A aldeia de Kiso estava mergulhada numa neblina intensa, a cada passo mais cerrada, tornando o caminho quase invisível. Seguia pelo trilho que subia a montanha, ladeado por ciprestes altos que pareciam tocar o céu cinzento. O ar tinha um cheiro a musgo e madeira molhada, e um silêncio estranho pairava, apenas quebrado pelo ocasional grito distante de um corvo.

O relato antigo falava de uma ponte estreita, feita de tábuas antigas, suspensa sobre um abismo profundo. Reza a lenda que era protegida por Tengu, espíritos alados da montanha, com bicos longos e habilidades sobrenaturais. Cruzar a ponte significava enfrentar não só a altura, mas a própria vigilância invisível da criatura. Alguns aldeões diziam que quem se atrevesse a atravessá-la sozinho jamais saía igual, se é que saía.

Quando cheguei, a ponte apareceu diante de mim envolta na neblina. A madeira rangia suavemente, apesar da ausência de vento. O precipício abaixo era invisível, coberto pela mesma névoa espessa que parecia engolir o mundo. Um frio percorreu a espinha, não apenas pelo ar gelado, mas pela sensação de ser observado. Eu sabia que não estava só.

A aplicação piscou de repente, mostrando apenas duas palavras: “Perigo elevado.”

Respirei fundo e comecei a atravessar a ponte. Cada passo fazia a tábua oscilar levemente. Olhei para os lados. Não via nada além da neblina. Mas sentia a presença: algo ágil, silencioso, a observar-me do alto das árvores, escondido nas sombras da neblina. O coração disparou, cada batida ecoando no silêncio da montanha.

A meio da ponte, ouvi um som metálico, como asas a bater suavemente. Virei-me. Uma sombra passou por cima, rápida e silenciosa, desaparecendo antes que pudesse focar os olhos. Sabia que era ele: o Tengu. A lenda descrevia-o como uma criatura que testava coragem e equilíbrio, mas a sensação era de que não precisava de testar nada, sabia quem eu era antes de eu mesmo o saber.

O vento trouxe um sussurro, palavras antigas, impossíveis de compreender totalmente, mas claras no tom de advertência: “Não tropeces. Não olhes para baixo. Não mintas.”

Continuei. As tábuas começaram a ranger de forma mais intensa, e percebi que algumas pareciam querer ceder. Um frio intenso percorreu-me os dedos. A aplicação piscou de novo, desta vez com um alerta mais urgente: “Escolha: avançar ou recuar.”

Parei. A ponte parecia interminável. Olhei para trás, mas a neblina engolia qualquer referência de onde tinha vindo. Para frente, a neblina continuava densa, mas sentia que algo me aguardava na extremidade. Um brilho tênue, quase humano, surgia através da neblina, ou parecia humano.

De repente, ouvi passos atrás de mim. Não eram os meus. Pesados, ritmados, impossíveis de localizar. Olhei para cima: por entre a neblina, dois olhos vermelhos surgiram, fixos em mim. A boca do Tengu abriu-se, e um grito surdo percorreu a ponte, não um som comum, mas uma pressão que me empurrou mentalmente, quase física.

A aplicação piscou pela última vez: “Aceitar a travessia ou enfrentar o esquecimento?”

Respirei fundo, sentindo a madeira sob os pés tremer. O sussurro tornou-se mais intenso, misturando-se com o bater das asas invisíveis. Cada passo em frente parecia uma eternidade, e cada segundo atrás era impossível. A ponte não era apenas física, mas uma passagem para algo que não poderia ser descrito, apenas sentido.

Quando alcancei o último vão, a neblina começou a dissipar-se ligeiramente, revelando a extremidade da ponte. Mas algo pairava ali, entre mim e a segurança, um vulto alado, silencioso, observando cada movimento, decidindo se eu seria digno de passar ou se desapareceria na neblina.

A aplicação mostrou a última mensagem antes de se desligar: “O julgamento está feito, mas o resultado aguarda.”

E ali fiquei, parado na extremidade da ponte, sentindo o vento gelado nas costas, os olhos vermelhos a seguir-me, e a certeza desconfortável de que, mesmo atravessando a ponte, nada estaria realmente seguro.