Notas iniciais
Oi, oi, gente bonita! Tudo bem com vocês? Esse é o prólogo da história, mas ele se passa no passado. Enfim vcs vão entender isso no próximo capítulo. Espero que vcs gostem. Até as notas finais.

Thalia

Era uma vez, em terras distantes, uma criança que veio ao mundo sob o céu sobrenatural de um eclipse total. Respirou pela primeira vez no momento em que o sol deixou de existir, deitou a cabeça no seio da mãe sob a penumbra destilada da lua diurna. A menina era uma alma radiante desde o alvorecer de sua vida, nascida com o cabelo castanho arruivado de uma nuvem cintilando ao poente e olhos profundos e sedutores da cor da meia-noite. Como a maioria das crianças, era perfeita aos olhos dos pais, mas o amor e a gratidão que a menina inspirou na família eram ainda mais pronunciados do que de costume — em parte porque os pais por muitos anos rezaram pela vinda de um filho e em parte porque a mãe e o pai daquela criança eram os soberanos de um grande reino chamado Loiria, onde a menina nasceu. No dia do nascimento dela — das torres prateadas do palácio às aldeias bucólicas no vale junto ao rio e às longínquas vilas montanhosas onde viviam feiticeiros e magos —, sinos repicaram com alegre despreocupação para dar à criança as boas-vindas ao mundo. Era uma manhã de terça-feira no meio de um verão quente e seco, o ar doce das flores de damasco, o sol ausente de seu céu. Enquanto o rei e a rainha trajavam a filha em um vestido de renda cor-de-rosa e uma grinalda tecida com pequeninos lírios brancos, e o palácio explodia com os preparativos para o banquete que se seguiria à apresentação oficial da princesa, seis anjos desceram do céu. Os cabelos dourados voavam atrás das reluzentes asas empíreas enquanto percorriam a escuridão pálida e as nuvens delineadas pela lua para comparecer à cerimônia de nomeação. Traziam dádivas para presentear a criança. Como a presença ou os presentes dos anjos eram uma esperança, mas nunca uma certeza, o rei e a rainha se prepararam para dar início à cerimônia ao meio-dia. Todos os portões do palácio foram abertos e todo o reino se uniu para participar da apresentação da futura rainha. Cavalgaram de muito longe em unicórnios e cavalos. Vieram com suas mais belas roupas. Reuniram-se na praça pavimentada com pedras abaixo da sacada real. E, quando a praça transbordava de tantos admiradores, reuniram-se em pequenas hospedarias de telhado de sapê que se espalhavam pelas vielas e recantos adjacentes ao palácio. Com as janelas das hospedarias abertas, a voz da sacerdotisa que presidiria a cerimônia ainda poderia ser ouvida quando anunciasse o nome escolhido para a criança. Nos intensos momentos de espera, o reino debatia a providência divina de nascer sob um eclipse solar (ninguém concordava se era de bom ou mau augúrio). Cochichavam previsões de qual seria o nome da menina (Liat era popular, Shoshanna era régio). Faziam previsões sobre o tom da sua pele e a cor dos seus olhos (clara como a mãe ou morena e impressionante como o rei). Imaginavam os presentes de nascimento que uma princesa teria a sorte de receber (certamente um preceptor seria trazido de além-mar para instilar na criança um gosto por instrumentos musicais além dos meios de qualquer plebeu). Sobretudo, cochichavam sobre o menino que um dia faria da princesa sua noiva, que se sentaria no trono ao lado dela como seu rei (e aqui muitas taberneiras e costureiras brincavam sobre como seus filhinhos, ainda engatinhando, um dia seriam mais do que aptos a se casarem com qualquer princesa que se remexesse no berço). Ao meio-dia, a sacerdotisa abriu as portas de vitral e chegou à sacada do castelo que assomava sobre a praça. Era flanqueada pelo rei e a rainha, cujos trajes de brocado de ouro só brilhavam menos do que os sorrisos de orgulho que traziam nos rostos. Mas pela primeira vez ninguém olhou o rei e a rainha; foi o fardo de seda branca nos braços da sacerdotisa que fez silenciar o reino. Todos ficaram enfeitiçados enquanto a sacerdotisa abençoava a criança. Ajoelharam-se quando ela estendeu o bebê para a contemplação dos futuros súditos da princesa. — O nome da criança — disse a sacerdotisa da sacada — será Thalia. Thalia. Significava o orvalho de Deus. Assim que a palavra deixou os lábios da sacerdotisa, todos de Loiria explodiram em gritos. Havia gente que acreditava que os nomes eram uma espécie de profecia. O que poderia satisfazê-los mais do que o doce e suave orvalho de Deus? Os súditos de Thalia choraram de alegria porque, por toda a vida, a princesa levaria o orvalho divino aos seus campos e saciaria a sede das suas lavouras. Era um nome perfeito. Naquele momento, o céu escurecido voltou a brilhar e pareceu a Loiria que o longo eclipse finalmente cessava. Em vez disso, um coro