Eduardo Ravelo No. 70
7 Você fuma?
Notas iniciais
Elizabeth permanecia com as mãos presas às correntes. Um ferimento na cabeça ardia com o suor que escorria pelo seu rosto. Ela se sentia enjoada e tonta. Amanhecera com tais sintomas, e depois da forte pancada que levara, estava ainda pior. Ela encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, na esperança que aquelas sensações horríveis amenizassem. Um barulho a sua frente chamou atenção. Ravelo havia pegue uma cadeira e estava sentado cara a cara com ela. Em suas mãos, um canivete e uma maçã, da qual ele começou a cortar e comer. Só de imaginar o sabor da fruta, Elizabeth deu um jeito de se levantar e vomitou no canto da parede. Ravelo ficou observando a cena. Ela voltou, limpou a boca no antebraço e sentou-se de volta no chão.
– Bom, seu namorado tem pouco mais de uma hora. Disse Ravelo olhando para o seu relógio de pulso. — Você fuma, Elizabeth?
– Não.
– Bom, isso não me impedirá de acender um cigarro aqui.
Filho da puta! Pensou Lizzie
– Quanto poder você possui sobre o Raymond! Confesso que estou impressionado. Disse Ravelo soltando a fumaça do cigarro. — Percebi que você parece um pouco enjoada...
Ravelo começou a olhar com deboche para a agente, que estava visivelmente mal.
– Vou mandar meus homens trazerem água para você, e algo para melhorar esse enjoo. Não quero ter que devolvê-la as quedas. Pode prejudicar a negociação.
Ele se levantou da cadeira e ficou de cócoras, próximo a Elizabeth.
– Me explica, vocês pretendem formar uma família? ter filhos? Sério, nem consigo imaginar o Reddington assumindo um papel de "paizão".
Ravelo deu uma tragada e continuou
– Eu nunca pensei em ter uma família, por isso tenho essa curiosidade, sabe? A propósito, eu engravidei algumas vadias, mas a maioria só estava comigo por interesse. Por isso, na grande parte das vezes, além de matar o hóspede, eu também matava a hospedeira.
Elizabeth estava dominada pelo sentimento de nojo e terror.
– Você é um demônio.
– Claro que não sou. Posso ser uma pessoa muito melhor, se eu quiser. Um cavalheiro, como naquela noite.
Eduardo começou a passar a mão pelo rosto de Elizabeth, que fez um movimento brusco a fim de afastá-lo. Ele soltou uma gargalhada, deu as costas e saiu. Pouco tempo depois, um homem trouxe duas garrafas d'água. Ela bebeu uma delas e a outra derramou sobre sua cabeça. A tontura e a ânsia de vômito melhoraram depois disso. Os questionamentos de Ravelo haviam mexido com Keen e deixado-lhe muito pensativa. Aqueles enjoos não eram normais. Já imaginou se ela estivesse esperando um filho de Reddington? O que tinha grandes possibilidades, logo eles não haviam usado camisinha na noite que passaram juntos. Ela o amava, mas sabia que as coisas não seriam resolvidas somente com amor. Ela era uma agente do FBI e estava envolvida com um criminoso internacional. Não pensaria naquilo no momento. Talvez fosse apenas um mal-estar passageiro.
Nada de morrer de véspera
No entanto, pensar em estar grávida dele era algo que também a preenchia de alegria. A situação era complicada, disso ela tinha conhecimento. Ainda mais porque os dois estavam se atritando muito nos últimos tempos. E ela, com todo o jeito orgulhoso de ser, estava jogando duro com Red. Quem sabe uma notícia como essa apaziguaria as coisas. Com tais pensamentos, ela se flagrou sorrindo e pensando em Red. Mas logo em seguida, seus flashes de pensamentos meigos e incompatíveis com o momento, foram cortados por uma única concepção: antes de qualquer coisa, ela precisava sair dali viva.
...
A alguns quilômetros, Cooper continuava apreensivo sem notícias da agente. Enquanto a Ressler, havia sido internado após a forte pancada que sofrera na cabeça, mas não corria risco de morte. Ele saiu de sua sala e foi de encontro à agente Navabi.
– Navabi, preciso que vocês fiquem no encalço de Reddington. Com certeza ele sabe mais do que nós. Preciso ser avisado de qualquer novidade.
Navabi concordou e saiu para providenciar a equipe que observaria Raymond de longe.
...
