Ecos do Acaso - Vol. II

1 O Yokai do Rio Kiso


A névoa cobria o rio Kiso naquela manhã de Inverno. Os salgueiros inclinavam-se sobre a água, as raízes a desaparecerem entre o cascalho húmido, e o vento carregava um som quase humano: um sussurro longo e arrastado, misturando-se com o murmúrio das águas. Não era a primeira vez que me aventurava nesta região, mas algo no ambiente parecia diferente, mais antigo, mais atento.

Os relatos de yokais na zona eram numerosos. Histórias que passavam de aldeão em aldeão, cada uma ligeiramente diferente da outra. O Kawa-no-Kami, o espírito do rio, era conhecido por levar os incautos à água, mas naquela manhã havia um outro ser a observar-me, invisível à primeira vista, silencioso, mas presente. O nome não era pronunciado em voz alta. Apenas escrito nos diários antigos como uma linha ondulante de caracteres, quase ilegível.

Seguia o trilho de pedra que margeava o rio. Cada passo ecoava contra o cascalho molhado. O ar tinha um cheiro peculiar, a mistura de água estagnada e terra gélida parecia querer avisar-me. E, de repente, ouvi o primeiro som distinto: uma risada baixa, feminina, infantil, quase musical, que surgia do outro lado do rio. Olhei, mas não vi ninguém. Apenas o reflexo distorcido da neblina e das árvores na água.

A aplicação, que raramente acompanhava-me neste volume, surgiu de forma inesperada. Não me enviou coordenadas desta vez. Apenas uma mensagem: “Presença detectada.”

Continuei a andar, mantendo os olhos atentos a qualquer movimento. Foi então que notei uma forma esguia a deslizar pela margem oposta, de braços longos, passos impossíveis de seguir, quase flutuando acima do chão. O corpo era pálido, quase translúcido, e os olhos, quando finalmente se voltaram para mim, eram negros, fundos, vazios de qualquer expressão humana. O coração disparou. O Yokai do rio estava ali, testando a minha atenção.

Atravessei a ponte velha de madeira, cada tábua rangendo sob o peso, com a sensação de que a entidade me imitava, seguia-me, adaptava os seus movimentos aos meus. O rio corria mais depressa naquele ponto, e o reflexo da figura na água parecia antecipar cada passo meu, como se o próprio espelho líquido tivesse consciência.

A aplicação abriu-se de novo, desta vez com um relato associado: “Kawa-no-Kami não só observa como recolhe. Quem se torna visível é chamado à margem, e quem não olha é esquecido pelo rio.”

Um sussurro passou junto ao meu ouvido: “Vem brincar comigo.”.

O som não tinha origem, veio do ar, do chão e das árvores ao mesmo tempo. O Yokai não se movia directamente em minha direcção, mas cada passo que eu dava parecia encolher a distância entre nós. O vento carregava folhas, mas elas não tocavam o solo, pareciam flutuar até mim, guiadas pelo riso silencioso.

Cheguei a uma clareira à beira do rio. A água estava negra, calma, refletindo a lua que surgia entre nuvens. A figura começou a aproximar-se da margem, lentamente, sem pressa. Cada movimento era estudado, calculado, mas de uma graça sobrenatural que desconcertava. O coração batia tão forte que parecia preencher a própria clareira.

A aplicação vibrou novamente: “Deseja tornar-se visível ao Yokai?”.

Não sabia a resposta. Sentia-me hipnotizado, como se o corpo se movesse sozinho em direção à água, ignorando os instintos. O sussurro tornou-se um coro.

“Venha. Venha. Venha.”

E, de repente, percebi que não havia mais trilha para recuar. As margens haviam mudado. O caminho por onde entrei desaparecera, como se a própria terra tivesse esquecido a minha presença.

Olhei para o reflexo do Yokai na água e vi não apenas a sua figura, mas um vislumbre de mim mesmo, distorcido, pálido, flutuando entre mundos.

O vento trouxe novamente o riso, prolongado, insistente, e a aplicação mostrou a última mensagem:

“O rio escolhe. Está pronto para obedecer?”

E, naquele instante, a névoa fechou-se completamente sobre mim, escondendo a margem, escondendo o trilho, deixando apenas a água negra e o olhar profundo do Yokai à espera.