Echoed

1 Era uma vez um Passado - Parte 1


Notas iniciais
Olá! K.K. adora despejar enormes comentários em suas histórias, especialmente durante o ápice de certos climax, mas para a sorte de vocês, não poderei fazer isso porque é contra as regras... Awn...E como K.K. já despejou um enorme texto na nota da história, não serei malvada em repetir a dose novamente aqui! (Ao menos não nesse capítulo! Muahaha!)Agora K.K. deixará vocês em paz, e espera que possamos seguir esta divertida jornada juntos, até o fim da história! Boa leitura!!

É impossível para mim contar nos dedos, os dias que esperei para me libertar da jurisdição de Omnos... Talvez porque desde que eu nasci, eu nunca realmente estive livre deles... Para mim a liberdade sempre parecia ser retornar à vida simples em que eu cresci, mas eu não esperava descobrir que essas correntes em que eu me via preso agora, na verdade sempre estiveram sobre mim... E foi apenas quando eu me encontrei no limite da minha vida, que eu finalmente me tornei capaz de enxergar essa realidade...

Eu cresci como uma criança pobre, sem uma mãe ou um pai, sem uma família que pudesse me embalar em noites frias, contar histórias para eu dormir, ou perguntar sobre como foi meu dia... Talvez por isso até hoje eu mesmo tenha dificuldades em querer dividir meus pensamentos com os outros, ou interesse em saber o que os outros tem a dizer... Eu não faço isso por maldade, por antipatia ou por ser anti-social... Eu apenas nunca aprendi mesmo em como me envolver com as outras pessoas...
Desde criança, eu fui criado em uma pequena capela em uma colina, feita de pedras e madeira... Árvores cercavam o fim daquela colina, e apenas um pequeno poço e uma estrada de terra, se mostravam a vista no pequeno campo aberto. Para uma criança, isso pode parecer um pouco entediante, mas eu nunca reclamei daquela vida, afinal, oque eu teria a mais para conhecer, tendo sempre vivido ali...?
Naquele espaço vivia apenas eu e um velho Padre que me criou como um pai, ele era firme em me impor disciplina, pois sempre precisava de ajuda com as tarefas para manter o lugar, mas ao mesmo tempo, também me tratava com carinho, como se para ele, eu fosse o filho que ele nunca pode ter tido naquela vida tão isolada que tínhamos...
Por causa da minha infância, eu cresci acostumado a trabalhos braçais, envolvendo limpeza ou carregar coisas pesadas colina acima, e nunca aprendi a questionar a necessidade ou não de fazer essas coisas, eu sempre as fiz com disposição, afinal, sem isso, eu não teria nada mais para se fazer naquele lugar... Apenas quando mais velho, que eu aprendi que essas coisas se faziam para mostrar gratidão ao lugar em que eu vivia... Chega a ser engraçado para mim, como o Padre nunca realmente me ensinou esse ponto de vista, até eu finalmente ter que sair dali...
Agora, para os poucos que pensam que a vida poderia se resumir apenas nessa constante rotina de mostrar gratidão através do trabalho, e aguardar sempre a mesma refeição quente e simplória à noite, caindo logo em uma cama desconfortável e dura para acordar na manhã seguinte e repetir tudo, não imagina a diversão que uma criança pode encontrar, com uma floresta tão próxima a ele, e sem nenhum adulto vigiando-o!
Por ser muito ocupado, raras eram as vezes em que o Padre se preocupava em me vigiar no meu tempo livre, e por isso desde jovem, eu sempre soube tomar conta de mim mesmo... Eu não era uma criança agitada, ou que precisava gastar sempre energia, mas certamente quando não se tem nada para fazer, você consegue se divertir bastante ao ver pequenos animais estranhos correndo ao seu redor e subindo em tudo como se a gravidade não existisse! Foi por essa razão provavelmente, que eu comecei a me aventurar cada vez mais e mais, adentrando aquela floresta que não fazia as sombras e a luz disputarem por entre as folhas seu lugar devido... As raízes não tornavam a floresta impenetrável, e os galhos não ficavam em seu caminho, mesmo que não houvesse ali dentro espaços abertos também... Era quase como se a floresta estivesse me convidando para passear por ali!

Claro que não demorou muito, assim que eu comecei a crescer, provavelmente em meus 6 anos, eu comecei a ver não só animais brincando e trazendo vida à aquele bosque, mas também conheci uma jovem mulher que a princípio parecia ilusiva aos meus olhos, pelo que ela não se aproximava de mim, apenas me observando por entre os troncos, e então sumindo... É estranho para uma criança, dizer que não sentia medo de uma forma que desaparecia diante dela, mas eu não conseguia, ao menos não com aquela mulher... Tudo que me vinha era um sentimento de felicidade, de amor, e aos poucos, ela parou de sumir tanto... Ela começou a sorrir quando me via à distância, e quanto mais eu ia me aproximando, curioso para conhecê-la, mais ela começou a deixar que eu o fizesse...