Reddington estava sentado em uma cafeteria ao sul da cidade. Aguardava pela pessoa designada por ele, a manter seguras algumas informações importantes. Dentre elas, as exigidas por Ravelo. Haviam se passado cerca de 45 minutos, desde que ele havia falado com o criminoso e ouvido suas exigências e ameaças. Ainda lhe restava tempo, mas um nervosismo lhe preenchia aos poucos, por mais que ele não deixasse transparecer. Um dos garçons se aproximou de Red, colocou um guardanapo sobre a mesa e depositou a xícara de café sobre o papel. Aquela era a forma que o tal homem usava para se comunicar, em público, com Reddington. Havia uma mensagem escrita.
Hora do chá
Ele deu uma olhada ao redor para ver se alguém o observava. Pegou a colher, colocou na xícara e sentiu que havia algo dentro. Usou o utensílio para retirar o tal objeto. Dentro de uma pequena embalagem lacrada, havia um minúsculo pen drive. A mensagem no guardanapo fazia exatamente referência aos sachês de chá.
Coisa de britânico. Pensou
Ele pegou o objeto, colocou no bolso e saiu do local. Entrou no veículo e ficou a espera da ligação de Ravelo. A alguns metros, uma equipe do FBI juntamente com Navabi, observava os passos de Reddington. Precisariam ser muito cautelosos, pois ele era demasiadamente esperto. Red sabia de algo, isso era certeza; mas era a vida de uma agente que estava em risco, por isso o FBI não poderia simplesmente cruzar os braços.
...
Ravelo encarou o seu relógio de pulso e viu que o prazo dado a Red havia se esgotado. Ele se aproximou de Elizabeth Keen.
– O prazo do seu namoradinho acabou. O que será que acontece agora, hein Elizabeth? Questionou ele pegando o celular e ligando para Red. — Olá Raymond, me dê uma excelente notícia, por favor!
– Para qual local, Ravelo?
– Diga exatamente onde você está e mandarei um dos meus homens encontrá-lo. Ele guiará vocês.
Red passou a localização e cerca de 20 minutos depois, dois homens em uma moto, pararam a 50 metros de onde o veículo de Red estava. O garupa desceu e seguiu até o veículo.
...
– Atenção todas as unidades, preciso que todos fiquem de QAP. Informou Navabi, que permanecia observando de longe.
...
O homem entrou no veículo e apontou uma pistola para Red, que também mantinha um revolver em punho. Dembe também apontou uma arma para o homem.
– Para onde? Questionou Red.
– Avenida principal rumo oeste. Retrucou o homem, baixando a pistola. Red fez o mesmo, mas manteve o objeto em mãos.
Dembe seguiu as instruções.
...
Navabi acabara de ver um homem embarcando no veículo. Aquele era o momento.
– Atenção a todos, um individuo portando uma arma embarcou no carro com Reddington. Seguiremos o veículo e precisaremos de reforços. Mandarei as coordenadas à medida que formos nos aproximando.
Logo em seguida, ela contatou Cooper.
– Cooper, Reddington está indo encontrar Ravelo para tentar resgatar Lizzie. Não podemos perdê-lo agora.
– Ok, Navabi, rastrearemos você e mandaremos reforços.
– Ok. Respondeu a agente, encerrando a ligação.
...
Dembe dirigiu por cerca de 30 minutos, até chegar a um galpão. Parecia uma espécie de fábrica abandonada e era o típico cenário para a realização de crimes. Não era um bairro residencial e atrás da estrutura, ficava uma área com mata. Red desceu do veículo e conferiu se o pen drive permanecia no bolso do seu casaco. Ele e Dembe seguiram para a entrada do local. Lá dentro, o ambiente não era dos melhores. O galpão era fétido e tinha péssima iluminação. O telhado de zinco tornava o local quente, o que piorava o odor de abafado. Havia cerca de 30 homens espalhados por todo o local. A principio, Red não conseguiu visualizar Ravelo.
– Raymond “Red” Reddington, quase um trava-língua esse nome!
O criminoso saiu de trás de uma das colunas. Com uma dose tão grande de sarcasmo que não lhe cabia no rosto.
– Onde está Elizabeth?
– Calma, Red. Dá uma olhada ao seu redor. Você está em desvantagem. Odeio repetir isso, mas é a verdade.
...
Navabi e mais dois agentes seguiram o veículo até o galpão. O espaço era enorme e seria muito arriscado invadir e manter a integridade de Elizabeth.
– Cooper, chegamos ao local onde supostamente Elizabeth está.
– Ok, Navabi. Mantenha-se na linha. Aram, rastreei essa ligação, agora! Ordenou Cooper.
