liderança na Ordem, Hermione decidiu assumir os encargos para si, o que estava o deixando terrivelmente incomodado. Agora ele passava a maior parte de seu tempo dedicando-se a se aprimorar como bruxo, para que quando finalmente reencontrasse Voldemort, fosse, de fato, a última vez. Porém, estava se cansando de esperar. E agora que, desde que sentira que Hermione, juntamente de Draco Malfoy, estava escondendo algo dele, sua ansiedade aumentava ainda mais.
Harry foi despertado de seus pensamentos quando alguém girou a maçaneta da porta e ela se abriu com um rangido. A princípio, pensou que Hermione estivesse finalmente retornado, mas seu corpo ficou estático numa reação imediata quando ele reconheceu que se tratava de Ginny. Depois do tempo que ela passara o evitando, a última coisa que Harry poderia esperar era uma visita inesperada em seu quarto já àquela hora da noite.
Ele se pôs sentado na cama e ficou calado, enquanto tentava suprimir sua as reações involuntárias em seu corpo, como seu coração palpitante diante das inúmeras possibilidades que aquela visita poderia significar.
— Podemos conversar? — Ginny perguntou fechando cuidadosamente a porta atrás de si. Ela mantinha a cabeça baixa, evitando olhá-lo ao passo que Harry não conseguia parar de olhá-la. Talvez porque ele não tivesse dado conta do quanto havia sentido sua falta até então e ele precisasse se certificar que ela realmente estava ali, de volta para ele.
Ginny se moveu para sentar do lado dele na beira da cama. Ela estava se esforçando para buscar uma forma de iniciar aquela conversa, assim, decidiu mover suas mãos gentilmente e repousá-las sobre as dele. Harry se virou para olhá-la enquanto permitia que ela desse prosseguimento ao que estava fazendo.
— Harry, eu... — ela começou a falar, mordendo de leve o lábio inferior enquanto tentava escolher as palavras certas para continuar — Me desculpe por ter me afastado — completou, enfim. De repente, não havia muito o que dizer. Quando decidiu seguir o conselho de Hermione e ir conversar com Harry, ela não imaginou o quão difícil seria achar as palavras que gostaria de dizê-lo.
— Eu senti sua falta. Muito — ele disse, ignorando o pedido de desculpas e a surpreendendo com a confissão. Antes de bater na porta do quarto de Harry, Ginny havia dedicado longas horas imaginando como seria a próxima discussão que os dois iniciariam, tendo em vista que era o que eles mais tinham feito antes dela passar a evita-lo. Agora, ao ouvi-lo simplesmente ignorar tudo que havia acontecido anteriormente e dizer que sentia sua falta, era como se ela tivesse sido pega de guarda baixa.
Harry, no entanto, se sentia nervoso, como se ele estivesse ali com ela pela primeira vez. Ginny se manteve em silêncio, esperando que ele continuasse a falar, ou que ela mesma conseguisse encontrar palavras para revela-lo o real motivo da sua visita, mas ele simplesmente se inclinou para beijá-la.
Seus lábios se tocaram gentilmente e, apesar da atitude inesperada, Ginny o correspondeu prontamente. Naquele momento, ela começava a se dar conta que conversar era, definitivamente, a última coisa que ela poderia querer.
Ele se inclinou sobre ela, de maneira a fazê-la se deitar sobre o colchão. Estar ali com Ginny lhe proporcionava uma agradável sensação de familiaridade. Talvez porque, até então, ele ainda não havia se dado conta do efeito que estar longe dela lhe causava.
Em função disso, Harry dedicou alguns momentos para apreciar a visão de Ginny com os cabelos levemente bagunçados espalhados pelo colchão. Já havia um tempo desde a última vez que aquilo acontecera. Um pequeno sorriso se fez em seus lábios, ao que Ginny correspondeu, movendo-se para beijá-lo dessa vez. Ela colocou uma de suas mãos no pescoço dele, a fim de aproximá-lo de si. Seus dedos se fecharam sobre algumas mechas do cabelo de Harry na medida em que eles aprofundavam o beijo.
Quando seus lábios se separaram, Harry se manteve perto deixando que seus narizes ainda se tocassem. Ele se utilizou de sua mão que estava livre, enquanto a outra ele usava para sustentar seu próprio peso, a fim de acariciar uma das bochechas dela.
— Eu senti sua falta também — Ginny confessou, antes que eles dessem continuidade ao ato.