– "Olá... Freyjah!"

Foram suas primeiras palavras... Sua voz era doce, e parecia ecoar dentro de mim, como sinos de vento tocando em uma suave brisa... Até hoje posso ouví-la em meus pensamentos, como a voz de uma mãe que um filho nunca esqueceria... Seus cabelos claros eram sedosos e compridos, e presos para não cobrir sua delicada face... E flores pareciam sempre estar por perto, de onde ela se mantinha em pé...

– "Você... Sabe o meu nome?"

Eu perguntei, com minhas pernas tremendo, não de ansiedade ou receio, mas pela vontade de me aproximar mais e mais... Sim, eu lembro tão bem daquele dia... E ela apenas, sorriu... tão sinceramente, que eu acho até que caíram algumas lágrimas de seus olhos, por finalmente poder vir falar comigo... Mas como eu poderia entender metade daquela situação, tendo apenas 6 anos? Eu não tinha como entender naquele momento, porque aquele instante estava sendo tão importante para todos nós...
E depois de tantos minutos em silêncio, apreciando aquele instante, ela finalmente me respondeu...

– "Eu me chamo Ama... É um prazer, finalmente conversar com você...!"

Hoje eu finalmente entendo a importância que teve para mim conhecer Ama, pois foi aquele o primeiro passo que eu teria que dar, em direção a um fim... Que até hoje talvez eu não consiga deduzir qual seja... apenas consigo senti-lo, como se fizesse parte de mim, desde a primeira vez em que abri meus olhos neste mundo... Tão... naturalmente, que não consigo me incomodar por isso, porque apenas parece certo que aconteça, não importa o caminho que eu percorra até lá...

Depois daquele dia, eu voltei a ver Ama mais vezes, as vezes, eu não precisava entrar tanto na floresta para vê-la, e as vezes, ela parecia querer que eu a encontrasse, como se quisesse brincar comigo, assim como aqueles pequenos animais que não pareciam se incomodar em chegar tão perto de mim, quanto se incomodavam, quando outras pessoas de fora chegavam até os campos da capela... E quase sempre, ela não fazia mais do que sorrir para mim e me observar de longe, apenas admirando qualquer coisa que eu resolvesse fazer... Ela se tornou minha amiga, quando nos dias em que eu mais precisava fugir das minhas rotinas e tarefas, ela aparecia, para me ouvir ou para apenas estar ali, me trazendo novamente aquele sentimento de aconchego que eu me acostumei a sentir... E por muito tempo, além do Padre, Ama foi a única pessoa que eu lembre, com quem eu gastei boa parte da minha infância...

– "Aonde você vive Ama?"

Eu perguntei, sem olhar para ela, tentando correr atrás de um filhote de raposa que estava correndo pelos meus pés, sem que eu conseguisse pegá-lo, como sempre...

– "Aonde eu vivo...? Umm...."

Ama se virou olhando para os lados, procurando a direção com uma expressão de dúvida.

– "Bem... Eu vivo..."

Finalmente Ama olhou para cima, permitindo que as mechas mais curtas de seu longo cabelo balançassem ao movimento.

– "Eu vivo... Por aqui..."

Ela falou, com um sorriso um tanto caloroso, mas sem parar de olhar para cima, como se sua resposta fosse para sí mesma, ao invés de apenas para mim.
E sem também me incomodar com a resposta, ainda não olhando para ela, eu continuei a tentar pegar a raposa entre minhas pernas, me jogando encima dela! Mas rapidamente ela passou por baixo de mim sem a menor dificuldade, correndo na direção de Ama e pulando em seus braços...
Eu me levantei observando as duas que pareciam me prender com seus olhares convidativos, esperando finalmente um movimento meu, esperando eu me aproximar... E assim eu o fiz quase como se estivesse sob um feitiço, bem devagar, tomando cuidado com as pedras ao redor, em que Ama estava sentada... Eu estiquei meu braço, com receio de tocá-las por alguma razão, e parei no caminho... Talvez fosse estranho para mim ter algum contato com outra pessoa? Ou com qualquer outra coisa? Tudo aquilo que eu via, ouvia e interagia... Pensando bem até então, eu nunca havia tentado e conseguido chegar tão perto deles... Não quando sempre fugiam de meu alcance... E até então para mim esse fato, esse pensamento, nunca havia conseguido me perturbar... Não sei dizer até hoje, a razão para eu ter naquele instante resolvido me incomodar com isso...
Percebendo meu receio, Ama estendeu sua mão, contendo gentilmente uma expectativa que eu não tinha como compreender.