harmônico de vozes encheu o ar acima do palácio. Os anjos haviam chegado. Sete integrantes da hoste celestial pairaram incandescentes no céu. O rei, a rainha e a sacerdotisa se uniram aos súditos, colocando-se de joelhos e olhando com adoração para o alto. Até Thalia voltou-se para o céu, extasiada com as convidadas. Por um instante, era difícil distinguir o que diziam. Só os anjos podiam fazer com que uma discussão soasse como um hino glorioso. — É um lindo nome — cantou o Anjo da Beleza —, mas, no meu tempo, certamente eu ouviria outro mais belo. — O que importa é ser um nome compassivo — disse o Anjo da Empatia. — Assegurará o forte legado da princesa. — Alivia-me que o nome verta discernimento — entoou o Anjo da Sabedoria —, pois as jovens, especialmente princesas, podem ser muito tolas. — E o que há de errado com um pouco de tolice? — contra-argumentou o Anjo da Sagacidade. — Um nome bem escolhido tem uma tessitura de significados. Esta princesa terá grande astúcia. — E mais importante — disse o Anjo da Graça —, é um nome elegante. Nele a língua não se atrapalha. — Irmãs — disse o Anjo do Amor. — É apenas um nome! O que significa dependerá da alma que nele habita. Agora, deixemos de especulações sobre seu destino e entreguemos-lhe os presentes que viemos doar. Então o rei se levantou e avançou na sacada. Abraçou a esposa, acariciando o rosto inocente da filha. Olhou os anjos resplandecentes que pareciam pairar em um manto invisível de ar. — Subjugamo-nos em vossa presença e graciosamente damos as boas-vindas a quaisquer presentes que desejais doar à nossa princesa. — Passemos a eles, então. — O Anjo da Beleza baixou elegantemente ao ressalto da sacada. Ao se curvar para a Thalia bebê, seu sorriso era tão cintilante que o reino perdeu o fôlego. — Na verdade, ela não precisa de minha ajuda — murmurou o anjo consigo mesma. — Mas percorri uma longa distância. Posso muito bem prosseguir. — Ela encostou os lábios na testa da menina, como era o costume. — Com a minha bênção, criança, cada dia que passares te tornará ainda mais graciosa. Dado o presente, o Anjo da Beleza se retirou ao céu, e algo se alterou na criança. A coroa de cabelos ruivos de Thalia escureceu, os intensos olhos azuis se iluminaram, e a jovem e linda princesa ficou não apenas completamente radiante, mas destinada a se tornar mais bela a cada dia da sua vida. O reino murmurou em aprovação, e as mães taberneiras e costureiras começaram a duvidar de que seus meninos um dia estariam à altura da princesa. Rapidamente o Anjo da Empatia substituiu o da Beleza na sacada. Olhou brevemente para Thalia, mas dedicou mais energia a fitar o reino. Um único olhar seu fez o povo de Loiria se sentir compreendido como nunca. Quando se curvou para o bebê e a beijou, disse: — Qualquer tendência ao narcisismo que venha a afligir-te será substituída pela devida compaixão por teus súditos. Eles sempre virão em primeiro lugar em teu coração. Thalia balançou a mão no que parecia um aceno para os súditos, e Loiria explodiu em mais aplausos. Até o rei e a rainha enxugaram lágrimas, pois a compaixão, acima de todo o resto, faria de sua filha uma excelente rainha. Em seguida o Anjo da Sabedoria agraciou a sacada real. Beijou a criança com a seriedade de uma matriarca idosa e falou: — Sempre serás mais sensata do que permite tua idade, de modo a previres as necessidades de teus súditos, sejam eles jovens ou velhos. Um franzido apareceu momentaneamente na testa de Thalia enquanto ela parecia absorver o terceiro presente. Veio então o Anjo da Sagacidade, que pousou na sacada sob gritos e aplausos, porque sua disposição a fazia parecer a mais humana de todos os anjos. Quando beijou a criança, Thalia soltou sua primeira gargalhada, extasiada. O anjo assentiu. — Então já nasceste com ela, criança. Mas meu presente garantirá que tua língua inteligente nunca te abandone e, o mais importante, que sempre possas rir de ti mesma. Enquanto o Anjo da Sagacidade dava uma cambalhota de volta ao ar, o Anjo da Graça apareceu em seu lugar. Tal era a elegância que ela emanava que todo o reino sentiu-se indigno de olhar suas asas iridescentes. Somente Thalia não desviou os olhos quando o anjo lhe deu um beijo. — Embora eu não possa te proteger de todos os contratempos, meu presente garantirá que a criança levará as adversidades com elegância. Jamais se deixará abater. Com isso a rainha, em gratidão, levou a mão ao coração, pois em todos os anos passados aguardando aquela criança, sempre rezava pela elegância. Tranquilizou-a profundamente saber que a graça viria naturalmente a sua filha, porque as adversidades eram uma realidade da vida de qualquer mortal. Por fim, o Anjo do Amor desceu lentamente à sacada — mas algo a deteve antes que pudesse chegar ao