Rapidamente seus movimentos se tornaram mais intensos. Estar ali com Harry lhe dava a sensação de que as feridas que foram abertas no tempo em que eles passaram separados começavam a se cicatrizar, era como se as coisas estivessem voltando ao normal. Mesmo que ela soubesse que na manhã seguinte tudo estaria um caos como antes, por enquanto, ela se permitiu esquecer.
Ginny respondeu com gemidos abafados à sensação dos lábios dele em contato com sua pele, seus dedos se apertaram ainda mais sobre os fios de cabelo dele, puxando-os numa reação involuntária, ao passo que Harry se dedicava a depositar beijos na extensão desde o pescoço dela até sua barriga, despindo-a no processo.
Eles assumiram um ritmo diferente do usual naquela noite a fim de saciar a necessidade que um sentia do outro, cuja distância só tinha feito aumentar. Assim que terminaram, ambos estavam ofegantes. Uma fina película de suor cobria seus corpos, mas aquilo não parecia ser o suficiente para fazê-los quebrar o contato.
Na medida em que suas respirações se normalizavam, Ginny recostou a cabeça sobre o peito dele, enquanto Harry pôs um de seus braços na cintura dela, para puxá-la para perto de si. Algumas mechas de seu cabelo avermelhado se encontravam espalhadas pelo peito dele e se colavam à pele salpicada de suor.
Os dois se mantiveram em silêncio durante alguns minutos, se limitando a aproveitar a companhia um do outro. Harry utilizava sua outra mão para brincar com os fios de cabelo dela, enrolando-os em seus dedos.
— Você vai ficar para passar a noite? — perguntou esperançoso.
Ginny se manteve imóvel ao ouvir a pergunta. Agora que sua respiração se normalizava uma batalha consigo mesma a fim de decidir se deveria conta-lo sobre sua gravidez ou não se instalou em sua mente. Suspirando, ela se virou e levantou a cabeça para olhá-lo e passou a apoiar-se com o cotovelo. Harry ainda manteve seu braço ao redor da cintura dela, como se fosse uma tentativa de impedir que ela se afastasse, e pareceu consternado ao perceber a maneira como ela o olhava.
Seus olhos castanhos claros pareciam tristes e sua expressão reassumia um ar de preocupação. Eles estavam retornando à realidade, afinal.
— Harry, eu decidi vir até aqui hoje porque tem algo que eu preciso te contar — disse e logo em seguida baixou o olhar e com uma das mãos se deteve a brincar com o lençol logo abaixo deles. — Já tem algum tempo desde que... — numa tentativa frustrada de impedir que as lágrimas irrompessem, ela se interrompeu.
— Ginny, tem alguma coisa acontecendo? — ao perceber que as reações dela indicavam que algo estava errado, Harry indagou num tom alterado pela preocupação e com uma das mãos segurando-a pelos ombros.
— Eu acho que eu estou grávida — disse por fim. A princípio, Harry reagiu à notícia com um silêncio mórbido. Seus olhos se arregalaram na proporção em que ele se dava conta da real situação. — Eu estou com medo.
Ele nunca havia pensado em ser pai, pelo menos não naquele momento. Não agora. Não quando todos ali travavam uma guerra onde ninguém sabia se sairiam vivos.
De repente, Ginny foi invadida por um sentimento amargo. Ela poderia dizer com clareza o que Harry estava sentindo, porque se sentia exatamente da mesma forma. Em partes, ela gostaria que ele dissesse algo em vez de simplesmente ficar parado tentando digerir a informação. Mas sabia que não tinha muito o que dizer. Palavras não eram necessárias quando eles podiam identificar o medo de um futuro incerto estampado em seus olhares.
Algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto quando Harry a surpreendeu e puxou-a para si, abraçando-a. Ginny correspondeu ao abraço, segurando-se nele. Com seu polegar, Harry retirou uma das lágrimas que escorria pelo rosto dela, secando-a.
— Não se preocupe — disse no tom mais firme que pôde encontrar – Nós vamos dar um jeito, vamos encontrar uma saída — ele a prometeu numa tentativa de confortá-la, ainda que para si mesmo fosse incapaz de encontrar palavras de conforto.
De súbito, Ginny se sentiu feliz por ter escutado os conselhos de Hermione. Ela não estava sozinha. Ele estava ali.
— Eu vou ficar — disse, respondendo à pergunta inicial.
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