Aram apressou-se para conseguir o local onde os agentes estavam.
– É uma indústria abandonada já quase saindo da cidade.
– Certo. Navabi, mandaremos as equipes até o local imediatamente. Observe e mantenha-me informado.
...
– Ravelo, eu tenho o que você quer. Não vamos prolongar a situação. Liberte Elizabeth e terá sua fonte de riqueza vitalícia. Disse Red.
Ravelo se manteve calado, foi ao canto, puxou uma cadeira e sentou-se. Cruzou as pernas e os braços, testando a paciência de Reddington.
Que filho da puta! Pensou Red
– Será que sua paciência também é vitalícia, Red?
Os dois se encararam, até que ambos caíram na gargalhada.
– Ah Ravelo, eu deveria tê-lo matado quando tive a oportunidade. Disse Red sorrindo.
– É, eu concordo. Assentiu o criminoso, que parecia tão a vontade que tirou um cigarro do bolso e o acendeu — Você se importa se eu fumar?
Raymond encarava Ravelo de forma séria.
– Ora, Red, eu te conheci mais cheio de sarcasmo. É por causa da garota? Pois bem, vamos ver se isso aqui passa a ser um diálogo. Tragam-na! Ordenou
Um dos homens trouxe Elizabeth, que ainda permanecia com as mãos amarradas a frente do corpo.
– Pronto, aqui está!
Red olhou para Elizabeth, mas tomou cuidado para não transparecer sentimentalismo. Ela estava demasiadamente esgotada. Tinha escoriações pelos braços, em decorrência do acidente que ela e Ressler haviam sofrido durante o ataque mais cedo.
– Agora, a sua vez! Disse Ravelo
...
Do lado de fora, a equipe do FBI escalava a estrutura do prédio para chegar até o telhado. Estavam fortemente armados e preparados para o que fossem encontrar no lado de dentro da estrutura. Na entrada, havia alguns bandidos que foram mortos silenciosamente. Navabi acompanhava a ação dos homens, que só entrariam no local quando os agentes invadissem pela cobertura.
...
Red colocou a mão no bolso do casaco, tirou a embalagem que envolvia o pen drive e entregou para um dos capangas que se aproximou. Mais ao canto, outro indivíduo estava com um notebook, que de imediato checou os dados que estavam no dispositivo. Logo em seguida, assentiu para o criminoso, que deu um sorriso. O homem entregou o objeto na mão de Ravelo. De repente, um barulho ensurdecedor veio teto do prédio. O FBI acabara de invadir o local. Os homens de Ravelo, todos fortemente armados, disparam contra a equipe que atirava da cobertura e para alguns que foram descendo de rapel. Na chuva de tiros que se seguia, o criminoso correu para se refugiar, da mesma maneira fez Elizabeth, que permanecia com as mãos atadas. Red e Dembe seguiram derrubando alguns capangas de Ravelo, mas também buscaram se esconder dos disparos.
Raymond tentou localizar Lizzie, mas era quase impossível fazer isso sem ser atingido. Ela estava na direção oposta e havia pegue a pistola de um dos homens mortos. Permanecia encostada em uma parede, se escondendo dos disparos. Tentou seguir abaixada até um compartimento aparentemente mais seguro, mas foi impedida ao sentir algo encostar em sua cabeça.
–Larga a arma, garotinha.
Era Ravelo, que havia encostado uma pistola na parte de trás do crânio de Lizzie.
– Agora! Disse empurrando o cano da arma com mais força.
A agente não teve opção. Soltou a arma e jogou-a para longe. Naquele momento, ela sentiu um forte puxão em seu cabelo, obrigando-lhe a ficar de pé.
– Eu dei um recado para o seu namoradinho e ele não me levou a sério. Pois bem, agora você vai pagar um preço muito caro. Sussurrou no ouvido de Elizabeth, que foi puxada por uma espécie de rota de fuga.
...
A cerca de 10 metros, Red avistou Navabi, que permanecia abaixada. A visão dela era muito melhor e parecia procurar por Elizabeth. Red tirou o casaco. Na situação, o peso da peça de roupa começou a lhe incomodar.
– Red! Gritou Navabi, apontando para um local ao fundo. Suas feições eram de pânico e preocupação. Ele tentou ver do que se tratava e sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Ravelo havia pegue novamente Elizabeth e a levava por um compartimento desconhecido do local. Raymond Reddington tinha suas crenças, mas não era o tipo religioso. No entanto, naquele momento, apenas duas palavras saíram de sua boca:
– Meu Deus...
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