ressalto. Naquele momento, como se o céu já não estivesse escuro e estranho o suficiente, uma sombra fria caiu sobre o reino. Outro ser se unira ao coro no ar. Os outros anjos se eriçaram ao ver a irmã que deles guardava distância, pairando nas nuvens à esquerda. Só a conheciam como o Anjo da Justiça, mas ela havia deixado a assembleia celeste havia eras e procurado outro lar sobre o qual eles não se atreviam a perguntar. Agora atendia pelo nome de Darnile. — Foste convidada? — O Anjo da Beleza esforçou-se a indagar, incapaz de dotar de hostilidade sua voz sonora. — Todos os anjos são convidados a doar presentes às crianças. Sinto ser meu dever restaurar o equilíbrio à vida desta menina diante dos presentes irrefletidamente danosos que vós legais a ela. — Aceitamos graciosamente — disse a rainha com a voz trêmula, porque não havia outra resposta a dar a um anjo, nem mesmo um sombrio, que trouxesse presentes. Na realidade, todo o reino tremia enquanto Darnile pairava acima da criança e roçava um beijo seco em sua testa. Thalia enrijeceu e olhou o anjo sombrio. Qualquer outra criança teria uma crise de desespero diante da expressão cruel do anjo, mas a princesa estava armada com todos os presentes que já recebera. — O presente da justiça interior costuma ser menosprezado — disse friamente Darnile. — Quando esta criança ficar ousada demais, como todas as crianças um dia ficam, descobrirá sua própria punição já em seu íntimo. Ora, qual será o delito? — Darnile olhou severamente o reino, envolvendo os súditos que tremiam de medo. Seu olhar de aço estacou em um lindo jovem, montado em um unicórnio na extremidade norte da praça. — Um unicórnio, sim. A perdição de muitas donzelas. A mística do unicórnio a tentará. Ela cobiçará um animal que não lhe pertence, lançará a mão impetuosamente a seu chifre. Ele perfurará sua pele — os olhos de Darnile se ergueram aos olhos do rei e da rainha — e a ferida será fatal. O rei e a rainha arquejaram, horrorizados, enquanto Darnile subia ao céu sem esperar para ver a reação ao seu presente. Segundos depois, ela era um pontinho escuro no sol encoberto pela lua, que então partiu para um canto distante dos céus. Mas seu riso hostil e o alerta em suas palavras perduraram sobre o reino como uma mortalha. — Não o aceitarei — gritou o rei, sua voz rompendo a quietude deixada por Darnile. — Não temos opção. — A rainha chorava. — Está feito. — Ao menos — disse o Anjo do Amor, que agora descia à sacada entre o rei e a rainha —, deixai-me ajudar. — Estendeu os braços e tirou das mãos da sacerdotisa a princesa enrolada em seda. — Pobre criança, eu teria te prometido o amor verdadeiro e duradouro. É o melhor presente que conheço, mas talvez haja algo de que precises mais. Embora eu não tenha meios de desfazer o presente de outro anjo, talvez possa moderá-lo com o meu. — Lentamente, ela beijou a testa da menina. A multidão se aproximou em insana expectativa, esperando o presente do último anjo. O rei e a rainha se abraçaram com força. A sacerdotisa murmurava orações. — Se e quando perfurares tua pele no unicórnio que cobiçares — começou o Anjo do Amor —, não morrerás, apenas adormecerás. Não será fácil despertar de teu sono, mas juro que poderá ser feito. — Ela olhou o unicórnio na praça, que relinchou sob seu olhar. — Sim, exigirá o beijo do mesmo perigo que te fez dormir; isto e algo mais. — O Anjo do Amor olhou pensativamente os céus em que Darnile desaparecera. — Um pouco de simetria sempre confere mais vigor aos encantamentos. O que, então? — Ela olhou diretamente para o sol encoberto pela lua. — Teu renascimento também exigirá um céu tão estranho quanto este. — Mas nunca houve tal eclipse — exclamou o povo da praça. O Anjo do Amor sorriu com tristeza. — É o melhor que posso fazer. Nesse meio-tempo, criança, emprestarei duas amigas minhas... Fadas, que te vigiarão enquanto descansares. — O anjo baixou a mão no manto reluzente e dele retirou dois querubins do tamanho de filhotes de pardal. Um era dourado; o outro, prateado. Tinham o cabelo brilhante e asas e pele que palpitavam com a mesma suavidade de Thalia. Adejaram acima do bebê, zumbindo em uma língua que ninguém compreendia. — De onde vim — disse o Anjo do Amor —, estas duas não requerem nomes, mas podem ser chamadas de Sol e Lua. O Anjo do Amor se retirou, unindo-se às irmãs no céu. Ao voarem, os anjos eram gloriosos, desaparecendo no além e deixando duas fadas, um rei e uma rainha cabisbaixos, e a princesa recém-nascida cujo sombrio encantamento futuro se tornaria a obsessão do reino daquele momento em diante.

Notas finais
E aí, pessoal? Gostaram? Odiaram? Tá bom? Tá ruim? Comentem! As coisas estão meio nebulosas, mas se eu conseguir comentários para postar o próximo capítulo, vocês irão entender.