– "Pegue minha mão... Freyjah..."

Finalmente, com o estimulo de seu sorriso, eu me aproximei, e finalmente encostei na mão de Ama... Mas minha mão passou direto por ela como se nada além do ar houvesse alí!
Meus olhos se abriram, no susto que eu senti! Eu segurei minha mão, encarando-a como se aquilo não estivesse fazendo o menor sentido! E Ama apenas me observava rindo...

– "Agora já chega!!"

Antes que eu pudesse pensar no que havia acontecido, uma voz tempestuosa ecoou pelas árvores! Assustadora e grave, como pregos riscando o chão! E penetrante como um raio que tentara tocar a grama sob meus pés! Fazendo os pássaros que estavam naqueles galhos, voarem assustados! Aquele ambiente convidativo se fechou, e as sombras que antes mal se formavam, pareceram aumentar de tamanho ao nosso redor! Um Medo se instalou dentro de mim, e me fez correr e me jogar sobre Ama por impulso tentando me segurar em suas vestes claras, mas nada que eu sentia parecia diferente das mesmas pedras em que eu estava encima!

– "Freyjah, Freyjah, está tudo bem! Me ouça!"

Ama tentou chamar minha atenção em meio as sombras que pareciam dançar pelos troncos ao nosso redor, e levantou sua mão até meu rosto, sem que eu pudesse senti-la!
Seus olhos pareciam preocupados, mas seu sorriso continuava intacto, como se aquele momento não estivesse afetando-a, mas sim por perceber meu pânico, ela estivesse se sentindo desconcertada...!

– "Freyjah, está tudo bem... Eu preciso te ensinar algo muito importante agora, entendeu? Tente esquecer o medo, não dê atenção a mais nada além de minhas palavras... Se você ouvir isso, ele irá parar de tentar assustá-lo..."

A voz de Ama era determinada, e o amor que parecia vir dela, apenas dissipou minha atenção a tantos detalhes, como se não poder tocá-la, não a tornasse menos real do que já estava sendo...

– "Freyjah, você é um garoto com uma habilidade muito diferente das outras pessoas... Você pode ver além, ouvir além, enquanto os outros só podem enxergar parte daquilo que está diante deles... Você entende?"

Mesmo prendendo minha atenção na voz de Ama, eu não tive a capacidade de compreender suas palavras naquele mero instante... E diante daquela minha confusão, eu novamente ouvi ao nosso redor...

– "Ama, sua tola!"

Como um trovão, novamente acertando aquele lugar, a mesma voz ríspida ecoou pelos altos galhos das árvores, carregando consigo aquelas sombras e o medo, e desaparecendo com tudo, do mesmo modo que havia aparecido subitamente... Como se nada tivesse realmente acontecido...

Sorrindo, Ama finalmente fez um gesto para eu me afastar. Como se ela tivesse feito algo que sempre quisera, o orgulho transbordava em sua expressão, e ela então se levantou com a pequena raposa ainda em mãos que mal parecia se encomodar com tudo que havia acontecido naquele instante.

– "Não se preocupe em entender ainda o que está acontecendo, nem tenha medo... Frey, oque você ouviu de mim, não se tornarão palavras mágicas, e não deixarão tudo melhor... Mas com o tempo oque eu te disse, espantará seu medo, porque o fará entender aquilo que as outras pessoas não saberão ainda te explicar..."

Finalmente se afastando lentamente pelas pedras sem tirar os olhos de mim, Ama parecia flutuar sobre o caminho acidentado com enorme leveza, como eu nunca havia visto outra pessoa poder fazer... Era como estar em um sonho, até finalmente acordar ao que ela parou de repente, e pela primeira vez, permitindo que uma expressão séria e fechada tomasse conta de seu rosto, falou como um comando.

– "Frey. Ninguém mais pode saber."

Ao dizer essas palavras, penetrantes como uma lança, Ama desapareceu de minha vista, sem nunca ter realmente me dado as costas...
Eu podia ser uma criança muito nova, mas aquela frase nunca mais saiu de minha cabeça... Ela era clara como a água de um lago, e firme como as pedras que sustentavam a base das montanhas... Nem mesmo para uma criança, foi difícil entender a importância de obedecer sem questionar, aquela frase...

Notas finais
Caso vocês notem, o personagem do Padre não possui um nome durante a história, isso é porque quando K.K. imagina Frey falando sobre ele, ela sempre imagina ele chamando-o de "Father", que significa tanto "Padre" quanto "Pai" em inglês! Mas pelas limitações do Português, não tem como este trocadilho acontecer, por isso K.K. pede que levem em consideração esse duplo-sentido nesse caso em particular!